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Vaza, arregão (Postagem do Festival #4)

Vaza. Vas-y. Coluna do jornal O Globo na página do caderno de cultura ou entretenimento dedicada ao Festival do Rio (ironicamente ao lado de manchete que declara "Estômago" como o filme mais aplaudido na mostra competitiva): "Público sai no meio de filme de Cao Guimarães". O filme em questão é o documentário "Andarilho", que será exibido em BH durante os eventos da nossa mostra. O artigo é generoso com o filme, no entanto: a imprensa carioca no mesmo jornal já o elegera como um dos melhores documentários brasileiros do ano em artigos passados - o faz novamente na mesma coluna - mas vá lá, chama-o de o filme que rendeu o maior número de debandadas da sala de exibição durante a projeção.

Sensação estranha. As pessoas apreciam a oportunidade de se entrar em contato com cinematografias diferentes num evento tal qual o festival de cinema, mas quando a diferença se faz visível no escuro, elas mostram sua verdadeira face. Assistir a um filme exigente dá muito mais trabalho do que encher a boca para falar que se gosta de filmes mais exigentes. Talvez devessem continuar mentindo nas conversas de bar. Preocupa-me, enquanto projeto de curador de mostra: finalmente podemos exibir filmes que são apreciados mundialmente pela sua densidade, pela inovação, nós podemos apoiar sua seleção através dos prêmios conquistados, ensaios inspirados realizados em cima deles, críticas iluminadoras e especialmente seu potencial de inspirar elaborações pessoais no espectador que ousar dissertar sobre eles, mas para um público ou deseducado, ou desinteressado em ampliar-se, ou mais preocupado pelo pioneirismo de se assistir primeiro um filme que já será distribuído nos cinemas (um pioneirismo vazio, em época de vazamento na internet), não simplesmente estaríamos jogando pérolas aos porcos? E então, eu me vejo criticando José Padilha por desdizer a interpretação popular geral de seu filme ao mesmo tempo que vejo que serei tentado a, como curador de uma mostra, estabelecer/insinuar de antemão a relevância deste ou daquele filme selecionado. Não é uma atitude correta, me parece até doutrinante fazê-lo, mas quando é certo de que um filme será injustamente dispensado: a) pela ignorância do público do valor da argumentação cinematográfica; b) pela falta de comprometimento do espectador; c) pela intransigência do espectador que equivale qualidade com entretenimento fugaz, imediato, e; d) pela falta de tempo e paciência que uma maratona de cinema impõe sobre a experiência especular normal; fica difícil não tomar uma atitude mais radical. Não quero informar a nenhum espectador como ele deve se sentir ao assistir a um filme, mas vai tomar no cu se eu não quero que ele atente aos elementos que fazem o filme válido , mesmo quando o saco dele já encheu ao ponto de estourar (não porque o filme é chato, mas porque certamente não é o "Todo Mundo em Pânico 4" que ele espera que todo filme seja).

A ambição, a minha particular, claro, é a que algum espectador reconheça que o filme X ou Y que conseguimos trazer e exibiremos exclusivamente é aquele sendo discutido nos meios vanguardistas, e que se inspire a escrever um texto fuderoso, o melhor em língua portuguesa. Porque nos motiva a querer fazer melhor. Então quando eu convido alguns dos nossos visitantes cativos para freqüentarem o evento, se possível, não é por ibope; é porque no fundo da minha mente, eu lhes coloco confiança de que serão inspirados pelos filmes certos e farão os grandes ensaios nacionais, os pioneiros, inventarão publicações, ou sites ou algo bem melhor. Não preciso botar fé que pelo menos alguns dos filmes que serão exibido no INDIE integrarão os melhores debates cinematográficos - eles já estão sendo debatidos. Gostaria sinceramente que houvessem espectadores no INDIE 2007 que se erguessem e impusessem uma nova e renovada visão cinematográfica, uma nova escrita.

