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Brasileiro Não Gosta de Pobre

O primeiro passo para nos curarmos é admitirmos que estamos doentes. Então repita, e repita bem alto: brasileiro não gosta de pobre.

No Rio de Janeiro, a festa MOO é um evento social de música eletrônica na qual a burguesia descolada se reúne para celebrar o fato de serem ricos e incríveis. Descaradamente elitista, todos os ratos que sobrevivem da vida noturna, que sobrevivem da moda, da publicidade e da "arte", todos aqueles que ficam moscando ao redor de quem realiza, de quem é visto, todos aqueles que desejam "fazer a fina", a MOO é um síntoma da ascenção do electro, cujas letras louvavam o comportamento decadente da assim chamada "elite pervertida." Dizer que tenho amigos que a freqüentam é motivo de vergonha, mas posso ser entretido com histórias como a seguinte: um grupo de modelos classe média (um deles o top João Vellutini) inventou problema com um barbudinho Los Hermanos (apenas um rico rústico que habita a mesma Zona Sul que o grupo inimigo) e todos caíram numa porrada no meio da pista de dança. Quando os seguranças apartaram os combatentes e começaram a empurrar o grupo "das modelas" para fora, um deles gritou, indignado, para todos os ouvidos ao redor:

"Vai me expulsar?!? Expulsa ele, que é pobre!"

Brasileiro não gosta de pobre. Agora repita.

Essa história me foi contada umas duas semanas depois de ter testemunhado um diálogo curioso: esperando na fila da casa lotérica para pagar uma conta, dois homens em uniforme de porteiro e chinelo conversavam animadamente às 3 e pouco da tarde. Feito bons amigos, se degladiavam verbalmente apenas para sacanear o outro. Um deles disse ao amigo que, caso o outro ganhasse na Loto, que fosse para que ele voltasse e sanasse a dívida com ele, ao que o outro respondeu:

"Se eu ganhar, você acha que eu voltaria aqui? Não gosto de andar com pobre..."

Respire fundo e diga bem alto: brasileiro não gosta de pobre.

Por que o ensino de inglês é matéria obrigatória nas escolas e não o ensino de espanhol? Porque o brasileiro acha que seu país não faz parte da América Latina. Talvez pelo fato de falarmos português, achamos que o país paira desligado de seu continente. Diga a um brasileiro que ele é do Brasil e ele fará festa, soltará fogos, beijará a camisa com orgulho. Diga a um brasileiro que ele é um latinoamericano e ele te olhará com estranheza, se esquivará da constatação, não computará a informação. O brasileiro se sente muito mais próximo dos EUA do que da Venezuela. A gente não quer se comunicar com os hermanos porque os enxergamos abaixo de nós - lidar com eles seria admitir nossa miséria. Uma das descobertas mais intrigantes ao se estudar cinema latinoamericano é descobrir que uma cinematografia inteira de melodramas foi realizada em colaboração com os países latinos de língua espanhola e que o Brasil se autoimpôs essa barreira lingüística.

Não é que o preconceito "racial" não exista no Brasil, mas o preconceito social é o nosso verdadeiro problema. Brasileiro não gosta de pobre. No entanto, brasileiro = pobre, logo um brasileiro não pode acusar o outro de pobre, uma vez que ele também o é, o xingamento é redundante e atinge diretamente quem o proferiu. Competitivo e provinciano, o brasileiro é obrigado a partir para outros perjorativos: é porque fulano é preto, é porque sicrano é paraíba... Mas se ele pudesse mesmo, o que ele realmente gostaria de estar fazendo é xingando o outro de "pobre."

Vamos mudar a declaração. Agora, digamos: brasileiro detesta pobre.

