blogINDIE 2006
RIOFAN: O Festival Que Veio nos Salvar Começa Agora


Acaba no próximo dia 30 de abril uma das maiores carências do cenário cinematográfico brasileiro: o reconhecimento da existência de um tal “cinema fantástico” através da realização do primeiro grande evento celebratório do gênero. O RIOFAN – Festival de Cinema Fantástico do Rio de Janeiro acontece em três salas cariocas (Caixa Cultural, Estação Botafogo 1 e Cinemateca do MAM) até o dia 11 com uma programação repleta de impressionantes e numerosas surpresas, estabelecendo-o como uma das mostras mundiais de respeito já logo na primeira edição. Não é todo festival de cinema fantástico que pode se gabar de declarar sua existência perante o mundo inteiro com um filme do mestre George Romero (cujo “Diário dos Mortos” abençoa a abertura para convidados nesta quarta-feira).

Descobrindo o site do festival, o espectador poderá checar a extensa lista de longas e curtas programados, entre produções aguardadíssimas, novidades independentes (dentre os quais “Blood Car” faz coro), grandes clássicos imperdíveis (sendo “Ugetsu” obrigatório de se descobrir numa sessão 35mm) e surpreendentes contribuições brasileiras (“Conceição – Autor Bom é Autor Morto”; “Meu Nome é Dindi” e “O Fim da Picada”, além de filmes do Zé do Caixão) que ajudam a localizar nosso cinema dentro das amplas possibilidades do gênero (são inclusive as produções brasileiras que quebram o foco do RIOFAN, bastante concentrado no horror, oferecendo uma perspectiva mais abrangente). Claro, estaremos cobrindo o RIOFAN entusiasmadamente. Congratulações ao pessoal da Associação Cultural Contracampo (Fernando Veríssimo, Raphael Mesquita, Mario Azen e Leonardo Levis) pela iniciativa e pelo sucesso da empreitada.

A programação a seguir tem propósito apenas sugestivo, determinando num oceano de opções fantásticas apenas alguns portos seguros de acordo com o feedback de outros festivais do gênero no mundo todo. Portanto, trate de esquecer o “Homem de Ferro”: você vai ter inúmeras chances de assisti-lo na vitrine da Ponto Frio. Neste fim de semana, trate de se assustar, se revoltar e de se deslumbrar com algo de fantástico nesta sua vida modorrenta.

JACK BROOKS: MONSTER SLAYER

Dando continuidade ao movimento de represália aos terrores importados com o revival do cinema de horror oitentista puramente norte-americano, “Jack Brooks: Monster Slayer”, candidata-se à vaga que “Behind The Mask” e “Hatchet” (ambos também estrelados pelo mesmo Robert Englund deste) ocuparam ano passado: terror de entretenimento irrepreensível. Um bombeiro encanador com um passado sombrio e problemas de temperamento descobre sua verdadeira vocação quando o professor de seu curso escolar para adultos se transforma numa besta mosntruosa.

Textos: http://www.fangoria.com/ghastly_review.php?id=5755
http://twitchfilm.net/site/view/efm-jack-brooks-monster-slayer-review/
http://www.variety.com/review/VE1117935845.html?categoryid=31&cs=1
http://www.bloody-disgusting.com/review/1803

DIÁRIO DOS MORTOS

George Romero em seu habitat natural (um filme de zumbis num festival de cinema fantástico) é algo inédito no Brasil e obrigatório para qualquer cinéfilo, ainda que o filme tenha dividido opiniões e surgido numa época particularmente repleta de outros que se aproveitam da mesma estética câmera-na-mão (“Cloverfield”, “[REC]”). Ainda assim, vale para ver como Romero mais uma vez utiliza a zumbificação para abrir fogo crítico contra a sociedade, neste caso, a mídia de informação.

Textos: http://twitchfilm.net/site/view/tiff-report-diary-of-the-dead/
http://www.horror-movies.ca/horror_reviews_2716.htm
http://www.cinematical.com/2007/09/10/tiff-review-diary-of-the-dead/
http://www.rollingstone.com/reviews/movie/15691968/review/18419611/george_a
_romeros_diary_of_the_dead



CRONOCRIMES (TIME CRIMES/CRONOCRÍMENES)

Oportunidade imperdível para se assistir o primeiro longa-metragem do cultuado Nacho Vigalondo (do genial curta indicado ao Oscar “7:35 de la mañana”: http://www.youtube.com/watch?v=WA3I1kZR98o), que tem sido um sucesso arrebatador por todos os festivais por onde passa e já se encontra em processo de remake pela United Artists, No filme, um observador de árvores isolado num bosque aproveita para espiar uma mulher e acaba se envolvendo numa trama enrolada através de um loop no tempo. Descrito como uma espécie de “Feitiço do Tempo” dark, o filme agradou tanto Todd Brown, cabeça do site Twtich, a ponto de tornar-se produtor executivo deste e de seu próximo longa.

Textos: http://www.variety.com/review/VE1117935730.html
http://www.cinematical.com/2007/10/12/fantastic-fest-review-timecrimes/
http://chud.com/articles/articles/13331/1/SUNDANCE-REVIEW-TIME-CRIMES/Page1.html

POP SKULL

O indie da vez (vindo do Alabama) tem feito bastante barulho recentemente, ao que o filme chega a nós fresquinho no seu circuito de festivais internacionais. Mesclando várias estéticas para reproduzir o estado de desmoronamento psicológico de Daniel que, sofrendo de distúrbios do sono após o término com a namorada, vicia-se em remédios farmacêuticos não-prescritos, o melancólico e sinteticamente feérico longa de Adam Wingard é uma estréia tecnicamente complexa que vem chamando enorme atenção por onde passa.

Textos: http://www.bloody-disgusting.com/film/1600
http://twitchfilm.net/site/view/iiff-2008-pop-skull-review/
http://www.variety.com/review/VE1117935492.html?cs=1&p=0

ESTAÇÃO FINAL (END OF THE LINE)

Praticamente um veterano de festivais de cinema fantástico, o canadense Maurice Deveraux limpa a ficha do sistema metroviário como palco precioso para filmes de horror após o fracassado “Plataforma do Medo” (e assim redimindo-se de “Slashers”) com este conto bastante similar em seu ponto de partida: uma enfermeira já cheia de problemas na vida acaba presa dentro de um metrô junto com membros de uma seita que acredita precisar sacrificar os descrentes para evitar o apocalipse. Sessão de terror primal que tem impressionado pelos intensos sustos e surpresas que a história reserva ao espectador.

Textos: http://www.joblo.com/arrow/reviews.php?id=1185
http://www.eyeforfilm.co.uk/reviews.php?id=5853
http://www.cinematical.com/2007/04/09/philly-ff-review-end-of-the-line/

THE RAGE

Estrelado pelo Wishmaster em pessoa, Andrew Divoff (além de Reggie Bannister, de “Phantasm”), “The Rage” é uma aposta na diversão puramente escatológica do diretor Robert Kurtzman (especialista em FX fazendo sua estréia atrás das câmeras), que partiu, com este throwback aos primeiros filmes de Stuart Gordon (“Re-Animator” e “Do Além”), para salvar o gênero da higienização imposta pelas técnicas de mercado de terrores adolescentes. O sangue rola solto quando um médico, após descobrir a cura do câncer, é isolado e torturado pela ambiciosa indústria farmacêutica (que crê mais lucrativo tratar a doença do que curá-la por completo), se vinga da humanidade criando um vírus que zumbifica geral, só de raiva. Mas nem por isso Divoff escapa de ficar ainda mais feio, com auxílio de uma revoltante maquiagem.

Textos: http://efilmcritic.com/review.php?movie=16309
http://www.bloody-disgusting.com/review/1083

MIRAGE MAN

Após “Kiltro”, o diretor Ernesto Diaz Espinoza e o astro de artes marciais Marko Zaror retomam a parceira, com mais orçamento e mais ousadia, ao que “Mirage Man” tenta estabelecer um super-herói tipicamente latino na cinematografia latina. À história de um vigia noturno que se torna um justiceiro mascarado (contada com bastante humor auto-reflexivo), Zaror injeta suas impressionantes habilidades, deixando a questão: será que Espinoza conseguirá finalmente abrir os planos, sempre tão fechados nos filme anterior para esconder os limites da produção e a inferioridade dos extras perante as acrobacias do protagonista (no entanto, rendendo a “Kiltro” um charme bastante peculiar)? A resposta parece ser positiva, ao que ambos os filmes foram comprados pela Magnolia Pictures para distribuição comercial. Mais um exemplo do cinema fantástico em impressionante ebulição de nosso país vizinho.