Voltando ao texto do jornal, por exemplo, falta ao repórter referência para acusar "Andarilho" como o grande expulsor de espectadores da sala (aliás, isso não quer dizer nada: público carioca insiste que todo filme que veja seja cômico, há uma predisposição a rir, a entender tudinho certinho, sem se deixar devanear, associar, pensar, enfim: se deixar afetar em todos os sentidos), simplesmente porque - e aí eu farei uma quebra na linearidade de nosso diário de sessões - ele não esteve na sessão de 22:15 do en-can-ta-dor "O Estado do Mundo" no Estação Ipanema 1. "Stellet licht" já tinha inspirado algumas saídas prematuras por parte de espectadores resistentes às imposições estilísticas e narrativas (teeeeeemmmpo) de Reygadas - mas, de acordo com a rigidez do filme, esperava-se um número bem maior de abandonos (acenderam-se as luzes e o cinema estava praticamente lotado). Imagino a cena vista de cima: a ocupação máxima da última sessão da sala 1 do Estação Ipanema, a medida que as experimentações avançavam, diminuía ao que as pessoas desistiam com grunhidos exaustos e abandonavam em grupos a sessão; feito tufos de cabelo caindo da cabeça de um infeliz sujeito sofrendo de calvície atômica, abriam-se buracos na platéia com o passar do tempo. No penúltimo episódio, "Tarrafal" do português Pedro Costa (eu juro que reconheço que ele é instigante, mas por que eu não consigo tirar da cabeça que a maioria de seus apreciadores o é por puro exercício egocêntrico de articulação, além da necessidade de querer se gabar aos pobres mortais por compartilhar - sem verdadeiras avaliações pessoais - do raciocínio Cahierístico?), já inspiravam-se saídas mais substanciais, mas no grande momento de Chantal Akerman, foi como se a sala estivesse em chamas e apenas alguns suicidas decidissem resistir nos lugares. O omnibus de intelectual é meio brabo sim e eu não alieno completamente as desistências. Eu mesmo tive que resistir e usar de boa dose de tolerância (mas menos aos experimentais e sim aos convencionais, que são meio dose). Passa o tempo, no entanto, e acredito que se torna, por essas reviravoltas misteriosas da rememoração e desejo de retornar a sentimentos evocados pelas imagens, um dos filmes mais estimulantes de todo o festival até agora. Instintivamente, insisto em querer retornar a ele. Se fizer sol, até faço uma lista dos meus filmes preferidos da programação do Festival do Rio. Continuo não gostando de listas (daquelas que só tem o título, um pódium e nenhuma justificação além disso), mas sei lá, 2007 é um ano para quebrar paradigmas.

No mesmo dia, tinha finalmente assistido ao último Tsai Ming-Liang, "Eu Não Quero Dormir Sozinho", parte do mesmo projeto New Crowned Hope que financiou "Síndromes e um Século", também na mostra. Um ano de espera que valeu a pena. Na boa, eu gosto muito de Weerasethakul e tal (ainda que prefire bem mais "Mal dos Trópicos" e "Blissfully Yours"), mas puta que pariu se eu não amei esse Tsai Ming-Liang. Talvez porque eu ainda seja meio padrão, mas gosto como o ritmo aumenta gradativamente de intensidade na narrativa, como as emoções ecoam no futuro e as ações tem conseqüências. E olha que eu lutei para não me aborrecer no começo (já tenho para mim que todo começo de filme de Ming-Liang é chato, porque assim fica mais fácil de viver: ainda que ele prime pelo sensualismo, na apresentação do universo do filme, ele simplesmente enrola pra caralho), mas o filme só fica mais e mais bonito com o tempo de duração: quando a fumaça de um incêndio que abala a Malásia cobre a cidade, o filme enevoa-se e fica literalmente onírico: Ming-Liang, como é de costume, personaliza uma série de objetos inanimados, uma espécie de antropomorfismo não-artificial que humaniza sacos plásticos, colchões e objetos encontrados no lixo apenas por relacioná-los à condição de seres humanos decartados que abalam os personagens, inventando, para ambos objetos e indivíduos, novas utilidades, evidenciando-lhes uma relevância escondida, ignorada. No final, tudo vira fumaça. Isso só ele consegue fazer. De dar vontade de invadir a cabine de projeção, roubar a cópia e fazer passar no INDIE. Porque mostra pequena tem desses radicalismos, a gente seqüestra mãe dos produtores, faz chantagem com diretor, rouba cópia dos eventos dos outros... Falando nisso, "4 meses, 3 semanas e 2 dias", romeno vencedor da Palma de Ouro em Cannes (para o qual tentarei conseguir ingresso no dia, pois os antecipados estão esgotados para todas as sessões), está compradíssimo pela Lumière, com cartaz brasileiro e o angu inteiro. Será que eles não querem deixar os mineiros darem uma espiadinha antes de SP (alguém pega o caderninho de telefone)?

