blogINDIE 2006
RIOFAN: Heroísmo

Noite de algum terror para os organizadores do RioFan quando a projeção digital resolveu que não reconheceria o arquivo de som do longa programado para a sessão das 21hs. no Estação Botafogo, o aguardado "Jack Brooks: Caçados de Monstros". Após a exibição bem-sucedida do curta-metragem "Criticado", aplaudido com entusiasmo pelo público presente, as primeiras cenas mudas do filme deram o tom do que estava por vir. Devo admitir, parte de mim agradeceu que o destino tenha intercedido com este obstáculo.

40 minutos certamente tensos para o pessoal da organização, correndo para cima e para baixo, entre resolver o problema e dar satisfações ao público, implorando-lhe paciência (espero não estar causando nenhum embaraço com este relato ao pessoal do festival, até porque esses problemas são correntes em festivais e eles lidaram com bastante desenvoltura). Eu não poderia ter ficado mais contente ao ouvir que a exibição seria cancelada e, no seu lugar, o chileno "Mirage Man" seria exibido. Sem desrespeitar o americano, mas este era um dos filmes que eu mais estava aguardando para assistir e a idéia de ter que me locomover a um cinema domingo à noite para fazê-lo me preocupava (sou só eu que acha que domingo é um dia que vai ficando gradualmente mais deprimente ao passar das horas?). Ainda que "Jack Brooks" seria derradeiramente exibido (no lugar da sessão de "The Rage", jogada para sabe-se lá quando) logo após como cortesia para aqueles que desejassem ficar na sala. Mas era sábado e eu pretendia sair. Tendo saído, gostaria de ter ficado, ao que a noite foi um fracasso moral. Sorte que minha aparência estava ótima, mas isto é uma constante de conhecimento geral em todo o Rio de Janeiro. A situação problemática foi heroicamente contornada e o filme substituto não poderia ter sido mais propício.

Quando Mickey Rourke, após o fracasso de "Orquídea Selvagem" desafiou um dos críticos do The New York Times, o sujeito retrucou com um "é só marcar a hora e o lugar." Rourke nunca apareceu. Apenas para quebrar esta imagem. E eu quebro a cara de quem for que quiser me peitar por aquilo que vou escrever de "The Other Boleyn Girl", aquela merda de filme.

Admiradores de "Audition" poderão encontrar um novo objeto de culto em "Criticized", curta-metragem vencedor do Horror Fest em 2006 e sucesso no FanTasia 2007, exibido para completo êxtase do público e, por que não, crítica ali presentes. O filme de Richard Gale (formado em literatura) parte do ponto de partida muito batido do "game for two" ("Jogos Mortais", "Os Desconhecidos", "Oleanna", o episódio "Cut" de "Three... Extremes", "O Mito do Orgasmo Maculino", etc.) para explorar a ética da crítica cinematográfica, quando um diretor de cinema, espinafrado numa resenha de jornal, captura o jornalista e resolve não apenas expô-lo às conseqüências de seu texto escrito irresponsavelmente com o ser humano que realiza uma obra, como também aplica uma medida bastante prática às figuras de expressão utilizadas ao longo do texto. É um longa bastante inteligente ao que não apenas captura a essência do arrogante espírito da crítica cinematográfica, juíza impiedosa que recorre a um cruel jogo de agressões verbais para entreter os leitores sem se importar com o objeto de exploração, como também com as agruras de ser um realizador cinematográfico, arte perigosamente dependente da recepção e do aval. Nisso, Gale é bastante consciente dos lugares-comuns de tanto crítica quanto realizadores medíocres: tanto o texto em questão soa bastante palpável, assim como o desabafo do cineasta-psicopata. Não apenas o conteúdo sarcástico entretém o público ("as boas cenas do filme são como grãos dourados de milho incrustados naquilo que é um grande cocô"), como também a reação do leitor-cineasta com os devaneios prolixos do texto ("mas que merda isto quer dizer?").

Claro que, pelo subtexto, "Criticized" não será um j'accuse da crueldade crítica, mas um apelo ao jabá, ao que o texto negativo que ofende o cineasta é puro e espontâneo, enquanto a crítica positiva é imposta, comprada pelo mesmo num ato extremo. Bem antes do final irônico (que acaba por meter malho no ego dos realizadores), "Criticized" se revela obra da mais alta ficção, ao imaginar que um crítico de jornal seria hétero ao ponto de estabelecer família. Nada que atenue o impacto da tensão criada e pelo intenso método de tortura encenado no filme de forma espetacular, capaz de fazer até o mais resistente dos espectadores sentir a pele formigar. Ótimo filme, e não digo isto de cagaço pela represália possível pelas mãos do cineasta. Eu teria me escaldado e arrebentado a cara do filho da puta logo naquela primeira oportunidade.

Texto sobre "Mirage Man", com sessão para amanhã às 21hs. a seguir no próximo post. Mas não o perca, mesmo se você quiser comemorar a vitória do Flamengo.

*****
Simon Pegg para circuito de cinema fantástico: "Shaun of the Dead" e "Hot Fuzz". Simon Pegg para circuito comercial: "Maratona da Porra do Amor". Puta que me pariu. Coquetel molotov, alguém?
  Bernardo Krivochein    domingo, maio 04, 2008
 
 
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