Escrevo isso após o lamentável episódio da empregada doméstica, espancada por jovens de clásse média-alta, provavelmente iguais aos tiraninhos que ela precisa mimar e que habitam um apartamento de luxo igual ao que ela precisa todo dia limpar da imundice de cocaína e fezes. Não é a primeira vez que isso acontece: índios já foram incinerados em Brasília, mendigos pisoteados em São Paulo. Mas como fomos todos obrigados a assistir "especialistas" analisando a questão emcima de obviedades - "é culpa dessa roubalheira de Brasília que esses garotos fazem essas coisas, na crença de saírem impunes"(?!), disse um certo psicólogo usando o espaço para falar de Renan Calheiros (ninguém explicou para ele qual era a questão?), em outro canal, mais uma psicóloga falava da falta de educação dada pelos pais ausentes, de como esses pais precisavam saber mais da vida dos filhos, de conviver mais com eles, enfim, o velho clichê do "papai num tinha tempo pá bincá cumigo", que foi previsivelmente refutado pelos pais entrevistados: "o meu filho estuda, o meu filho trabalha: inclusive, eu o levo ao trabalho todo dia..."

O problema todo é que brasileiro não gosta de pobre.

Como sei que a maioria dos leitores habitam lugares outros que o Rio de Janeiro, façamos esse pequeno tour sóciogeográfico, uma vez que, após a triste notícia do ocorrido, o detalhe que os agressores eram habitantes da Barra da Tijuca caiu em ouvidos cariocas para surpresa de absolutamente ninguém. O referido bairro é uma máquina de produzir maluco. Simulacro de um subúrbio em Orlando, EUA (a avenida que corta o bairro, a Avenida das Américas, é um projeto idêntico a da International Drive) com seus vários condomínios fechados e muitos, muitos shoppings, uma verdadeira shoppinglândia, a Barra da Tijuca é lar da Estátua da Liberdade em papel-machê, de franquias de restaurantes americanos, de uma tentativa de refazer o Rio sob suas próprias diretrizes (Novo Leblon e Nova Ipanema são nome de alguns condomínios, pequenas cidades dentro de si), de crianças protegidas em cercadinhos, de gangues de jiujitsu e com contas bancárias inteiras jogadas aos seus pés. Quem habita hoje esse bairro são os mesmos yuppies que, na década de 70/80, invadiram Leblon e Ipanema para descaracterizar bairros de vida cultural rica, de tolerância, de criatividade, e transformá-los em lugares viciados por dinheiro, por status social. Esses yuppies não têm raízes, mas isso não significa dizer que são livres: eles são deslumbrados que irão se mudar para onde quer que o dinheiro esteja. É por isso que se mudaram para a Barra da Tijuca - houve um certo boom nos anos 90 - e agora estão todos se mudando para São Paulo. Não, Cecília Giannetti; eu li seu artigo na Ilustrada da Folha de S. Paulo, mas não vou lamentar a ida de seus amigos para São Paulo porque eu sei bem quem eles são: são esses mesmos yuppies, famintos por grana, por status e que destróem todos os lugares que passam feito uma nuvem de gafanhotos. Pergunte-se, Cecília, por que o Rio de Janeiro foi esvaziado de possibilidades, por que o Rio de Janeiro teve seu papel de metrópole esgotado, por que tornou-se um mero "balneário"? Por que seus amigos destruíram tudo, consumiram tudo, porque eles não tem amor a um lugar, aliás, não tem amor a coisa nenhuma que não caibam em suas carteiras. O Rio de Janeiro só tem a ganhar com a debandada dos seus amigos yuppies. Com a migração forçada dos filhinhos de papai covardes. Com a expulsão dos fashionistas.

Uma vez que as portas se fecham pelas costas do jovem em um condomínio na Barra da Tijuca, ficam de fora a feiúra, a pobreza, o Brasil. Seus pais preferiram morar num condomínio fechado para se protegerem da violência, mas não realmente: morar num condomínio da Barra é subir na vida, é "deixar de andar com pobre", então ensinam seu filho a demonizar tudo aquilo que existe para além da janela. Ou eles estão compensando aquele momento da infância em que o Fabinho ganhou um Ferrorama no Natal e ele não, ou então simplesmente dando continuidade ao provincianismo dos pais, dessa idéia cafona sobre a essência do luxo, da elite, do especial, do superior.

