blogINDIE 2006
Pós-Ambulatório

Seria preciso um duplo tato que me falta caso eu fosse criticar "Ismar" de Gustavo Beck. Um: porque eu conheço o diretor (amigo de amigos, na realidade) e esta semi-proximidade sempre me inspira o silêncio estratégico, já que ao mesmo tempo em que você não quer magoar no caso de recepção negativa, o orgulho da recepção positiva pode motivar uma exaltação exagerada, sendo finalmente prejudicial próximo ao público e crítica (e não que o filme precise de um plugue publicitário de um site de quinta, já que vem sendo selecionado para vários festivais). Dois: não ter o hábito falar de curta-metragens, sendo mortalmente consciente de que não consigo me adaptar a situações, pessoas e lugares num curto espaço de tempo - eu preciso de um ritmo e tempo de costume.

Mas caso coubesse a mim abordar criticamente "Ismar" (que assisti por acaso neste fim de semana), eu diria que o estilo não-intrusivo da direção de Beck permite que o curta se organize de forma espontânea, as imagens se dispondo instintivamente para compôr de forma bastante sucinta a narrativa: a melancólica trajetória descendente de um autêntico wiz kid especializado em cinema hollywoodiano a este inferno que é a cultura alternativa carioca. Existe uma elegância (que é verdadeira) na forma como a estrutura parece arquitetar-se de forma não-manipulada (que é falsa, mas positivamente), permitindo que imagens de acervo (que compõem, eu diria, 80% do filme) sejam inseridas em blocos maciços, sem dinamizações de montagem e de direção - o que pode parecer fácil, mas é necessário uma auto-confiança alienígena a diretores basicamente iniciantes para não cair na tentação de se colocar mais, se impor mais. Assim sendo, ele conseguiu fazer um filme que não parece ter sido feito, não parece ter sido construído, tampouco parece ter sido dirigido, mas sim aflorado de algum lugar estranho entre o passado que esqueceram de queimar e o presente que paga o preço das lembranças.

Claro que eu tenho ressalvas a certos aspectos do curta; só lembre-se que não estou o criticando (e mesmo se estivesse, este é um típico caso dos "Mas" da resenha cinematográfica e que eu dissertarei ainda esta semana), mas partindo dele para refletir sobre alguma outra coisa que implica a todos nós que dizemos gostar (e até bem mais do que isso) de cinema. Portanto preciso dizer que, por mais impressionante que "Ismar" seja, eu o apreciei bem mais pelo modo como sua suposta crítica ao cinema - ou pelo menos, à sua forma mais espetacular e artificial - sai pela culatra (uma interpretação comum entre aqueles com quem assisti ao filme, mas estou aberto para ser corrigido sobre tal).

O que acontece: após o fim de sua carreira como estrelinha de programas de auditório, encontramos o protagonista aparentemente decepcionado (espere para ver muitas histórias como esta quando "Soletrando" do Luciano Huck sair do ar) e, parafraseando o próprio, importando-se apenas com a "verdade". Tendo feito carreira como intolerável enciclopédia mirim de informações cinematográficas de filmes clássicos, subentende-se que "verdade" é um rechaçamento deste cinemão tipicamente hollywodiano que antes o fascinava (mais do que o cinema como um todo, o que é também uma possibilidade) e que lhe causou uma decepção da qual ele até hoje não parece ter se recuperado. Somente hoje, quando se encontra amuado com o cinema, ele se torna estrela de um filme. O que não é nem um pouco irônico, apenas característico da natureza cinematográfica.

Meu objeto de fascínio é justamente este "alerta": amar o cinema não é saber de cor o elenco e equipe técnica de "O Poderoso Chefão". Especialmente no Brasil permite-se cair no equívoco de privilegiar avaliação acima de impressão, o que quer dizer, o indivíduo estando em dia com as informações técnicas do filme, coloca-se numa posição de autoridade para julgar, ao invés de realmente apreciar.

