blogINDIE 2006


"Atos dos Homens" premiado no 28º Festival de Nantes

O documentário "Atos dos Homens" de Kiko Goifman dividiu o prêmio Golden Montgolfier na categoria documentário com o taiwanês "Yellow Box" Huang Ting-Fu, no Festival des 3 Continents, que reúne as cinematografias contemporâneas da América Latina, Ásia e África. Os irmãos Montgolfier foram os criadores do primeiro balão tripulado, btw.

O elogiado filme aborda a violência urbana a partir da chacina em Vigário Geral e foi exibido em Gramado, na Mostra de SP, na Berlinale e especialmente no Indie 2006, valeu? Parabéns a Goifman e toda sua equipe.

A lista completa dos vencedores do Festival de Nantes (que incluem ainda os hermanos "arrentinos": "Glue", recentemente exibido no MixBrasil, e "Meanwhile", além do prêmio de melhor direção para "Rain Dogs") pode ser vista aqui
  Bernardo Krivochein    quinta-feira, novembro 30, 2006    4 comentários
 
 



Sundance 2007: sai a lista competitiva

A lista completa da próxima edição do Festival de Sundance (18-28 janeiro próximo) em Park City, EUA para as competições de narrativas dramáticas e documentais, tanto nacional e internacional, foi liberada hoje pela produção, restando apenas a liberação dos títulos das mostras Premiere, Spectrum, Novas Fronteiras e a melhor de todas, a Midnight, programada para amanhã.

Geoffrey Gilmore, diretor do festival e pai de Lorelai, afirma que este é um momento crucial para o cinema independente, que se revela mais interessado no engajamento do que nas inovações, sabe-se lá técnicas ou narrativas. Ele louva a produção inependente que se expandiu pelo mundo inteiro, o que se revela na diversidade de línguas e culturas presentes nas obras - a gente só pode ligar esse aumento na produção independente mundial ao barateamento da maquinária e as facilidades na disseminação das obras. Ironicamente, o festival se expandiu para um shopping alguns quilômetros de Park City, uma sala que só exibe 35mm, sem infraestrutura para um cinema em que o digital impera. Oops. Nada que não seja facilmente resolvido.

Entre as seleções, dois brasileiros: "Acidente" de Cao Guimarães e Pablo Lobato e "O Cheiro do Ralo" de Heitor Dhalia, além de "Snow Angels", novo filme de David Gordon Green ("Contracorrente", "George Washington") e estrelando Amy Sedaris de "Strangers With Candy", "The Legacy" de Gela e Temur Babluani ("13- Tzameti", dirigido por Gela, é um dos filmes mais bacanas que assisti em 2006), "La Faute à Fidel" estrelando Julie Depardieu e o italiano Stefano Accorsi, o primeiro longa de ficção de Zoe Cassavetes após o ótimo docu "Z Channel - A Magnificent Obsession" e um tal de "Teeth" que sôa bem interessante.

O filme de abertura será o documentário "Chicago 10" de Brett Morgen, de "O Show Não pode Parar", sobre os protestantes anti-guerra que entraram em confronto com a polícia em 1968.
  Bernardo Krivochein    quinta-feira, novembro 30, 2006    2 comentários
 
 


A solução para muitos (ou alguns) indies #2



Complementando a notinha do Bernardo abaixo, sobre os indies americanos duas coisas:

1- A indieWire, que todo ano faz uma lista de filmes chamada "Undiscovered Gems"( poderia traduzir como "Pérolas (não)descobertas"...), este ano, com o patrocínio do New York Times e do Emerging Pictures ( uma espécie de Rain Digital ou coisa que o valha...) e com o apoio do California Film Institute e do Sundance Channel, está exibindo 8 longas independentes em vários cinemas pelos Estados Unidos, que não foram distribuídos comercialmente . Entre eles estão, além do "Four Eyed Monsters", o último do Jem Cohen "Chain", "Puffy Chair", "Red Doors", "Mutual Aprecciation", "Room", "Human Touch" do Paul Cox, e "Massaker". Isto também é um bom caminho para filmes que não conseguem chegar as salas de exibição comercial. Todos em digital, claro.

