blogINDIE 2006



Desculpem o atraso, mas fui fazer uma viagem no tempo e voltei no dia errado. Sabe como são essas máquinas do tempo: quanto mais longe você vai, maior a margem de erro na reentrada...
Fui passear pela quarta dimensão para me certificar de uma coisa que me assombra já há algum tempo: os filmes de ficção-científica estão nos dando uma amostra macabra do que o futuro nos reserva!
Um dos filmes de FC mais antigos do cinema é Le Voyage dans la Lune, do pioneiro e gênio Georges Meliés. Nesse filme, um grupo de cientistas meio aloprados, vestindo casaca e cartola, faz uma viagem maluca pela lua, conhecendo o rei dos selenitas e fugindo de homens com cara de inseto, entre outras estripulias. Era um retrato exagerado e "meliészístico" (neologismo meu, podem usar) da ciência da época: homens sérios e bem vestidos fazendo uma expedição científica a um lugar ermo e desconhecido, enfrentando os perigos da natureza para trazer de volta à Terra informações valiosas à respeito do nosso querido satélite.
Nos anos que se passaram, a FC sempre retratou a visão geral que as pessoas tinham da ciência na época em que os filmes foram feitos. Na União Soviética, trabalhadores viajavam até Marte e faziam uma revolução socialista, derrubando a monarquia da rainha Aelita e deixando o planeta ainda mais vermelho. Nos anos 1940, cientistas nazistas, loucos, carecas e de monóculo, criavam mísseis e bombas voadoras que espiões cheios de apetrechos tecnológicos tentavam sabotar. Após a II Guerra, os cientistas começavam a lidar com outra ameaça: os invasores extra-terrestres, uma metáfora dos comunistas que se aproveitava da onda de avistamentos de discos voadores para dizer às pessoas que tomassem cuidado com "pessoas estranhas que vêm de muito longe e tentam fazer lavagem cerebral nos americanos honestos". Nos anos 60 e 70, as metáforas ganharam ares de contra-cultura, e os filmes de FC passaram e mostrar sistemas ditatoriais futuristas onde pessoas de roupas iguais e cabelos iguais seguiam as ordens do Estado (vide THX1138, Logan's Run, Zero Popullation Growth, etc.) até que subitamente um indivíduo decide lutar contra a situação.
Como quase tudo na cultura ocidental, é nos anos 1980 que as coisas começam a degringolar. Se lembrarmos que os dois maiores clássicos do gênero nessa época - Alien e Blade Runner - são de Ridley Scott, o mesmo diretor de Falcão Negro em Perigo e G.I. Jane, já dá para ter uma idéia do que eu estou falando.
Um dos poucos filmes realmente bons dos anos 1980, De Volta Para O Futuro é uma FC de poucos efeitos especiais, e mais parece um episódio de Star Trek ou de Além da Imaginação - no sentido de explorar muito o roteiro e não depender dos efeitos visuais para contar a estória. A maior parte do filme é passada nos anos 1960 - nem no futuro, nem no passado remoto. O que mais há de FC no filme é a exploração das implicações da viagem no tempo, como no problema de McFly beijar a própria mãe antes que ela conheça o pai dele. Mas tudo isso é relativamente simples, não há no filme um retrato dos anos 80 através da FC. O filme não nos mostra uma visão de mundo dos anos 1980 filtrada pela FC - apenas um cientista maluco estereotipado, uma rápida viagem no tempo e um roteiro muito bem amarrado.
Quanto a Alien e Blade Runner... O primeiro é um remake de um filme trash italiano dos anos 60 (Terrore Nello Spazio, de Mario Bava), e a estória é mais ou menos a mesma, ou seja, nenhuma. O que marca o filme é o visual: muita fumaça de gelo seco, muita luz estroboscópica, luzinhas de natal no painel da nave... e só. Os astronautas da Nostromo não são cientistas desbravando o espaço, mas apenas lixeiros espaciais a serviço de uma mega corporação - fato que só foi explorado a contento no segundo filme da série.
Em Blade Runner, vemos um mundo futurista inspirado nos filmes dos anos 1940, coberto com fumaça de gelo seco, luz estroboscópica, roupas de plástico, maquiagem de aerógrafo, e aquela infame luzinha passando através do exaustor que se tornou a assinatura de Ridley Scott. Quem leu o livro ("Do Androids Dream of Electric Sheep?", de Phillip K. Dick) logo percebe que tudo que ele tinha de interessante para debater foi eliminado do filme e substituído por longas cenas de carros voadores e música de sintetizador. É de longe o melhor filme de Ridley Scott, mas também não ajuda nem um pouco a entendermos o que as pessoas estavam pensando sobre o futuro e a ciência nos anos 1980.
Bem, capacitor de fluxo ou não, o tempo passou, e chegamos ao famoso século XXI. Para quem sonhava com carros voadores, viagens interplanetárias e cidades na lua, a decepção é geral. Olhamos o mundo do ano de 2006 e só vemos a mesma coisa de sempre: pobreza, guerra, fome, doenças... Parece que nada mudou. E os nossos filmes de FC? Cada vez mais são protagonizados por militares, e não por cientistas. Esses são sempre retratados como idiotas românticos, que vivem sendo salvos pelos corajosos homens das forças armadas. Os temas são sempre extraídos de factóides da mídia: clonagem, doenças bizarras vindas da África (sempre a origem dos problemas dos EUA), transplante de rosto, Internet, e qualquer outra coisa que apareça na imprensa. No entanto, as historinhas são sempre as mesmas: cientista conhece jornalista e juntos investigam alguma coisa, e no final se beijam; forças armadas são chamadas para conter invasão alienígena / explosão de vulcão / lagarto gigante / doença infecto-contagiosa; jovens doidões com cabelos engraçados usam a Internet para salvar o mundo / roubar dinheiro / as duas coisas.
Tudo isso tem uma enorme camada de cinismo por cima. Nos anos 1960, qualquer criança preferia ser astronauta a banqueiro. Hoje em dia, que criança pensa em ser cientista? Elas só pensam em dinheiro, querem ser cirurgiões plásticos, advogados corporativos, traficantes de drogas... Que exemplo elas têm para seguir? Na TV e nos filmes, só vemos pessoas cínicas e materialistas mais preocupadas em salvar o próprio rabo do que a Terra ou coisa do tipo.
Um desenho animado explica bem qual é o problema: "Laboratório Submarino 2021", do Cartoon Network, é uma versão sacaneada do "Laboratório Submarino", ícone da minha infância que mostrava cientistas em um futuro próximo vivendo em um laboratório gigante no fundo do mar, pesquisando e explorando o desconhecido pelo futuro da Humanidade. A versão 2006 é mais "moderna": iconoclasta, debochada, niilista, cínica, irônica, sarcástica, e tosca.
É assim que pensa o homem moderno, pragmático, que não quer levar nada a sério, não acredita em nada. Prevê um futuro catastrófico e tem vergonha do passado, tentando levar uma vida hedonista e sem sentido esperando pelo desastre inexorável. Nenhuma esperança.
Talvez o HAL9000 tivesse razão. Não estamos preparados.

Para não dizerem que sou maníaco-depressivo e só penso em reclamar da vida, aqui vai uma listinha de filmes de ficção-científica realmente inspiradores. Daqueles que dá vontade de parar de reclamar, ir lá e fazer um filme.
  Daniel Werneck    quarta-feira, novembro 01, 2006
 
 
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