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Revendo o inassistível: "Batman - O Retorno" 16 anos depois


"O subtom sombrio dos filmes do Batman são como um guincho restringindo o filme, impedindo-o de se libertar em direção ao vento.

"Batman - O Retorno, de Tim Burton é um filme soturno e perturbado, mais ainda do que o Batman original, repleto de dor e medo, traumas de infância e ressentimentos adultos. É um filme intrigante, ótimo de se assistir, divertido de se falar sobre. Não há dúvidas de que Burton é um diretor talentoso, mas será que ele é o diretor certo para Batman?

"Lembrando do filme e contrastando-o com minhas memórias de infância dos quadrinhos, imagino se talvez eu não consiga responder ao filme completamente por ter sido criado numa época mais gentil e generosa.

"Sempre achei que seria divertido ser Batman. O filme acredita que sê-lo é mais uma maldição - que Batman não é um superherói, mas um neurótico recluso que acredita precisar se provar à sociedade a qual ele não participa de verdade..." - Roger Ebert criticando negativamente "Batman - O Retono" em 1992.

* * * * *
"Batman Begins finalmente penetra nas profundezas sombrias e turbulentas da lenda de Batman, criando um superherói que, se não plausível, é pelo menos persuasivo como um homem convencido a vestir-se de morcego e tornar-se um vigilante. O filme não simplesmente providencia as raízes de Batman na tradição dos quadrinhos sobre as origens do personagem, como também explora o caminho tortuoso que guia Bruce Wayne de uma infância órfã a uma idade adulta sem amigos.

Este é enfim o filme do Batman que eu estava esperando. O personagem ecoa mais profundamente em mim do que os outros superheróis de quadrinhos, talvez porque, quando o descobri na infância, ele me parecia mais sombrio e maduro do que o alegre Superman. Ele tem segredos. Como Alfred reflete: 'Ferimentos estranhos e uma vida social inexistente. Estas coisas inspiram a pergunta, o que Bruce Wayne faz com o seu tempo?'" - Roger Ebert criticando positivamente "Batman Begins" em 2005.


* * * * *

Pode parecer que "Batman - O Retorno" é a mais nova vítima dessa minha tendência incontrolável por hipérboles, o que é uma meia-verdade: claro que meu conhecimento cinematográfico não é absoluto a ponto de estabelecer com o máximo de autoridade que "Batman - O Retorno" é "a" obra-prima mais subestimada do cinema americano(eu juro que, na minha mente, eu tinha escrito "uma das obras-primas", até ter sido obrigado a reler o texto; só para mostrar que essa tendência a exaltação exagerada está fora do meu controle - típico comportamento nerd) e que futuramente outros filmes desconsiderados a sua época de lançamento poderão ser redescobertos em sua genialidade agora oculta, mas dentro do meu conhecimento razoável neste ponto do espaço-tempo, a afirmação está valendo. Claro que existem outras obras-primas que superam "Batman - O Retorno" em subestima crítica: "Southland Tales", "Zabriskie Point", "Boarding Gate", entre vários. Não sei como será na semana que vem, mas tendo visto "Sweeney Todd" e sendo levado pelas minhas memórias do cinema de Tim Burton para escrever a resenha, neste momento da vida em particular, eu realmente estou considerando "Batman - O Retorno" a obra-prima mais subestimada do cinema americano dos anos 90.

Entendam que para dizê-lo, estou me baseando apenas nas minhas memórias das críticas brasileiras ao filme na época de seu lançamento nos cinemas e vídeo (especialmente de Rubens Ewald Filho para a Vídeo News, que, como Ebert, resumia as qualidades do filme aos seus valores de produção, erro grosseiro de interpretação como as continuações de Joel Schumacher puderam evidenciar mais tarde). Uma visita ao Rotten Tomatoes me foi motivo de grata surpresa: a breve maioria das críticas ao filme é positiva, ainda que longe de estelares e repletas de ressalvas. Mas não gostaríamos de uma obra-prima tão perfeita que nos intimidasse a tocá-la. Se queremos - e podemos - exaltar as qualidades de "Batman - O Retorno" hoje é justamente porque trata-se de um filme que se permite ser mexido e reinterpretado pelo espectador.