Saída de "Eu Não Quero Sair Sozinho", geral está decepcionada. Os jovens cinéfilos queixam-se que o filme anterior de Ming-Liang, o horroroso "The Wayward Cloud" (não é triste que o pior Ming-Liang seja o único a conseguir distribuição comercial no Brasil), nada tinha a ver com este (pela cara de aborrecimento, admiti que elogiavam o anterior em detrimento deste). Bem, esqueça que ambos os filmes compartilham do mesmo ator principal, são musicais (aquele, de modo kitsch a conquistar moderninhos; este, o seu filme mais sutilmente musicado) e apreendem a questão afetiva entre humanos marginalizados socialmente e as expressões sexuais que ebulem dessas novas diretrizes emocionais; realmente rien de rien. Não me preocupo porque eles crescerão, evoulírão e entenderão o filme melhor. Quem sabe, até se torne um de seus preferidos, ou até escrevam sua tese de mestrado em cima do diretor. Quem aposta em Ming-Liang não é um espectador rígido, arrogante, intransigente; só se pode esperar o melhor de quem o assiste.

Pulamos para hoje e seguimos a ordem normal dos acontecimentos. Sessão de 12:30 do elogiado argentino "O Assaltante". Imagine um filme de assalto (heist movie) dirigido pelos irmãos Dardenne et voilà. Em menos de 70 minutos, acompanhamos o personagem principal, passo a passo, enquanto ele efetua uma série de roubos matutinos. Incrível oportunidade de se realizar um exercício de estilo dentro de uma trama de gênero, de se incorporar um olhar mais espirituoso e profundo àquilo que primeiramente sugere - e recebe - injeções de adrenalina e estéticas modernosas vazias a la "Ocean's 13". Tal qual o personagem utiliza de sua arma, Pablo Fendrik precisa utilizar de sua câmera para armar um esquema cinematográfico que fique a altura dos planos criminosos de seu objeto de pesquisa. Não se sabe quem blefa mais: o diretor ou o assaltante do título - e o encantamento do filme é justamente o jogo de gato e rato que eles parecem dinamizar entre si; quem é que pisca primeiro? Realmente intrigante. E o final é memorável.

Sigo em seguida - após almoço e um passeio - para assistir o elogiado "As Testemunhas" de André Techiné. Algo muito peculiar aconteceu durante os créditos finais e a escritura deste post. Saí satisfeito da sessão, mas refletindo-o mais a fundo, agora acho-o um dos filmes mais desonestos do ano. É a história de um grupo de personagens franceses durante o surgimento da AIDS na Europa: uma escritora de livros infantis que tem o seu primeiro filho, seu marido policial com quem mantém um relacionamento aberto, um médico homossexual que se afeiçoa a um jovem que não corresponde às suas investidas e deseja apenas sua amizade. Não acho o filme ruim, mas um bocado cruel e mais para o lado do conservadorismo raivoso do que ele se faz crer. Para fazê-lo justiça, é preciso dissertar detalhadamente sobre ele, mas preciso sair para mais outra sessão. Esse é um dos grandes medos: esquecer de elementos essenciais da resenha de filmes anteriores com a inclusão de mais outro longa no catálogo mental.
  Bernardo Krivochein    sexta-feira, setembro 28, 2007
 
 
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