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  INDIE    segunda-feira, junho 30, 2008    6 comentários
 
 
Não é o Fim


Saio imediatamente do cinema para o computador como quem precisa dar uma notícia urgente:

"Fim dos Tempos" é um dos melhores filmes que eu já vi.

Este é o perigoso momento da adjetivação. Chego a ter palpitações ao pensar no quanto eu tenho que escrever sobre o filme que eu acabei de ver. Excitação destilada. Preciso respirar e organizar melhor o pensamento. Muitas vezes no passado, quando eu me animava com um filme, não poupava esforços e o elevava aos céus - apelando ao mais básico - porque eu me sentia na missão de motivar a quem quiser que estivesse lendo para assisti-lo - especialmente porque se tratavam de filmes menores, obscuros, sem distribuidora no Brasil ou que as pessoas simplesmente não estavam prestando atenção. Não vou mentir: é uma táctica que funciona.

O perigo está na hipérbole. Se eu digo que "Fim dos Tempos" é o melhor filme do ano, isto significa que o espectador irá obrigatoriamente gostar? Não. Se "Fim dos Tempos" é de fato o melhor filme do ano, isto não significa que o fator de entretenimento está garantido, que é tecnicamente impecável ou inovador. Neste caso, ser o melhor filme do ano significa sobretudo que "Fim dos Tempos" se trata de um filme com algo de muito importante a dizer sobre o status quo da experiência cinematográfica contemporânea, independente do que você sente ou não por ele - o que é algo menos divertido de se prometer de uma experiência cinematográfica do que um simples abstrato "esse filme é foda para caralho!", que eu sempre fiz muito.

"Fim dos Tempos" é uma das ponderações mais poderosas sobre o rapport do cinema blockbuster e o novo espectador. Vou logo sublinhar os aspectos essenciais do filme para mim, esperando poder dissertá-los melhor no texto que virá a seguir.


3 cenas essenciais para o cinema de entretenimento contemporâneo: os personagens fugindo do vento, Mark Wahlberg conversando com uma planta de plástico e Wahlberg e Zooey Deschanel conversando através das paredes (bela adaptação de "Abelardo e Heloísa").


Já havia falado no texto sobre "Transformers" que, sob o CGI, teríamos planos dignos de um diretor sensualista tailandês. Estas cenas, especialmente a da planta de plástico, vêm sendo ridicularizadas pela crítica. Ora, o que esta cena tem de diferente de uma Liv Tyler interpretando com uma bola de tênis presa a uma vara de pescar, servindo de referência a altura do Hulk que será inserido na pós-produção? Por que Ian McKellen atuando com um Balrog completamente imaginário é digno de apalusos, enquanto os personagens de "Fim dos Tempos" fugindo do mesmo nada é ridículo?


Muitos estão dizendo que "Fim dos Tempos" é um ato de humildade de M. Night Shyamalan, retornando ao seu cinema mais pueril da fase de "Sinais" do que sua defesa feroz de ideologias em "A Vila" e "A Dama na Água". Nada poderia estar mais longe da verdade. "Fim dos Tempos" é o maior dedo médio erguido ao atual cinema de entretenimento hollywoodiano, um sonoro "vai tomar no cu, computação gráfica!" A diferença entre o seu filme de ação hollywoodiano e "Fim dos Tempos" é que simplesmente Shyamalan decide não inserir o CGI no plano. O espectador é levado a confrontar o fato que seu blobckbuster de férias trata-se de ridícula pantomima e que o atores estão fundamentalmente atuando com o nada. Se CGI é a suspensão da descrença, "Fim dos Tempos" é "O Rei Está Nu!" do cinema hollywoodiano. Por exemplo: qual não seria o embaraço geral da platéia aoassistir a um filme como "Garfield" sem seus efeitos visuais ainda inseridos? É bem o que acontece com a cena de Wahlberg e Deschanel conversando sem a presença física do outro: a voz descorporalizada.


E prepare-se para um ataque ao críticos norte-americanos tão cortante quanto aquele encontrado em "A Dama na Água": o último trecho do filme estabelece um programa de televisão com dois personagens discutindo o fenômeno. O entrevistador coloca uma das indiretas mais divertidas ao comportamento elitista e preconceituoso da crítica norte-americana frente a mera sugestão da crítica internacional de que Shyamalan poderia muito bem ser um auteur: "nós poderíamos admitir que o fenômeno se tratasse de um primeiro alerta caso acontecesse em qualquer outro lugar do mundo, menos aqui [costa leste, coração dos EUA]." Ou seja, a arrogância norte-americana em se ver como crucial e absoluta que jamais admitiria ter perdido o reconhecimento de um grande auteur para os críticos internacionais (insistindo agora em negá-lo e destrui-lo de uma vez por todas). Ao estabelecer o último plano no filme no país que o abraçou como grande diretor - fazendo assim um sentido agradecimento - Shyamalan decide premonitoriamente mudar o eixo central cinematográfico e sócio-político para bem longe dos EUA, cada vez mais decadente no cenário mundial, em recessão, etc.


Isto deixando passar os pontos mais viscerais de uma grande sessão de cinema: atmosfera cortante, sustos chocantes, uma história cativante, planos criativos (ainda que aquém do deslumbre visual dos seus filmes anteriores) e um roteiro que não toca uma nota errada. Amei do início ao fim. Alguns fillmes nos motivam a comprar o DVD; eu quero adotar uma película 35mm de "Fim dos Tempos", preservá-la. Pessoal da Fox, me contactem antes de mandar as cópias para a guilhotina, por favor.


O que justifica as críticas negativas? Bem, nada. É como a frase que cunhei para definir a prática: crítica cinematográfica é o pleno exercício do "escrotínio".

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  Bernardo Krivochein    domingo, junho 15, 2008    18 comentários
 
 
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