2- Veja a lista dos indicados ao Spirit Awards com seus próprios olhos e entenda que os limites entre o cinema independente e o cinema industrial/comercial/produzido nos grandes estúdios americanos é uma linha bem frágil. Muitos nomes em comum aos dois lados, e muitos nomes que já representaram, no passado, um "espiríto indie". Por exemplo, competem como melhor diretor, na mesma categoria, Robert Altman e Steven Soderbergh e a atriz e diretora quase novata Karen Moncrieff ( que dirigiu "Blue Car" que vc pode encontrar em DVD e agora está com o "The Dead Girl" com Toni Collete ( foto)), lado a lado. Dos competidores a melhor filme, apenas "Pequena Miss Sunshine" estreou por aqui. Ah! E o "Four Eyed Monsters" está concorrendo ao John Cassavetes Awards e melhor fotografia. O talento de Arin Crumley e Susan Buice, acho eu, vai longe.

Mais uma: o filme "Acidente" de Cao Guimarães e Pablo Lobato foi selecionado para a competição de documentários do World Cinema do Sundance Film Festival 2007! ( Veja os selecionados). "O Cheiro do Ralo" de Heitor Dhalia também, só que na competição dramática da categoria World Cinema.

(Francesca Azzi)
  INDIE    quinta-feira, novembro 30, 2006    0 comentários
 
 



Natal de merda

"Black Christmas" é o début do diretor Bob Clark, mais conhecido por aqui pelo clássico da Sessão da Tarde "Uma História de Natal", o filme do garoto loirinho e de óculos que deseja uma espingarda de chumbinho no Natal e acaba com a língua congelada a um poste de rua. "Christmas" é conhecido por estabelecer o POV do assassino (sim, o filme é 4 anos pré-"Halloween", quase uma cópia carbono deste) e célebre por ser o primeiro de uma série de slashers que se seguiriam (Jason a encarnação mais bem sucedida). Tenho esse filme em DVD usado há algum tempo, acho bem bacana todo o set-up numa casa de fraternidade, mas o que mais me marcou foi a universitária bêbada interpretada por Margot Kidder. Hilário! O remake, agora com o título vertido para "Black X-Mas" (aqui, "Natal do Terror" com previsão de estréia para 29 de dezembro) tem o nome de Glen Morgan ("Willard", "Premonição") creditado na direção, mas não se enganem. Quem comandou o show aqui foram os produtores.

Numa exclusiva para o site Arrow In The Head, John Fallon relata que até agora foram 4 as refilmagens impostas pelos produtores, que tiraram Morgan do barco e pintaram e bordaram para deixar o filme com cenas mais palatáveis para a equipe de publicidade. Ele lista que as seguintes cenas foram realizadas apenas para serem inclusas no trailer, ficando de fora do filme:

- O homem enrolado em luzes de Natal sendo sugado pela máquina;
- A mão que emerge do gelo e pega uma vítima;
- Cadáver que cai do sótão, pendurado por luzes de Natal;
- Billy colado ao teto feito uma aranha.

Ele também relata que o consenso geral pelas exibições-teste é que os primeiros 20 minutos são ótimos e o resto o cúmulo da tosqueira.

Refilmagens - ou reshoots - visando apenas a publicidade do filme tem acontecido desde "O Fugitivo", no qual a cena em que Tommy Lee Jones declama que vai procurar Harrison Ford até no cu do Judas foi concebida pela equipe de marketeiros e se tornou - por bem ou por mal - a cena mais célebre do filme. Mas aí está seu filme de Cinemark, pro bando de otários que acredita que o cartaz dependurado em shopping anuncia um filme e não um produto feito a vitrine da Leader Magazine.
  Bernardo Krivochein    terça-feira, novembro 28, 2006    0 comentários
 
 


A Atual New Wave Independente Norte-Americana



(still do filme "Dance Party USA)

A história do cinema é determinada por movimentos - sejam eles frutos das iniciativas em comum de cineastas normalmente conterrâneos, ou cunhadas por j0rnalistas e estudiosos. Enquanto muitos acreditam que a globalização enfraquece o potencial revolucionário de técnicas cultivadas em territórios distantes (que, de fato, precisam ser buriladas em segredo por um certo período até atingirem um formato/linguagem mais sólido), outros se utilizam do enorme leque aberto pelos avanços da tecnologia para ampliar seus contatos e discussões. Exemplo são os vários títulos internacionais que adotaram para si as normas do dinamarquês Dogme 95 (mesmo sem conseguirem a notoriedade dos títulos originais).