Então podemos exaltar "Batman - O Retorno" de inúmeras formas, desde o ataque inicial da gangue nas ruas de Gotham City que bizarramente evoca o próprio "Boulevard do Crime" de Marcel Carné, ou a forma absolutamente genial que Burton embasa psicologicamente a transformação de Selina Kyle em Mulher-Gato (sua queda é amortecida por uma série de toldos estampados com o logotipo das Companhias Schreck: um rosto de gato; ou seja, ela se transforma em Mulher-Gato não por identificação com o alterego animal, mas com seu alterego profissional/comercial), ou como a trajetória de Pingüim ao posto de prefeito de Manhattan se desenrola feito uma versão dark e absurdista de "Cidadão Kane", "Batman - O Retorno" é um filme que se vê ao mesmo tempo em que se lê. É o mais róximo que pode-se chegar de uma adaptação de HQ feita pelo Fritz Lang. Mais ainda, remete-nos a uma época onde filmes, por mais populares e antecipados que fossem, não comprometiam seu conteúdo e sua atmosfera para agradar. Para crianças como eu era na época, ser admitido para assistir a um filme "maduro" era um voto de confiança, reassegurava-nos de nossa maturidade e de nossa inteligência, algo incapaz de se promover através dessa enxurrada de filmes customizados para incapazes-não-necessariamente-menores-de-idade. Fico imaginando que auto-estima devem ter esses garotos quando descobrem que tudo à sua volta é diluído para encontrá-los em seu nível.

Meu aspecto preferido de "Batman - O Retorno" é a forma como ele ilustra perfeitamente uma das teoria cinematográficas (tipicamente Lacaniana, comme il faut) do filósofo Slavoj Zizek em "The Pervert's Guide To Cinema". Sobre o olhar ("o ponto obscuro e cego a partir do qual o objeto que é observado devolve este olhar"), Zizek sugere: e se os olhos, que são tidos como a janela da alma, não tiverem alma por trás deles? E se os olhos não forem senão fendas através das quais percebemos o abismo do Além-mundo (o mundo dos mortos)? Zizek elabora esta teoria a partir de trechos de dois filmes: "Psicose" de Alfred Hitchcock e "A Conversação" de Francis Ford Coppola; em cima deste último, Zizek apresenta o trecho de nosso interesse:


"Nós, os espectadores, estamos sentados dentro de um cinema olhando para a tela. Lembre-se: antes do filme começar, a tela está escura e então vida lhe é projetada; então, como é que nós não estaríamos basicamente olhando para um vaso de privada, esperando que coisas reapareçam de dentro dela? Esta não seria a magia de todo o espetáculo que se dá na tela: um encanto enganador tentando ocultar o fato de que nós basicamente estamos vendo merda?"

Desta forma, Tim Burton fez um dos filmes comerciais mais subversivos a se ter nota, uma vez que "Batman - O Retorno" esfrega na nossa cara a verdadeira porcaria que é o cinema, chamando a dinastia pop que ele adapta dos celebrados HQ e que nós recebemos com tanta solenidade de "merda" a plenos pulmões. A forma perversa como o filme começa já afirma o compromisso de Burton com esta filosofia: um ser humano é jogado no esgoto para nunca mais ser visto. Trata-se do bebê deformado que se transformará futuramente no desprezível vilão Pingüim (Danny DeVito, na melhor atuação de sua carreira). Aqui eu expandiria a partir de Zizek: seres humanos e fezes são ejetados para o mundo basicamente da mesma forma. Um mundo que acabou com a hierarquia social da vagina e do ânus (entrada social e dos fundos, respectivamente), uma vez que assumiu-se que ambos orifícios cumprem funções físicas estimulantes e práticas. Existem folclores populares sobre mulheres que acidentalmente parem bebês quando imaginavam que estavam apenas com vontade de ir ao banheiro, assim como histórias de mulheres que, no esforço do parto, acabam por defecar ao mesmo tempo que dão a luz.

