blogINDIE 2006
RIOFAN: OTTO; OR UP WITH DEAD PEOPLE

Still de "Otto; Or Up With Dead People" de Bruce LaBruce

"- Qual é o privilégio do mortos?"
"- Não morrer mais."

Ao misturar o gênero de zumbis do cinema de horror e e o queer cinema, Bruce LaBruce preferirá ignorar todas as referências possíveis dessas duas cinematografias repletas de títulos essenciais e citará este diálogo de "Alphaville" de Jean-Luc Godard (inclusive dentro de um contexto similar ao original francês: durante uma entrevista do protagonista). "Otto; or Up With Dead People", nós descobriremos, pertence muito pouco ao cinema fantástico ou ao cinema gay. Ao invés disso, LaBruce nos oferece uma inesperada sátira ao cinema avant-garde, tal qual fosse uma versão indie das paródias "Epic Movie", "Scary Movie" ou "Date Movie": "Deu a Louca no Cinema Experimental Marginal". Pois o público do Rio Fan pôde experimentar hoje seu próprio dia de Ronaldo Fenômeno ao entrar num filme acreditando saber o que lhe esperava e surpreender-se quando nenhuma das referências à mão era de alguma serventia.

Ainda que eu não tenha particularmente gostado de "Otto", sinto que é meu dever defendê-lo ao acreditar entender em parte o plano de LaBruce. O Queer Cinema, por ser um cinema marginal por definição, fornecia campo ilimitado para a exploração do suporte cinematográfico, mas recentemente ele comprometeu a radicalidade de sua linguagem em busca de aceitação social, banalizando-se: perceba que este diagnóstico não é meu, mas dos críticos Ernest Hardy e Chuck Wilson à época do OutFest 2007. Hoje em dia, estes filmes são apenas versões gays dos batidos romances teen de colégio, comédias românticas de erros e dramas novelescos, sem nada a oferecer além da identificação imediata e superficial do público. É apenas revigorante para o queer cinema que um de seus autores mais renomados ainda se preste a ser mais violento aos sentidos: "Otto" muda de janela, de textura (parecendo um videoclipe alongado de algum gótico industrial alemão), de tom (mesmo compreendendo a sátira, dificilmente sabemos se é apropriado rir ou não, especialmente pois as piadas auto-conscientes vêm acompanhado de uma trilha pouco, digamos, leve) e é apoiado numa estrutura narrativa metalingüística pra lá de complexa, sem por isso deixar de ter uma linha central bem resolvida.

LaBruce não é um autor com um senso lá muito cinematográfico, no sentido clássico do termo: os planos são feios e o ritmo é completamente esquizóide. Porém, LaBruce é um autor completamente consciente, estudioso e crítico do meio audiovisual. "Otto" é um filme repleto de pirocas e de idéias. Felizmente, "Otto" tem mais idéias do que pirocas ao que LaBruce, em típica moda godardiana, faz um filme-discurso altamente pedagógico sobre suas ideologias, ao metaforizar em Otto - um recipiente de uma nova praga zumbi que ataca apenas homossexuais - como os gays são percebidos pela sociedade contemporânea e dissertando a quantas anda o atual processo de aceitação social (ao que o tratado politicamente correto em vigor pouco espelha os avanços práticos).

Porém, até o discurso ganha ares de farsa ao ser proferido por esta personagem genial, a diretora de cinema de vanguarda Medea (Katharina Klewinghaus), uma Glauber Rocha gótica que aplica a câmera-na-mão-e-uma-idéia-na-cabeça ao improvisar na direção enquanto expressa sua filosofias ao filmar o pornô-político "Up With Dead People". Aqui, LaBruce destroça selvagemente todos os clichês pretensiosos do cinema de autor, com discursos idealistas e arrogantes nos diálogos e a estética "revolucionária" (os curtas anteriores de Medea são propositalmente pavorosos, com direito a títulos quilométricos). Com Klewinghaus estabelecendo indiscutivelmente a farsa (destaque também para Susanne Sachsse como Hella Bent, a estrela de cinema mudo por opção, surgindo sempre destacada da multidão como uma projeção de película P&B), o espectador entra com mais boa vontade no bonde de LaBruce. Como um típico filme vanguardista, a ação corre solta, imprevisível, improvisada, com humor desprendido e inúmeras observações dispensadas sobre a linguagem e o suporte (no caso, suportes, ao que o vídeo digital também tenta simular o efeito de película através de filtros).

As idéias mais "comerciais" presentes em "Otto", no entanto, são tão potentes que me fazem desejar que LaBruce não tivesse escolhido para o filme o gueto voluntário com todas as experimentações e exposições gratuitas de sexo explícito. Explico: correndo paralela à realização do filme de Medea, a trama do jovem zumbi Otto que vai sorrateiramente se desenrolando sem que se dê a ela muito valor (os flashbacks de bichinha feliz são terríveis), torna-se a grande e agradável surpresa ao que nos reserva um belo momento dramático de causar nó na garganta, ao finalmente concluir o perfil do protagonista. Em termos de ressonância emocional, o filme se alonga além da conta. Uma pena, porque LaBruce encontra um final muito potente para a história de Otto e chega pertíssimo de fazer um filme genuinamente excelente.

Dá raiva, porque o objetivo assumido de LaBruce não é fazer um filme cinematograficamente eficaz, mas linguisticamente bombástico. Ele parece mais concentrado em como preservar o design criado para o personagem, zumbi gatinho, muito mais bonito na versão morto-vivo do que na versão bissussinha feliz. Refletindo sobre a eficácia comercial de "Otto" (novamente, eu sei que este nunca foi o objetivo do longa e não cabe a mim impô-lo), apenas o conceito de um protagonista zumbi gay seria mais do que suficente para se realizar um filme confrontador e subversivo, mesmo adotando a mais convencional das narrativas. As ambições de LaBruce dizem apenas à esfera experimental, obviamente restringindo o filme. Mas as capacidades cinematográficas que existem no diretor e são aqui reveladas, de modo que sinceramente me impressionaram, me fazem desejar que ele ampliasse essa ambição em direção ao meio comercial - o meio que realmente precisa ser corrompido.

"Otto, Or Up With Dead People" Alemanha/Canadá, 2008. 95min. Direção: Bruce LaBruce. Estrelando: Jey Crisfar, Katharina Klewinghaus, Susanne Sachsse, Marcel Schlutt, Guido Sommer. Distribuidora: New Real Films. Site oficial: http://www.ottothezombie.de/

*****

NOS DOMÍNIOS DO MAL/AUF BÖSEN BODEN: Eu ainda devo pegar mais quatro ou cinco filmes da programação do Rio Fan durante a semana, mas ainda estou esperando para ver o que eles programarão nas Sessões Especiais, estrategicamente reservadas para o próximo fim de semana. Espero sinceramente que o boca-a-boca se espalhe acerca de "Nos Domínios do Mal", mash-up de gêneros que fez sucesso no úiltimo FanTasia (mas o filme só foi exibido no final do festival, quando a excitação vai perdendo o vapor), é altamente recomendado pelo Todd Brown do Twitch. Tomara que faça sucesso por aqui a ponto de fazê-lo merecer uma exibição extra dentro do festival, haja visto que o horariozinho é ruim pra caralho (terça-feira às 15hs.). Estou abrindo o espaço para qualquer um que venha me fazer ciúmes, dizendo que viu e que achou foda.

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  Bernardo Krivochein    segunda-feira, maio 05, 2008
 
 
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