Abaixo da linha do hype formal das grandes publicações, disseminado pela rede através dos criadores, participantes e espectadores que os apreciam, ferve um novo movimento: sem maiores alardes, mas firme e constante que começa a chamar a atenção da mídia apenas vários títulos realizados depois. Conhecendo-se através dos vários festivais mantidos por todos os EUA, um grupo de jovens realizdores, quando não estão dirigindo seus próprios filmes, colaboram na realização dos filmes dos colegas. Espalhados por vários estados (Nova York, Massachussets, Texas, Califórnia, etc...), unem-se no objetivo único de fazer cinema e fazem-se notar através dos próprios blogs, publicações especializadas e pelos comentários de espectadores, tão facilmente postados e encontrados pela Internet. Cinema independente realizado com pouco orçamento e integridade artística no famoso esquema da brodagem.

Poderíamos considerar Michael Tully o nosso foco central, de onde poderemos espalhar nossa perspectiva. Diretor do elogiado "Cocaine Angel" e mantenedor do ótimo blog "Boredom at its boredest" da IndieWire, Tully tem o privilégio de não apenas conhecer os realizadores como a oportunidade de estar a par das várias produções, chegando a assistí-las de antemão.

A rede se amplia. Ligados pela iniciativa independete e pelo apreço sincero que cada um dos diretores nutre pelas obras dos colegas, além de apoiados por cinemas que se dispõem a exibir essas obras normalmente com distribuição ou limitada ou inexistente. O mais recente título é "Dance Party USA" de Aaron Katz, ex-funcionário do Pioneer Theatre onde o filme está fazendo seu circuito. Nele, dois jovens de uma cidade dos EUA finalmente se conhecem, quebrando a morosidade de seu cotidiano. O ponto de cisão do filme é um elogiado plano-seqüência de 20 minutos em que Gus revela seu passado sombrio.

Joe Swanberg tem chamado a atenção desde seu primeiro filme, o explícito e contundente "Kissing on the mouth", uma reflexão sobre as relações entre os jovens recém-formados e com problemas de perspectivas em suas vidas. Após "Kissing...", Swanberg dirigiu "LOL", elogiado pela IndieWire e Film Threat e, aos 25 anos, já concluiu seu terceiro filme, o aguardado "Hannah takes the stairs", além de comandar uma ousada série de webpisodes, "Young American Bodies". Swanberg já foi comparado a Fassbinder pela sua atividade e franqueza.

"Hannah takes the stairs" tem participação de Andrew Bujalski, que já se tornou figura de culto por aqui após a exibição de "Mutual Appreciation" no Festival do Rio. Talvez o nome de maior destaque entre o bando, Bujalski alinha com "Mutual..." o bem recebido "Funny Ha Ha". Seu trabalho engrossa a mesma linha estética dos primeiros trabalhos de John Cassavetes e Jim Jarmusch. Improvisação, verborragia e uma intrincada rede de relações que corre feito um lençol d'água sob o assoreamento dos diálogos.

Outros títulos aumentam o movimento, os debuts de diretores como os irmãos Duplass (de "The Puffy Chair", sucesso no SXSW de 2005) e "The Guatemalan Handshake" de Todd Rohal. Exibido no Indie 2005, "Four Eyed Monsters" tornou-se o filme mais inovador pelos teclados da IndieWire. O longa de Arin Crumley e Susan Buice, também integrantes do grupo, driblou os obstáculos de distribuição e, assim como fez David Lynch e seu "INLAND EMPIRE", os diretores optaram pela independência também no modo como trariam seu filme ao público.

A maioria dos filmes é realizado em vídeo digital (as exceções são poucas) e a mídia eletrõnica encarrega-se de fazê-los notar (e aguardar) pelo público. Os festivais fornecem a janela e a descoberta - como bem deveria ser. E a independência vai além de sua produção: não há froneira geográfica que impeça um amigo que se voluntaria a participar, não há engravatado que fique no caminho entre o filme e seu público. E, mesmo sem se conhecerem anteriormente, os cineastas se tornaram atraídos pelas mesmas filmografias e estéticas. Ao encontrarem-se, identificam-se. Um movimento que, ao invés de partir de uma pedra fundamental de discussões entre já conhecidos, vai acidentalmente descobrindo e amalgamando as obras que o construirão.

UPDATE: "Four eyed monsters" é um dos indicados ao prêmio de Melhor Primeiro Filme no Independent Spirit Awards (assim como "Man Push Cart").

  Bernardo Krivochein    segunda-feira, novembro 27, 2006    2 comentários
 
 


Diretor de Bollywood

Descobri esse site que é um passatempo divertido. O BombayTV aproveita do estilo melodramático e da estética colorida de Bollywood e disponibiliza alguns trechos de filmes para que você crie a legenda.

