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INDIE 2007: Bled Number One, de Rabah Ameur-Zaïmeche



À Aventura
por Jean Michel Frodon


O que aconteceu?, perguntava o primeiro filme de Rabah Ameur Zaïmeche. O que aconteceu?, pergunta novamente o segundo, assim como seus espectadores, enquanto se pega a estrada. A rua, na realidade, artéria percorrida ao longo de um travelling antes de ser explorada, que abre o filme. Mas em direção a quê? Estamos na Argélia, sem dúvida, mas aonde? Numa pequena cidade, responderá pouco a pouco o filme, que adicionará que há uma montanha por perto e que o mar não está longe. Dificilmente saberemos de antemão, mas sim à medida que aparecem, mais do que sabem as superfícies podem informar, os diversos protagonistas de “Bled Number One”. Primeiramente é um filme no qual a inscrição no espaço é essencial, mas onde a localização se mantém em aberto. Esta abertura é apenas uma das fontes desta surpreendente aventura que é, para o espectador, assistir ao filme.

Abandonados no plano do campo geográfico, procuramos por bem ou por mal encontrar os personagens principais e secundários, identificar uma intriga e as eventuais bifurcações do discurso. Nada disso aqui. O filme, muito simples, muito acolhedor àquilo que observa, não se rende a nenhuma das expectativas convencionais. Com dificuldade encontramos Kamel e cremos reconhecê-lo (sempre interpretado pelo próprio Rabah Ameur-Zaïmeche, que já havia sido o herói de “Wesh wesh quèst-ce qui passe” há quatro anos, retorna ao povoado após ter purgado a condenação que sofrera no filme anterior) que a atenção acaba por desviar-se para outro lugar. Kamel retornará com freqüência, ele cumpre um papel importante dentro do filme, mas por enquanto, tomamos o tempo para comentar a vida na cidade, zerando os medidores de ficção para se permitir perambular, filmar os gestos, as palavras, o comportamento dos clientes do bistrô, dos jogadores de dominó...

Sem dúvida uma história ou “assunto” surgirá dessa tapeçaria da realidade. Ah! Aqui temos uma verdade das belas: um grupo de jovens fundamentalistas ataca os clientes. E (ação/reação) aqui temos um personagem romanesco que emerge, Bouzid que organiza a população contra os adolescentes violentos estabelecidos na floresta. E então, nada. A guerrilha islâmica está lá, fora de campo, e Bouzid é uma figura que ganha visibilidade durante a construção do filme, mas ele não se estrutura, não é o herói, nem tampouco o anti-herói quando descobrirmos o lado antipático do bom moço. A história, portanto, não seria outra senão a daquela jovem mulher que abandona seu marido abusivo e cuja família recusa a acolhê-la com seu filho? Não exatamente, mesmo que, a princípio marginal, Louisa alcance o centro do Bled...

Mas o que aconteceu? O que acontece é que, sem nenhum efeito de condução auterista, Rabah Ameu-Zaïmeche inventa sob nossos olhos uma maneira inédita de se fazer um filme.Existem histórias, e múltiplas. E personagens também. Assuntos? Aos montes - violência fundamentalista, solidariedade comunitária, tradicionalismo impiedoso com as mulheres, análises sobre as crianças que emigram e as que permanceram no povoado... Nem as histórias, nem os personagens, nem os assuntos conduzem o filme, que não se apóia em cima de um desenvolvimento linear - nem mesmo de vários. Pensaríamos nos filmes mais delgados de Hou Hsaio-hsien, se cada plano não estivesse carregado duma matéria e duma luz que tudo deve a esta terra da África do Norte, a flor do Mediterrâneo.

À medida que, de forma sempre simples, sempre atenciosa aos gestos, aos rostos, às conversas cotidianas, RAZ compõe suas seqüências, nos parece que elas funcionam sobretudo por causa de "toalhas xadrez", por zonas espaço-temporais, cada uma transformada coerente por um assunto, uma emoção, uma reunião justa de componentes de todas naturezas: certos sons, certas luzes, certas vibrações se amarram, compondo um estado estável mas transitório. À esta arte poética de fabricação desses blocos de espaçotempo-história, junta-se o conhecimento ou o instinto bastante seguro na maneira de reuni-los. Jamais para juntá-los completamente, jamais heterogêneos demais entre si, compatíveis mas diferentes. Como as toalhas-xadrez sonoras que ecoam diversos músicos tocando cada um sua linha melódica, mas dentro da mesma sensação da música. Como um quadro composto de diferentes cenas pintadas com cores diferentes, que descobrem juntas uma nova compatibilidade, um sentido mais vasto. Esta forma de emparelhar a fundo a natureza dupla daquilo que aparece na tela, é a realidade repreentada: os corpos dos atores e o papel dos personagens, a realidade da natureza, a escuridão da noite, da potência mitológica da floresta ou do mar, etc., e seu motivo para aparecerem no discurso. Os flashes de violência, às vezes extremos, ecoam entre si sem se equilibrarem, e menos ainda se explicarem. Sem completude do sentido, simetria alguma, bastante face-a-face onde ninguém jamais se posiciona costas-a-costas.Certo de sua certeza - a qual ele prova ao avançar sem tropeçar - este exercício de encenação anda em corda bamba, constantemente arriscando perder seu fio estreito entre realidade e ficção, abre espaços imensos, possibilidades que parecem infinitas.

Uma música, uma canção acompanha a viagem, é Rodolphe Burger, sentado na colina, que canta e toca a canção, a guitarra consigo, amplificador ao seu lado. O filme encontrou, sem fazer esforço, seu lugar na imagem desde que ele se separou de sua banda. Ao final da revolta e da opressão, Louisa (a magnífica Meriem Serbah) é levada ao mar para um exorcismo, o arcaicismo e a superstição semi-abertos para permitir que uma única mágica aconteça durante a cerimônia, inexplicável como a beleza do cinema. Antes (ou depois?) que se passe à memória armada da luta de liberação, temos o filme ou os homens que o dominam se recentrarem nas mulheres, e então esta história do interior é reencontrada na grande cidade.

Sempre quando uma encenação é diapasão regulado daquilo que ela filma e das razões porque a filma, todo objeto é carregado de hipóteses de ficção, de ecos poéticos, de sentidos tão diversos como esta ponte, passagem ou ponto limítrofe, que leva à vida ou à morte, fronteira metafísica sobre a qual o destino de Louisa irá pender. O filme ecolherá. A personagem escolherá. O mundo está lá, quer dizer, uma lógica alternativa àquela das diferentes ordens dominantes (inlcuindo a ordem cinematográfica) encontradas na própria organização do filme como no comportamento - oh, infelizmente tão realista - de seus personagens. Assim "Bled Number One" acaba naturalmente ao entrar pisando firme na casa dos loucos, das loucas especialmente, essas mulheres abrigadas em si mesmas ou que, ao contrário, reinvidicam a ultrapassagem dos limites.

E uma, que não é louca, mas está com as loucas, a magnífica médica, fala uma linguagem de razão que, dentro deste contexto, sôa como um canto quase sobrenatural. E outra, a mais bela das loucas, esta Louisa que todos queriam que ficasse quieta, de repente canta, canta de maneira esplêndida, sua voz se torna um blues sobrenatural. Neste momento, o filme compara a médica e a cantora, ambas dizem palavras de sabedoria, ambas soltam um suspiro no qual beleza e sofrimento se misturam, nascidas num mundo tal como este.

(publicado na Cahiers du Cinema no. 613, junho-julho 2006)
  Bernardo Krivochein    quarta-feira, outubro 03, 2007
 
 
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