blogINDIE 2006


Ai, ai, a Bienal...





Hoje bati perna na 27a Bienal de SP. Já é a terceira vez que vou, das duas primeiras fiquei só nos 2 primeiros pisos, e hoje consegui chegar ao último finalmente. Amo ir a Bienal e aproveito agora que moro em São Paulo para ir quantas vezes quiser, assim é bem melhor. Eu, muitas vezes, vinha a São Paulo só para ir a Bienal e ficava exausta ao ver tanta coisa em tão pouco tempo, quase chorava de dor nos pés, nas costas. Claro que a viagem também incluía longas caminhadas no centro, Paulista, até chegar no Ibirapuera a pé, nossa como andávamos! No final do dia, aquela vontade de chorar não tinha nada a ver com o Hélio Oiticica ou com Cildo Meirelles não.

Nesta terceira ida lá, fiquei com esperança de que a minha péssima primeira impressão passasse e tentei me concentrar na idéia de que a Bienal, quem sabe, estaria propondo algo e que talvez eu não estivesse aberta para tal. Mas não conseguia me conter nas críticas.

O fato é que a curadoria "Como Viver Juntos" implantou tanta obra conceitual no Pavilhão ( que aliás nota-se mal conservado, infelizmente) que, apesar de estar bem mais arejada, com espaço entre as obras e com mais trabalhos do mesmo artista, tem-se uma sensação de algo parecido a uma feira de ciências, ou a um fórum social, em que as obras estão ali empenhadas em nos "fazer entender" o lado político da arte. Chato isto... Alguém disse que esta ano era a "Bienal Ong"... sim, meu Deus que medo da arte encontrar uma função definitiva em sua vida.

O público da Bienal é um público bem eclético que inclui de especialistas a pessoas comuns que levam as crianças para um passeio. Duvido que o grande público esteja curtindo porque arte conceitual parece agradar apenas aos iniciados (eu gosto muito, porém sinto falta das pinturas e dos trabalhos interativos de arte mídia). Me lembro bem de algumas Bienais em que o povão vibrava! Este ano pelas caras, estão assim cheias de interrogação e desinteresse. Tudo bem que para a arte o desconforto é um item quase essencial. Mas o que parece estar acontecendo é um outro tipo de desconforto, aquele no qual a arte decepciona e não captura e, porque não captura, seja no "bom desconforto" ou na "idéia do não entendi direito", não faz com que a viagem/visita seja longa e seja retomada daqui a dois anos.

Acho que isto tudo porque a Bienal está muito auto-centrada do ínicio ao fim, e apesar de tantos artistas e obras diferentes juntos, o "Como Viver Juntos" homogeneizou a tudo e todos, (num momento no qual só se fala de diversidade?), a 27a Bienal parece um sambinha de numa nota só. O que será que Hélio Oiticica iria dizer? Já que boa parte da concepção da curadoria se inspira na lógica de sua obra e de suas idéias.

Mas o estar "junto" das obras deixou tudo muito parecido com o desmazelo do próprio Pavilhão da Bienal. Um comportamento que sugere desgaste. Um desgaste não da arte, mas da concepção da Bienal como tal. Uma sensação de que não somos capazes de realizar uma Bienal deste porte, já se sente na entrada, na estrutura dos serviços, na interpelação mal-educada dos seguranças e monitores, nas horrorosas fitas amarelas pregadas no chão de cimento mal conservado, nas janelas com estruturas enferrujadas, na fraca sinalização de todo o espaço e nas legendas das obras difíceis de achar num jogo de esconde-esconde irritante.

De tudo isto, desvie seus olhos para as obras e críticas à parte, vale a pena, sempre vale a pena ir a Bienal. Acho que uma das melhores sensações do mundo é se jogar num dos bancos no fundo de qualquer exposição e pensar: "eu estou aqui, por conta disto hoje, algo que diz respeito a arte"... é o tal do fruir. E lá você pode encontrar algumas obras muito interessantes, individualmente.

Faça isto na obra (fotos e objetos) da coreana Sanghee Song, ela cria objetos ou aparelhos que reproduzem atitudes sociais numa forte crítica ao comportamento da mulher oriental. A artista diz: "São como máquinas de tortura, apenas trabalham o corpo para ser uma bom cidadão, não a mente, tornando a pessoa uma máquina também" .

Faça isto também no último andar, nos fundos, com os vídeos de Ana Mendieta, um cubana radicada nos EUA que morreu em 1985. Você poderá se entregar ao tempo de sua vídeo-performances chamadas de "earth body works" e assistir um pouco de uma suas mais famosas séries chamada "Silueta". Ela marca com o próprio corpo "o chão gramado, de terra batida ou molhada, na areia, num solo rochoso, entre uma vegetação rasteira ou na água". É uma delícia "perder o tempo" ao vê-la se desenterrar de um monte de pedras. Experimente.

Há muitas outras obras que adorei, indico depois em outro momento.

Em contraste ao Pavilhão da Bienal o MAM está lindo e maravilhoso na OCA. Um capricho que já se percebe na entrada com as esculturas todas restauradas no jardim, e o acervo da arte brasileira todo organizadíssimo ocupando a OCA. No prédio do MAM, a I Exposição Nacional de Arte Concreta. O MAM está dando uma bela lição em todos os sentidos a Bienal, estranho que não reverbere para a própria.


* Fotos 1 e 2: Obra de Sanghee Song, 2006, na 27a Bienal de Artes de SP.
* Foto 3: Leonilson, "Todos os Rios", 1988, no MAM [NA] OCA.



(Francesca Azzi)
  INDIE    sábado, outubro 28, 2006
 
 
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