Por que os playboys da Barra da Tijuca escolheram uma empregada doméstica - que, aliás, só espancaram porque a confundiram com uma prostituta - para punir, para humilhar? Uma vez confrontados com a idéia de humildade, de miséria, isso coloca abaixo o seu mundo perfeito: eles consideram o pobre uma mancha na sua vida freqüentada apenas por "gente bonita e sarada", essa vida que nem episódio de "Malhação", onde, aliás, não existem pobres em cena. Seu mundo perfeito é manchado com a presença de brasileiros - como um computador dando erro, eles partem para a eliminação daquela imperfeição.

E por que, ao final do ato, eles se deram ao trabalho de ainda roubarem sua bolsa? Ah, porque o dinheiro, esse ainda vale, esse eles amam porque cabe na carteira, sempre. Eu sempre disse que a Barra da Tijuca bem poderia acordar com o delicioso cheiro de napalm numa manhã dessas. O pior é Ludovico Ramalho, pai de um dos presos, pedindo clemência aos canais de televisão:

"Gostaria de dizer que nós, os pais, não temos culpa. E que esses são jovens que estudam, que trabalham... prendê-los na Polinter? Não está certo isso."

Como um repórter perde a oportunidade de perguntar a esse sujeito o que estaria certo , é além de mim. Mas podemos imaginar o que ele diria: "Se não existissem todos os pobres, toda a feiúra, todo o Brasil não-carioca, eu não estaria passando por essa situação inconveniente."

* * *

Num último golpe, você pode até se perguntar o que tudo isso tem a ver com cinema. Chega a se relacionar com o cinema até um bocado.

Fui à locadora há muito tempo atrás e acabei presenciando essa troca entre a atendente, que conversava com eles sobre o "King Kong" de Peter Jackson, e um casal de clientes:

"Essa versão do King Kong é boa, mas prefiro a versão original, que tinha aqueles efeitos toscos, trash mesmo!"

Pois, como todos nós sabemos, Ray Harryhausen era um lambão que fazia efeitos especiais de qualquer jeito mesmo, toscão, trash.

Só para, alguns meses depois, ser surpreendido com comentários na Internet elogiando "The Host" pelo seu espírito trash, pelo seu elenco de gente "feia". Na realidade, uma pesquisa maior revela que a média de grande público de cinema no Brasil sempre atribui o termo trash a qualquer - e eu digo qualquer - filme fora do esquema hollywoodiano. Chegou-se a um ponto que o público brasileiro, um bando de deslumbrados com a Disneylândia, em denial com sua própria miséria, já foi educado pelo cabresto maciço da cultura norte-americana que não consegue mais reconhecer os valores de outras culturas, inclusive a sua própria (que, em termos de cinema, deve-se dizer que é muito mal representada), por mais que o filme seja bem realizado - e realizado para agradá-lo, inclusive. Infelizmente, tais filmes não são norte-americanos, não falam "the book is on the table". Ofendidos por filme que não trazem aquilo que se esperava, por trazer imagens novas e inesperadas, o espectador acha que o filme estrangeiro não hollywoodiano tentou ser superior a ele; é preciso destrui-lo! Vamos acusá-lo de trash! Sim, trash! Sabe o que trash significa? Lixo! (Eu sei porque papai me pagou um cursinho!) Se você não é norte-americano como nós (brasileiros, u-hu...), você é li-xo!

Multiplexes são como filiais da Barra da Tijuca espalhados por todo o país, onde ensina-se a excluir o "filme feio", o que não é popular, o que não é grande produção, o que não é "rico e sarado". O público brasileiro, confundindo o filme estrangeiro não-hollywoodiano com um filme pobre, por mais honesto que o filme seja, parte para destrui-lo, espancá-lo, humilhá-lo.
  Bernardo Krivochein    segunda-feira, junho 25, 2007
 
 
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