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Cinema Sim fala de um cinema-arte que inclui um espectador em pé, desperto.

Dispa-se de suas idéias sobre cinema. Imagine que é possível experimentar uma outra concepção de imagem em movimento que vai além daquilo que você conhece como oficial. Se algum dia você pensou em criar uma imagem com sua câmera portátil e fazer um vídeo, saiba que poderia ir muito além e criar sua própria máquina. A exposição "Cinema Sim - Narrativas e Projeções" traz experiências que vão além da velha arte centenária de contar histórias (e a questiona essencialmente) e nos coloca em pé diante das questões que envolvem a especularidade. Não é, como diz o curador, Roberto Moreira S. Cruz, no catálogo, "uma exposição sobre cinema, mas sobre idéias e conceitos que relacionam o cinema às artes visuais".

O que surpreende na exposição além dos 18 trabalhos dos 11 artistas é sua concepção conceitual sofisticada do início ao fim. Com apuro e bom gosto, a museografia de Valdy Lopes Jn (diretor de arte de filmes importantes como Cinema, Aspirinas e Urubus de Marcelo Gomes e Linha de Passe de Walter Salles e Daniela Thomas) nos insere num espaço imersivamente escuro, perfeito para fruir as obras e quem sabe criar modos de ver que assim como o cinema falam mais próximos ao inconsciente, (nos mínimos detalhes como em pequenas frestas de espelhos pregadas em certos lugares que nos dão a sensação de estar espiando um outro lado que na verdade não há; como nas imagens iniciais do cinema de Muybridge na escada do Itaú Cultural; como em toda iluminação ou nos letreiros na entrada inspirados em Blow Up de Antonioni e até mesmo nos displays eletrônicos com as informações sobre as obras).

Com todo este cuidado cenográfico, no entanto, o evento não suplanta as próprias obras, motivo principal de tudo. E a exposição foge da linha "cenográfica" - como aquelas que são produzidas para além de um contéudo estético e que plantam sua base na construção de uma temática, como as exposições tão comuns no Museu da Língua Portuguesa ou na Oca em São Paulo, ou a dos museus temáticos como o Museu do Futebol. Nestas exposições e museus temáticos interessa mais a cenografia e o nível de envolvimento criado com o espectador ( se intenciona uma interação, um jogo). Não há obras (em si ou per se) mas sim uma alusão a artistas ou movimentos que são explorados de maneira imersiva, às vezes superficial, às vezes divertidamente lúdica.

"Cinema Sim" não tem nada a ver com esta onda. Os artistas e suas obras estão ali como centro de uma curadoria, que demonstra um grande interesse nas idéias. E todo o entorno colabora para a obra. Isto deve ter feito os artistas convidados muito felizes.

No geral, as obras parecem estar divididas em duas grandes intenções. De um lado estão as máquinas criadoras de imagens, luz ou sensações que questionam a essência desta grande estrutura de imagem que temos do mundo ( das câmeras fotográficas industriais, das lentes, tema já tão discutido pelos teóricos da semiótica). Nesta experiência criativa está uma questão política na qual o artista se defronta com a sua capacidade de reconstruir o conceito, o clichê ou o produto pronto de consumo:imagem.

Neste nicho estão as obras do brasileiro Milton Marques (verdadeira engenhocas de desconstrução e construção alternativa do fazer ver, uma realidade própria, especial), do suiço Peter Fischer ( "Repellus" e "Fly", a engenharia perfeita para a experiência do visível ou invisível, (de arrepiar!)) e a cereja do bolo: a instalação do inglês Antony Maccall ( You and I, Horizontal III) - a luz dos projetores e uma neblina criam um volume de forma abstrata e um desenho de uma linha. A sala irradia esta luz e um milhão de sensações compartilhadas com outros ao mesmo tempo. Muita técnica, pouca técnica, sofisticação X alternativo. E quando você olha para cima e vê a pequena lâmpada do espanhol Rubén Ramos Balsa (no mesmo andar) e ouve os pés sapateando numa quase imagem, lembra-se que há algo de surreal nesta construção do olhar.

Quase tudo em Cinema Sim intenciona lembrar esta condição ilusionista e porque não, uma política do olhar.

Do outro lado, estão as obras narrativas, aquelas cuja síntese de contestação se encontra no seio da estrutura semiótica. O elo comunicacional se quebra na contemplação das fotos animadas da brasileira Rosangela Rennó, "Frutos Estranhos", e no questionamento de onde se move, como se move, porque se move, a pele de 45 minutos do francês genial e já falecido, no ano passado, Thierry Kuntzel ( a obra "La Peau" que transita entre os dois nichos, já que usa um projetor especial com bitola de 70mm e recurso mecânico de looping, para contar sobre esta pele, uma metáfora do que se toca no olhar).

Sabemos que a vídeoarte sempre foi o Cinema Sim da história do audiovisual e que os artistas comungavam do experimental na arte, ocupando as galerias com seus vídeos e processos de desconstrução narrativa. Neste sentido, toda experiência narrativa tem referências nesta história, e a simultaneidade de eventos na obra do coreano Yong Seok-Oh em parte se revela nesta possibilidade múltipla de um cinema arte.

Há ainda a obra sensível e quase perfeita do japonês Hiraki Sawa, "Going Places, Sitting Down" cujo os protagonistas são cavalinhos de pau de balanço em casas inglesas, um universo muito particular.

Enfim, muito a se discutir no Seminário Ainda Cinema, que contará com a presença dos artistas e de um dos mais importantes teóricos franceses nesta área, Raymond Bellour, no sábado dia 01. É entrada franca e livre! O Seminário está sendo transmitido online. Veja no site tudo a respeito das obras e seminário e a mostra de vídeo: O Visível e o Invisível com curadoria de Berta Siechel, diretora do Dept de Audiovisual do Centro de Arte Reina Sofia em Madri.

A exposição fica em cartaz até dia 21 de dezembro.
"Cinema Sim - Narrativas e Projeções", no Itaú Cultural ( Av. Paulista 149, São Paulo).
  Francesca Azzi    quarta-feira, outubro 29, 2008
 
 
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