blogINDIE 2006


O Medo do Goleiro Diante do Pênalti - Um Ensaio Visual

Aqui estou eu, pensando num futuro ensaio sobre o seriado "Friday Night Lights" - a coisa mais intrigante a surgir na televisão desde "The Wire" - e lembrei-me do filme original. Comecei a rascunhar um pensamento: a de que o final do filme "Friday..." e de vários outros que seguiram ("Somos Marshall", "Invencível"...), vistos sob a luz do 11 de setembro, nada mais eram do que a antecipação da máquina ideológica de Hollywood preparando o público para o fato que o país perderá a Guerra no Iraque: os heróis perdem (ou seja: os soldados morrem) e, ao contrário do que se esperaria no país do "sucesso ou morte", o povo acaba por celebrar (por obrigação patriótica) sua própria derrota. O esforço acima do resultado.

Mas algo simplesmente não estava certo nesse raciocínio.

Você não precisa concordar comigo, mas após o ataque às Torres Gêmeas sinto que sobre todos os blockbusters paira um clima pesado, uma atmosfera carregada, soturna, mórbida. Para muitos, isso é até bom porque supostamente substancializa o que seria entretenimento rasteiro, dispensável. Não acredito em nenhum momento que a sobriedade que assola as atuais adaptações de quadrinhos e até clássicos infantis (o clima dos filmes do Harry Potter para mim deveriam dar pesadelo em qualquer criança) confira alguma relevância maior para as obras. Sinto, inclusive, que os produtores hollywoodianos encontraram no pesar, no luto mais um filão para atrair platéias. E que "Friday Night Lights" estava fora disso, mesmo compartilhando da angústia da derrota, da humilhação: o filme de Peter Berg, ao contrário dos demais, é humanista, sente pelos pobres "soldados" jogados à contragosto num circo ridículo (e o filme aborda o futebol americano com um misto de jocosidade e deslumbre) e obrigados a sacrificarem suas vidas. Os filmes restantes? Niilismo politicamente correto, alimentados pelo medo crescente dos EUA, que cada vez mais se percebem sozinhos no cenário mundial.

Mas deixe os fatos falarem por si mesmos. Aqui vai uma coleção de cartazes de filmes recentes nesse pós-11 de setembro. Veja se você consegue encontrar neles um certo tema recorrente:











E para quem não sabe ou não se lembra, este é o cartaz do filme "Friday Night Lights":

  Bernardo Krivochein    sábado, junho 30, 2007    11 comentários
 
 


UPDATE -- FANTASIA 2007: Programação Possível Para Brasileiros (Quem Diria?)


UPDATE: "Akai" de Carlos Gananian, curta-metragem já elogiado e promovido pelo grande e único Todd Brown no Twitch, foi exibido com sucesso ontem no festival do Canadá, onde abriu a sessão do longa de terror colombiano "Al Final del Espectro" - o próprio Gananian nos informa. Estou então corrigindo a falta no texto, que passou em branco mais essa possibilidade para brasileiros no Fantasia.

UPDATE 2: Inclusão de mais títulos na lista de DVDs disponíveis no Brasil: "Silk" e "Wolfhound" (superprodução russa no estilo "O Senhor dos Anéis", aqui batizada de "O Último Guerreiro").

UPDATE 3: Tanto "Kiltro" quanto o novo filme dos chilenos Ernesto Díaz Espinoza e Marko Zaror, "Mirageman", foram comprados para distribuição norte-americana pela Magnolia Pictures. Agora com o famoso hype enlatado americano, quem sabe as pessoas prestem atenção em algo que as permitimos descobrir de antemão e elas em geral simplesmente ignoraram (menos o Tadeu, que é na moral).

Primeiro um momento de autofelação gratuita: quem acompanha o site sabe que sou um devoto do FantAsia, por muito tempo uma espécie de guia espiritual cinematográfico àqueles fascinados por Cinema Fantástico. É sua inteligente e inusitada programação que dita os parâmetros para um safári cinematográfico em busca dos filmes. Mesmo que de uns tempos para cá, os filmes tenham sido bastante fáceis de serem encontrados pela Internet e em DVD, os programadores acreditam na experiência cinematográfica, apostando nas cópias em 35mm de filmes que nem são tão novidade assim, além, claro, da pérola redescoberta anual: um filme antigo que precisa ser sempre mais ofensivo, confrontador e engraçado do que o longa perdido do ano passado. Essas sessões freqüentadas por um público barulhento, irônico, mas completamente no espírito do filme é que fazem do FantAsia a Meca de qualquer cinéfilo, cineasta, etc.

Logo, foi com muito orgulho que, vendo a programação do FantAsia deste ano, me deparei com a escalação do chileno "Kiltro". Para os mineiros que freqüentam o INDIE, tal filme não é novidade - foi no nosso festival que "Kiltro" teve sua première internacional, na minha mostra (Dark Matinée) ainda por cima! Uau. Me antecipei ao FantAsia. Um momento enquanto estouro essa champagne em minha homenagem. (Desculpem, não sou alguém que tenha muitos motivos para autocelebração na vida, então preciso aproveitar)

Tudo bem, o FantAsia ainda é e será anos-luz superior ao meu pequeno atentado ao porre do gosto cinematográfico pré-estabelecido e eles tem programado não apenas "Kiltro" como "Mirageman", o novo longa da dupla Ernesto Díaz Espinoza e Marko Zaror. Ponto para eles.

Os programadores do FantAsia estão de olho na questão da Internet, mas nem por isso eles se acanham. Na realidade, e isso já vem acontecido em festivais de cinema fantástico no mundo todo (foi assim no Toronto After Dark em 2006 e até no Indie 2006), isso os incentivou a dar uma abordagem mais ampla a programação. Integrados aos asiáticos, aos filmes de horror norte americanos, estréias canadenses e aos splatters italianos, obras desafiadoras e de cunho mais experimental se fazem presentes, como é o caso do polêmico indie "Zoo", o documentário "Ghosts of Cité Soleil" (um "Cidade de Deus" real no Haiti, aparentemente) e o dinamarquês "Offscreen". São ousadas adições como essa (além de dois filmes de Uwe Boll - ! - e a reprise de Zebraman, Takashi Miike já exibido em 2004 e que retorna por causa da distribuidora norte-americana que finalmente comprou o filme para exibição em, circuito limitado) que incentivam o enriquecimento do gênero e não deixam o cinema fantástico se estagnar.

Enfim, vamos ao que interessa: os filmes. Porque eu sou muito legal e para auxiliar todo mundo que deseja acompanhar o festival de casa (quem não tem cão...), fiz uma lista compreensiva dos filmes que já passaram no Brasil de uma ou outra forma: em cinema, festivais ou até já disponíveis em DVD. Os filmes restantes dessa primeira leva revelada segue abaixo.

