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Elegia ao Fluxus.06

Estreio neste blog para falar de um fim, o da 6ª edição do Fluxus. Óbvio que, como designer e programador do site, sou absolutamente suspeito. Mas o fato é que sou fã do Fluxus desde seus tempos de Brasil Digital, desde sua primeira edição em 2000.

Em pleno Y2K o festival começou como uma idéia ousada: exibir vídeos em um momento em que banda larga ainda era sonho de consumo de classe média e era prudente que os vídeos que se aventurassem pelo fio do telefone fossem pequenininhos e com poucos movimentos de câmera. Mais que isso, a web ainda vivia a ressaca do estouro da bolha de investimentos no fim da década de 90. As perspectivas de crescimento acelerado se arrefeciam e o vídeo, que muitos apostavam que logo entraria pelo computador chutando a porta da frente, teve que guardar o pé. Algum investidor mais ortodoxo certamente desaconselharia investir em multimídia. Vi um amigo investir no vídeo na web e ver a empresa ir pelo buraco.

Apesar disso, lá estava o Brasil Digital. Havia a limitação de banda e processamento. A maior qualidade disponível era para conexões de 256 Kbps, um verdadeiro infoduto para os padrões de então. Em 2002 ainda não havia pistas de que o vídeo finalmente decolaria na web. Ainda assim, o festival seguia firma, foi rebatizado como Fluxus e se tornou internacional. Até ali, no entanto, o que importava era trazer a produção videográfica para a rede, daí a divisão conservadora das categorias: E-cinema, .Doc e Animatec.

Lembro-me de ter participado de uma mesa redonda, em 2003, em que alguém na platéia perguntou algo sobre a influência da tecnologia na estética da produção audiovisual. O cinema nasceu como um teatro filmado, com uma câmera estática assistindo às ações que lhe atravessavam o enquadramento. Não demorou, no entanto, a abandonar essa condição passiva e perseguir seu objeto. Essa busca atingiu seu ápice outro dia mesmo, com o advento das steadicams, mas quase ao mesmo tempo o cinema e o vídeo ganhavam um novo meio de veiculação, a internet. E justamente por conta da limitação de banda e de processamento até então, os filmes feitos para a web eram parcimoniosos nos movimentos de câmera. Chacoalhadas na câmera significavam pelo menos 19.200 pixels mudando juntos a uma taxa de 15 vezes por segundo. Catrancos e bufferings não perdoavam e a imagem em movimento, em seu mais novo e tecnológico meio de circulação, era obrigada a recriar a estética inaugural do teatro filmado.

O próprio ano de 2003 trouxe, no entanto, uma novidade para o Fluxus. Se o vídeo vacilava em retomar seu flerte com a web, nem por isso as narrativas ficaram paradas na rede e se desenvolveram a ponto de merecer uma categoria no festival, a Interactiva.

Em 2005 o Fluxus voltou de um retiro espiritual com força total. No ano da fundação do YouTube, o vídeo já é uma realidade na web. Processadores mais eficientes e a popularização da banda larga e das placas de vídeo permitem a revolução brochada de anos antes. Mas vídeo na web para o Fluxus era chover no molhado e mais uma vez o festival antecipou tendências e vislumbrou a popularização dos celulares com câmera e os vídeos pessoais, atualmente em pleno boom. Para acolher essa estética incipiente, pintou a categoria futur_0.

Nesta 6ª edição, inaugurada em 2006, o Cinemobile provou que o vídeo de celular já está consolidado como possibilidade estética. Se os 256 Kbps eram o papa-léguas da primeira edição, passaram a ser a velocidade mais modesta em 2006 e o Fluxus já "entrega" a 1 MBps imagens ricas em movimentos e com uma janelona de 420x130 pixels. A limitação estética praticamente despareceu e o Fluxus.06 marcou essa passagem, a de uma nova web que, ao romper suas limitações técnicas, abraça, acolhe e adota, por sua agilidade imediatista, uma nova estética ancorada nos dispositivos digitais de bolso.

Meu carinho pelo Fluxus é, portanto, plenamente justificável. Quem um dia for contar a história do vídeo na web vai ter que passar por lá.
  Cristiano Simões    terça-feira, março 13, 2007
 
 
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