Textos: http://papeldigital.info/lt/edicion.html?20080320010482
http://twitchfilm.net/archives/010727.html

OTTO, OR UP WITH DEAD PEOPLE

Uma revelação: gays adoram filmes de horror. Talvez pelo mesmo motivo que eles adorem ser encarcerados (com um cara bem gostoso) e seqüestrados (por um cara bem gostoso). É um fetiche, baseado na crença de que, sendo a única opção sexual disponível numa situação de tensão, o hétero vai ter que ceder e experimentar aquilo ali. Então cuidado com o seu furico no escuro durante a projeção de “Otto, or Up With Dead Pepole” de Bruce La Bruce, ícone do queer cinema arriscando um filme reflexivo de zumbis. Filmes gays de terror não são novidade (toda a cinematografia de David DeCoteau e “O Pacto”, por exemplo), mas a inovação pode estar justamente na abordagem, que pega emprestado do queer cinema a experimentação e a reflexividade. A descobrir.

ESTRADA PARA O INFERNO (ZIBAHKANA)

O primeiro filme paquistanês de zumbis já vem chamando a atenção na internet desde o seu anúncio, mas experiências derradeiras com ele tem sido esparsas. Aparentemente uma mistura de “O Massacre da Serra Elétrica”, do tailandês “Hell” com “A Noite dos Mortos-Vivos”, a história é típica trama de “filme de adolescente morto”, ao que um grupo de hormonalmente incautos se perde a caminho de um concerto de rock apenas para se descobrirem refeição de um bando de zumbis selvagens. Ajuda muito pouco que um assassino de burka também esteja na sua cola. Parece galhofa. Parece divertido.

O BOSQUE MALDITO (IL BOSCO FUORI)

Cabe ao filme de Gabriele Albanesi defender a dinastia do terror italiano, uma das mais nobres da História do Cinema. Há muito pouco nas críticas que ressaltem alguma coisa sobre seu estilo ou abordagem, mas todas fazem questão em ressaltar o corajoso gore que não se restringe ou se acovarda em face do revoltante e nauseante. Quando um casal de jovens é ameaçado por uma dupla de locais ameaçadores, um casal de idosos toma suas dores e os convida para passar uma noite em sua casa, a última casa do bosque. Mas tem terra com predisposição para brotar filhos da puta...

Textos: http://efilmcritic.com/review.php?movie=17301
http://www.variety.com/review/VE1117933946.html?categoryid=31&cs=1&nid=2577

AUTOMATONS

Para ser visto em “double feature” com “Cthulhu”, esta ficção-científica vintage feita com orçamento de conserto de geladeira aproveita-se de sua falta de recursos para intensificar sua atmosfera retrô, própria de tantos programas de televisão clássicos dos anos 50 e 60. Mais do que remeter esteticamente a época, o filme de James Felix McKenney tenta resgatar dos escombros da sobrecarga atual de efeitos em CGI a mentalidade de que podia se fazer um sci-fi apenas com idéias.

Texto: http://movies.nytimes.com/2006/12/13/movies/13auto.html
http://efilmcritic.com/review.php?movie=15459
http://www.monsterpants.net/automatons/reviews.html

Além destes, temos também “The Man From Earth”, já amplamente elogiado pelo Shenmue GDA aqui no blogINDIE, como também o clássico acidental do INDIE 2007, "Blood Car”, que merecem ser descobertos para quem nunca os assistiu. Recomendação que se estende para toda a excitante programação que se desenrola em frente aos nossos olhos incrédulos e gratos.

Site do RIOFAN: link
  Bernardo Krivochein    terça-feira, abril 29, 2008    3 comentários
 
 


Uma exposição de arte pode às vezes valer por 1 filme ou 2 ou 1000



O cinema, num nível pessoal, tem lá seus encantos, (não é a toa que aficcionados passam horas e horas vendo e discutindo filmes no mundo todo) mas exatamente no lugar onde o cinema encanta, uma exposição de arte pode desencantar. Uma façanha bem mais desafiadora para os inúmeros freqüentadores dos museus e galerias por aí. Você pode se encontrar num universo mais real, luzes acesas ou não, mas seu corpo está de pé, se move. Numa exposição, você é um ser ativo e seus olhos escolhem aonde e quanto tempo olhar, ao contrário do cinema que quase sempre condiciona a sua mira. Mas certas exposições causam um impacto tão grande no seu corpo e na sua existência que dificilmente um filme causaria... por que?

Isto que me perguntei ao visitar uma retrospectiva completa da Louise Bourgeois no Centre Pompidou em Paris (a exposição fica até 2 de junho). Ali centenas de objetos, esculturas, instalações, pinturas produzidas pela artista durante toda a sua vida... ela já está com mais de 90 anos é uma mulher pequena, magra mas absolutamente vivaz e inquieta. O impacto de ver os objetos que ela construiu é muito forte ( nada comparado a uma imagem de um objeto, nada), você enxerga o esforço, a textura, a linha onde tudo começa e termina. Para quem vive em meio ao esforço de comunicação das imagens, foi um choque, quase um medo de encarar a verdade de Bourgeois.

Ela é taciturna em suas descobertas, seus livros relatam um pai tirano que ela tenta entender em todos os seus processos de criação. Uma mãe morta logo cedo, mulheres do pai a tolerar. Seu trabalho é multiforme, seu universo psicanalítico, sua infância presente, o sexo, o amor, a morte, tudo muito intenso assim como os materiais vários: metal, vidro madeira, tecido, algodão, cera, bronze. O feminismo, a questão da opressão e libertação daa mulher está muito presente. Suas aranhas tão famosas como símbolo daquilo que, segundo a curadora da mostra, siginifica uma mãe, a rainha que protege a teia. O cinema nunca daria conta de Louise e esta é uma verdade. O cinema parece frio demais perto de seu coração material e encarnado em coisas simbólicas.

"I am a scientific person. I believe in psychoanalysis, in philosophy. For me the only thing that matters is the tangible", diz Louise.

Talvez seja bom deixar as palavras de lado, as imagens de outro e construir um objeto qualquer.


*Foto: trabalho de 2001, Seven in Bed.

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  Francesca Azzi    sexta-feira, abril 25, 2008    9 comentários
 
 
CANNES 2008: PROGRAMAÇÃO OFICIAL

COMPETIÇÃO OFICIAL:

Nuri Bilge Ceylan: Three Monkeys.

Jean-Pierre and Luc Dardenne: Le Silence De Lorna.

Arnaud Desplechin: A Christmas Story.

Clint Eastwood: Changeling.

Atom Egoyan: Adoration.

Ari Folman: Waltz With Bashir.

Philippe Garrel: La Frontière de l'aube.

Matteo Garrone: Gomorra.

Charlie Kaufman: Synecdoche, New York.

Eric Khoo: My Magic.

Lucrecia Martel: La Mujer Sin Cabeza.

Brillante Mendoza: Serbis.

Kornél Mundruczó: Delta.

Walter Salles: Linha De Passe.

Paolo Sorrentino: Il Divo.

Pablo Trapero: Leonera .

Wim Wenders: The Palermo Shooting.

Jia Zhang-ke: 24 City.

Steven Soderbergh: Che (Episódio 1:Guerrilla e Episódio 2: The Argentine).

HORS PRIX:

Steven Spielberg: Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull.

Mark Osborne and John Stevenson: Kung Fu Panda.

Ji-Woon Kim: The Good, The Bad, The Weird.

Woody Allen: Vicky Cristina Barcelona.

EXIBIÇÕES ESPECIAIS:

Marina Zenovich: Roman Polanski: Wanted and Desired.

Wong Kar-wai: Ashes of Time Redux.

Daniel Leconte: C'Est Dur D'être Aimé Par Des Cons.

Marco Tullio Giordana: Sangue pazzo.

Terence Davies: Of Time and the City.