FILMES DISPONÍVEIS EM DVD NO BRASIL

Exilados (Exiled)
Morto em 3 Dias (Dead In 3 Days)
URO
Km. 31
Stalker (Tarkovsky)
O Último Guerreiro (Wolfhound)
Silk - O Primeiro Espírito Capturado

FILMES EXIBIDOS NOS CINEMAS DO BRASIL (Festivais e Circuito Comercial)

Time de Kim Ki-duk
Jade Warrior (Fest RJ)
The Banquet (Fest RJ)
Offscreen (Mostra SP)
Kiltro (Indie)
We Are The Strange (RESFest)
Isabella (Fest RJ)


LISTA COMPLETA DOS FILMES RESTANTES:

TEKKON KINKREET
PERFECT CREATURE
THE SIGNAL
FLIGHT OF THE LIVING DEAD
ARCH ANGELS
HELL’S GROUND
ONCE IN A SUMMER
ROOMATES
THE RESTLESS
TEN NIGHTS OF DREAMS
YELLOW FELLAS
YOUR MOMMY KILLS ANIMALS
THE RUG COP
WAR OF FLOWERS
TEN NIGHTS OF DREAMS
THE SHOW MUST GO ON
VIVA
200 POUNDS BEAUTY
RETURN IN RED
S&MAN
SPIRAL
DIARY
ONCE IN A SUMMER
ADAM'S APPLES
HATCHET
HAZARD
DOG BITES DOG
EXTE: HAIR EXTENSION
ASS MONSTER
MINUSHI
BEST OF OTTAWA ANIMATION FESTIVAL
DYNAMITE WARRIOR
BIG BANG LOVE
THE TRIPPER
GHOST IN THE SHELL: SOLID STATE SOCIETY
RIGHT AT YOUR DOOR
893239
VOLATILE WORKS
ROAD TO NOD
SMALL GAUGE TRAUMA
GHOSTS OF CITÉ SOLEIL
SPECIAL
ON EVIL GROUND
SILENT SCREAM
KING OF KONG
END OF THE LINE
THE RAGE
THE UNSEEABLE
ZERO CITY
AFTER THIS OUR EXILE
AACHI & SSIPAK
POULTRYGEIST
ZERO CITY
13 BELOVED
THE MATRIMONY
NARUTO: NINJA: CLASH IN THE LAND OF SNOW
HOME SICK
DEADEN
LOCO FIGHTERS
MIDNIGHT BALLAD FOR GHOST THEATER
DEATH NOTE
DEATH NOTE: THE LAST NAME
MEMORIES OF MATSUKO
HERO TOMORROW
FOX FAMILY
FRISSONS DES VAMPIRES
ULTRAMAN MOEBIUS & ULTRA BROTHERS
MULBERRY STREET
MIRAGEMAN
WOOL 100%
THE LAST WINTER
THE BACKWOODS
A BLOODY ARIA
LA NUIT DES HORLOGES
L’OMBRE DU CERISIER
TRAPPED ASHES
BATTLE OF WITS
WRISTCUTTERS: A LOVE STORY
THE FERRYMAN
WOMAN TRANSFORMATION
SUNSCARRED - documentário de Takashi Miike
THE REDSIN TOWER
THE KING AND THE CLOWN
PURITAN
RISE OF THE GHOSTS
THE GIRL NEXT DOOR
ROCKET SCIENCE
AMPHIBIAN MAN
LIKE A VIRGIN
THE 4TH LIFE
MYSTÈRE MIYAZAKI + ANIMANIA
RECON 2022
BEIJING BUBBLES
THE DEVIL DARED ME TO
WIZARD OF GORE
SQUARE JAW THEATER
SPECIAL
NIGHTMARE DETECTIVE
HK NOIR/IN THE MOOD FOR DOYLE
COUNTESS BATHORIA/SEDUCTION OF EVIL
SWORDBEARER
MURDER PARTY
DANCE MACHINE
POSTAL
AL FINAL DEL ESPECTRO
COSMIC VOYAGE
LIKE A VIRGIN
A DIRTY CARNIVAL
CITY OF VIOLENCE
ONE ARMED BOXER
A MOB STORY
DEAD AIR
BIANCA BEAUCHAMP: ALL ACCESS
14 AMAZONS
DUNGEON SIEGE: IN THE NAME OF THE KING
THE VICTIM
THE WORLD SINKS EXCEPT JAPAN
BORDERLAND
YOBI THE FIVE TAIL FOX
PREND ÇA COURT: DANNY’S PICKS
TO THE STARS BY HARD WAYS
ZEBRAMAN
ZOO
ARTHOUSE ULTRAMAN 2: TRIBUTE TO AKIO JISSOJI
DASEPO NAUGHTY GIRLS
STARSLYDERZ
SPECIAL KINO
RETRIBUTION
ALWAYS - SUNSET ON 3RD STREET
ENRAGÉS DU CINÉMA CORÉEN + SHORTS
TAIWAN BLACK CINEMA/LADY AVENGER

Site oficial do Festival: Link aqui
  Bernardo Krivochein    terça-feira, junho 26, 2007    8 comentários
 
 


Brasileiro Não Gosta de Pobre

O primeiro passo para nos curarmos é admitirmos que estamos doentes. Então repita, e repita bem alto: brasileiro não gosta de pobre.

No Rio de Janeiro, a festa MOO é um evento social de música eletrônica na qual a burguesia descolada se reúne para celebrar o fato de serem ricos e incríveis. Descaradamente elitista, todos os ratos que sobrevivem da vida noturna, que sobrevivem da moda, da publicidade e da "arte", todos aqueles que ficam moscando ao redor de quem realiza, de quem é visto, todos aqueles que desejam "fazer a fina", a MOO é um síntoma da ascenção do electro, cujas letras louvavam o comportamento decadente da assim chamada "elite pervertida." Dizer que tenho amigos que a freqüentam é motivo de vergonha, mas posso ser entretido com histórias como a seguinte: um grupo de modelos classe média (um deles o top João Vellutini) inventou problema com um barbudinho Los Hermanos (apenas um rico rústico que habita a mesma Zona Sul que o grupo inimigo) e todos caíram numa porrada no meio da pista de dança. Quando os seguranças apartaram os combatentes e começaram a empurrar o grupo "das modelas" para fora, um deles gritou, indignado, para todos os ouvidos ao redor:

"Vai me expulsar?!? Expulsa ele, que é pobre!"

Brasileiro não gosta de pobre. Agora repita.

Essa história me foi contada umas duas semanas depois de ter testemunhado um diálogo curioso: esperando na fila da casa lotérica para pagar uma conta, dois homens em uniforme de porteiro e chinelo conversavam animadamente às 3 e pouco da tarde. Feito bons amigos, se degladiavam verbalmente apenas para sacanear o outro. Um deles disse ao amigo que, caso o outro ganhasse na Loto, que fosse para que ele voltasse e sanasse a dívida com ele, ao que o outro respondeu:

"Se eu ganhar, você acha que eu voltaria aqui? Não gosto de andar com pobre..."

Respire fundo e diga bem alto: brasileiro não gosta de pobre.

Por que o ensino de inglês é matéria obrigatória nas escolas e não o ensino de espanhol? Porque o brasileiro acha que seu país não faz parte da América Latina. Talvez pelo fato de falarmos português, achamos que o país paira desligado de seu continente. Diga a um brasileiro que ele é do Brasil e ele fará festa, soltará fogos, beijará a camisa com orgulho. Diga a um brasileiro que ele é um latinoamericano e ele te olhará com estranheza, se esquivará da constatação, não computará a informação. O brasileiro se sente muito mais próximo dos EUA do que da Venezuela. A gente não quer se comunicar com os hermanos porque os enxergamos abaixo de nós - lidar com eles seria admitir nossa miséria. Uma das descobertas mais intrigantes ao se estudar cinema latinoamericano é descobrir que uma cinematografia inteira de melodramas foi realizada em colaboração com os países latinos de língua espanhola e que o Brasil se autoimpôs essa barreira lingüística.

Não é que o preconceito "racial" não exista no Brasil, mas o preconceito social é o nosso verdadeiro problema. Brasileiro não gosta de pobre. No entanto, brasileiro = pobre, logo um brasileiro não pode acusar o outro de pobre, uma vez que ele também o é, o xingamento é redundante e atinge diretamente quem o proferiu. Competitivo e provinciano, o brasileiro é obrigado a partir para outros perjorativos: é porque fulano é preto, é porque sicrano é paraíba... Mas se ele pudesse mesmo, o que ele realmente gostaria de estar fazendo é xingando o outro de "pobre."