Não escrevo isto me fazendo de inocente, tendo começado a fazer críticas basicamente no mesmo espírito, como também sendo cobrado e até dispensado ao me confundir nesta ou naquela minúcia. Não estou patrocinando a desinformação e jamais dispensaria as correções que volta e meia muito justamente me fazem. Não escrevo para me isentar das muitas cagadas que já deixei passar. Mas saber o que se está fazendo (travelling, grua, plongée) não é saber como se está fazendo (que envolve a reação química entre aparato cinematográfico com a realidade sempre espontânea) e corriqueiramente comete-se o erro de acreditar que, dominando o nome dos termos, domina-se a realização. Parafraseando David Fincher, aprender a filmar é precisar filmar cinco planos antes do sol raiar quando você sabe que só conseguirá no máximo dois. Este erro que muitos aspirantes a cineastas cometem (pois partem de um pequeno desprezo aos filmes que vêem, dizendo: eu teria feito muito melhor) se estende para a dissertação cinematográfica.

A repetição automática de informações amplamente divulgadas é um falso substituto de sensibilidade crítica, que é inerente a todos, mas mal exercitada em prol de tecnicidades que prestarão para, no máximo, comeptições de quiz valendo batedeiras elétricas. O tal Ismar é testado em programas de televisão pela quantidade de curiosidades cinematográficas que carrega, jamais pela qualidade ou peculiaridade delas, que é o que deveríamos estar patrocinando. Se ele se decepciona com o Cinema porque uma certa informação sobre o assunto lhe falta no momento oportuno, é uma tragédia auto-imposta; e não porque o Cinema é falso, cruel, ardiloso, artificial como o curta-metragem aparentemente tenta transmitir. O Cinema não faz questão nenhuma que você saiba, ele exige que você seja. Por isto, o Cinema é uma arte tão fascinante: quando você tenta fazê-lo peça de catálogo, ele rapidamente se esquivará para longe de seu alcance. É somente quando abandonamos o cinema que nos tornamos cinematográficos.

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Voltando de viagem. Não viveria em outra cidade senão o Rio de Janeiro nem a porrada, mas não me imagino dando certo nela tampouco. Por que eu tenho essa impressão de que as coisas, como eu as imagino pelo menos, tem mais potencial de florescer em São Paulo, BH, qualquer outra capital ou cidade mais urbanizada, do que no RJ?

O que acontece no Rio de Janeiro para não-cariocas: por ser uma cidade histórica com um passado definitivo para o país, ainda que de expressão cada vez mais diminuta no cenário nacional em praticamente todos os âmbitos, o espírito empreendedor do carioca fica bastante atrelado aos sobrenomes de destaque associados ao projeto, ou seja, todo mundo é muito importante (a característica do carioca é ser VIP, ao ponto de pagar o dobro do preço do ingresso apenas para figurar na lista de convidados com entrada grátis), todos os projetos precisam ser trampolins sociais e ninguém faz nada pelo desejo de realizar um bom projeto, mas abrem as pernas para se humilharem realizando os piores comerciais do mundo na INSIRA NOME DE PRODUTORA AQUI, apenas por ser estabelecida e ovobabada. E recebendo o pagamentozinho fedido atrasado, isto quando sequer recebem. Existe ainda um deslumbre pelas dinastias (que, por sua vez, dominam) e a classe média carioca, bem ou mal, alimenta esse sonho pequeno-burguês de integrá-las. Você sabia que ainda se paga uma taxa aos herdeiros da família real para cada construção que se ergue em Petrópolis? Pois então.

Não que existam mais oportunidades nas cidades mencionadas, mas acredito sim que existam mais pessoas com espírito empreendedor, mais dadas a mergulharem de cabeça em projetos caso sendo convidadas, a acreditarem naquilo que se está fazendo (ao invés do status que participar de projeto X lhe dará). A arte, no Rio de Janeiro, é muito afetada pela exposição social. De fora, parece que há uma efervescência cultural, mas o que há na realidade é uma poderosa máquina de mídia que confere exposição a nível nacional de basicamente tudo aquilo que se faz no RJ, sem o menor critério. Por isto que de vez em quando o piauiense tem que conviver com a "Festa no Apê" por vários meses, ainda que tenha vivido numa oca no meio do mato a vida inteira. As iniciativas artíticas em outros estados, além de mais numerosas, me parecem mais viscerais, mais autênticas, mais originais, mais urgentes. Quer dizer, o pouco que vejo e de qualidade, porque também tem muito deslumbrado com a velha capital que tenta regurgitar a tendência deste balneário que eclode em expressões artísticas, na falta de melhor palavra, trágicas.

