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"4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", romeno, político e com substratos latinos


Quando um filme, de um novo diretor, ganha a Palma de Ouro em Cannes não há como não ir para o cinema com um silêncio interior, um certo ar solene, uma certa expectativa, "sim, vou ver um grande filme", ou quem sabe até "o filme do ano"... Grande expectativas sempre morrem na praia do cinema. E o conceito de "grande" filme pode ser apenas uma pegadinha ou uma ilusão criada para vender ingressos pela indústria. Então, esqueça esta idéia.

Mas a insegurança do romeno Cristian Mungiu, expressa em seu rosto ao receber o prêmio em Cannes("estupefato"), não está em "4 Meses, 3 Semanas, e 2 Dias". No filme, há integridade, segurança e firmeza, num roteiro muito bem programado e em planos semi abertos e generosos que incluem quase sempre a personagem Otilia (Anamaria Marinca).

O que mais poderia excitar um espectador para ver um filme como este senão o que ele traz de estranho? O fato é: não sabemos nada sobre a Romênia, muito menos aquela dos anos 80, sob os domínios da ditadura de Ceausescu. Esta perspectiva de contar uma história neste contexto, torna "4 Meses, 3 Semanas, e 2 Dias" muito mais interessante. Apesar da história contada ser um lance pessoal de duas garotas atrás de uma solução para uma gravidez indesejada, os vestígios do sistema repressor e comunista estão presentes em cada passo dado por Otilia,(ao comprar cigarros e sabonete no mercado negro, ao tentar se registrar no hotel e ser mal tratada pela recepcionista, ao entrar e sair do hotel e ter que se identificar, ao andar pelas ruas mal iluminadas em busca de uma lixeira) tornando cada ação assim um reflexo deste sistema. Isto faz de "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" um filme essencialmente político.

Sob uma ditadura, (e lembramos um pouco do que era a nossa própria, particular, na qual só podíamos comprar produtos nacionais, e tínhamos uma insegurança permanente de sermos acusados injustamente de subversivos) tudo parece estar em jogo, uma decisão como esta de fazer um aborto, inclui muito medo e tensão. O medo de ser pego num ato ilícito, quando tudo, num momento político como aquele pode vir a ser considerado ilícito e pode ser usado contra você, cria uma espécie de thriller-suspense espontâneo. Como aqueles de filmes sobre o Nazismo ou sobre perseguições políticas, onde o fato contado já traz em si uma estrutura narrativa cinematográfica. Me lembrei do atual alemão "A Vida Dos Outros" que também incorpora esta sensação de suspense, em função de um momento político repressor e nada fácil de administrar na Alemanha Oriental.

Naquele momento lá, as romenas Otília e Gabita (Laura Vasiliu) - garota que é quem efetivamente sofre o aborto, estão integralmente desamparadas e agem por impulsos, tão comuns na juventude. Na conversa com seu namorado Otília vislumbra este desamparo e questiona: como poderia agir diferentemente, quem poderia ajudá-la, e se estivesse grávida, o que faria? A mulher e seu corpo parecem não valer nada na ilegalidade da ditadura. É assim que a figura de Bebe (Vlad Ivanov) é irrevogável. Seria ele o frio torturador, o algoz de um regime decrépito ou um abortador oportunista que equivale a um estrupador? A negociação entre as garotas e Bebe (ótima a ironia de seu nome) é tensa, ele sabendo da adiantada gravidez de Gabita, e se aproveitando da obscura situação ( que inclui a insegurança das garotas e a possibilidade do aborto não funcionar), ameaça e se faz ainda mais sórdido.

Na sessão que estava, no mínimo insólita, a presença de algumas senhoras romenas que conversavam sem parar,... uma senhora na cadeira de rodas com sua enfermeira e seu motorista, uma jovem com uma deficiência física que andava em 45 graus, outra senhora de idade que saiu aos berros reclamando do som alto da sala, mas todos de certa forma enebriados por esta língua-linguagem, um tanto cortante, fria e ao mesmo tempo com muitos substratos latinos de Mungiu.
  Francesca Azzi    terça-feira, janeiro 29, 2008
 
 
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