Vamos mudar a declaração. Agora, digamos: brasileiro detesta pobre.

Escrevo isso após o lamentável episódio da empregada doméstica, espancada por jovens de clásse média-alta, provavelmente iguais aos tiraninhos que ela precisa mimar e que habitam um apartamento de luxo igual ao que ela precisa todo dia limpar da imundice de cocaína e fezes. Não é a primeira vez que isso acontece: índios já foram incinerados em Brasília, mendigos pisoteados em São Paulo. Mas como fomos todos obrigados a assistir "especialistas" analisando a questão emcima de obviedades - "é culpa dessa roubalheira de Brasília que esses garotos fazem essas coisas, na crença de saírem impunes"(?!), disse um certo psicólogo usando o espaço para falar de Renan Calheiros (ninguém explicou para ele qual era a questão?), em outro canal, mais uma psicóloga falava da falta de educação dada pelos pais ausentes, de como esses pais precisavam saber mais da vida dos filhos, de conviver mais com eles, enfim, o velho clichê do "papai num tinha tempo pá bincá cumigo", que foi previsivelmente refutado pelos pais entrevistados: "o meu filho estuda, o meu filho trabalha: inclusive, eu o levo ao trabalho todo dia..."

O problema todo é que brasileiro não gosta de pobre.

Como sei que a maioria dos leitores habitam lugares outros que o Rio de Janeiro, façamos esse pequeno tour sóciogeográfico, uma vez que, após a triste notícia do ocorrido, o detalhe que os agressores eram habitantes da Barra da Tijuca caiu em ouvidos cariocas para surpresa de absolutamente ninguém. O referido bairro é uma máquina de produzir maluco. Simulacro de um subúrbio em Orlando, EUA (a avenida que corta o bairro, a Avenida das Américas, é um projeto idêntico a da International Drive) com seus vários condomínios fechados e muitos, muitos shoppings, uma verdadeira shoppinglândia, a Barra da Tijuca é lar da Estátua da Liberdade em papel-machê, de franquias de restaurantes americanos, de uma tentativa de refazer o Rio sob suas próprias diretrizes (Novo Leblon e Nova Ipanema são nome de alguns condomínios, pequenas cidades dentro de si), de crianças protegidas em cercadinhos, de gangues de jiujitsu e com contas bancárias inteiras jogadas aos seus pés. Quem habita hoje esse bairro são os mesmos yuppies que, na década de 70/80, invadiram Leblon e Ipanema para descaracterizar bairros de vida cultural rica, de tolerância, de criatividade, e transformá-los em lugares viciados por dinheiro, por status social. Esses yuppies não têm raízes, mas isso não significa dizer que são livres: eles são deslumbrados que irão se mudar para onde quer que o dinheiro esteja. É por isso que se mudaram para a Barra da Tijuca - houve um certo boom nos anos 90 - e agora estão todos se mudando para São Paulo. Não, Cecília Giannetti; eu li seu artigo na Ilustrada da Folha de S. Paulo, mas não vou lamentar a ida de seus amigos para São Paulo porque eu sei bem quem eles são: são esses mesmos yuppies, famintos por grana, por status e que destróem todos os lugares que passam feito uma nuvem de gafanhotos. Pergunte-se, Cecília, por que o Rio de Janeiro foi esvaziado de possibilidades, por que o Rio de Janeiro teve seu papel de metrópole esgotado, por que tornou-se um mero "balneário"? Por que seus amigos destruíram tudo, consumiram tudo, porque eles não tem amor a um lugar, aliás, não tem amor a coisa nenhuma que não caibam em suas carteiras. O Rio de Janeiro só tem a ganhar com a debandada dos seus amigos yuppies. Com a migração forçada dos filhinhos de papai covardes. Com a expulsão dos fashionistas.

Uma vez que as portas se fecham pelas costas do jovem em um condomínio na Barra da Tijuca, ficam de fora a feiúra, a pobreza, o Brasil. Seus pais preferiram morar num condomínio fechado para se protegerem da violência, mas não realmente: morar num condomínio da Barra é subir na vida, é "deixar de andar com pobre", então ensinam seu filho a demonizar tudo aquilo que existe para além da janela. Ou eles estão compensando aquele momento da infância em que o Fabinho ganhou um Ferrorama no Natal e ele não, ou então simplesmente dando continuidade ao provincianismo dos pais, dessa idéia cafona sobre a essência do luxo, da elite, do especial, do superior.

Por que os playboys da Barra da Tijuca escolheram uma empregada doméstica - que, aliás, só espancaram porque a confundiram com uma prostituta - para punir, para humilhar? Uma vez confrontados com a idéia de humildade, de miséria, isso coloca abaixo o seu mundo perfeito: eles consideram o pobre uma mancha na sua vida freqüentada apenas por "gente bonita e sarada", essa vida que nem episódio de "Malhação", onde, aliás, não existem pobres em cena. Seu mundo perfeito é manchado com a presença de brasileiros - como um computador dando erro, eles partem para a eliminação daquela imperfeição.

E por que, ao final do ato, eles se deram ao trabalho de ainda roubarem sua bolsa? Ah, porque o dinheiro, esse ainda vale, esse eles amam porque cabe na carteira, sempre. Eu sempre disse que a Barra da Tijuca bem poderia acordar com o delicioso cheiro de napalm numa manhã dessas. O pior é Ludovico Ramalho, pai de um dos presos, pedindo clemência aos canais de televisão:

"Gostaria de dizer que nós, os pais, não temos culpa. E que esses são jovens que estudam, que trabalham... prendê-los na Polinter? Não está certo isso."

Como um repórter perde a oportunidade de perguntar a esse sujeito o que estaria certo , é além de mim. Mas podemos imaginar o que ele diria: "Se não existissem todos os pobres, toda a feiúra, todo o Brasil não-carioca, eu não estaria passando por essa situação inconveniente."

* * *

Num último golpe, você pode até se perguntar o que tudo isso tem a ver com cinema. Chega a se relacionar com o cinema até um bocado.

Fui à locadora há muito tempo atrás e acabei presenciando essa troca entre a atendente, que conversava com eles sobre o "King Kong" de Peter Jackson, e um casal de clientes:

"Essa versão do King Kong é boa, mas prefiro a versão original, que tinha aqueles efeitos toscos, trash mesmo!"

Pois, como todos nós sabemos, Ray Harryhausen era um lambão que fazia efeitos especiais de qualquer jeito mesmo, toscão, trash.

Só para, alguns meses depois, ser surpreendido com comentários na Internet elogiando "The Host" pelo seu espírito trash, pelo seu elenco de gente "feia". Na realidade, uma pesquisa maior revela que a média de grande público de cinema no Brasil sempre atribui o termo trash a qualquer - e eu digo qualquer - filme fora do esquema hollywoodiano. Chegou-se a um ponto que o público brasileiro, um bando de deslumbrados com a Disneylândia, em denial com sua própria miséria, já foi educado pelo cabresto maciço da cultura norte-americana que não consegue mais reconhecer os valores de outras culturas, inclusive a sua própria (que, em termos de cinema, deve-se dizer que é muito mal representada), por mais que o filme seja bem realizado - e realizado para agradá-lo, inclusive. Infelizmente, tais filmes não são norte-americanos, não falam "the book is on the table". Ofendidos por filme que não trazem aquilo que se esperava, por trazer imagens novas e inesperadas, o espectador acha que o filme estrangeiro não hollywoodiano tentou ser superior a ele; é preciso destrui-lo! Vamos acusá-lo de trash! Sim, trash! Sabe o que trash significa? Lixo! (Eu sei porque papai me pagou um cursinho!) Se você não é norte-americano como nós (brasileiros, u-hu...), você é li-xo!