SESSÕES DA MEIA-NOITE:

Emir Kusturica: Maradona.

Jennifer Lynch: Surveillance.

Hong-Jin Na: The Chaser.

Alison Thompson: The Third Wave.

FILME DE ENCERRAMENTO:

Barry Levinson: What Just Happened?

JÚRI:
Presidente: Sean Penn.
Sergio Castellitto.
Natalie Portman.
Alfonso Cuaron.
Apichatpong Weerasethakul.

Alexandra Maria Lara.
Rachid Bouchareb

  Bernardo Krivochein    quarta-feira, abril 23, 2008    1 comentários
 
 
SINUSITE INTERNATIONAL FILM FESTIVAL

Evento patrocinado por Descon e Amoxilina

Com o corpo fraco e com vias respiratórias obstruídas que me impedem de sair na rua ou me enfurnar no ar condicionado, uno o útil ao agradável e faço desta clausura forçada uma oportunidade para uma maratona cinematográfica, na qual, através das pilhas de DVDs e arquivos baixados, me atualizarei com alguns filmes recentes e descobrirei filmes antigos pela primeira vez – e que serão comentados o mais imediatamente possível (é o corpo que vai determinar).

Agora, é preciso admitir que a condição de saúde somada à influência dos remédios pode transformar tanto a experiência especular quanto a expectorante, ou seja, é possível que alguns elementos de cena elogiados, como os jacarés dançantes de topless, sejam apenas alucinações sobrepostas ao filme em momentos de delírio ou tédio. Quer dizer, se o filme for do Sergei Paradjanov, aí é que não vou saber distinguir mesmo. De tanto dormir no meio dos noticiários, eu já estou achando que quem jogou a menina do prédio foi o mosquito da dengue.

SEXTA-FEIRA: 23:30 – KOMAL GANDHAR (Índia, 1961) de Ritwik Ghatak

É basicamente o “Les Enfants du Paradis” indiano, ou seja, é altamente superior ao “clássico” francês, uma vez que não temos que aturar todos os personagens incompreensivelmente babando o ovo de um mímico vestido de pierrô apaixonado (que é mais assustador e irritante do que poético, engraçado ou qualquer outra frescurada tipicamente francesa que só pode ter sua importância defendida além de seu território original por um bando de deslumbrados eurocêntricos): o astro e a roteirista idealista de duas trupes teatrais rivais tentam produzir uma montagem conjunta, ainda que nem todos os integrantes estejam de acordo com a união. Tendo o desmembramento da Índia como pano de fundo, “Komal Gandhar” aborda a vida dos refugiados em Calcutá e a ebulição política de um país tomado por manifestações e revoltas. É estranho que Ritwik Ghatak seja considerado um diretor na contramão do cinema indiano comercial, pois, ao contrário do que vai indicar a Wikipedia, os elementos de canto, dança e melodrama se fazem presentes neste filme, ainda que sem a grandiloqüência tão característica de Bollywood. Esta moderação do espetáculo faz do filme ainda mais enternecedor e impressionante: a narrativa é sofisticada o bastante para confundir as linhas dramatúrgicas (os personagens, que são atores, passam a interpretar, além dos limites do palco, a seus papéis e a eles mesmos).

Em nome da completa honestidade especular, o filme começou meio estranho para mim (é preciso acomodar-se a sua narrativa) e eu estava com menos tesão por ele ao final do que quando tinha começado a sessão. Mas a partir do momento em que os personagens se mudam temporariamente para o campo para ensaiar a peça na casa de Anasua, “Komal Gandhar” se lança às estrelas e fica por lá por uma boa hora e meia. A trupe que chega de barco, o musical interpretado pelo contra-regra nas colinas ou um Bhrigu esperando sua deixa nos bastidores são alguns dos planos mais belos e melancólicos de um tipo de cinema que só existiu pelas mãos de seu criador. Vale também ressaltar o trabalho de som, que repensa constantemente sua relação com a imagem, propositalmente artificial ao fazer ruídos de fundo serem repetidos exaustivamente e a um compasso padronizado, como se músicas pudessem explodir a qualquer momento desses barulhos de picaretas sendo marteladas ou tiros sendo insistentemente disparados.

SÁBADO: 2:00 – FRONTIÈRE(S) (França, 2007) de Xavier Gens

Caso curioso. O terror ‘Frontière(s)” foi o cartão de visita de motivou o convite de produtores americanos a Xavier Gens para conduzir a adaptação do jogo “Hitman” para as telas. “Hitman”, que teve uma história conturbada de produção (culminando no afastamento de Gens da produção), foi lançado nos EUA antes de “Frontière(s)”. Agora o cartão de visita poderá se tornar a própria redenção após o fracasso de bilheteria deste último: sucesso de festivais de cinema fantástico mundo afora em 2007, o celebrado terror de Gens será finalmente lançado nos cinemas norte-americanos, ajudando a todos compreender o que catapultou mais um diretor francês aos galpões hollywoodianos.

Algo que a crítica especializada sempre ignora em nome de um cinema mais sensível e relevante, acusando o cinema de horror de nocivo ou degenerante apenas porque são fracos ou moralmente opostos à visão (por mais completamente artificial) de mortes encenadas, é esta predisposição do indivíduo em querer brincar de morrer em cena. Lembro do documentário de Michel Gondry que revela que a primeira coisa que seu filho e seus amigos fizeram ao colocar as mãos numa câmera foi fazer um filme de terror. A grande parte de cineastas iniciantes escolhe fazer filmes de horror porque, além de baratos, eles são garantia de que tanto elenco e equipe se divertirão feito crianças. Por isso, talvez filmes de horror sejam o gênero mais celebratório da vida humana: brinca-se de morrer violentamente e levanta-se imediatamente depois, um sorriso branco quebrando o vermelho do corante que imunda o ator.

Ainda que totalmente derivativo, “Frontière(s)” é um divertido espécime de brutalidade glossy no qual o elenco, tendo encontrado a desculpa perfeita para brincar na lama e se sujar inteiro sem levar bronca da mãe, está claramente se divertindo muito mais do que a platéia (é o caso de “Onze Homens e o Segredo”, menos a arrogância e a irritação). Não se engane pelo começo do filme, cenografado pelas recentes revoltas nos subúrbios parisienses: Gens está descaradamente fazendo o remake do remake de “O Massacre da Serra Elétrica” de Marcus Nispel (desde o roteiro e fotografia até em detalhes de cenas de horror, como aquela que tem um dos personagens suspensos por ganchos de açougue), ainda que dê a maior volta no mundo para chegar lá. Quando chega, no entanto, é basicamente o mesmo filme, com direito a um patriarca nazista (!) que, por incrível que pareça, funciona: falando um francês correto e vagaroso, a presença de Jean-Pierre Jorris é, após uma boa seqüência imitando “The Descent”, a maior causa de arrepios. A preguiça de se fazer algo remotamente original irrita bastante (até porque já existe um filme de terror francês igualzinho a este, mas superior em resultado final: procure por “Calvaire”), mas quando se supera o fato que Gens só quer ligar a torneira de sangue falso, podemos encontrar uma boa diversão do gênero: as mortes não são nem um pouco tímidas e Gens é bravo ao tentar fazer o espectador devolver o almoço a todo custo. “Frontière(s)” torna-se sobretudo ridículo no exagero, que insensibiliza o espectador do impacto que cabeças explodindo e membros decepados supostamente causariam (soma-se a isso a atuação espetacular de Karina Testa que aparentemente passa a interpretar um vibrador com pilha fraca no terço final do filme). Eu meio que parei de prestar atenção no clímax e tudo virou uma grande maçaroca escandalosa de tripas e sangue esvoaçante. Filhote de “Haute Tension” que, junto com “À L’Interieur”, afirma o emergente terror francês como o mais molhado do mundo.

3:50 – L’AUBERGE ROUGE (França, 2007) de Gerald Krawczyk

Bizarra conspiração astrológica que me faz programar este “L’Auberge Rouge” logo após “Frontière(s)”, já que ambos compartilham mais do que a nacionalidade: nos dois filmes, um grupo de viajantes se percebe obrigado a passar a noite numa hospedaria cujos donos tem como costume passar a régua nos clientes. Remake do longa homônimo de 1951 (baseado numa história real), “L’Auberge Rouge” apóia-se no elenco capitaneado por Christian Clavier e Josiane Balasko para conferir peso a este “Mistério da Irma Vap” francês e, tal como “Oito Mulheres”, assumindo sua teatralidade através de sua mise-en-scene caricata.

