blogINDIE 2006
Verdade Monumental


Festival de documentários É Tudo Verdade traz ao Brasil os dois últimos filmes de Wang Bing


Se a colossal seleção de 137 documentários e a entrada gratuita já não fossem o bastante para fazer do É Tudo Verdade - um dos festivais cinematográficos mais sólidos e importantes do calendário cultural brasileiro - um evento imperdível, a presença nobre de dois monumentos cinematográficos do documentarista chinês Wang Bing fazem-no absolutamente obrigatório.


Os recentes conflitos entre tibetanos e chineses só fazem das sessões dos filmes de Wang Bing ainda mais oportunas: são revelações melancólicas de bastidores, todas as imagens e histórias que o governo local insiste em tentar sufocar, relembrando o peso da cortina apesar de todo o deslumbre e avanço econômico. Mais do que suas visões políticas, o próprio sentido de visão: a estética do documentarista, que opta por tecer hipnotizantes e melancólicos films-fleuves em vídeo digital, um estilo de linguagem que podemos ver sendo recuperadas mundo afora (Pedro Costa, por exemplo, com quem Bing também compartilha temáticas), repleto de planos estáticos, insistentes, a capturar a beleza do mofo das paredes, que nos conta sua história.


O inédito "Fengming: A Chinese Memoir" foi considerado um dos melhores filmes de 2007 por algumas das publicações mais consideradas no meio cinematográfico. Um documentário intimista no qual a jornalista e professora He Fengming reconta sua participação na revolução, um pesadelo no qual fora vítima de injustiça, capturada por ser a esposa de um crítico da burocracia nacional. Seu depoimento acompanha, durante suas três horas de duração, os anos de Mao do início ao fim e reconta em detalhes alarmantes as torturas sofridas nos campos de trabalhos forçados. Não posso dizer mais, ao que também estou no aguardo para assisti-lo.


Mas o que promete mesmo é a exibição das nove horas de "A L'Ouest des Rails" (Tie Xi Qu). Divididos em três volumes: "Rust" - partes 1 e 2 -, "Remnants" e "Rails"), o documentário vencedor do DocLisboa e do Festival de Marselha (entre outros) é um trabalho épico de bravura incomparável no cinema atual (que se opõe em escala e abordagem a "Fengming"). Sem equipe, Wang Bing explora o microcosmos do complexo industrial do distrito de Tie Xi apenas com uma câmera na mão (ouvimos, por exemplo, o ranger da alça da câmera ou de algum toque acidental no equipamento, o que causa uma sensação de imediatismo, aconchego), sem invenções, intervenções ou provocações.Estas indústrias de cobre, cabos e chumbo do nordeste chinês sofreram um crescimento devido ao suporte econômico da União Soviética na época da Guerra Fria; com a abertura do país para o capitalismo, estas indústrias passam a ser gradualmente desativadas a partir de 1999. Wang Bing registra o interior deste organismo decadente: os operários e a rotina das fábricas, que poderão ser soterrados juntos com este corpo gigantesco em avançado estado de decomposição.


Assusta e impressiona a imensidão dos galpões, verdadeiras cidades, povoadas por tipos humildes, camponeses, que utilizam a câmera quando sentem que precisam desabafar sobre tudo aquilo que ocorrera enquanto eles estavam ignorando-a: um documentário observacional e reflexivo que ignora a sequer existência de distinções entre tais abordagens. Revelações paralelas abundam: enquanto Wang Bing se aventura pelos corredores decadentes e mal iluminados da área de funcionários com o máximo de liberdade (exploração pela imagem), os próprios operários se encarregam de, através de suas histórias pessoais, ampliar ainda mais as dimensões dessas indústrias (exploração pelo som; visualização). Alguns podem acusar o despojamento técnico de Bing como não cinematográfico, mas a determinação rígida que transforma o filme numa imersão completa é uma das experiências mais defintivamente cinematográficas a se conseguir de uma exibição.


Mas o É Tudo Verdade também se solidariza com aqueles que queiram documentários que melhor se encaixem na moldura temporal do homem contemporâneo e não possuem sais minerais para encarar Wang Bing: "No End In Sight", documentário que cronografa a lastimável comédia de erros da ocupação americana no Iraque, será exibido; "Stranded", a versão documentário do famigerado "Os Sobreviventes dos Andes" (mais chutado do que pombo atropelado pela crítica em suas eternas reprises na TV Corcovado) que paga uma passagem para os ex-jogadores chilenos de rúgbi recriarem alguns dos eventos no próprio local da tragédia, assim testando os limites do bom gosto; "Operação Cineasta", no qual um jovem estudante de Bagdá, após aparecer na MTV falando sobre seu sonho de se tornar cineasta, é contratado para trabalhar no filme "Uma Vida Iluminada" de Liev Schreiber, mas, ao contrário das expectativas, ele age de forma completamente indiferente à oportunidade, o que nos leva a refletir sobre a política americana de esmolas sociopolíticas; "Joy Division", do documentarista/clipeiro Grant Gee, promete todas as histórias negligenciadas pelo longa "Control", a partir de relatos dos próprios integrantes da banda (Ian Curtis participa via brincadeira do copo). Homenagens a cineastas abundam: temos "Conversas com Billy Wilder" (um depoimento cedido ao amigo alemão Volker Schlondorff) e "A Voz de Bergman", no qual o falecido mestre sueco nos ilumina sobre, entre outras coisas, seus filmes favoritos.