Este deslumbre me deixa um pouco irritado, porque o indivíduo não percebe a oportunidade que tem ao poder contar com os vizinhos, ao poder contar com os amigos, ao poder contar com o apoio do dono da padaria que o conhece desde moleque. Repetindo que "cultura" é um termo originalmente agrícola e que vem de "cultivar", temos aqui a oportunidade de cultivar uma expressão, uma estética. Normalmente jogada fora porque neguinho enfia na cabeça que cinema é Bruce Willis e que precisa estar na cidade grande para acontecer. Tem quem dê certo. Mas a maioria que "dá" certo nem sempre dá certo, se é que vocês me entendem. Quero dizer que a maioria das pessoas que vocês vêem na TV aí na roça não passa no teste da farinha, inclusive os figurantes lá no fundo que achavam que dando para o INSIRA O NOME DO DIRETOR AQUI iriam finalmente acontecer. Um conhecido que trabalha na INSIRA NOME DO CANAL DE TELEVISÃO AQUI disse que lá só existe uma pessoa que nunca deu o cu e só come mulher gostosa: INSIRA O NOME DA DIRETORA AQUI.

No Rio de Janeiro, um cineasta que não quer falar sobre as mazelas brasileiras e nem sobre as maravilhas/tragédias de ser pobre é como ser negro e não gostar de samba ou de hiphop, uma mulher que não quer ser subserviente e nem cocota pra macho assobiar, um surfista que não quer fumar maconha e nem falar como um retardado, ou um homossexual que odeia pistão house music e ser afetado: você acaba sendo isolado e, insistindo na sua vocação, provavelmente será também boicotado, simplesmente por não se identificar com a mentalidade de colméia que rege essas pequenas máfias. É nadar contra a corrente. Quem ainda quer viver, no entanto, continua.

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Bobagem que minha cabeça insiste em regurgitar. No blog do Filmes Polvo (o site inteiro, aliás, está todo redesenhado, uma graça), uma entrada de Marcelo Miranda que me pareceu bastante simpática, intitulado "Flashes de uma tarde cinéfila", no qual ele compartilha os detalhes de um típico dia para alguém fissurado por cinema: algumas reflexões sobre alguns filmes, uma lista de filmes alugados em VHS e que rende dos comentaristas respostas sobre suas próprias tardes cinéfilas, o que por alguma razão gostei muito.

Talvez seja algo que venha de "Desempacotando minha biblioteca", no qual Walter Benjamin diz que uma coleção só faz sentido para seu colecionador (pois é ele que estrutura a ordem e o motivo das compras e só ele sabe o grau de importância de cada item) e, uma vez morto, a estrutura organizadora da coleção se desfaz e jamais poderá ser recomposta como antes. Logo, tão importante quanto os títulos dos filmes e as impressões pessoais seja justamente a forma como os filmes foram vistos, a lista dos aluguéis, a lista de torrents, o que se fez no meio tempo.

O post veio num momento no qual reflito sobre qual a melhor forma de se cobrir um festival. Minha abordagem, que dá muito pouco certo todos os anos, é a seguinte: todo filme merece um texto com substância. Se não for escrever sobre um filme X com a mesma propriedade que está dispensando para o filme Y, é melhor deixar para depois. Mas os filmes se acumulam, os textos vão sendo esquecidos e normalmente a cobertura do festival dá uma conta bem menor do que a quantidade de filmes que foram realmente assistidos. Outros sites conseguem bem mais e bem melhor. Tudo bem que só tem o idiota aqui enquanto os outros tem equipes, colaboradores, trapezistas de circo.

Então eu fico estudando se, em nome da regularidade acima da substância para todos os filmes, não seria melhor adotar um estilo mais diário para estas coberturas. É isto que os interessados querem? Ou melhor, também querem, porque a resposta das críticas postadas durante os festivais sempre é bastante positiva (por isto agradecemos muito; não é fácil num regime intenso de filmes e coxinhas requentadas). Uma coisa eu sei: eu certamente gosto de saber o costume cinematográfico de uma típica tarde de sábado para cinéfilos espalhados por aí. No próximo fim de semana, vou lançar um projeto para descrever seu sábado cinéfilo: os filmes alugados e devolvidos na locadora, os filmes vistos no cinema, o que se faz no interim (visita a algum lugar favorito, compra de livros, revistas, ou aquele kibe na rotisseria do Largo do Machado). Voluntários?

  Bernardo Krivochein    terça-feira, abril 08, 2008
 
 
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