“L’Auberge Rouge” seria perfeitamente adorável caso fosse um desses filmes médios franceses tão ardorosamente defendidos pela nouvelle vague, mas nas mãos de Krawczyk, diretor das continuações do actioneer “Taxi” claramente procurando mostrar versatilidade, os atores acabam tendo que dividir os holofotes com os valores de produção e demonstrações exibicionistas de direção e montagem. O resultado é uma mistura indigesta da tradição francesa de artes cênicas (o elenco inteiro é divertido e a precisão do timing cômico é assustadora) com o virtuosismo técnico de um país que aspira ser a Hollywood européia. Curioso, bem feito, não ofende, mas ainda assim, completamente dispensável.

SESSÃO FRUSTRADA – 1900 (Versão Integral de 5 Horas, indisponível em DVD)

Tinha armado meu sábado – consciente – em torno dessa sessão, mas o leitor não está reconhecendo a faixa de áudio do arquivo baixado. Acabei substituindo por outros filmes. Na programação: “Two Lane Blacktop”, “La Residencia”, “Import Export”, “The Devil Dared Me To”.

UPDATE 1:
15:30 – PIECES ou MIL GRITOS TIENE LA NOCHE (EUA/Espanha/Porto Rico, 1982) de Juan Piquer Simón

Ok, este é um dos slashers mais cultuados e obscuros que existem por aí (co-escrito pelo famigerado Joe D’Amato) e que eu nunca tinha visto. Após a boa abertura que, ao estilo de “Halloween”, estabelece as raízes da psicopatia do serial killer na peste que o sujeito era quando criança (quase uma versão atômica de “Savage Grace”, atualmente nos cinemas), avançamos MUITO TEMPO MESMO no tempo, quase rivalizando o salto evolutivo de Kubrick em “2001”, para o cenário muito derivativo de uma universidade aterrorizada por uma série de mortes. Daí o filme é blah atrás de blah, com uma série de incoerências e improbabilidades irritantes. As mortes são esporádicas e nem tão criativas assim. Apoiando-se num herói improvável – o galã da escola que, mesmo tendo acesso imediato a todas as vítimas e locais da universidade e freqüentemente se encontrando no momento e local exatos das mortes, jamais é tido como suspeito pela polícia! Os policiais deviam ter acesso ao roteiro, pois de fato não é o assassino; ele apenas é um cara muito legal mesmo. Ah, e tem uma policial que se aproveita de seu passado de tenista olímpica para infiltrar-se no campus. É, o filme vai lá no ridículo, acena adeus enquanto se afasta e não se apressa em voltar. Mas...

...MAS quando você está prestes a jogar a toalha, o filme te ataca com um final absolutamente espetacular, ofendendo simultaneamente a inteligência e a moral. E quando eu digo “final”, eu quero dizer últimos segundos de filme mesmo. Cadáveres começam a pipocar das paredes feito uma festa rave no cemitério e genitais são bolinados sem a menor cerimônia. Não tenho dúvidas que tanta a razão de ser quanto o culto de “Mil Gritos Tiene La Noche” deve-se a sua conclusão delirante, portanto é apenas perdoável que o filme protele em direção ao seu final, especialmente quando cumpre o que promete e explode feito fogos de reveillon após uma longa espera bêbada. Tive um ataque de risos que durou vários minutos após os créditos finais. Acho que o filme me melhorou a saúde.

UPDATE 2:

Esta massa não pode ter saído do meu nariz. Alguém deve ter esmagado uma lesma na pia ou coisa parecida.

Não é humanamente possível armazenar tamanha quantidade de matéria pastosa dentro das vias respiratórias e não morrer sufocado. E sinceramente, que raio de cor é essa? Se eu fosse designer, já teria a registrado: Verde Musgo Krivochein CMYK 2740.


17:20 – DAI-NIPPONJIN (Japão, 2007) de Hitoshi Matsumoto

Após as filmagens de “Godzilla: Final Wars”, o último da série, a piscina que serviu por 50 anos como cenário das catástrofes cinematográficas nos galpões da Toho foi destruída como mais uma das miniaturas de Tóquio: pisoteada para dar espaço para novas e mais modernas instalações. O mito de Godzilla não foi grande o bastante para preservá-la. Não houve cerimônia ou valor tradicional forte o bastante para defendê-la.

Não importa a sua altura, você nunca é maior do que o ostracismo. Pense no que é feito dos carros alegóricos do carnaval, ou praticamente todas as grandes obras defasadas na cultura da grandiloqüência, apodrecendo num ferro-velho qualquer, escondido da civilização. Uma coisa é ser um astro perfeitamente humano apagado da mídia. Mas onde arranjar espaço no Retiro dos Artistas para o Ultraman ou Satangoss?

Seria preciso identificar o momento exato em que o superlativo passou de encarnação dos terrores de ameaça nuclear (como no primeiro “Godzilla”) para compensação bizarra do complexo de inferioridade japonês (os “Godzillas” seguintes, que transformam-no em defensor do Japão, e todos os heróis pop locais a partir de então), apenas para fincar “Dai-Nipponjin” na linha do tempo sobre a marca: “o momento em que o complô foi desnudado”. Filmado como um falsomentário, Matsumoto segue a vida cotidiana de Dai Nipponjin, herói nas linhas de um Ultraman, mas defasado pela queda de qualidade dos vilões enfrentados e pela indiferença geral causada pelo excesso de familiaridade e com o desgaste criativo das lutas (transmitidas na televisão apenas no horário da madrugada, por desinteresse dos anunciantes).

Matsumoto tece um tipo muito peculiar de comédia, no qual o humor não é rasgado (se há uma piada, ela está no fato como todos do elenco levam o conceito mortalmente a sério, sem hesitar um sorriso ou um momento de ridículo abobalhado sequer), mas mortalmente irônico. Mesmo ao nos apresentar à galeria mais esdrúxula de vilões gigantes (um elenco que seria rejeitado até pelo pior dos seriados asiáticos), a idéia não está em nos fazer gargalhar, mas em denotar o patético de um pop que inexplicavelmente tornou-se tradição cultural, ao mesmo tempo que lamenta o abandono às tradições por parte de uma sociedade japonesa cada vez mais deslumbrada com a cultura ocidental (tema já abordado no excelente “Who’s Camus Anyway?”). É um filme assumidamente bizarro, mas que, ao contrário de tantos outros cults cinematográficos nipônicos, pretende questionar e lastimar este bizarro muito mais do que divertir-se com ele. Sobra ainda uma farpa para a otimização industrial que entope a paisagem social com uma carga inassimilável de força humana de trabalho.

O ritmo do filme é irregular e a longa duração esgota o conceito bem antes da (bela) linha de chegada, mas ao final da sessão permanece a surpresa de um filme que revolta-se contra a superficialidade que sua idéia central inicialmente inspira, apenas para acusar não os monstros gigantes e sim os que correm dele.

21:15 – MÝRIN (JAR CITY, Islândia, 2006) de Baltasar Kormákur

Às vezes, tudo o que você precisa é de uma nova perspectiva das coisas. No inferno conjurado sobre os thrillers policiais pela popularização do conceito da investigação forense (que obrigam os roteiristas a comprometer ritmo e atmosfera em nome de uma rotina de procedimentos técnicos), Kormákur simplesmente inverte a ordem e transforma o vestígio de DNA elucidador, redentor, testemunha-chave em assassino, arma e motivo do crime. A “Cidade de Jarro” do título alude a um polêmico experimento real: o banco de DNA humano que permitiria, além de auxiliar na identificação de criminosos, manter um invasivo controle sobretudo dos históricos de saúde familiar.

