blogINDIE 2006


Juventude em Marcha

Com o lançamento em circuito de "Hannah Takes The Stairs" de Joe Swanberg e a mostra "The New Talkies: Generation DIY" no IFC Center de Nova York, o movimento mumblecore se estabelece como a primeira manifestação cinematográfica do novo século. Tudo isso antes que o público tivesse acesso aos filmes.

A mostra "The New Talkies: Generation DIY" (traduzindo: Os Novos Filmes Falados: Geração Faça Você Mesmo), marcada para acontecer a partir do dia 22 de agosto no IFC Center em Nova York, é um grande evento há apenas poucos anos em desenvolvimento. Nas palavras da própria curadoria, "esses filmes tiveram pouca exposição pública até agora. Agora que este ramo do cinema independente está mais estabelecido, conquistando atenção dos críticos e atraindo novos talentos, [a mostra] faz uma pesquisa dessa revigorante nova direção do cinema americano com amostras tanto de seus trabalhos-chave como de novos exemplos." Uma retrospectiva de destaque numa cidade tão crucial para a carreira de um cineasta como é Nova York, a mostra surge como uma aguardada festa de debutante, um generoso aval do talento dos cineastas envolvidos num movimento cujo rótulo oscila entre os termos "Mumblecore" ou "Movimento Ultra-Indie", que chega a atenção de um grande público ao mesmo tempo que seus cineastas já começam a se desviar dele, colhendo os louros de suas bem-sucedidas turnês por festivais mundo afora (por exemplo, Andrew Bujalski, um de seus cineastas mais marcantes, foi contratado pelo produtor Scott Rudin para escrever e dirigir uma adaptação de "Indecision", livro de Benjamin Kunkel).

Apenas agora foco de reportagens de J. Hobermann no Village Voice e Dennis Lim no International Herald Tribune graças ao evento (que ganhara meses antes reportagens na Filmmaker Magazine e no inglês The Guardian), os repórteres analisam os desdobramentos de um frutífero movimento cinematográfico, confundindo os sinais: este movimento não foi iniciado em decisão conjunta, mas seus filmes e cineastas se identificam em sua abordagem temática (o limbo que sucede o recebimento do diploma universitário, falta de clareza sobre os rumos a tomar em todos os aspectos da vida), o alinhamento das características de seus objetos de estudo/personagens e de alcance/público (os mesmos jovens, normalmente brancos, bem criados e bem estabelecidos de vida) e em suas estéticas urgentes e baratas. Seu sucesso atual traz consigo uma visão mais crítica e global (os filmes agora saem do círculo de segurança dos blogs amigos para a imprensa estabelecida), fazendo que os filmes entrem em cheque: sua estética barata é fruto de escolha consciente ou de um voto de pobreza artifical adotado por meninos ricos culpados? Qual a relevância desses filmes para o público que não se encaixa no perfil e o que justificaria a amplitude em sua divulgação? A declaração seguinte de Matt Dentler (considerado um dos cabeças do movimento e programador da SXSW) já nos revela um comportamento defensivo, antecipando uma provável enxurrada da mídia em cima dos objetivos e conquistas dos cineastas:

"Mumblecore é um mito e o termo tomou vida própria. A única coisa que esse termo apreende, no entanto, é que os filmes aglomerados nele são todos sobre comunicação ou a falta dela. Num todo, estes filmes falam profundamente sobre o que a vida pós-universidade e pré-casamento significa para uma geração inteira a qual foram prometidos carros voadores após os anos 2000 e, ao invés disso, ganharam reality shows. E por volta dessa época, um gênero peculiar de cinema independente americano começou a surgir dentre a cacofonia de derivados de Tarantino/Rodriguez. Nós queríamos algo diferente."

E embora radicalmente diferentes eles não sejam, os filmes são perfumados com frescor, fruto da liberdade artística e da inocência que apenas cineastas iniciantes podem usufruir. Experimentos de montagem pipocam aqui e acolá aleatoriamente dentro dos longas, cenas improvisadas que se permitem alongar até alcançar momentum, atuações que se alternam entre o truncado e o espontâneo. Se o movimento é irregular, é também porque a maioria dos cineastas surgiu e amadureceu enquanto artistas dentro dele e as tentativas em enquadrá-los dentro de um termo é mais insistência midiática.

Não há um ponto de partida definido ou um momento em que os caminhos dos artistas convergiram para criar o "mumblecore" em conjunto, mas seus cineastas eventualmente se encontrariam sob o olhar atento de Matt Dentler dentro do festival South By Southwest. Sua curadoria enxergou em cineastas vindos de diferentes partes dos EUA - até então estranhos uns para os outros - o mesmo conjunto de influências cinematográficas e angústias pessoais. As estéticas, essas continuam sendo pessoais seja nas ambições ou no modus operandi de filmagem. Aliás, muitos dos cineastas, atores e técnicos que surgem em filmes posteriores do mumblecore já tinham sido um dia parte do público, formando assim uma rede modesta de informações e auxílio durante as produções. Mas quando isso só aconteceu porque os filmes já existiam. Isso fatalmente implicará em ataques, ao que público e crítica convencional poderão reclamar de estarem recebendo um movimento pré-fabricado; precisamos, no entanto, refletir que papel o público cumpriu no estabelecimento e desenvolvimento de outros movimentos, sejam eles a Nouvelle Vague, o Cinema Novo, o Neo-Realismo Italiano, o Letrismo, etc. Mas algo só recebe crítica se existe de fato - o movimento é, portanto, real.

No Brasil, o público já pôde ser privilegiado com alguns exemplos do movimento, seja a exibição de "Admiração Mútua" no Festival do Rio 2006 ou de "Four-Eyed Monsters" no Indie 2005. Espera-se que "Hannah Takes The Stairs", o último filme do prolífico Joe Swanberg dê as caras por aqui: a - até agora - obra-máxima de um dos expoentes desse tipo de cinema reúne no elenco vários dos cineastas e atores representantes (Bujalski, Ry-Russo Young, Mark Duplass, entre muitos outros) na história de uma jovem espoleta e indecisa (Greta Gerwig, em atuação elogiada) que se envolve com os membros de um grupo de escritores de Chicago. Produzido por Anish Savjani ("Old Joy"), "Hannah Takes The Stairs" é uma exceção dentro de um movimento que não apenas é realizado na marra, como distribuído por iniciativas também independentes. Um dos blogueiros do movimento, o crítico de cinema e ex-funcionário de uma importante distribuidora Aaron Hillis acaba de abrir a Benten Films, distribuidora de DVD encarregada em lançar alguns dos filmes mais célebres desses artistas ("LOL" de Swanberg é o primeiro; por vir estão os dois de Aaron Katz, "Dance Party USA" e "Quiet City", e o elogiado mas pouco visto longa de Todd Rohal, "The Guatemalan Handshake" - este último inexplicavelmente ausente da mostra). Mesmo embora faltem muitas conquistas para os cineastas enquanto movimento, o mais fundamental eles já conseguiram: firmar um verbete dentro do novo vocabulário cinematográfico.


Filmmaker Magazine: Especial Mumblecore

Site da Mostra "The New Talkies: Generation DIY" no IFC Center
Site oficial da Benten Films
J. Hoberman cobre o movimento para o Village Voice
Dennis Lim cobre o movimento para o International Herald Tribune
Blog de Matt Dentler - Blog SXSW

(No site principal da Zeta Filmes, meus takes em cima de "Kissing On The Mouth" e "The Puffy Chair")
  Bernardo Krivochein    segunda-feira, agosto 20, 2007
 
 
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