Multiplexes são como filiais da Barra da Tijuca espalhados por todo o país, onde ensina-se a excluir o "filme feio", o que não é popular, o que não é grande produção, o que não é "rico e sarado". O público brasileiro, confundindo o filme estrangeiro não-hollywoodiano com um filme pobre, por mais honesto que o filme seja, parte para destrui-lo, espancá-lo, humilhá-lo.
  Bernardo Krivochein    segunda-feira, junho 25, 2007    9 comentários
 
 



O Indie 2007 acontecerá de 5 a 11 de outubro, anote aí!


Não teve jeito, aliás teve sim e por isso, o Indie foi adiado. Isto quer dizer que o Indie 2007 vai acontecer! A partir de julho, começaremos a falar do que será a nova edição do festival, pelo menos algumas pílulas e dicas do que estamos pensando.

Há muitas coisas que um diretor de festival não pode revelar. Porque se ele começa a dizer que seu festival está sem dinheiro, que está difícil, vai virar um lero lero sem fim. Importa muito neste momento, mesmo com orçamento reduzido tentar trazer algo de novo e com acesso ilimitado para todos que freqüentam e acreditam neste projeto.

Então é isto, aconteceremos, e seremos felizes para sempre! Avanti!
  Francesca Azzi    quinta-feira, junho 21, 2007    7 comentários
 
 


PORTO DOS MORTOS (Beyond The Grave): Teaser do primeiro longa-metragem brasileiro de zumbis está online

Bom para Davi de Oliveira Pinheiro e seus comparsas portoalegrenses. Não satisfeito em coordenar o primeiro festival brasileiro a se dedicar completamente ao cinema fantástico - o apropriadamente batizado Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre - Pinheiro se aventurou na direção de um longa-metragem influenciado por George Romero, William Friedkin e Sergio Leone. Porto dos Mortos retrata a investigação e perseguição a um assassino em série realizada pelo policial Lockheart. A pegadinha? Estamos num Brasil pós-apocalíptico e tomado por zumbis. Ou seja: Salvador em época de carnaval.

Com um currículo invejável de filmes em sua bagagem - nos quais atuou seja na produção, seja na direção - Pinheiro confessou ao site da revista Fangoria suas aspirações:

"O Brasil precisa de um cinema de gênero inventivo e sofisticado. Horror, ficção-científica, fantasia e filmes de ação são básicos em qualquer país com um cinema popular e no Brasil isto é dificilmente lembrado."


Palavras mais sábias não poderiam ter sido melhor ditas. Ou simplesmente não existam filmes de horror e ficção-científica no Brasil porque os cineastas que policiam o dinheiro das leis de incentivo são medíocres e a impopularidade do cinema brasileiro lhes venha a calhar. Nosso maior desejo de êxito para a ousada empreitada dos portoalegrenses, tanto ao longa quanto ao seu festival.

Porto dos Mortos já tem um teaser em seu site oficial, clique aqui.

Para ler a matéria da Revista Fangoria, clique aqui.
  Bernardo Krivochein    quarta-feira, junho 20, 2007    11 comentários
 
 



Versão Brasileira Herbert Richers

Ocean's Thirteen


Treze Homens e Um Segredo

(obs.: e, sim, essa é minha crítica oficial do filme)

  Bernardo Krivochein    terça-feira, junho 19, 2007    2 comentários
 
 


O Revoltante Contra O Qual Ninguém Se Revolta

Esperei para escrever o que se segue umas três semanas, porque me colocará numa posição vulnerável: vou falar da completa merda que é a crítica impressa, mais especialmente a carioca, e como o pensamento cinematográfico local através dos meios de comunicação convencionais (isso é, TV, Rádio e Jornal) estão fadados ao fracasso (se é que um dia sequer foram respeitáveis). Claro que pagam muito melhor - e disso explicitarei prova no texto abaixo. Isso me implica porque o texto pode parecer escrito apenas por puro recalque, se você me atribui o papel de crítico que deseja puxar o tapete de outros apenas para tomar-lhes o emprego, acreditando na minha arrogância ser superior a eles. Refaço aqui meu voto (que já fiz anteriormente em resenhas outras na página principal) de que não sou crítico e que não escrevo críticas, meramente textos cujos temas são filmes. Se o bloco vermelho lá na Zetafilmes.com.br anuncia "Críticas", é contra minha vontade e as editoras do site terão os e-mails para confirmar isso. Se me percebo como algo, é como o último espectador na face da Terra (haja visto que não existem mais espectadores assim auto-intitulados; todo mundo agora tem um PhD em entretenimento ou porra do gênero). Tanto que esperei três semanas para deixar o vento soprar os filmes e as composições citadas para um ponto mais distante e deixar a (imaginada) relevância do que quero dizer morrer.

Mas também se passaram três semanas e não consegui esquecer ou apaziguar a raiva.

"O Globo" é o nome do jornal a rigueur carioca. Explicações sobre o complexo ao qual o jornal pertence (ou melhor, que o jornal ajudou a criar) ou seu poder de influência sobre o território nacional são dispensáveis. Quer dizer, isso até interessará um pouco para nós, mas não se trata do cerne da questão. Como um jornal qualquer, toda sexta-feira é publicado seu guia de atividades extra-curriculares de fim-de-semana, ou guia cultural (sendo cultura um termo utilizado de forma tão abrangente quanto os grandes lábios de uma puta de estação central), se assim preferir.

Lá, a equipe de críticos e (ou?) jornalistas publicam o bloco de críticas cinematográficas em cima das estréias semanais, o que já supõe o primeiro problema: a identidade múltipla e esquizofrênica da posição cinematográfica da publicação. Como aquele bingo da festa junina no sítio da Dona Maria (aquele mesmo em que se marcam as cartelas com milho e feijão, para não inutilizar as cartelas para o ano que vem), os críticos sorteiam suas cabines de imprensa - independente de sua adequação para a tarefa ou não. (Se a publicação contasse com apenas um crítico, compreende-se que sua inadequação seria algo inevitável, uma vez que cabe a ele reportar em cima de todos os filmes da semana, mas qual seria o sentido de uma publicação conter vários críticos - e são bem mais de dois ou três, o que invalidaria a defesa em cima do número de filmes X número de repórteres, convenhamos que dois ou três críticos é um número mais do que suficiente para dar conta do fluxo - senão os nichos de especialização que cada um dominaria?)

Mas se essa estrutura é repetida no mundo todo (Cahiers du Cinema, Film Comment, todos contam com uma equipe de X críticos), qual seria o problema? Bem, 1) que é capaz que todas as publicações no mundo desse tipo possam estar erradas (apenas sugiro uma possibilidade: assim como você, uso apenas o meu eu individual, uno e indivisível, para assistir a todos os filmes que os vários críticos da Cahiers, Film Comment e O Globo falam, não?); 2) não é um problema de estrutura, mas de modus operandi: por critério que só pode ser identificado como o grau de popularidade de um filme em circuito, o Bonde do Boneco de O Globo escolhe esse ou outro filme para dispôr visões múltiplas de seus contratados - uma suposta abrangência que só serve para colocar a publicação num conveniente "em cima do muro" ("é muito bom!" diz um - "é muito ruim!" diz o outro, na coluna oposta e com o mesmo número de caracteres) caso o filme em questão tenha o potencial de dividir platéias. (Aliás, reforço que o critério não é a polêmica e sim a popularidade: filmes como "300", "2046" - sucesso entre a classe média de Ipanema/Leblon das novelas do Manoel Carlos, sabias? - e "Babel" ganharam essa honraria, enquanto um suposto polêmico "Baixio das Bestas" foi acomodado com apenas uma solitária, deslumbrada crítica positiva e burguesa)

Mas o acaso se ocupou em revelar o ridículo não dos críticos - porque apesar de tudo, todo mundo tem direito de achar o que bem entende (a palavra "opinião" e a utilização, explícita ou não, do termo "eu acho" sempre serão a chave), se bem que os críticos de O Globo abrem mão de sua personalidade uma vez que adotam o Bonequinho, a mesma cara, o mesmo corpo, logo a garganta é única (novamente: esquizofrenia, diferentes vozes no mesmo corpo...) - mas o da publicação, que acabou pagando o preço de sua filosofia crítica e mostrando-se ignorante... através da ignorância de seus críticos, mas não, eu nem digitei isso agora.