Temos ainda um curiosíssimo "Relato de Memória (13 Lembranças do documentário 'Descrição de um Combate' de Chris Marker)", cuja premissa soa muito como um "Retourne à Normandie" em cima de 'Description d'un Combat'; e o aclamado "Follow the Yellow River" (Up The Yangtze), para aqueles completistas que precisam estender ainda mais seu panorama da China contemporânea. Tempo certamente será uma questão, mas após descobrir Wang Bing, tenho certeza que o que não faltará é motivação.


SERVIÇO:


O Festival É TUDO VERDADE acontece em:

São Paulo: 26/03 a 06/04

Rio de Janeiro: 27/03 a 06/04

Bauru: 10/04 a 13/04

Brasília: 14/04 a 20/04

Recife: 17/04 a 20/04

Caxias (RS): 24/04 a 27/04


Sessões:

ALÉM DOS TRILHOS (A L'Ouest des Rails, 2003)

de Wang Bing

(Parte 1: Ferrugem 1; Parte 2: Ferrugem 2; Parte 3: Vestígios; Parte 4: Trilhos)

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL (SÃO PAULO - SP) - 27/03 - 13H00 (PARTE 1) / 15H00 (PARTE 2) / 17H00 (PARTE 3)

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL (SÃO PAULO - SP) - 28/03 - 13H00 (PARTE 4)

CINE GLÓRIA (RIO DE JANEIRO - RJ) - 05/04 - 18H00 (PARTE 1) / 20H00 (PARTE 2)

CINE GLÓRIA (RIO DE JANEIRO - RJ) - 06/04 - 16H00 (PARTE 3) / 20H00 (PARTE 4)


FENGMING - MEMÓRIAS DE UMA CHINESA (He Fengming, 2007)

de Wang Bing

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL (RIO DE JANEIRO - RJ) - 01/04 - 12H30

CINESESC (SÃO PAULO - SP) - 04/04 - 15H00


SEM FIM À VISTA (No end In Sight, 2006/7)

de Charles Ferguson

UNIBANCO ARTEPLEX (RIO DE JANEIRO - RJ) - 28/03 - 14H00

CINESESC (SÃO PAULO - SP) - 03/04 - 23H00

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL (BRASÍLIA - DF) - 16/04 - 20H00

FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO (RECIFE - PE) - 19/04 - 19H00


OPERAÇÃO CINEASTA (Operation Filmmaker, 2007)

de Nina Davenport

CINESESC (SÃO PAULO - SP) - 28/03 - 17H00

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL (RIO DE JANEIRO - RJ) - 02/04 - 20H30


SUBINDO O RIO AMARELO (Up the Yangtze, 2007)

de Yung Chang

CINESESC (SÃO PAULO - SP) - 27/03 - 17H00

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL (RIO DE JANEIRO - RJ) - 02/04 - 14H30


STRANDED (2007)

de Gonzalo Arijon

CINESESC (SÃO PAULO - SP) - 27/03 - 21H00

UNIBANCO ARTEPLEX (RIO DE JANEIRO - RJ) - 30/03 - 16H00


JOY DIVISION (2006)

de Grant Gee

UNIBANCO ARTEPLEX (RIO DE JANEIRO - RJ) - 28/03 - 22H30

CINESESC (SÃO PAULO - SP) - 04/04 - 23H00


CONVERSAS COM BILLY WILDER (Billy Wilder Speaks, 2006)

de Volker Schlöndorff

CINESESC (SÃO PAULO - SP) - 28/03 - 13H00

UNIBANCO ARTEPLEX (RIO DE JANEIRO - RJ) - 29/03 - 16H00

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL (RIO DE JANEIRO - RJ) - 03/04 - 12H30


GERAÇÃO 68 (Genérations 68)

de Simon Brook

CINESESC (SÃO PAULO - SP) - 27/03 - 23H00

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL (SÃO PAULO - SP) - 30/03 - 15H00 (Sessão seguida de debate "1968 - 40 anos")

CINESESC (SÃO PAULO - SP) - 03/04 - 10H30 (sessão reservada para estudantes)

UNIBANCO ARTEPLEX (RIO DE JANEIRO - RJ) - 03/04 - 22H30

AUDITÓRIO CPFL PAULISTA (BAURU - SP) - 13/04 - 16H00

UCS CINEMA - CIDADE UNIVERSITÁRIA (CAXIAS - RS) - 27/04 - 20H00

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL (BRASÍLIA - DF) - 16/04 - 18H00

FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO (RECIFE - PE) - 19/04 - 17H00


A VOZ DE BERGMAN (Bergmans Röst, 1997)

de Gunnar Bergdahl

CINESESC (SÃO PAULO - SP) - 27/03 - 13H00

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL (RIO DE JANEIRO - RJ) - 02/04 - 12H00


DESCRIÇÃO DE UMA MEMÓRIA (Ts'as Revi'i La'matbe'a, 2006)

de Dan Geva

CINESESC (SÃO PAULO - SP) - 01/04 - 17H00

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL (RIO DE JANEIRO - RJ) - 04/04 - 20H30

AUDITÓRIO CPFL PAULISTA (BAURU - SP) - 13/04 - 18H00

UCS CINEMA - CIDADE UNIVERSITÁRIA (CAXIAS - RS) - 26/04 - 16H00

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL (BRASÍLIA - DF) - 15/04 - 18H00

FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO (RECIFE - PE) - 18/04 - 17H00
  Bernardo Krivochein    quarta-feira, março 26, 2008
 
 
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