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A casa, o falafel, o lar

Debruçada sobre meu livro de receitas árabes, resolvi definitivamente descobrir o segredo do falafel. Para quem não sabe o falafel é um bolinho feito de grão de bico, temperado com especiarias (coentro, canela, pimenta, cominho, salsinha etc) e depois frito se come dentro de um pão árabe ( pita bread) com tomates, pepinos picados, iogurte ou coalhada. O falafel é mesmo o símbolo do mundo árabe e todos querem chamar a descoberta para si. Os israelenses acham que o falafel é seu snackfood preferido, os palestinos, os libaneses, os sírios todos consideram o falafel um prato nacional, só que segundo Salah Jamal, autor do meu livro de receitas árabes, a origem do falafel veio do Iêmen. Os iemenitas imigraram, assim como todo o mundo árabe, em função do petróleo do Golfo e montavam pontos de falafel pra todo lado. Quando retornavam todos levavam esta sabedoria para seus países.

Na verdade, vou descobrir se a receita de Jamal é boa, e depois que eu e minha adorada cozinheira baiana acertarmos a mão ( ela diz que é o acarajé dos arábes), eu passo a receita pra vocês. Mas é que lendo sobre o falafel e toda esta questão territorial sobre seus preceitos ( fico lembrando de meu amigo judeu Samy que sempre enchia a boca pra falar do falafel, e que eu sempre encontro comendo comida árabe e que é casado com Isabella, uma descendente de libanês), lembrei-me do filme do Amos Gitai " Notícias do Lar / Notícias de Casa" (News From Home / News From House).

Apesar da minha porção libanesa correr no sangue assim meio sem sentido ( afinal não convivi diretamente com nada do país dos meus avós, a não ser com meu pai), admiro Amos Gitai pela sua capacidade crítica de se deslocar de sua existência judaico-israelense para dialogar com palestinos e com as contradições que envolve a Terra Prometida e seus arredores.

Seu filme trata da questão da casa. Uma espécie de micropolítica. Esta casa é palestina e foi abandonada durante a guerra de 48 e retomada pelo estado de Israel, depois vendida... para uma família de judens-turcos. (Por um instante... fico imaginando como seria a casa no Líbano de meus avós, nos anos da primeira guerra mundial, abandonada em retirada por eles, para imigrar para um país longínquo e perdendo assim toda referência de lar.)

Agora imagine você aí na sua casa, seu pai e sua mãe, seus sobrinhos correndo no quintal, os vizinhos, a rua, e toda a sua família mais ou menos próxima. Imagine agora que uma guerra tome sua casa e você tenha que sair, que ali vire outro país, com outro nome e outro governo e que você perca sua casa para o Estado ( aquela casa que você demorou a vida do seu pai para pagar, para construir) e depois sua casa seja vendida a outra família ( que irá construir outra história ali e que não tem nenhuma culpa da guerra em si). Imagine que você e sua família por causa disto tenha se espalhado pelo mundo, ou que você viva alí no muro ao lado mas não possa nunca mais pisar na sua casa.

Assim é "Notícias do Lar / Notícias de Casa" (News From Home / News From House) de Amos Gitai. Forçosamente "abandonada pelos proprietários palestinos na guerra de 1948, desapropriada pelo governo israelense, alugada por imigrantes judeus argelinos em 1956 e comprada por um professor universitário que tomou para si a transformação das três casas históricas em 1980: a casa a oeste de Jerusalém funciona novamente como um microcosmo, como há 25 anos."

Amos fez 3 filmes a partir desta casa, e no último "Notícias do Lar / Notícias de Casa" mostra como a partir do conflito palestino/israelense ocorreu uma diáspora e toda a família que se formava na casa e em seus arredores se dissipou pelo mundo afora. Cada um para um lado.

O território palestino da casa que agora é Israel traz em si esta história tão complexa e quase velada que Amos Gitai tem coragem de abrir a público. Seu filme, mais um relato do que um documentário, mais um ensaio do que um filme é em primeira pessoa. A lição de Gitai ecoa, sua sabedoria é fazer falar tantas vozes, caladas pela história de um conflito sem fim.

O conflito se dissolve, e se faz tão sem sentido como esta vontade incontrolável a todos de comer falafel, nesta verdade de que a experiência dos siginificados de casa/lar/país/lugar é a mesma para palestinos ou israelenses.

(Francesca Azzi)
  INDIE    quarta-feira, novembro 15, 2006
 
 
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