As seguintes críticas foram publicadas no mesmo suplemento Rio Show, na sexta-feira de Nosso Senhor de 1° de Junho de 2007, com nem uma página de distância entre si. Os grifos são meus e os textos estão linkados ao guia virtual de cinema de O Globo (que poderão desaparecer em breve, quem quiser dar um Print Screen, tem que ser agora), para mostrar que não estou de caô.

A primeira é sobre o drama dinamarquês "Depois do Casamento", escrita por Eros Ramos de Almeida:

"[Bonequinho dormindo] Um Dramalhão Nórdico: A diretora dinamarquesa Susanne Bier sabe onde posicionar a câmera. Enquadra bonito. Por isso, apesar de pingar mel desde o início, a improvável trama de 'Efter brylluppet' (no original) consegue sobreviver durante algum tempo. Além da bela câmera, elenco e trilha sonora são eficientes.

"Homem que cuida de um orfanato na Índia (interpretado pelo ótimo Mads Mikkelsen) volta a Copenhague, onde nasceu, para tentar obter recursos para a instituição e acaba se deparando com espantosos segredos do passado.

"Daí para frente, a elegante friagem nórdica vira cenário de um novelão mexicano. Susanne Bier reveste o seu filme de seqüências que chegam a ser embaraçosas de tão melodramáticas.

"O charme envolvente da primeira metade se perde em cenas patéticas. Todo mundo chora e o filme vira um dramalhão hollywoodiano. Só isso justifica sua indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro disputado este ano." - Eros Ramos de Almeida


(Para os leitores de outros estados que se assutam com a brevidade da crítica e a linguagem num jornal de grande circulação, eu digo: pra você ver...)

Fica logo clara a confusão cultural na cabeça do referido jornalista ("novelão mexicano", depois "dramalhão hollywoodiano") que tenta utilizar dos termos grifados para desqualificar o filme em tom jocoso, subentendendo que os gêneros citados tratam-se de subgêneros (não como prolongamentos, mas em termos de baixa qualidade). O mesmo Bonequinho que dorme, estava acordado interessado há algumas colunas atrás, como mostra o seguinte texto de Rodrigo Fonseca em cima do brasileiro "Inesquecível":

"[Bonequinho olhando] Com Sutilezas Cinéfilas: Paulo Sérgio Almeida, diretor que cometeu “Xuxa e os duendes”, segue a estrada dos filmes de mercado, na qual a invenção narrativa jamais pode comprometer a comunicação com a platéia. “Inesquecível”, derivado do conto “O espectro”, de Horácio Quiroga (1879-1937), vai nessa vertente. É cinema comercial. Mas há nele sutilezas artísticas impressas por um olho cinéfilo. E um Murilo Benício inspirado.

"O ator Diego (Benício) ama a estilista Laura (Guilhermina Guinle, estreante em longas), que, em uma viagem, teve um caso com o fotógrafo Guilherme (Caco Ciocler) — o melhor amigo de seu amado. Ao saber do romance, Diego provoca a própria morte. Mas, antes de partir, incumbe o sobrenatural de executar uma vingança. É o que parece, pois nada é como as imagens sugerem no filme. Nem sua aparente futilidade, que encobre uma delicada homenagem aos melodramas sobre perdão, com alusões a Douglas Sirk, William Wyler e cia." - Rodrigo Fonseca

Na crítica acima, não podemos esquecer da naturalidade latina do filme. Logo, o que temos em "Inesquecível", realizado no Brasil e baseado em texto uruguaio, segundo Fonseca, é um típico melodrama latino.

E, ao mesmo tempo, não é um típico melodrama latino. É no mínimo estranha a diferença de tom na voz do mesmo Bonequinho, ácido contra o dinamarquês e descaradamente condescendente com o filme nacional. Isso é perceptível no modo como no primeiro filme, o Bonequinho sugere a existência de belas imagens apenas para desclassificá-lo e no segundo, fala de imagens fúteis e ainda assim o qualifica. Qual seria o diferencial entre os dois filmes se ambos ora remetem ao melodrama latino, ora ao hollywoodiano? Por que no caso de "Depois do Casamento" ser melodrama é ruim e, no de "Inesquecível" ser melodrama não apenas é bom, é a aparente salvação dele?

Antes da sessão de "A Leste de Bucareste" (que já falei sobre em postagem abaixo) no Espaço de Cinema 2, o trailer de "Inesquecível" foi exibido, para embaraço total e completo da platéia obrigada a testemunhá-lo. Se anda como um pato, parece um pato e soa feito um pato... o cinema ganhou esse aroma de merda durante os intermináveis segundos das imagens de "Inesquecível" - e era apenas o trailer! Não vamos reforçar a desconfiança em cima da possibilidade de jabá (para o leitor brasileiro, é um cálculo quase automático a suposição que a referida produção da Globo Filmes, fadada ao mais completo fracasso porque simplesmente não se parece com o bom filme que certamente não é, ativa sua empresa "não-afiliada" batizada, por completo acaso do destino, de Jornal O Globo para uma última e desesperada tentativa de salvacioná-la pelo menos o respeito) e sim pensar no que nos dizem ambos os textos. O que o leitor teria que imaginar? Que melodrama é bom ou ruim? Se é ambos, qual o método científico para aplicar os adjetivos aos filmes?

O texto do Senhor Almeida revela sua completa alienação perante a carreira da dinamarquesa Susanne Bier, diretora de "Irmãos", exibido inclusive em cinemas nacionais, além de ter uma idéia pra lá de superficial do que se constitui um melodrama. Tivesse assistido aos filmes e lido o seminal "Melodrama - O Cinema de Lágrimas da América Latina" da especialista argentina Silvia Oroz, ele poderia compreender o objetivo do experimento de Bier: o arquétipo do herói, a temática de conflitos entre classes sociais em sociedades que não necessariamente abrigam essas camadas, os leitmotiv freqüentes ("o passado", "o tempo" e "a bondade") e, em termos de imagem, a fixação de um céu que seja único, característico da região, um céu de forte impressão e, claro, as lágrimas - tudo isso é Bier tentando traspôr o melodrama latino para a cinematografia nórdica e, ao mesmo tempo, numa manobra de extrema ousadia frente aos tempos de indiferença, atualizando-o, rompendo muito além das barreiras nacionais (outra característica do melodrama latino), mas transcontinentais numa era de globalização (que é inclusive colocada em cheque, tanto em "Irmãos" quanto no filme em questão). O cinema de Bier é novo, é híbrido e refrescante, mas ao mesmo tempo inegavelmente familiar. A perspectiva de Almeida é de um blasé ultrapassado, vinda de uma época na qual dramalhões exagerados eram cafonas e polainas eram o último grito da moda. A beleza do excelente "Depois de Casamento" é que, bebendo das mesmíssimas fontes que nutriram Almodóvar, Bier reverencia suas influências de forma respeitosa, séria, sem um pingo de ironia, mas nem por isso comportada (retorno à atualização do gênero) ou aborrecida.

