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Postagem do Festival #5: Isso não é a hora e nem o lugar apropriado


Antes de tudo, perdoem-me se a cobertura do Festival do Rio deixou os pés pegarem friagem: decubro que é definitivamente impossível conciliar emprego, maratona de filmes - por mais tranqüilo que seja a programação pessoal montada - cursos, treinos e a composição de artigos. Decidi tomar mais tempo para assistir aos filmes, pensar e escrever sobre eles - estou cansado de fazer textos demasiadamente precipitados apenas para tirá-los do caminho em privilégio a próxima análise. E até existem textos para serem publicados sobre alguns dos filmes vistos, mas a edição do site está enrolada com a realização de seu próprio festival. Então a cobertura do Festival do Rio se prolongará após o seu término e os textos continuarão a surgir até eu dar cabo de todos os filmes vistos durante o evento (que no total serão por volta de 30).

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Fica para a próxima: a equação Palma de Ouro + Crítica positiva no jornal dominical + Sessão de domingo no Estaçaõ Ipanema transformaram a busca pelos ingressos restantes de "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" um pega para capar. Fico pensando na frustração do público do INDIE quando são obrigados a enfrentar fila para pegar os ingressos de graça, preferindo pagar se fosse para ter o conforto, e eu aqui, podendo e querendo pagar inteira, e ainda assim enfrentando fila quilométrica e sem a certeza de garantir nada. Aliás: e efetivamente não garantindo nada, já que preferi esperar o lançamento nacional pela ressucitada Lumière.

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A fila em si não é tanto o incômodo. Incômodo é acidentalmente se pegar prestando atenção naquelas famosas conversas de fila (ou de pré-início do filme), que fazem a pele formigar. Não há lugar mais inadequado do mundo para se falar de cinema do que num festival de cinema. O assunto é redundante feito flores na primavera, mas a articulação das idéias é feito uma poça de merda mole no meio dum salão de mármore. Há algo na situação "festival de cinema" que se impõe sobre o indivíduo e que o obriga a se expressar de uma forma meio arrogante, mesquinha, estúpida ao dialogar com seu próximo: há uma necessidade de querer se provar, impor o gosto, mostrar conteúdo e inteligência, fundamentar sua perspectiva sobre um filme em particular em cima de referências supostamente firmes, que fazem as pessoas emitirem frases taxativas, meio tolas, seja sobre cinema ou artes em geral.
Quando elas falam sobre um amigo em particular que ficou muito bêbado e fez uma merda fenomenal na festa de fulana na noite anterior, isso não incomoda. É o assunto cinema dentro da situação cinema na qual estão todos envolvidos que meio que envolve a audição não-autorizada de terceiros a contragosto. Eles não querem ser ouvidos por estranhos (ou querem?) e os estranhos não querem escutar tampouco. Sei lá, acabei ouvindo uma ou outra coisa constrangedora (inclusive uma conversa de celular que comentou um dos maiores sites de cinefilia atual com uma jocosidade que me fez enrubescer - ninguém mais leva ninguém a sério, mesmo quando são levados a sério?), a maioria sobre gostos cinematográficos e filmes vistos. Um "running commentary" sobre a beleza técnica de "Paranoid Park". Uma forma como um mais efeminado a-do-rou "Elefante", que era tudo. Um deboche sobre os momentos mais novelescos de "Lady Chatterley". O já mencionado "fracasso" de Tsai Ming-Liang após "O Sabor da Melancia". O modo como Carlos Reygadas aparentemente foi possuído pelo espírito do bom gosto e realizou um excelente filme - o que me fez querer desgostar de "Stellet licht" após escutar.
