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Sangue hollywoodiano, cinema brasileiro

Mais digno de comentários e surpresa durante a filmagem de um comercial gringo no Brasil há alguns anos atrás (por Marcus Nispel, um déspota do set de filmagens apelidado carinhosamente pelos brasileiros de "Marcuzão") não foi a técnica cinematográfica empregada ou a tecnologia de efeitos digitais que seria aplicada às imagens, mas a revelação da receita do autêntico sangue falso hollywoodiano. Mantido como mistério na indústria de efeito práticos, o sangue falso é como receita de miojo: cada companhia tem sua receita própria, mas a base da composição ainda é a mesma - essa mantida pelos americanos como um segredo guardado a sete chaves.

Suco de groselha (de um vermelho não muito fechado) + chocolate em pó (algumas colheradas para escurecer) + detergente (para dar textura). Não sei quais são as medidas, mas no dia seguinte, a receita já estava dando as caras em ensaio de moda de revista muderna e o caralho a quatro. Eu sei disso porque eu acabei ajudando a preparar a mistura. O resultado fica mais parecido com sangue venal, aquele mais escuro, sem oxigênio. Fica, inclusive, escuro demais se comparado com o sangue real, mas fotografa muito melhor do que o mesmo.

Uma vez, meu pai se desequilibrou e meteu o antebraço pela vidraça da porta da varanda. Na queda, ele acabou puxando o braço rasgado de volta para si e arrancou um naco de carne. Sangue para todos os lados e minha mãe correu com ele para o hospital. Acabei ficando no apartamento, limpando a piscina de sangue que se tornara o chão do quarto, do corredor e especialmente da sala, onde ele ficou um tempo enquanto apertávamos um cinto no seu braço para tentar estancar a enxurrada que escorria pela ferida.

Não se dá crédito para quão vermelho o sangue pode ser. Claro, não é um vermelho Tintas Suvinil como num filme do Dario Argento, mas entre todas as tonalidades que o sangue atinge, a ais clara é um vermelho bem vivo. A mais escura que eu vi era quase vinho tinto.

A textura é que é mais a questão: comecei limpando do quarto até a sala. Quando eu cheguei na sala com o esfregão, pano de chão e balde d'água suja, o sangue atingira - muito rapidamente - seu estado semi-coagulado. Quando eu jogava água por cima dele, o sangue se movia como uma massa vermelha, denso, feito molho de tomate Pomarola (sem polpa). As gotas, antes de secarem, formam umas massas que se puxa da parede como se fossem melecas moles vermelhas. Era muito diferente de quando o sangue pingava vivo do braço do meu pai: ele caía líqüido e pesado no chão, feito água de mangueira de boca larga apontada para o alto, sobre o piso de sinteco. Enfim, o sangue jorra mais líqüido do que o gelatinoso - que serve muito mais para os hematomas de fotos que estilizam hematomas como sinais de masculinidade ou coisa parecida.

Lembre-se disso quando você fizer seu filme daqui a alguns meses. Eu sei que você quer fazer um filme. E eu quero que você faça um filme. É só você se livrar de suas inibições e pedir ajuda das pessoas, dos seus amigos. Prepare-se para não viajar nas férias de dezembro/janeiro. Quando você fizer seu filme, você acabará viajando com ele para festivais mundo afora - você não sacrificará suas férias, apenas as adiará. E viajar sendo picão é muito melhor do que viajar estudante, turista, mochileiro, vagabundo sem nada o que fazer, sem compromisso para justificar sua passagem pela cidade.

Digo mais: não apenas eu asseguro que - se você fizer seu filme com genuíno desejo - não apenas seu filme está destinado a ser selecionado nos festivais mundo afora (que você se inscrever) como é bem capaz de você ganhar um prêmio. Há pouco tempo atrás, descobri que o curta-metragem que me serviu de trabalho de final de curso (fazendo design de som, captação e trilha... logo depois disso, tive uma crise e escrevi um roteiro para um longa-metragem mudo de três horas) acabou ganhando um prêmio especial em um festival por aí. Não quero dizer que era um curta ruim, mas era um projeto estritamente acadêmico e o som que fizemos foi com compromisso (era um trabalho de conclusão de curso), mas sem lá muito entusiasmo (idem). Ei, legal ter ganhado um prêmio e tal, mas... será que realmente não havia filmes superiores?

Não vi e, na realidade, nem pretendo ver os filmes de Bill Zebub anteriores a "Assmonster", mas aparentemente toda uma cinematografia de mau gosto e feita com nenhum orçamento se justifica na realização de um filme discutivelmente bom, inteligente. Zebub se manteve na ativa, realizando filmes de garagem, se sustentando com os mesmos (!) e acabou por dominar de forma curiosa a linguagem apenas por persistir na prática cinematográfica, ainda que com despojamento, com irresponsabilidade. É muito diferente do panorama independente brasileiro, onde o pouco que se faz é estritamente para servir de cartão de visita para os editais (e ainda assim, pedem para que a mesa julgadora leve em conta os poucos recursos que dispunham).

Recentemente Aaron Hills, um blogger de cinema que já havia realizado alguns trabalhos para distribuidoras cinematográficas, resolveu abrir sua própria companhia de DVD, a Benten Films (o nome da deusa budista ligada a tudo aquilo na natureza que flui, sempre associada às artes). O primeiro lançamento é o segundo longa-metragem de Joe Swanberg, "LOL" (a chegar em lojas americanas em 28 de agosto) com uma embalagem linda e ótimo conjunto de extras. Os próximos lançamentos são os filmes de Aaron Katz (Quiet City e Dance Party, USA) e ainda um filme internacional cujo título ainda não foi anunciado. Mais do que a iniciativa em realizar filmes independentes, agora há uma base também independente para fazê-los acessíveis - realização e distribuição independente. Um grande movimento de colaboração.

Qual é o problema com uma inciativa cinematográfica independente do Brasil? Que provincianismo congelante é esse que impede a maioria de realizar os filmes na raça, na marra, que deixa todo mundo na espera de uma vaga nas tetas dos editais? Será porque cineasta brasileiro só tem idéia cara e burra? Eu sei que existem um ou outro filme independente que é realizado - mas onde está a rede que colabora para fazer sua existência ser conhecida além de sua cidade de origem? Há um vídeo em que Lloyd Kaufman dá uma palestra sobre cinema independente na Comic Con, no qual um dos atendentes levanta-se - para entusiasmo geral - e conta como seu amigo realiza filmes independentes e trabalha satisfeito como balconista de uma loja de bebidas alcoólicas. Que idéia fixa é essa que só se pode falar de cinema sendo formado cineasta, se realizar cinema formado cineasta, e que para ser diretor é preciso sobreviver servindo estritamente a carreira de diretor (ninguém vive só aquilo que gosta de fazer: o próprio Swanberg faz bicos de webdesign para sobreviver, muitas das pessoas trbalhando com moda idem, todo mundo costura para fora)?

Fazer filmes está dentro da sua capacidade, se é isso que você deseja fazer. A receita de sangue falso, você já sabe. Mas há muito o que fazer no que se refere ao modo como ele é representado na tela.

  Bernardo Krivochein    quinta-feira, agosto 02, 2007
 
 
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