E quanto ao texto de Fonseca (que disse que seria justo que o filme da Fatih Akin ganhasse a Palma de Ouro 2007 no lugar do romeno "4 Months, 3 Weeks and 2 Days" apenas para, reportando a vitória a contragosto, falar da merecida vitória do impressionante cinema romeno), bem, hoje, domingo de Nosso Senhor de 17 de junho de 2007, em seu artigo sobre "Duro de Matar 4.0" e toda a excelência de Bruce Willis, retiro a seguinte passagem:

"E até julho estréia no Brasil o filme que, para muitos críticos (nota minha: isto é, para ele mesmo), traz a melhor interpretação da carreira do ator: 'Nação Fast Food', de Richard Linklater, indicado à Palma de Ouro em Cannes, em 2006."

Proponho a você leitor duas coisas:

1) tentar encontrar na Internet algum texto de alguma publicação mais cricri em qualquer língua que contenha essa mesma hipérbole que ele utiliza no texto (afinal, são MUITOS os críticos que se referem a essa performance como a MELHOR em TODA sua CARREIRA);

2) Assista ao filme.

Sério.

Simplesmente assista ao filme e tente encontrar essa tal melhor performance de toda sua carreira. Estréia em julho nos cinemas, mas já podemos assisti-lo no Festival do Rio, está disponível em DVD importado há sabe-se lá quantos meses e na Internet o torrent já está tão velho que o link deve ter desaparecido. E aí quando você descobrir que trata-se de uma ponta de menos de cinco minutos num papel periférico falando sobre a "universidade bovina" (ref.: Os Simpsons), quero ver se você acha aquela a melhor carreira do ator. Porque se uma ponta minúscula é o ponto alto de uma carreira de um ator que é conhecido por todos os vários filmes em que é protagonista principal, o que temos é tudo menos um elogio à carreira de tal ator. E, ligando-se às críticas mal concebidas que compõem, seus elogios dizem o contrário dos filmes que imaginam exaltar, portanto, seus textos e Bonequinhos não servindo de parâmetro ou indicação para absolutamente ninguém.
  Bernardo Krivochein    domingo, junho 17, 2007    11 comentários
 
 


Então Você Quer Realizar Um Festival De Cinema

Não queira.

Por Grady Hendrix

Se você está pensando em realizar um festival de cinema: não pense. Sua vida será arruinada. Sua conta bancária será esvaziada. Seus amigos se afastarão de você. À época do fabuloso primeiro dia do seu evento, você vai desejar estar morto. Todos ao seu redor estarão comprando ingressos, felizes e sorridentes, e tudo o que você conseguirá pensar é: “Você sabe o quanto custa para fazer o FedEx de uma cópia vinda de Seul?”

Um festival de cinema é algo que soa vagamente intelectual, um oásis de contemplação cinematográfica no meio do árido mercado comercial. Mas um festival de cinema é uma aberração: as pessoas não precisam de maior encorajamento para ir ao cinema. Quando o remake hollywoodiano mais mal concebido de uma série de televisão nem tão popular consegue fazer $10 milhões no seu fim de semana de estréia, poderíamos até dizer que as pessoas vão ao cinema até demais. Existem poucas razões realmente convincentes para um festival de cinema existir e ainda assim eles proliferam feito manchas de câncer por todo o país.

Festivais de cinema são coordenados por pessoas idiotas como eu. Cinco anos atrás, numa tentativa de combater a crescente onda de entediantes filmes de arte asiáticos, eu ajudei a criar o New York Asian Film Festival, que se dedicava a filmes opo vindos da Ásia, filmes estrelados por Godzilla, filmes que eram como “Taxi Driver” só que estrelados por deficientes físicos, e musicais com guaxinins cantores. Nós prgramamos mais de uma dúzia de edições desde então, mas isso não nos fez mais espertos. Se fôssemos espertos, nos contentaríamos em pagar $10 e ver um filme no cinema. No entanto, nós gastamos $3.000 para alugar uma cópia de Taiwan e depois convencer 200 pessoas que elas estão loucas para assisti-la também.

Uma première, ao contrário do que nos diz a US Weekly, não é quando os paparazzi se aglomeram numa das laterais do tapete vermelho e tiram fotos dos peitos da Tara Reid. Uma première é meramente a primeira vez que um filme é exibido em um lugar em particular, e para um festival de cinema, abocanhar preimères é como coletar pontos de experiência no Dungeon & Dragons. Acumule bastante premières e as pessoas começam a falar seriamente de seu festival. Cada festival tem regras diferentes sobre o quão fresco um filme deve ser: Cannes insiste na première internacional (primeira exibição fora de seu país de origem). Toronto insiste na première norte-americana. O Festival de Williamsburg insiste na première do Brooklyn.

Os grandes festivais de cinema navegam as águas do cinema internacional feito megalodons, e produtores e distribuidores com filmes ficam lá, imóveis e vulneráveis, esperando ser engolidos. Ter sua première em Cannes é glorioso. Se Cannes não te quiser, talvez então Toronto ou Rotterdam te aceitem. Ou quem sabe Veneza? Sempre há o festival de Sundance. Seattle? Não? São Francisco, então? O Festival Internacional de Filmes Estrangeiros de Wichita? Alguém vai? Ninguém?

Assegurar uma première é um jogo psicológico delicado. Para distribuidores, existe apenas uma regra: Nunca se comprometa com um festival de cinema, a não ser que todas as outras melhores ofertas tenham sido esgotadas. Mas todo programador de festival precisa anunciar sua programação anteriormente para motivar a venda de ingressos, e isso e difícil de se fazer quando estão todos esperando para ouvir as notícias de Cannes. É como um primeiro encontro: tanto o distribuidor e o programador de festival querem a mesma coisa, mas nenhum quer ser o primeiro a ter que dizê-la. Então, você espera, manda um ou outro e-mail, você se faz de tranqüilo e indiferente.

Normalmente essa dança obrigatória acontece por e-mail ou por telefone, com você pendurado ao fone suado enquanto o produtor de Devil Fetus te diz que precisa saber primeiro dos franceses antes de poder se comprometer com seu festival. Mas existem vários eventos todos os anos nos quais a humilhção pode acontecer pessoalmente. Eles se chamam mercados de filmes. Eles surgem em centros de convenções por todo o mundo, entulhados de stands de distribuidores vendendo filmes como Sexo Animal IV e Pequeno Ninja Shaolin. Os programadores de festivais de cinema mais populares fazem hora nas cabines e são seduzidos com brindes extravagantes dos filmes: sketches de produção, fotos de locações, roteiros. Perdedores como eu são informados de que não existe um screener do filme que esteja disponível, mas não sou fofinho por ter pedido por favor?

Se você emergir desse ritual de humilhação com algumas premières em sua mão, agora você precisa conseguir as cópias. Posse é nove-décimos de um festival de cinema. Mais de uma vez um filme foi prometido a um festival e então, na véspera da exibição, uma ligação do distribuidor te diz que a cópia foi parar em algum lugar inóspito e, ei, por que você não simplesmente passa o DVD no lugar do 35mm?

Se e quando a cópia chegar, seja em latas enferrujadas e corroídas ou numa gigantesca bola de fita de embalar pesando 60 quilos, você está determinado a exibi-la, não importa o quão empoeirada, suja, riscada e gasta ela esteja. Uma vez nós programamos uma retrospectiva de velhos filmes de kung fu num cinema local e nossas cópias pareciam uma coleção de ex-prisioneiros treinados para se infiltrar na Europa e assassinar Hitler: cicatrizados, desgastados e problemáticos. De dentro de uma lata nós ocasionalmente ouvíamos sons de arranhões. Cada noite tínhamos que endurecer nossos corações toda vez que o projecionista saía da cabine de projeção uma hora antes da sessão para nos dizer que a cópia do filme do dia era improjecionável.