Um homem é misteriosamente assassinado numa pequena cidade islandesa e Öryggisvörður (Erlendur Eiríksson), chefe de polícia local, encarrega-se das investigações. Porém, a vítima, descobre-se, tinha um passado rico em crimes e, a partir de uma foto encontrada em seu apartamento, Öryggisvörður é conduzido a reabrir um trágico caso de várias décadas atrás. O suspense procedural não é muito diferente do que se encontraria num episódio de “CSI Reyjavik”. São as singularidades da produção que realmente fazem o filme, desde o elenco (perfeito) às locações, ao ritmo cerimonioso imposto pelo diretor e pela atmosfera criada pela fotografia, apresentando-nos a um bizarro mundo que hibridiza o máximo da evolução humana (na tecnologia) com o seu mais bestial (na violência com as próprias mãos).

Co-habitando “Jar City” numa espécie de segundo filme parasitando da trama central, o relacionamento entre Öryggisvörður e sua filha, a piranha drogada mais rodada da cidade, que imediatamente remete a uma das linhas de “O Doce Amanhã” de Atom Egoyan, claramente serviria para correr, se não como uma metáfora paralela, como universo modelo no qual o protagonista exercita os ensinamentos extraídos do escabroso caso que persegue. Mas a dupla de atores confere a esta subtrama uma luz toda própria que compete contra o suspense principal pelo interesse máximo do espectador. Diria que, em dados momentos, este drama pessoal, apesar de até banal, chega a ofuscar nossa atenção da linha de investigação, sinal de que há muito mais investido no fator humano aqui do que nos derivados enlatados de 45 minutos.

DOMINGO: 0:00 – TWO-LANE BLACKTOP (EUA, 1971) de Monte Hellman

Velozes e nada furiosos, os motoristas taciturnos de “Two-Lane Blacktop” parecem se encontrar num estado de zen antagônico à cultura em alta velocidade de muscle cars e pegas urbanos que tanto os fascinam. Concentrados em seu objetivo de viver a obsessão americana por carros ao seu máximo, os dois amigos dirigem sem rumo pelo país em um Chevrolet 55 turbinado, sobrevivendo das corridas ilegais que apostam. Existe, no entanto, um conflito não-declarado fervendo no coração do filme.

Antes é como nada existisse e os carros pudessem passear livremente pelo território. É apenas a partir dos 30 minutos de filme que algo semelhante a uma trama entrará em cena: eles apostam o carro com outro motorista à deriva em terra firme a bordo de seu GTO. “Two-Lane Blacktop” ganha uma linha central, uma estrada a qual seguir, uma predeterminação, uma inevitabilidade. Esta liberdade inicial que muitos associam aos “Easy Riders” de carreira torna-se uma angustiante e ampla prisão ao que os personagens são confrontados com o aterrador fato de jamais saber o que querem, tampouco como articular quaisquer desejos que aflorem.

É preciso dizer que: um) eu acho que encontrei um novo filme com o qual ficar fascinado, e; dois) caralho, o James Taylor era muito bonito! Estou falando daquele James Taylor mesmo, que já viu fogo, já viu chuva e já viu a chavasca da Carly Simon. Digressão: é óbvio que “You’re So Vain” é sobre o James Taylor, afinal, a quem ela se endereça no refrão ao acusar de egocêntrico? E, no final das contas, Simon deveria ser grata a Taylor, porque esta, que é a melhor música dela, só foi possível pelos chifres que ele lhe deu, portanto a vitória acaba sendo dele de qualquer maneira. Em defesa de Simon, eu bem a achava gostosa, num sentido “tia gostosa” que você torcia para passar um fim de semana na casa dela para cheirar as calcinhas usadas no banheiro. Devia ser meu fetiche por Debbie Gibson. O filme me encheu com uma série de frustrações, como por não poder sair até estar melhor de saúde. E após ver Taylor em “Two-Lane Blacktop”, fiquei com inveja por não poder ostentar o mesmo estilo altão, cabelão, magrela e caladão. Eu queria ser igual ao James Taylor neste filme. Se eu fosse igual a ele, eu comeria o cu do meu espelho. Parabéns para todas as mães: elas sabiam para quem batiam siririca.

É verdade que o trio principal de protagonistas (composto ainda por Dennis Wilson, do Beach Boys, e a linda Laurie Bird, que suicidou-se no apartamento de Art Garfunkel anos depois) é atraente mesmo para os padrões atuais, beneficiando-se do comedimento com o qual Hellman (que produziria a estréia de Quentin Tarantino em “Cães de Aluguel) aborda a cultura hippie da época, sendo este inclusive um dos azes do filme: reconhecer a questão da liberdade sexual e das drogas para não se alienar da realidade, mas sem integrá-las à história em exercícios de auto-indulgência. Porque normalmente os hippies entusiasmados retratados de forma autêntica em filmes de época se revelam, sob revisão, um bando de vítimas ingênuas de uma moda cafona. O filme não tem uma agenda secreta nem bandeiras a levantar. Adoro a forma como a aceitação passiva dos eventos que se sucedem ao longo do filme (a caronista interpretada por Bird simplesmente invade o Chevrolet e os motoristas a acolhem sem jamais discutirem o assunto ou demonstrar qualquer estranheza) é desmascarada como uma verdadeira deficiência emocional dos personagens. Presos na obsessão material, a única forma que Taylor tem de se aproximar verbalmente de Bird, claramente atraída pelo personagem, é através de conversas fugazes, mal articuladas. No grande momento em torno da mesa de uma lanchonete, Taylor consegue expressar seus verdadeiros sentimentos sem jamais utilizar uma palavra sequer que se corresponda com as ebulições internas. Ao invés disso, ele tenta convencê-la a voltar com ele falando unicamente sobre uma corrida de carros, ao que Bird responde: “Não é o bastante”. Não que o verbo seja então o objetivo final da personagem de Bird, mas sua decisão final de abandonar o filme em face dessa articulação pobre revela o desejo comum e indispensável por vocalizações derradeiras desses sentimentos, algo que, descobre, jamais terá com Taylor.

Parábola fascinante sobre a indefinição do desejo pessoal na terra das oportunidades fatalmente infinitas (tese representada sobretudo na forma como o motorista do GTO reinventa sua história pessoal a cada caronista que pega ao longo da jornada), “Two-Lane Blacktop” tem talvez aquele que seja o final mais cinematograficamente honesto: seus personagens sem objetivos e metas a alcançar, a única maneira do filme ter um fim é literalmente acabando, ao que a película se queima e interrompe o que, de outra forma, seria aterrorizantemente perpétuo.

  Bernardo Krivochein    sábado, abril 19, 2008    2 comentários
 
 
Pós-Ambulatório

Seria preciso um duplo tato que me falta caso eu fosse criticar "Ismar" de Gustavo Beck. Um: porque eu conheço o diretor (amigo de amigos, na realidade) e esta semi-proximidade sempre me inspira o silêncio estratégico, já que ao mesmo tempo em que você não quer magoar no caso de recepção negativa, o orgulho da recepção positiva pode motivar uma exaltação exagerada, sendo finalmente prejudicial próximo ao público e crítica (e não que o filme precise de um plugue publicitário de um site de quinta, já que vem sendo selecionado para vários festivais). Dois: não ter o hábito falar de curta-metragens, sendo mortalmente consciente de que não consigo me adaptar a situações, pessoas e lugares num curto espaço de tempo - eu preciso de um ritmo e tempo de costume.

Mas caso coubesse a mim abordar criticamente "Ismar" (que assisti por acaso neste fim de semana), eu diria que o estilo não-intrusivo da direção de Beck permite que o curta se organize de forma espontânea, as imagens se dispondo instintivamente para compôr de forma bastante sucinta a narrativa: a melancólica trajetória descendente de um autêntico wiz kid especializado em cinema hollywoodiano a este inferno que é a cultura alternativa carioca. Existe uma elegância (que é verdadeira) na forma como a estrutura parece arquitetar-se de forma não-manipulada (que é falsa, mas positivamente), permitindo que imagens de acervo (que compõem, eu diria, 80% do filme) sejam inseridas em blocos maciços, sem dinamizações de montagem e de direção - o que pode parecer fácil, mas é necessário uma auto-confiança alienígena a diretores basicamente iniciantes para não cair na tentação de se colocar mais, se impor mais. Assim sendo, ele conseguiu fazer um filme que não parece ter sido feito, não parece ter sido construído, tampouco parece ter sido dirigido, mas sim aflorado de algum lugar estranho entre o passado que esqueceram de queimar e o presente que paga o preço das lembranças.