Quando fui fazer o meu não sabia bem como funcionava e escrevi a legenda antes de escolher a cena. Por sorte, a primeira cena que abri encaixou diretinho com o diálogo e ficou até engraçadinho. Dá para assistir minha obra de arte aqui.

Se você ficar orgulhoso do seu filminho pode mandar pros amigos e convidá-los para participar.

bombayTV
  Bel Furtado    segunda-feira, novembro 27, 2006    0 comentários
 
 



Nada de novo no front


Sou de uma geração que aprendeu a gostar de cinema americano por causa de cineastas como Francis Ford Copolla, Steven Spielberg e Martin Scorsese. Os filmes deste trio fizeram renascer a possibilidade de cinema inteligente em Hollywood nos anos 70 e 80, numa época crítica para o cinema no mundo todo. Além de bons filmes, a referência histórica destes diretores era John Ford, Hitchcoch, John Houston, o cinema de autor e, obviamente, Orson Welles. Copolla dizia algo assim: o bom filme é aquele que constrói através da imagem em movimento o que não se pode dizer com as palavras.
Eles sabiam fazer isso e, talvez, dentre os três o mais esteta fosse Scorsese. Filmes como Táxi Driver, Touro Indomável, A ultima tentação de Cristo, Bons Companheiros e Cabo do Medo são atemporais. Aulas de cinema! Mas já há algum tempo este cineasta vem devendo um grande filme. “Os Infiltrados” tinha tudo para ser a sua redenção. História interessante, trio de atores parada dura (Nicholson, Damon e DiCaprio), Michael Ballhaus na cinematografia e Thelma Shoonmaker editando. A medida que o filme vai se desenrolando, as expectativas não vão se confirmando, e confesso que saí profundamente decepcionado com o filme. São primárias as soluções finais da trama, que poderia render uma excelente construção de personagens, mas que não vai além de uma sucessão de fatos dramáticos que complicam a história a ponto de ter de ser resolvida de forma banal – obviamente não vou contar o final do filme – mas saiba que não é lá grandes coisas. Apesar da decepção, é possível que a academia resolva finalmente premiar Scorsese, dando-lhe uma estatueta, pois na terra de cegos que tem um olho é rei.
  Roberto Moreira S. Cruz    sábado, novembro 25, 2006    0 comentários
 
 


A solução para muitos indies



Teoricamente, o circuito de exibição não comporta o alto número de filmes independentes produzidos por ano, nem nos Estados Unidos, nem aqui, nem na China! Para os indies vale e muito a exibição em festivais mas, às vezes, nem os mais premiados encontram distribuição. Depois do circuito de festivais pelo mundo, se não entram em cartaz, qual o caminho?

Um pouco para resolver este gap no mercado independente, o festival Cinequest de San Jose, na Califórnia, que acontece há 15 anos, está lançando um selo de dvds com 35 títulos que participaram do festival, alguns premiados e que você pode comprar on-line. Seguindo o caminho do Sundance (que completou 25 anos em 2006!), o Cinequest é o segundo festival norte-americano a lançar filmes para seus espectadores fora da sala escura, e como distribuidora promete, tem planos que vão além dos dvds e filmes através da Internet, para TV e cinema mesmo.

Entre os 35, está "Awful Normal", documentário de 2004, super premiado pelo festival e que teve seus dias de glória n o programa da Oprah ( Isto é bom ou ruim? Lógico que o filme trata da questão do abuso sexual infantil, um dos assunto preferidos e obsessivamente perseguido por Oprah, além de outros mais leves como obesidade ou eating disorders e alcoolismo).

Tá certo que os filmes não são do último ano, mas valem uma conferida, claro. E na esperança que projetos assim passem a existir por aqui... para o Indie, um dia, quem sabe?

(Francesca Azzi)
  INDIE    sexta-feira, novembro 24, 2006    0 comentários
 
 



Carneiros, estrelas e listas...