"Está muito suja. Estão faltando frames. Tinha um rato dentro da lata.”

"Pois faça passar,” nós resmungávamos, empurrando-o de volta para a cabine. “A cópia passará. Todo mundo consegue passá-la. Por que você não conseguiria?”

Ao final do festival, o projecionista estava pálido e tremendo de ansiedade. As cópias estalavam feito folhas secas, uma brevemente se incendiou, o chão sob o projetor ficou imundo com pó, poeira, insetos secos e lixos que caíam das moviolas enquanto o filme se desenrolava. Mas o festival aconteceu.

E se você conseguir trazer as cópias, prepare-se para taxas de envio que arruinarão sua vida. Logo no início de nossas carreiras como programadores, recebemos dois e-mails contraditórios. Um foi de um festival que receberia uma cópia de nós, insistindo que era de conhecimento geral que o evento que passasse um filme antes do seu, era responsável pelo pagamento do envio. O outro e-mail era do festival que nos antecedia, insistindo que o oposto era verdade: nós éramos responsáveis pelo envio que viria deles.

Essa é uma área difusa e geralmente significa que você está encurralado entre o pagamento de envio nas duas direções. O peso médio de uma lata de filme é 30 quilos. Se for importá-la do Japão, estará pagando $700 dólares tanto na ida quanto na volta. Seu pesadelo é receber um telefonema do distribuidor que te diz que o seu filme será exibido no Festival de Cinema de Tel Aviv um dia antes de você, e que você terá que pagar pelo envio overnight. Você não estava planejando botar seus filhos na universidade mesmo, estava?

Claro, existe outro elemento a ser adicionado ao inferno dos festivais – mais apropriadamente, conseguir reunir uma platéia para assistir esse troço. A resposta breve é: não existe maneira de garantir isso. Sua platéia é determinada por forças além do seu controle. Há muitos anos atrás, eu defendi arduamente para exibir no meu festival um filme chamado Punição (heh). Eu o achei um filme adorável e que as platéias realmente se interessariam por ele. Sete pessoas apareceram. Sentei no cinema enquanto o filme era exibido, calculando os custos de envio mais a taxa de aluguel contra a venda total de ingressos. Tive uma cólica estomacal e corri para o banheiro. Enquanto eu cruzava o lobby, vi o projecionista saindo pela porta do cinema.

“Onde você está indo?”

“Vou jantar.”

“Mas... o filme.”

“Vai ficar tudo bem, “ ele disse. “Não tem ninguém lá dentro mesmo.”

* * *

Grady Hendrix é jornalista especializado em cinema asiático, tendo escrito para várias publicações, e diretor do New York Film Festival. Seu blog dentro da publicação Variety, Kaiju Shakedown, durante sua breve existência tornou-se uma das mais ricas fontes sobre cinema e notícias sobre o mundo do entretenimento asiático, sendo encerrado para que Hendrix se concentrasse em suas funções ligadas aos demais festivais que coordena. O texto acima foi publicado na Slant Magazine em 15 de junho de 2005. Link aqui.
  Bernardo Krivochein    quarta-feira, junho 13, 2007    2 comentários
 
 


MediaON, ligue-se!

Todos nós que estamos na Internet há tantos anos, queremos saber mais sobre o jornalismo on-line e seu futuro. Hoje começa o MediaON, 1o Seminário Internacional de Jornalismo Online e claro que você nem precisa sair de casa para acompanhar as palestras e discussões. Hoje, às 19:30h, fala Michael Rogers do New York Times, ele que é um "futurista" e tem uma coluna chamada "Practical Futurist". A meu ver o New York Times, dos jornais impressos tradicionais, é o que mais tem produtos online de qualidade e gratuitos. Confira quem mais vai abrir o verbo por lá no site "http://www.mediaon.com.br" ou caso você queira ir pessoalmente, se inscreva, o evento será no Itaú Cultural em São Paulo, na Av. Paulista, 149, metrô Brigadeiro. Espero que apareça algum protesto eficaz contra o fim do blog NoMínimo.
  Francesca Azzi    terça-feira, junho 12, 2007    0 comentários
 
 


"Monstros de Quatro Olhos" e "Chacun Son Cinema" disponíveis ONLINE e DE GRAÇA


Arin Crumley e Susan Buice em "Monstros de Quatro Olhos" (Four Eyed Monsters, EUA. 2005) de Crumley e Buice.


Monstros de Quatro Olhos (Four Eyed Monsters, EUA 2005) é considerado um dos primeiros filmes do movimento que viria a ser denominado Mumblecore (integrado por, entre outros, Joe Swanberg, os irmãos Duplass e Andrew Bujalski). No Brasil, o filme de Arin Crumley e Susan Buice (premiado no SXSW 05 e mais recentemente no IndieWIRE/Sundance Emerging Visions 2006) foi exibido exclusivamente no INDIE 2005, com a presença do próprio Crumley. Composto por vídeomensagens reais enviadas entre Buice e Crumley, a narrativa improvisada e inusitada de"Monstros..." conta a história de um casal que utiliza os vários meios de comunicação interpessoal digital para expressarem seus sentimentos em seu relacionamento. O filme foi considerado pela crítica da IndieWIRE e da Reverse Shot como "o mais próximo de um filme de Wong Kar-Wai que temos já realizado em território americano." Isso é, antes de Wong Kar-Wai filmar em território americano. Mas parece que o que Kar-Wai filmou em território americano não ficou muito bom. "Four Eyed Monsters" é bom, mesmo assim.

Em parceria com Sprout.com, o filme estará disponível por uma semana para ser assistido de graça através desse link do YouTube. Aos corações mais caridosos, Crumley e Buice ganham um dólar para cada internauta que se cadastrar no site da Sprout através do link do filme. Então, inscreva-se. É de graça, sua esmolinha será investida na produção do próximo longa dos dois (aqui começa a sua grande produtora...) e Papai do Céu está olhando. Ele SEMPRE está olhando... (tch-tch-tch-tch-tch... ka-ka-ka-ka-ka...)

Chacun son Cinema - o longa composto por segmentos de 3 minutos de 33 diretores renomados sobre o estado das coisas do cinema - foi exibido simultaneamente no Festival de Cannes e na televisão francesa. Os segmentos estão todos disponíveis na Internet, sem choro, nem vela, nem reclamação de direitos autorais, nem nada. Os filminhos, inclusive, funcionam mil maravilhas dentro do formato internetiano. Dica daquela moça, Daniella Azzi. Os links, tais quais vieram ao mundo, seguem abaixo:

Walter Salles
Lars Von Trier
David Cronenberg
Coen Bros.
Nanni Moretti
Claude Lelouch
Chen Kaige
Atom Egoyan
Alejandro Gonzales Iñarritu

ADENDO: Só porque a Francesca gosta de Miranda July: o clipe da nova música da banda Blonde Redhead, estrelando July e dirigido por Mike Mills (os clipes do Air, "Impulsividade"). Se encaixa mais no quesito experimento de arte do que videoclipe, mas é simpático. Há apenas uma conclusão sombria a ser tirada do vídeo:

Branco não sabe dançar. Mesmo. Se essa música vier a fazer sucesso, mal posso esperar para ver os alternativos dançarem essa coreografia na pista cheia. Vai ser o holocausto enquanto performance.



  Bernardo Krivochein    sábado, junho 09, 2007    5 comentários
 
 


A Meio Caminho do 666: Piratas 3, Shrek 3, Homem-Aranha 3...

Vamos estabelecer uma nova lei: se for trilogia, é automaticamente uma merda. Mil desculpas, "O Poderoso Chefão". "O Senhor dos Anéis", desolé. Kieslowski, foi malzão aê.