Claro que eu tenho ressalvas a certos aspectos do curta; só lembre-se que não estou o criticando (e mesmo se estivesse, este é um típico caso dos "Mas" da resenha cinematográfica e que eu dissertarei ainda esta semana), mas partindo dele para refletir sobre alguma outra coisa que implica a todos nós que dizemos gostar (e até bem mais do que isso) de cinema. Portanto preciso dizer que, por mais impressionante que "Ismar" seja, eu o apreciei bem mais pelo modo como sua suposta crítica ao cinema - ou pelo menos, à sua forma mais espetacular e artificial - sai pela culatra (uma interpretação comum entre aqueles com quem assisti ao filme, mas estou aberto para ser corrigido sobre tal).

O que acontece: após o fim de sua carreira como estrelinha de programas de auditório, encontramos o protagonista aparentemente decepcionado (espere para ver muitas histórias como esta quando "Soletrando" do Luciano Huck sair do ar) e, parafraseando o próprio, importando-se apenas com a "verdade". Tendo feito carreira como intolerável enciclopédia mirim de informações cinematográficas de filmes clássicos, subentende-se que "verdade" é um rechaçamento deste cinemão tipicamente hollywodiano que antes o fascinava (mais do que o cinema como um todo, o que é também uma possibilidade) e que lhe causou uma decepção da qual ele até hoje não parece ter se recuperado. Somente hoje, quando se encontra amuado com o cinema, ele se torna estrela de um filme. O que não é nem um pouco irônico, apenas característico da natureza cinematográfica.

Meu objeto de fascínio é justamente este "alerta": amar o cinema não é saber de cor o elenco e equipe técnica de "O Poderoso Chefão". Especialmente no Brasil permite-se cair no equívoco de privilegiar avaliação acima de impressão, o que quer dizer, o indivíduo estando em dia com as informações técnicas do filme, coloca-se numa posição de autoridade para julgar, ao invés de realmente apreciar.

Não escrevo isto me fazendo de inocente, tendo começado a fazer críticas basicamente no mesmo espírito, como também sendo cobrado e até dispensado ao me confundir nesta ou naquela minúcia. Não estou patrocinando a desinformação e jamais dispensaria as correções que volta e meia muito justamente me fazem. Não escrevo para me isentar das muitas cagadas que já deixei passar. Mas saber o que se está fazendo (travelling, grua, plongée) não é saber como se está fazendo (que envolve a reação química entre aparato cinematográfico com a realidade sempre espontânea) e corriqueiramente comete-se o erro de acreditar que, dominando o nome dos termos, domina-se a realização. Parafraseando David Fincher, aprender a filmar é precisar filmar cinco planos antes do sol raiar quando você sabe que só conseguirá no máximo dois. Este erro que muitos aspirantes a cineastas cometem (pois partem de um pequeno desprezo aos filmes que vêem, dizendo: eu teria feito muito melhor) se estende para a dissertação cinematográfica.

A repetição automática de informações amplamente divulgadas é um falso substituto de sensibilidade crítica, que é inerente a todos, mas mal exercitada em prol de tecnicidades que prestarão para, no máximo, comeptições de quiz valendo batedeiras elétricas. O tal Ismar é testado em programas de televisão pela quantidade de curiosidades cinematográficas que carrega, jamais pela qualidade ou peculiaridade delas, que é o que deveríamos estar patrocinando. Se ele se decepciona com o Cinema porque uma certa informação sobre o assunto lhe falta no momento oportuno, é uma tragédia auto-imposta; e não porque o Cinema é falso, cruel, ardiloso, artificial como o curta-metragem aparentemente tenta transmitir. O Cinema não faz questão nenhuma que você saiba, ele exige que você seja. Por isto, o Cinema é uma arte tão fascinante: quando você tenta fazê-lo peça de catálogo, ele rapidamente se esquivará para longe de seu alcance. É somente quando abandonamos o cinema que nos tornamos cinematográficos.

****
Voltando de viagem. Não viveria em outra cidade senão o Rio de Janeiro nem a porrada, mas não me imagino dando certo nela tampouco. Por que eu tenho essa impressão de que as coisas, como eu as imagino pelo menos, tem mais potencial de florescer em São Paulo, BH, qualquer outra capital ou cidade mais urbanizada, do que no RJ?

O que acontece no Rio de Janeiro para não-cariocas: por ser uma cidade histórica com um passado definitivo para o país, ainda que de expressão cada vez mais diminuta no cenário nacional em praticamente todos os âmbitos, o espírito empreendedor do carioca fica bastante atrelado aos sobrenomes de destaque associados ao projeto, ou seja, todo mundo é muito importante (a característica do carioca é ser VIP, ao ponto de pagar o dobro do preço do ingresso apenas para figurar na lista de convidados com entrada grátis), todos os projetos precisam ser trampolins sociais e ninguém faz nada pelo desejo de realizar um bom projeto, mas abrem as pernas para se humilharem realizando os piores comerciais do mundo na INSIRA NOME DE PRODUTORA AQUI, apenas por ser estabelecida e ovobabada. E recebendo o pagamentozinho fedido atrasado, isto quando sequer recebem. Existe ainda um deslumbre pelas dinastias (que, por sua vez, dominam) e a classe média carioca, bem ou mal, alimenta esse sonho pequeno-burguês de integrá-las. Você sabia que ainda se paga uma taxa aos herdeiros da família real para cada construção que se ergue em Petrópolis? Pois então.

Não que existam mais oportunidades nas cidades mencionadas, mas acredito sim que existam mais pessoas com espírito empreendedor, mais dadas a mergulharem de cabeça em projetos caso sendo convidadas, a acreditarem naquilo que se está fazendo (ao invés do status que participar de projeto X lhe dará). A arte, no Rio de Janeiro, é muito afetada pela exposição social. De fora, parece que há uma efervescência cultural, mas o que há na realidade é uma poderosa máquina de mídia que confere exposição a nível nacional de basicamente tudo aquilo que se faz no RJ, sem o menor critério. Por isto que de vez em quando o piauiense tem que conviver com a "Festa no Apê" por vários meses, ainda que tenha vivido numa oca no meio do mato a vida inteira. As iniciativas artíticas em outros estados, além de mais numerosas, me parecem mais viscerais, mais autênticas, mais originais, mais urgentes. Quer dizer, o pouco que vejo e de qualidade, porque também tem muito deslumbrado com a velha capital que tenta regurgitar a tendência deste balneário que eclode em expressões artísticas, na falta de melhor palavra, trágicas.

Este deslumbre me deixa um pouco irritado, porque o indivíduo não percebe a oportunidade que tem ao poder contar com os vizinhos, ao poder contar com os amigos, ao poder contar com o apoio do dono da padaria que o conhece desde moleque. Repetindo que "cultura" é um termo originalmente agrícola e que vem de "cultivar", temos aqui a oportunidade de cultivar uma expressão, uma estética. Normalmente jogada fora porque neguinho enfia na cabeça que cinema é Bruce Willis e que precisa estar na cidade grande para acontecer. Tem quem dê certo. Mas a maioria que "dá" certo nem sempre dá certo, se é que vocês me entendem. Quero dizer que a maioria das pessoas que vocês vêem na TV aí na roça não passa no teste da farinha, inclusive os figurantes lá no fundo que achavam que dando para o INSIRA O NOME DO DIRETOR AQUI iriam finalmente acontecer. Um conhecido que trabalha na INSIRA NOME DO CANAL DE TELEVISÃO AQUI disse que lá só existe uma pessoa que nunca deu o cu e só come mulher gostosa: INSIRA O NOME DA DIRETORA AQUI.

No Rio de Janeiro, um cineasta que não quer falar sobre as mazelas brasileiras e nem sobre as maravilhas/tragédias de ser pobre é como ser negro e não gostar de samba ou de hiphop, uma mulher que não quer ser subserviente e nem cocota pra macho assobiar, um surfista que não quer fumar maconha e nem falar como um retardado, ou um homossexual que odeia pistão house music e ser afetado: você acaba sendo isolado e, insistindo na sua vocação, provavelmente será também boicotado, simplesmente por não se identificar com a mentalidade de colméia que rege essas pequenas máfias. É nadar contra a corrente. Quem ainda quer viver, no entanto, continua.