Irrita, porque ninguém está te perguntando nada, mas ainda assim dá vontade de subir num palanquinho, já que ninguém cala a boca, e desdizer tudo o que está sendo dito ao seu redor: uma coisa estranha ebule, um desejo de ser puramente contrário, apenas porque te incomodaram - mesmo sem querer (mas você jura que foi de propósito e que as pessoas estão meramente querendo se exibir; o que tem seu abismo de verdade, especialmente no Rio de Janeiro) - e precisa colocar os pingos nos i's. Talvez seja algo no tom adotado nas conversas, que exprime uma certa arrogância ao conferirem um parecer equivocado sobre certo filme, nos inspirando a criar um argumento mental inteiro para provar o engano de tal indivíduo. É um colapso de egos entre aquele que faz vitrine de si mesmo e de suas críticas idiotas e do outro que até tem argumento melhor, mas prefere engolir tudo e fantasiar sua superioridade em seu ridículo mundinho interior; convencidos x frustrados.
Enfim, próxima fila de cinema, falem sobre o preço do brócolis, sobre o melhor absorvente no mercado. Tudo, menos filmes. Não tem como sair nada de bom sobre o assunto cinema numa fila de festival. É uma condição atmosférica. Guardem seus pareceres para o bar após o cinema (sempre um excepcional programa), para a conversa descontraída em casa, íntima, entre amigos e reais interessados. E recomendações cinematográficas eufóricas na ante-sala do cinema também são um grande faux pas.
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Fila da sessão de "Une Vieille Maîtresse" de Catherine Breillat no Estação Botafogo 1. E eu digo "fila". Porque é domingo e muita gente veio ver o filme de época descrito na programação sem fazer a menor idéia do que é uma Catherine Breillat na vida de uma pessoa. Quem a conhece, sabe que ela guarda absorvente íntimo no mesmo armário do saquinho de chá. A fila repleta de pessoas que erraram a sala de "Ligeiramente Grávidos". No fundo da minah mente, eu quero que a francesa seja, pelo menos hoje, a mais escabrosa possível, que me deixe de cabelos brancos, apenas para ter o prazer de ver o pessoal arrumadinho colecionando mais imagens para seus pesadelos classe média (em dado momento do filme, isso quase acontece). Mas é Breillat-light, como já era de se esperar, um filme sem impacto maior tanto para seus seguidores quanto para marinheiros de primeira viagem. Falta crueldade tanto às maquinações da trama quanto às imagens. Mas até que entretém, ainda que não era lá exatamente o que o filme procurava.
Mas permaneçamos na fila: uns pobres diabos fazendo street team para uma campanha publicitária da Petrobrás, vestidos feito lanterninhas ufanistas, abordam os espectadores na fila para participarem de uma espécie de jogo da memória: com uma espécie de ábaco glorificado em mãos, eles giram stills de filmes patrocinados pela BR os quais o espectador precisa identificar 4 que pertençam a um mesmo título. Fazendo isso, os pespectadores precisam sapatear em público (eu juro por Deus!), cantar alguma música de um desses filmes e responder qual é o nome da maior patrocinadora de filmes nacionais do Brasil.
O grande prêmio? Preparem-se, pois trata-se de um EXCELENTE prêmio! Depois de sobreviver a todo esse processo de lavagem cerebral e humilhação pública, você terá direito a um... Imã de Geladeira! Mas não é qualquer Imã de Geladeira; é um Imã de Geladeira BR, com cartazes de filmes brasileiros a sua escolha!
Depois de tudo isso, o espectador ainda responde à pesquisa da agência de marketing: o que você achou dessa estratégia?
Sejamos justos, para o público que ali se encontrava, um bando de velha abobada e adultos meio Kenny G., a parada até que funciona. Mas convenhamos que é péssima, um pouco irritante e a forma como as pessoas se dispõem a se rebaixar, deprimente. O pior é o famoso condicionamento mental a responder: "Petrobrás", mas deixe para uma carioca espirituosa defender a nossa honra, quando o pobre rapaz - aliás, entregue de corpo e alma ao jabá publicitário - hesita na campanha:
"Qual é a maior empresa do Brasil?"
"Ora, a Vale do Rio Doce!"