Portanto, o terror com o qual "Batman - O Retorno" flerta vai além daquele descrito por Zizek. Mais do que o medo da merda voltar do além, é o medo que a merda que mandamos para o além esteja viva e queira se vingar de nós, os criadores que a ignoramos. É um medo bastante corrente no cinema; basta lembrarmo-nos de "Aligator". Na mentalidade mais primal do ser humano, se os processos de concepção de um cocô e de um ser humano já estão determinados a mesma região do ventre, torna-se absolutamente palpável que os métodos de eliminação do cocô possa ser perfeitamente aplicável ao humano indesejável - coisa que a abertura do filme já ilustra perfeitamente.

O resto do filme é uma delícia de se pensar sob estes termos, já que sua temática lida uniformemente com subterrâneos que os personagens ora são confrontados ora tentam evitar emergir para o mundo dos vivos: Bruce Wayne teme que sua identidade secreta (obscura, escondida) venha à tona; Max Schreck (Christopher Walken) é chantageado por Pingüim exatamente por causa de um dossiê picotado e jogado no lixo que o vilão remonta; o mesmo Schreck é surpreendido quando Selina Kyle, que ele mesmo havia dispensado e dado como morta, reaparece como se nada tivesse acontecido. E como esquecer a primeira aparição pública de Pingüim, que surge de dentro de um buraco de esgoto para os degraus da prefeitura. Os próprios vilões são como cocôs ambulantes, revoltados, procurando destruir o mundo dos vivos que os cagaram.

Portanto se faz tão essencial reforçar nas falas de Pingüim, na cena em que seqüestra Max Schreck para seu esconderijo pela primeira vez, este compromisso com a necessidade de confronto: "O que você esconde, eu revelo" e "O que você dá descarga, eu coloco no meu pedestal." (O personagem terá ainda mais falas como estas ao longo do filme). Este medo de um cocô vivo e vingativo mexe com o pânico bastante humano de ter que lidar com nossos próprios erros e arbitrariedades; ou nossas próprias merdas. É o medo do confronto com o espelho lacaniano do cinema quando, de idealizado e perfeito, passa a refletir a feiúra que tentamos ignorar, quando o ambiente confortavelmente associado ao sonho e a fantasia torna-se uma intervenção anti-drogas, sendo a auto-idealização o tóxico em questão (engraçado como o filme seja essencialmente contra o deslumbre dos mesmos valores de produção que ostenta). Porque o espectador não quer ser jamais ser identificado como o lado ruim de qualquer história; esta ambigüidade entre mocinhos e bandidos que, aliás, é o espírito da própria metáfora do Batman (e a qual nenhum filme da franquia jamais se aproximou em encapsular como este "Batman - O Retorno").

Movimento duplo: Tim Burton vilaniza o espectador, forçando-o a mergulhar no esgoto e, no chafurdar na merda, encontrar a si mesmo. Mas se eu trago à tona a contradição bastante hipócrita de Roger Ebert, é justamente porque ao mesmo tempo Tim Burton, ao confrontar-nos com os erros, nos dignifica não como heróis ou vilões, mas como humanos em busca de (alguma) justiça. Visto que "Batman - O Retorno" foi tão prontamente dispensado como mais um dos produtos diariamente defecados pelo sistema hollywoodiano, faz-se necessário agora aventurarmo-nos pelo esgoto cinematográfico para onde o bom gosto o exilou, revelando finalmente ao mundo sua perigosa beleza.
  Bernardo Krivochein    quarta-feira, abril 02, 2008
 
 
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