****
Bobagem que minha cabeça insiste em regurgitar. No blog do Filmes Polvo (o site inteiro, aliás, está todo redesenhado, uma graça), uma entrada de Marcelo Miranda que me pareceu bastante simpática, intitulado "Flashes de uma tarde cinéfila", no qual ele compartilha os detalhes de um típico dia para alguém fissurado por cinema: algumas reflexões sobre alguns filmes, uma lista de filmes alugados em VHS e que rende dos comentaristas respostas sobre suas próprias tardes cinéfilas, o que por alguma razão gostei muito.

Talvez seja algo que venha de "Desempacotando minha biblioteca", no qual Walter Benjamin diz que uma coleção só faz sentido para seu colecionador (pois é ele que estrutura a ordem e o motivo das compras e só ele sabe o grau de importância de cada item) e, uma vez morto, a estrutura organizadora da coleção se desfaz e jamais poderá ser recomposta como antes. Logo, tão importante quanto os títulos dos filmes e as impressões pessoais seja justamente a forma como os filmes foram vistos, a lista dos aluguéis, a lista de torrents, o que se fez no meio tempo.

O post veio num momento no qual reflito sobre qual a melhor forma de se cobrir um festival. Minha abordagem, que dá muito pouco certo todos os anos, é a seguinte: todo filme merece um texto com substância. Se não for escrever sobre um filme X com a mesma propriedade que está dispensando para o filme Y, é melhor deixar para depois. Mas os filmes se acumulam, os textos vão sendo esquecidos e normalmente a cobertura do festival dá uma conta bem menor do que a quantidade de filmes que foram realmente assistidos. Outros sites conseguem bem mais e bem melhor. Tudo bem que só tem o idiota aqui enquanto os outros tem equipes, colaboradores, trapezistas de circo.

Então eu fico estudando se, em nome da regularidade acima da substância para todos os filmes, não seria melhor adotar um estilo mais diário para estas coberturas. É isto que os interessados querem? Ou melhor, também querem, porque a resposta das críticas postadas durante os festivais sempre é bastante positiva (por isto agradecemos muito; não é fácil num regime intenso de filmes e coxinhas requentadas). Uma coisa eu sei: eu certamente gosto de saber o costume cinematográfico de uma típica tarde de sábado para cinéfilos espalhados por aí. No próximo fim de semana, vou lançar um projeto para descrever seu sábado cinéfilo: os filmes alugados e devolvidos na locadora, os filmes vistos no cinema, o que se faz no interim (visita a algum lugar favorito, compra de livros, revistas, ou aquele kibe na rotisseria do Largo do Machado). Voluntários?

  Bernardo Krivochein    terça-feira, abril 08, 2008    5 comentários
 
 
Revendo o inassistível: "Batman - O Retorno" 16 anos depois


"O subtom sombrio dos filmes do Batman são como um guincho restringindo o filme, impedindo-o de se libertar em direção ao vento.

"Batman - O Retorno, de Tim Burton é um filme soturno e perturbado, mais ainda do que o Batman original, repleto de dor e medo, traumas de infância e ressentimentos adultos. É um filme intrigante, ótimo de se assistir, divertido de se falar sobre. Não há dúvidas de que Burton é um diretor talentoso, mas será que ele é o diretor certo para Batman?

"Lembrando do filme e contrastando-o com minhas memórias de infância dos quadrinhos, imagino se talvez eu não consiga responder ao filme completamente por ter sido criado numa época mais gentil e generosa.

"Sempre achei que seria divertido ser Batman. O filme acredita que sê-lo é mais uma maldição - que Batman não é um superherói, mas um neurótico recluso que acredita precisar se provar à sociedade a qual ele não participa de verdade..." - Roger Ebert criticando negativamente "Batman - O Retono" em 1992.

* * * * *
"Batman Begins finalmente penetra nas profundezas sombrias e turbulentas da lenda de Batman, criando um superherói que, se não plausível, é pelo menos persuasivo como um homem convencido a vestir-se de morcego e tornar-se um vigilante. O filme não simplesmente providencia as raízes de Batman na tradição dos quadrinhos sobre as origens do personagem, como também explora o caminho tortuoso que guia Bruce Wayne de uma infância órfã a uma idade adulta sem amigos.

Este é enfim o filme do Batman que eu estava esperando. O personagem ecoa mais profundamente em mim do que os outros superheróis de quadrinhos, talvez porque, quando o descobri na infância, ele me parecia mais sombrio e maduro do que o alegre Superman. Ele tem segredos. Como Alfred reflete: 'Ferimentos estranhos e uma vida social inexistente. Estas coisas inspiram a pergunta, o que Bruce Wayne faz com o seu tempo?'" - Roger Ebert criticando positivamente "Batman Begins" em 2005.


* * * * *

Pode parecer que "Batman - O Retorno" é a mais nova vítima dessa minha tendência incontrolável por hipérboles, o que é uma meia-verdade: claro que meu conhecimento cinematográfico não é absoluto a ponto de estabelecer com o máximo de autoridade que "Batman - O Retorno" é "a" obra-prima mais subestimada do cinema americano(eu juro que, na minha mente, eu tinha escrito "uma das obras-primas", até ter sido obrigado a reler o texto; só para mostrar que essa tendência a exaltação exagerada está fora do meu controle - típico comportamento nerd) e que futuramente outros filmes desconsiderados a sua época de lançamento poderão ser redescobertos em sua genialidade agora oculta, mas dentro do meu conhecimento razoável neste ponto do espaço-tempo, a afirmação está valendo. Claro que existem outras obras-primas que superam "Batman - O Retorno" em subestima crítica: "Southland Tales", "Zabriskie Point", "Boarding Gate", entre vários. Não sei como será na semana que vem, mas tendo visto "Sweeney Todd" e sendo levado pelas minhas memórias do cinema de Tim Burton para escrever a resenha, neste momento da vida em particular, eu realmente estou considerando "Batman - O Retorno" a obra-prima mais subestimada do cinema americano dos anos 90.

Entendam que para dizê-lo, estou me baseando apenas nas minhas memórias das críticas brasileiras ao filme na época de seu lançamento nos cinemas e vídeo (especialmente de Rubens Ewald Filho para a Vídeo News, que, como Ebert, resumia as qualidades do filme aos seus valores de produção, erro grosseiro de interpretação como as continuações de Joel Schumacher puderam evidenciar mais tarde). Uma visita ao Rotten Tomatoes me foi motivo de grata surpresa: a breve maioria das críticas ao filme é positiva, ainda que longe de estelares e repletas de ressalvas. Mas não gostaríamos de uma obra-prima tão perfeita que nos intimidasse a tocá-la. Se queremos - e podemos - exaltar as qualidades de "Batman - O Retorno" hoje é justamente porque trata-se de um filme que se permite ser mexido e reinterpretado pelo espectador.

Então podemos exaltar "Batman - O Retorno" de inúmeras formas, desde o ataque inicial da gangue nas ruas de Gotham City que bizarramente evoca o próprio "Boulevard do Crime" de Marcel Carné, ou a forma absolutamente genial que Burton embasa psicologicamente a transformação de Selina Kyle em Mulher-Gato (sua queda é amortecida por uma série de toldos estampados com o logotipo das Companhias Schreck: um rosto de gato; ou seja, ela se transforma em Mulher-Gato não por identificação com o alterego animal, mas com seu alterego profissional/comercial), ou como a trajetória de Pingüim ao posto de prefeito de Manhattan se desenrola feito uma versão dark e absurdista de "Cidadão Kane", "Batman - O Retorno" é um filme que se vê ao mesmo tempo em que se lê. É o mais róximo que pode-se chegar de uma adaptação de HQ feita pelo Fritz Lang. Mais ainda, remete-nos a uma época onde filmes, por mais populares e antecipados que fossem, não comprometiam seu conteúdo e sua atmosfera para agradar. Para crianças como eu era na época, ser admitido para assistir a um filme "maduro" era um voto de confiança, reassegurava-nos de nossa maturidade e de nossa inteligência, algo incapaz de se promover através dessa enxurrada de filmes customizados para incapazes-não-necessariamente-menores-de-idade. Fico imaginando que auto-estima devem ter esses garotos quando descobrem que tudo à sua volta é diluído para encontrá-los em seu nível.

