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INDIE 2007 - Mulher Na Praia (Haebyonui yoing) de Hong Sang-soo


Namorados e Namoradas


por Kevin B. Lee


O protagonista do novo filme de Hong Sang-soo "Mulher na Praia" é um diretor enfrentando uma encruzilhada em sua carreira. Poderia o mesmo ser dito de Hong? Já são 10 anos desde o seu début "O Dia que o Porco Caiu no Poço" (1996); seis longa-metragens depois, ele é presença assídua no circuito de festivais internacionais (o ultra-exclusivo New York Film Festival tem programado os lançamentos mais recentes de Hong a cada um dos últimos três anos). Desde "Virgem Desnudada por Seus Pretendentes" (2000) e "Turning Gate" (2002) hipnotizaram freqüentadores de festival com seu exame altamente estudado mas ainda assim descontraído das relações sexuais, uma pequena porém intensamente apreciadora base de fãs nutriram grandes expectativas para o dia em que Hong - que às vezes é chamado de a resposta coreana a Eric Rohmer - se tornasse um nome localmente estabelecido.

Isso ainda não aconteceu: Apenas um filme de Hong, "A Mulher é o Futuro do Homem" (2004), conseguiu distribuição na América do Norte. Não surpreende que um diretor asiático que não oferta filmes de ação seja dado tanto desprezo internacionalmente, pouco importando que ele estudou nos EUA e cita Rohmer, Buñuel, Renoir e Bresson entre suas influências. Mas mesmo na Coréia do Sul, os filmes de Hong não sucedem em sair do pequeno circuito de arte, apesar de rotineiramente escalar estrelas populares do cinema e TV para papéis de destaque. Talvez o formalismo rigoroso de seus filmes e sua perspectiva sóbria do amor e relacionamentos como uma função do ego e do desejo egoísta deixem a platéia desconfortável. Claro, esse desconforto é precisamente o que Hong está procurando. Apesar de suas cenas serem tão meticulosamente compostas quanto qualquer outra que possa ser encontrada hoje, seu cinema é tão incomodado quanto seus protagonistas masculinos: considerando e reconsiderando o significado de um evento, uma declaração inapropriada, um gesto acidental, e nunca plenamente satisfeito com o que descobre. O resultado tem sido uma das filmografias mais consistentemente descompromissadas em memória recente.

O que, portanto, significa que a frase comum encontrada em resenhas de "Mulher na Praia" seja "o filme mais acessível de Hong Sang-soo até agora"? A trama do filme é o mais próximo que Hong chega de ser puro gênero (no caso, uma comédia romântica de erros) e é, sem sombra de dúvida, seu filme mais engraçado. Na maneira caracteristicamente bifurcada de Hong, ele justapõe dois triângulos amorosos, ambos envolvendo o conflituoso diretor de cinema Kim Joon-rae (Kim Seung-woo) e o objeto quente-frio de seu afeto, a compositora Kim Moon-sook (Ko Hyun-joung). Na primeira metade, Joon-rae obtém sucesso ao seduzir Moon-sook para além de seu prórpio diretor de produção, Won Chang-wook (Kim Tae-woo), numa sucessão hilária de pequenas batalhas hierárquicas entre o trio. Pós-coital, Joon-rae descobre-se desiludido com Moon-sok e abandona o resort na praia apenas para retornar dias depois à procura dela. Em seu lugar, encontra Choi Sun-hee (Song Su-mi), cuja semelhança com Moon-sook é surpreendente, e acaba envolvendo-se com ela no mesmo quarto de hotel. Quando Moon-sook chega bêbada e começa a esmurrar a porta, a situação parece ter amadurecido ao ponto de tornar-se uma farsa.. Como é de costume, no entanto, Hong minimiza a ação, estendendo-se nos momentos insuportavelmente desconfortáveis quando as pessoas encontram-se em sinucas amorosas ao mesmo tempo que conduz o espectador a uma consideração mais reflexiva desses envolvimentos dignos de tablóides.

Apesar da direção lúcida de Hong estabelecer "Mulher na Praia" bem acima das comédias românticas convencionais, alguns aficionados por por Hong, assim como seus detratores, não se permitiram fascinar por esta obra decididamente mais acessível à platéia, percebendo o filme como preguiçoso, digressivo e não tão rigorosamente construído como seus filmes anteriores. Para alguns fãs puristas de Hong, o uso de zooms ao estilo dos anos 70 para focar indivíduos em determinadas cenas é uma variante frágil de seu raro dom por usar a encenação para redefinir relacionamento dentro de um só plano. Num das cenas, que facilmente enquadra-se entre as mais memoráveis dos filmes de Hong, o diretor Kim usa um diagrama geométrico para explicar por que ele não pode continuar seu relacionamento com Moon-sook. A cena rotineiramente arranca gargalhadas das platéias, mas alguns dos fãs de longa data sentem que ela didatiza muito das propriedades analíticas do trabalho de Hong (ele "está entrando em território de Woody Allen", como um crítico online expôs).

"Mulher na Praia" pode representar um movimento em direção a uma narrativa mais comercial, mas é prematuro dizer que o diretor se vendeu. O filme resume o questionamento do longa anterior de Hong, "Conto de Cinema", ao examinar o papel do cinema na facilitação do reelacionamento do homem com outros e consigo mesmo. O diretor Kim utiliza seu status para deslumbrar ambos objetos de seu afeto; ele até conduz uma entrevista com Sun-hee sob a premissa que ela o lembra de um personagem que está compondo. Com seu comportamento brusco e manipulações constantes, Kim trata sua vida como um set cinematográfico ou uma obra de arte que ele esculpe interminavelmente para assemelhar-se com sua própria visão insaciável.

A cena do diagrama mencionada acima explicita a preocupação com a persistência e os limites da percepção que Hong explora desde o início de sua carreira; o que é novo e animador em "Mulher na Praia" é o grau de espaço que Hong permite para o conjunto de percepções e de fracassos pessoais de mais de um personagem. Isso é particularmente verdade com Moon-sook, que a princípio aparece como mero objeto de desejo; Kim casualmente dispensa suas opiniões mesmo quando está tentando seduzi-la. Há debates correntes em cima do grau de objetificação da mulher nos filmes de Hong, seja como pára-raios do desejo masculino, seja como contrapartes sofredoras e algo idealizadas da idiotice masculina. No entanto, aqui Moon-sook desenvolve-se num ser tridimensional, com inseguranças e desejos o bastante para rivalizar o catálogo de homens mal-comportados de Hong. Ao final, ela literalmente vai embora com o filme numa brilhante mudança de identificação da platéia. Enquanto Kim parece fadado a repetir seus rituais de indecisão artística e sexual, Moon-sook é tomada por um sentimento de liberação e redescoberta de si mesma que, ainda que expressa com o silêncio característico de Hong, é digna de um filme de Roberto Rossellini-Ingrid Bergman. Comparando-se os dois protagonistas, espera-se que Hong esteja levando a sério o título de um de seus filmes: que, quem sabe, a mulher seja de fato o futuro do homem.

(publicado na Cinema Scope no. 29, Inverno 2007)

Trailer coreano de "Mulher na Praia":

  Bernardo Krivochein    quinta-feira, outubro 04, 2007
 
 
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