Em noites de insônia eu não conto carneirinhos... eu conto filmes, atores, atrizes, diretores. Faço o meu personal adedanha cinematográfico. A maneira de jogar não é muito clara, afinal eu torço pra perder sempre... e dormir. As regras são caóticas e mudam com o meu humor insone ou como um córtex cerebral, já afetado pela tintura do Jaça, do Silvio Santos. (parêntesis necessário: eu não conheço ninguém que muda tanto as regras de um jogo como aquele ser... no ar com milhares de espectadores...) Mas compartilho esta fórmula de dormonid genericamente cinematográfico aqui e quem sabe assim me livro desta obsessão. Me ajudem a fechar algum ciclo de algumas destas listas malucas, porque uma vez fechadas eu posso até esquecê-las.
Posso começar mais ou menos assim: Um Dia Muito Especial, Dois Anjos, Três Enterros, Quatro Casamentos e Um Funeral, As Cinco da Tarde, Seis Dias, Seis Noites, Os Sete Gatinhos, O Oitavo Dia, Nove Semanas e Meia de Amor, Dez, Onze Homens e Um Segredo, Os Doze Macacos, Aos Treze, 14 Juilett, 15 Minutos, 16 Quadras, ... e acaba invariavelmente com 101 Dálmatas. Esta é uma lista fechada contida e quase sempre repetitiva.

Esta lista pode ser substituída na seqüência pela dificílima relação de nomes de atores e atrizes com as letras iniciais do nome e do sobrenome iguais: Anouk Aimee, Brigitte Bardot, Claudia Cardinale, Doris Day, com E não lembro de nenhum, Frances Farmer, Greta Garbo, Helen Hunt, terminando invariavelmente com Zaira Zambelli – tudo bem apelei, mas ela brilhou ao lado de Fábio Junior no adorável Bye Bye Brasil do Cacá Diegues nos idos de 1980. Tenho muito cuidado com esta lista porque ela pode me vencer pelo cansaço, ou pela obsessão de preencher as vagas impossíveis na letra E, I ... aí não durmo nem que Susan Sarandon sutilmente sugerisse sedativos...

Outra possibilidade é pensar na“primeira vez que”. O filme que me lembro de ter visto pela primeira vez no cinema foi Dr. Dolittle. A primeira vez que eu vi um filme do Fellini foi no Cine Pathé: Amarcord. A primeira vez que eu vi um filme proibido para menores de 18 anos foi em 1978: A Dama do Lotação. O primeiro documentário que eu vi foi Corações e Mentes. O primeiro (e único) filme em 70 mm que eu vi foi Sete Noivas Para Sete Irmãos. A primeira vez que eu vi uma estrela de cinema de verdade foi em Veneza (a atriz era Nicole Kidman). O primeiro filme-catástrofe que eu vi foi Inferno na Torre. A primeira vez que eu chorei no cinema foi com O Morro dos Ventos Uivantes. A primeira vez... foi intensa e foi tarde...
  Eduardo Cerqueira    sexta-feira, novembro 24, 2006    1 comentários
 
 



Imagem do Outro 3

Sexo, drogas e punk rock. Este é o universo retratado pela fotografa Nan Goldin. Quartos de hotéis de quinta categoria, travestis, drogados, putas e perdidos na noite. Tudo o que a moral e os bons costumes sempre rejeitaram. E porque, afinal, estas imagens fazem tanto sucesso? Os anos pós-aids, de conexões e sexos virtuais e desesperanças fizeram com que a sociedade ficasse menos hipócrita e assumisse mais as suas imperfeições. Vale tudo e tudo vale! As histórias veladas que cada um de seus retratados nos contam em imagens, falam um pouco da desilusão, solitude e dos descaminhos da vida.
Existe uma linha do tempo que explica essa tendência. Beatnicks, rebeldes transviados, selvagens da motocicleta, pin ups e bombshells, Woodstock, hippies, freaks, punks e drags. As imagens do outro de Nan Goldin prosseguem esta história de antiheróis e mitos rebeldes da contracultura. Seus personagens se completam ao justapormos uma foto com outra, compondo-as como numa montagem cinematográfica. A narrativa de uma geração ao som de “My Way” na voz de Sid Vicious.
  Roberto Moreira S. Cruz    quinta-feira, novembro 23, 2006    1 comentários
 
 