Meu aspecto preferido de "Batman - O Retorno" é a forma como ele ilustra perfeitamente uma das teoria cinematográficas (tipicamente Lacaniana, comme il faut) do filósofo Slavoj Zizek em "The Pervert's Guide To Cinema". Sobre o olhar ("o ponto obscuro e cego a partir do qual o objeto que é observado devolve este olhar"), Zizek sugere: e se os olhos, que são tidos como a janela da alma, não tiverem alma por trás deles? E se os olhos não forem senão fendas através das quais percebemos o abismo do Além-mundo (o mundo dos mortos)? Zizek elabora esta teoria a partir de trechos de dois filmes: "Psicose" de Alfred Hitchcock e "A Conversação" de Francis Ford Coppola; em cima deste último, Zizek apresenta o trecho de nosso interesse:


"Nós, os espectadores, estamos sentados dentro de um cinema olhando para a tela. Lembre-se: antes do filme começar, a tela está escura e então vida lhe é projetada; então, como é que nós não estaríamos basicamente olhando para um vaso de privada, esperando que coisas reapareçam de dentro dela? Esta não seria a magia de todo o espetáculo que se dá na tela: um encanto enganador tentando ocultar o fato de que nós basicamente estamos vendo merda?"

Desta forma, Tim Burton fez um dos filmes comerciais mais subversivos a se ter nota, uma vez que "Batman - O Retorno" esfrega na nossa cara a verdadeira porcaria que é o cinema, chamando a dinastia pop que ele adapta dos celebrados HQ e que nós recebemos com tanta solenidade de "merda" a plenos pulmões. A forma perversa como o filme começa já afirma o compromisso de Burton com esta filosofia: um ser humano é jogado no esgoto para nunca mais ser visto. Trata-se do bebê deformado que se transformará futuramente no desprezível vilão Pingüim (Danny DeVito, na melhor atuação de sua carreira). Aqui eu expandiria a partir de Zizek: seres humanos e fezes são ejetados para o mundo basicamente da mesma forma. Um mundo que acabou com a hierarquia social da vagina e do ânus (entrada social e dos fundos, respectivamente), uma vez que assumiu-se que ambos orifícios cumprem funções físicas estimulantes e práticas. Existem folclores populares sobre mulheres que acidentalmente parem bebês quando imaginavam que estavam apenas com vontade de ir ao banheiro, assim como histórias de mulheres que, no esforço do parto, acabam por defecar ao mesmo tempo que dão a luz.

Portanto, o terror com o qual "Batman - O Retorno" flerta vai além daquele descrito por Zizek. Mais do que o medo da merda voltar do além, é o medo que a merda que mandamos para o além esteja viva e queira se vingar de nós, os criadores que a ignoramos. É um medo bastante corrente no cinema; basta lembrarmo-nos de "Aligator". Na mentalidade mais primal do ser humano, se os processos de concepção de um cocô e de um ser humano já estão determinados a mesma região do ventre, torna-se absolutamente palpável que os métodos de eliminação do cocô possa ser perfeitamente aplicável ao humano indesejável - coisa que a abertura do filme já ilustra perfeitamente.

O resto do filme é uma delícia de se pensar sob estes termos, já que sua temática lida uniformemente com subterrâneos que os personagens ora são confrontados ora tentam evitar emergir para o mundo dos vivos: Bruce Wayne teme que sua identidade secreta (obscura, escondida) venha à tona; Max Schreck (Christopher Walken) é chantageado por Pingüim exatamente por causa de um dossiê picotado e jogado no lixo que o vilão remonta; o mesmo Schreck é surpreendido quando Selina Kyle, que ele mesmo havia dispensado e dado como morta, reaparece como se nada tivesse acontecido. E como esquecer a primeira aparição pública de Pingüim, que surge de dentro de um buraco de esgoto para os degraus da prefeitura. Os próprios vilões são como cocôs ambulantes, revoltados, procurando destruir o mundo dos vivos que os cagaram.

Portanto se faz tão essencial reforçar nas falas de Pingüim, na cena em que seqüestra Max Schreck para seu esconderijo pela primeira vez, este compromisso com a necessidade de confronto: "O que você esconde, eu revelo" e "O que você dá descarga, eu coloco no meu pedestal." (O personagem terá ainda mais falas como estas ao longo do filme). Este medo de um cocô vivo e vingativo mexe com o pânico bastante humano de ter que lidar com nossos próprios erros e arbitrariedades; ou nossas próprias merdas. É o medo do confronto com o espelho lacaniano do cinema quando, de idealizado e perfeito, passa a refletir a feiúra que tentamos ignorar, quando o ambiente confortavelmente associado ao sonho e a fantasia torna-se uma intervenção anti-drogas, sendo a auto-idealização o tóxico em questão (engraçado como o filme seja essencialmente contra o deslumbre dos mesmos valores de produção que ostenta). Porque o espectador não quer ser jamais ser identificado como o lado ruim de qualquer história; esta ambigüidade entre mocinhos e bandidos que, aliás, é o espírito da própria metáfora do Batman (e a qual nenhum filme da franquia jamais se aproximou em encapsular como este "Batman - O Retorno").

Movimento duplo: Tim Burton vilaniza o espectador, forçando-o a mergulhar no esgoto e, no chafurdar na merda, encontrar a si mesmo. Mas se eu trago à tona a contradição bastante hipócrita de Roger Ebert, é justamente porque ao mesmo tempo Tim Burton, ao confrontar-nos com os erros, nos dignifica não como heróis ou vilões, mas como humanos em busca de (alguma) justiça. Visto que "Batman - O Retorno" foi tão prontamente dispensado como mais um dos produtos diariamente defecados pelo sistema hollywoodiano, faz-se necessário agora aventurarmo-nos pelo esgoto cinematográfico para onde o bom gosto o exilou, revelando finalmente ao mundo sua perigosa beleza.
  Bernardo Krivochein    quarta-feira, abril 02, 2008    6 comentários
 
 
Circuito 04/04

MARÉ: NOSSA HISTÓRIA DE AMOR - É como ver "Cidade de Deus" estuprando "High School Musical". Porque aparentemente o "Orfeu" de Cacá Diegues não foi punição o suficiente. Trailer.

SHINE A LIGHT: THE ROLLING STONES - A primeira animação de Martin Scorsese. É surpreendente como a mistura de CGI e animatronics é capaz de dar vida quase real os Rolling Stones. São apenas o roteiro e a trilha-sonora que deixam a desejar, pois a tecnologia é digna de um filme da Pixar. Trailer.

AWAKE - A VIDA POR UM FIO - Continuando as celebrações em homenagem a esta esfíngie da dramaturgia no Mês Jessica Alba, seguido da exibição dos clássicos "Maldita Sorte" e "O Olho do Mal", e começando as celebrações do Mês Hayden Christensen, chega este suspense que, de tão revolucionário, reduz o similar "Seconds" de John Cassavetes a plágio, ainda que tenha sido feito com décadas de antecedência. Trailer.

LOUCAS POR AMOR, VICIADAS EM DINHEIRO - Tom Cruise convenceu Katie Holmes a fazer este filme ao invés de "The Dark Knight". Ao que os fãs de "Batman Begins" deviam agradecê-lo, uma vez que ela era a pior coisa do filme; pior inclusive do que o terceiro ato. Só a idéia da conjunção de Diane Keaton e Queen Latifah nas telas faz meu pênis explodir em flores. O filme parece vir de um universo muito bizarro no qual Keaton está condenada a reprisar seu papel em "O Clube das Dequitadas" e Latifah, "Até as últimas conseqüências." Ainda bem que não é aqui na Terra. Trailer.

O SOL - Estréia o "Casshern" de Aleksandr Sokúrov, finalmente depois de três anos. A esta altura o filme já vinagrou e ainda assim é a estréia imperdível desta semana. Pra você ver o estado das coisas. Com os replays que o filme já teve no DVD-R de seu público-alvo, "O Sol" poderia muito bem figurar direto na lista de reprises no jornal. Trailer.
  Bernardo Krivochein    quarta-feira, abril 02, 2008    5 comentários
 
 
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