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RIOFAN: POP SKULL


Adam Wingard criou um filme de misterioso assombro, que, inseguro de si mesmo, hesita em criar alguns sustos às custas dos fantasmas mais desimportantes entre os vários em cena, quando o verdadeiro terror é o mais palpável. Colocando todos os recursos de efeitos de edição a serviço da dor-de-cotovelo, "Pop Skull" se parece inicialmente com alguma projeção barata em videowall de qualquer festa gótica (e foi divertido notar como o projetor digital não conseguiu dar conta de alguns dos efeitos estroboscópicos mais intensos, como se o filme estivesse fisicamente burlando algumas normas do cinema), mas é no seu mais errádico que consegue ser mais narrativamente dinâmico e fresco. Diferente do que tem muito se discutido sobre o filme, "Pop Skull" não é um filme selvagemente experimental, ao que o gancho de roteiro que embasa a inserção dessas intervenções criativas de montagem - o vício do personagem em remédios não-prescritos - logo desaparece do mapa. Ao preferir assentar-se para abordar o drama de um jovem sensível lambendo as feridas após o término do namoro da pior maneira possível, Wingard paga um pouco o preço de ter carregado o filme com tamanha carga de estímulo sensorial logo no início.


O gancho dos terrores em "Pop Skull", muito como no núcleo da história do protagonista de "Otto", está fincado numa esfera possível, de um fantasmagórico admitido. Essencialmente um drama indie, Wingard não se faz de rogado e indica o número de caminhos a seguir deste ponto de partida. É um filme confuso, disperso, mas repleto de identidade, que não se aquiesce nem para os formalismos (do bom soldado independente, fazendo um cartão de visita para os grandes estúdios) nem para os devaneios (o cinema fantástico fugitivo, repleto das mais tresloucadas abordagens do convencional), sendo portanto um elemento estranho e fascinante por natureza dentro de qualquer programação (mesmo no RioFan, marcado por uma seleção surpreendentemente rebelde frente aos parâmetros de mostras cariocas em geral, sempre de um bom gosto aborrecido: os filmes, independentes em sua grande maioria, apresentaram desafiadores exercícios de estilo). Incômodo, "Pop Skull" é um filme constantemente desagradável (os planos são extremamente fechados para uma telona como a do Estação Botafogo, mesmo se a câmera digital de Wingard notadamente não dá conta de capturar planos mais abertos e com mais profundidade de campo - trata-se, no entanto, de filme estritamente videocêntrico: os créditos finais sobre uma tela de colorbar o confirmarão), mas cuja sinceridade cortante nos mantém envolvidos.


Não chega muito bem a ser empatia: o protagonista, por mais sensível que seja, é um songamonga que poderia beneficiar-se de uns bons catiripapos. Sobretudo, "Pop Skull" é um filme carente (e bastante auto-piedoso, é verdade) gritando a plenos pulmões em busca de qualquer um com quem possa se identificar, lhe fazer companhia. Há uma atmosfera de desespero constante, de um desolamento que se presentifica em cada plano. É um filme que precisa se excluir, pegando um desvio estético, para chegar ao coração - partido - do espectador (que, por sua vez, precisa sair do apatetamento comum e também permitir se abrir); ele não saberia uma outra forma. Wingard reconhece todas as possibilidades narrativas da trama ao longo do caminho, como se dizendo: "eu sei que eu poderia fazer um ótimo filme de terror com estas ferramentas, mas há um lugar onde preciso chegar." Wingard está sofrendo, mas também está curtindo e alimentando esse sofrimento e é aqui que "Pop Skull" se revela o mais embaraçoso para o espectador, que reconhece no desabafo do protagonista ("Eu não quero mais me sentir assim!") a hipocrisia de sua(s) própria(s) fossa(s). Porque é impossível não pensar: você sabe que só está assim porque quer.


As revelações de "Pop Skull" são as nossas, que se evidenciam quando o filme deixa para trás seu aspecto "Réquiem Para Um Sonho" de apenas 50 centavos e, a desilusão sem o seu in(dif)erente complexo de grandeza, acomoda-se no estado naturalmente estimulante da melancolia em parte voluntária. Desejaríamos que o filme não reduzisse a história dos personagens a funções básicas, especialmente quando o elenco os defende terrivelmente bem (especialmente Brandon Carroll como o melhor amigo de Daniel, ameaçador e enternecedor ao mesmo tempo), substancializando o drama para além de seus efeitos de edição e de sua atmosfera de história de horror que, fica claro desde o início, não dará em nada (Wingard ainda insiste em jogar algumas bolas curvas, sugerindo a importância do papel que o sobrenatural cumprirá na história, mas tá na cara que é só balela). Esqueça os espíritos assombrados e concentre-se no espírito desbravador e triste de um longa irredutível na sua própria depressão. Não há nada a se lastimar aqui: Wingard ousa esta pequena pérola marginal a todos os gêneros os quais insinua e, mesmo no seu irregular e mais rústico, acaba distribuindo aos nossos sentidos violentados uma série de possibilidades inquietas.


"Pop Skull" EUA, 2007. 86min. Direção: Adam Wingard. Estrelando: Lane Hughes, Brandon Carroll, Maggie Henry, Hannah Hughes, Jeff Dylan Graham. Site oficial: http://www.popskullthemovie.com/

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  Bernardo Krivochein    quinta-feira, maio 08, 2008
 
 
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