E de acordo com a pesquisa de quinta-feira feita pelo índice Bovespa, ela estava certa. A Vale do Rio Doce havia se tornado a empresa mais valiosa do país. Era uma daquelas coisas que eu também queria ter dito ao rapaz - caso participasse da brincadeira, o que jamais iria acontecer - mas jamais teria feito porque eu tenho consciência demais de que por trás daquele uniformezinho ridículo tinha alguém simplesmente tentando ganhar a vida. É por isso que não atirei no crânio do guarda-volumes noite passada. Mas ridicularização por ridicularização, o rapaz fez com que ela contornasse sua resposta, apenas para ter direito ao precioso e raríssimo brinde.
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Na mesma noite do post passado, fui assistir "Planeta Terror", o filme de Robert Rodriguez para o projeto Grindhouse. Rodriguez paga um pouco o preço de ser o primeiro filme de um double-feature artificial de três títulos (o uniforme, o seu e o de Tarantino). Por ser obrigado a se apresentar "Grindhouse" antes de ser "Planet Terror", acontece uma estranha perda de força na sua simulação de filme antigo (o trailer de "Machete" diverte, no entanto). Pior: o vídeo digital utilizado por Rodriguez não se faz passar por película nem por um cacete e, ao contrário do longa de Tarantino, as falhas de película, riscos, oxidações e etc., ficam parecendo artificalidades estilísticas de um clipe do Samuel Bayer (coisa que a gente vê no cinema desde os créditos de abertura de "Seven"). Se fizesse se passar por um desses filmes feitos diretamente para o vídeo, como os de Lorenzo Lamas ou Don "The Dragon" Wilson, funcionaria muito melhor. O que não quer dizer que não seja divertido: é tudo delirantemente over (mas consciente até demais disso), o sintetizador a la John Carpenter é um ótimo toque e Josh Brolin faz um vilão genial. Ao que Tarantino compreende o grindhouse até nos seus piores defeitos, Rodriguez mantém somente aquilo que ele aprecia, abandonando as partes chatas, e aumenta sua intensidade. Um público escandaloso melhora bastante a sessão.
Mas o dia seguinte se tornou talvez o marco cinematográfico do meu ano: 3 filmes seguidos, 3 obras esperadas, 2 cinemas. "Mogari no Mori" de Naomi Kawase, seguido imediatamente das três horas de "Lady Chatterley" de Pascale Ferran, e finalmente "Paranoid Park" de Gus Van Sant. O que deve ser dito deles o será nos textos no site principal. Meu preferido tem que ser, no entanto, "Mogari no Mori" - o qual estou tendo dificuldades para escrever sobre. Espécie de melodrama sensualista, a história sobre uma tramatizada auxiliar de um asilo que acompanha um viúvo à floresta onde está o túmulo de sua esposa de tão espetacular, torna-se sobrenatural nas curvas finais por simples falta de espaço para ampliar-se nessa dimensão. Um dos grandes de 2007.
Houveram "Woman On The Beach", o mais engraçado-ainda-que-nada-leve de Sang-Soo, meu primeiro filme do diretor visto num cinema (longe pra caralho), para grandioso efeito. A tela grande desvenda Hong Sang-soo de maneira mais intensa do que a caseira a qual os brasileiros tiveram que recorrer até hoje para conhecê-lo. Tudo bem, o Festival do Rio tem a honra de ser o primeiro festival brasileiro a exibir um Sang-soo em território nacional (por uma semana de diferença, aaargh!), mas só de saber que é em BH que a quase totalidade da obra de um dos cineastas coreanos mais bem sucedidos artisticamente será exibida, e em première, nos dá orgulho. 2007 é o ano de Sang-soo no Brasil.
Com esta sessão e a de "Une Vieille Maîtresse", meu fim de semana no Festival do Rio se completou. Adentramos a semana intermediária do Festival, que acaba oficialmente quinta, mas proporciona uma semana de repescagens. Os completistas agradecem.
  Bernardo Krivochein    terça-feira, outubro 02, 2007
 
 
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