Foi fazendo aquela cobertura sem compromisso dos filmes de Cannes 2007 (aliás, me perdoem as traduções automáticas que desafiam a lógica gramatical) que pude construir a minha lista de filmes pelos quais anseio. Não foram nem exatamente os filmes elogiados (toda vez que assisto um filme elogiado em demasia, sinto sempre uma certa decepção; fica parecendo que não há mais nada a ser descoberto sobre ele), mas as decepções, os filmes ditos difíceis, os desagradáveis. Se continuo ansiando por "The Man From London" do Béla Tarr, a forma como "The Banishment" alienou os críticos na Croisette o ergueu ao posto de filme mais aguardado por mim.

Mas foi das recepções críticas nacionais e internacionais que eu tirei minhas referências, minhas informações, foram elas que fizeram ciente da existência de certos filmes e foi através delas que construí meu interesse pelos mesmos. Se ainda não ficou claro, isso é um mea culpa. Não me aproximei das tais críticas cinematográficas como uma forma de literatura, que é a maneira que imagino mais correta de abordá-las; mas como fonte de informação e propaganda. Quando fui assistir "A Leste de Bucareste", uma família playboy (o pai careca vestindo uma camiseta da Osklen, a mãe de blazer falsa-sofisticação-do-Leblon, filho universitário mauriçola) saiu da sessão soltando os cachorros em cima do filme, esbravejando sobre como acharam o filme péssimo e como o bonequinho (identificação visual paternalizante que o jornal O Globo adotou como cotação cinematográfica) deveria estar fugindo do cinema, ao invés de apaludindo. Claro que eles são e irão morrer como os deformados mentais que vi, mas não fiz muito diferente deles ao ler as críticas vindas de Cannes.

Uma das eternas discussões do meio cinematográfico é o papel da crítica, especialmente no momento em que filmes uniformemente avacalhados por ela tornam-se grandes sucessos de público. Faço link para os seguintes posts sobre o assunto: o blog The Stranger Song e o blo do NY Times, The Lede. Existem outros vários. A crítica deveria ser um termômetro do gosto geral, refletindo a visão da maioria? Crítica é mera publicidade (os produtores certamente pensam dessa forma)? Se ela fracassa nessas duas frentes, então quem ela estaria refletindo? Ela seria interessante para os filmes?

Talvez crítica seja somente publicidade mesmo, os críticos colocam a si mesmos em torres de marfim para justificar sua atividade, mas a História do Cinema já provou várias vezes como eles se enganam (aqui outro problema: quem escolhe os clássicos e por quê?) e no final de contas, quantas vezes não fomos assistir a um filme elogiado que se revelava absolutamente frustrante? (diabos, quantas vezes eu mesmo não te convenci a assistir um filme que você achou uma divina merda ao final?!?) O público é infantilizado com a arrogância do indivíduo crítico (que tem que justificar sua presença na folha) e o espectador tem negado a sua própria verdade que o faz gostar e desgostar de certas coisas - ou é pura caridade minha acreditar que o sujeito, profissionalmente ou não, de forma interessada ou não, tem um senso crítico que é ativado ao final de uma experiência? Talvez seja, mas só um pouco.

O que acontece aqui é que, se os críticos acreditam na crítica cinematográfica como algo muito superior, nem o grande público que atropela a opinião crítica a caminho do Cinemark percebe a crítica como publicidade ou como fonte de informação. Crítica é aquele ínfimo encorajamento a mais, só é levada em conta quando elogia o filme que o espectador - deslumbrado com o grande elenco e promessas de milhões de dólares em exposição - já queria assistir de início. A crítica que contraria essa regra é facilmente descartada com um: "crítica só elogia filme chato." Então, da mesma maneira que utilizei as críticas de Cannes como fonte de informação e publicidade, o grande público tem nos grandes outdoors e nos comerciais de televisão, enfim, na campanha publicitária grandiloqüente toda a aprovação crítica de que precisam. Maior é a propaganda no meio da rua, maior é a garantia de um filme de qualidade. Maior = mais dinheiro. Pois "maior" é sempre visto como "mais alto", nunca como "mais gordo."

Falamos apenas dos casos em que a crítica fracassa, mas é preciso lembrar as inúmeras vezes em que os deuses da justiça cinematográfica venceram e as críticas transformaram filmes modestos em sucessos de ingressos vendidos (seja em grande escala, seja apenas além das humildes expectativas de seus realizadores e distribuidores), como não falamos dos vários casos em que investimento maciço em publicidade não salvaram filmes do fracasso. Ou seja, nada é garantido. Nenhuma publicidade é o bastante.

E se a crítica seria a publicidade do intelectual e o outdoor a avaliação crítica aos olhos do grande público, temos então a questão dos filmes. Aqui temos algo do nosso maior interesse: o próprio filme torna-se publicidade. Não de si mesmo, mas de sua continuações. O espectador hoje em dia não vai mais assistir ao filme "Homem-Aranha": ele vai assistir um comercial de duas horas para "Homem-Aranha 2" e, indo assistir a esse, descobre que não passa de um comercial para "Homem-Aranha 3"? Não sabia que era uma trilogia? Nem os produtores. Se tornou uma trilogia no momento que você resolveu assistir. Vox populi, vox dei, vox afônica.

O que assola os cinemas a cada verão americano é o inverno do nosso dissabor. Não existem mais filmes em cartaz, apenas prospectos de negócios para futuros investimentos. Não chore pelo público, no entanto. Muito se defende a apresentação de novidades para um público já anestesiado pelas mesmas técnicas, mesmas narrativas. As trilogias confirmam que o que público realmente quer é mais do mesmo, querem a mesma missa, na mesma paróquia, tal qual os produtores que morrem de cagaço por seus investimentos. OK, não exatamente mais do mesmo: um pouco mais de confeito, um pouco mais de granulado, o CGI feito na nova versão 1.3 do software... É novidade o bastante. Melhor: é seguro. É preciso tomar cuidado com muita novidade, com coisas muito diferentes: pode ser terrorismo.

Não escrevo nada disso com a pretensão de aumentar a consciência de ninguém, é apenas um desabafo. Não sou contra o filme-evento das férias de fim de semestre, pelo contrário. Porra, eu construí meu paladar cinematográfico antecipando as estréias deles, mas será que estou errado em acreditar que há apenas alguns anos atrás os filmes comerciais tinham propostas mais originais, se apoiavam muito mais nas lacunas incobertas pelo circuito do que em inúmeras variações de sucessos de outrora (e outrora mesmo: no minuto que sai Thundercats - O Filme, vem Comandos em Ação - O Filme, Moranguinho - O Filme, Meu Querido Pônei - The Reckoning...) ? E o que dizer da atual (e insuportável) nerdocracia em que se vive, um regime em que o indivíduo é obrigado a engolir perspectivas sombrias e supostamente maduras de "Batman", "Transformers" et al, que servem apenas para justificar ao homem adulto seu gosto por coisas infantis e há muito incompatíveis com sua idade? Antes varrendo as bancas de jornal, os produtores e realizadores - que são da minha geração, inclusive - agora varrem leilões de brinquedos do eBay e do Mercado Livre em busca de inspiração. Verão 2008: vai ser foda de aturar. Que venha o aquecimento global.

(Quem tem costume de comentar, sinta-se à vontade. Quem nunca comentou, é uma boa hora para começar. Pode inclusive me esculachar - nerds em geral tem se sentido ofendidos comigo, a quem peço mil desculpas, mas juro que não ataco nada por pura maldade - pois a possibilidade de estar completamente errado é intensa. Vou entrar no debate no campo de comentário durante a semana inteira.)
  Bernardo Krivochein    sábado, junho 09, 2007    12 comentários
 
 
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