Imagem do Outro 2

Já há alguns anos a Bienal de São Paulo abandonou o projeto da sala especial para obras históricas de suas edições. Foram os tempos em que ir a Bienal era também uma oportunidade de ver e rever obras importantes da história da arte do século XX. Passaram por ela salas especiais de Malevitch, Picasso, Mondrian, só pra citar aqueles que me lembro agora...
Mesmo assim, a Bienal tem apresentado alguns artistas que, se não fazem parte de uma mitologia tão definitiva da arte ocidental, pelo menos já são celebrados como nomes antológicos neste contexto. A Bienal deste ano tem obras de artistas importantes do que poderíamos chamar da turma da terceira idade da exposição. Marta Gordon Clark, Dan Grahan, Marcel Broothaers e Leon Ferrari. Dentre eles esta Ana Mendieta. Artista cubana que fez carreira nos Estados Unidos e pertenceu à geração das artes do corpo nos anos 70. Ana é sem dúvida um dos nomes mais importantes desta geração de mulheres artistas – ao lado de Marina Abramovic, Yoko Ono, e algumas outras poucas - que ajudaram a mudar um certo tom de preconceito que havia ainda naquela época sobre o sexo feminino. Ana Mendieta usava seu prórpio corpo ou uma representação deste em suas performances, misturando sua anatomia com a natureza, deitada sobre a terra, coberta de pedras, ensanguentada sob lençóis. Atos de sacrifício e imolação. Em suas obras a figura da mulher, muitas vezes representada pelo seu próprio corpo, é sacralizado em rituais de passagem e libertação da moral e ética da cultura masculina .
Ana morreu jovem, aos 37 anos e sua sala na Bienal é uma bela homenagem póstuma ao seu ativismo estético.
  Roberto Moreira S. Cruz    quinta-feira, novembro 23, 2006    0 comentários
 
 



Imagem do outro

Nos anos 80 e início dos 90 a fotógrafa Cindy Sherman apareceu no cenário das artes visuais como uma artista incomum. Criando auto-retratos de personagens que ela mesma protagonizava, Cindy simulava situações e criava "climas" cinematográficos e teatrais.
Sua façanha estava em "maquiar" a realidade, rompendo de forma sutil e irônica com a idéia de que a fotografia é uma representação fiel das pessoas. Nas fotos de Cindy, por mais que estas fossem retratos que remetessem ou revelassem traços de um outro, tudo não passava de uma simulação ou encenação da identidade de um personagem protagonizado por ela mesma.
No documentário "Cindy Sherman" , realizado em 1986, o truque delicado de Sherman é revelado pelo olhar de Michael Auder. Sem firulas ou interferências sobre a narrativa, o filme é o que poderíamos chamar de cinema verdade levado ao extremo. A câmera despojada de Auder - uma gravaçao feita em vídeo formato U-matic (está lá aquela imagem meio desbotada e azulada típica deste formato de vídeo muito utilizado na época) - colocada em um canto do estúdio da artista, flagrava indiscretamente todo o processo de elaboração de Sherman, se fantasiando de alguém, para ser enquadrada por sua própria câmera. Uma certa perversão, uma travessura lúdica, uma brincadeira levada muito a sério pela fotógrafa.
As imagens de Sherman não negam a sua competância de mostrar cenas, situações, flagrantes, instantes fugazes de uma coleção de personagens enigmáticos, estranhos, sedutores, ingênuos.
As fotos de Sherman são como uma antologia de tipos e caracteres de uma iconografia moderna que ao longo do século XX - o século das imagens - habitou nossa memória visual.
  Roberto Moreira S. Cruz    quarta-feira, novembro 22, 2006    2 comentários
 
 



"Hot Fuzz": Revelado novo pôster oficial


No vídeo de stand-up comedy "Notorious C.H.O.", a desbocada descendente de coreanos Margaret Cho confessa que gostaria de ser um homem gay e para afirmar sua posição, compara os anúncios pessoais heterossexuais com os homossexuais: enquanto os heterossexuais ficam num aborrecido "homem solteiro procura companheira para conversas, longas caminhadas na praia, preferência por não-fumantes...", os anúncios gays são do tipo: "quero! AGORA!"Pois bem: esse pôster eu quero. Agora.

Após transformar o universo dos filmes de zumbi com o genial "Shaun of the Dead", o time inglês de "Spaced" ataca "Bad Boys" e cia. numa sátira aos filmes de parceiros policiais. Aqui, os policiais britânicos interpretados por Simon Pegg e Nick Frost têm que lidar com a "violência moderada" de uma cidade pequena. "Hot Fuzz" será lançado na Inglaterra em 16 de fevereiro. Levando em conta o caso "Shaun", será lançado no Brasil em DVD meros meses depois. Ou, se a UIP levar em conta o sucesso que "Shaun" teve nas locadoras, quem sabe uma estréia em circuito comercial? Afinal, teve uma época em que a UIP lançava terror britânico nos cinemas daqui sem ficar dependendo do boca-a-boca norte-americano. O bem mediano, mas divertido "Jogo dos Espíritos" (Long Time Dead) teve uma carreira bem saudável no Brasil... quem sabe eles não se lembrem disso dessa vez?

Site oficial do filme (com videoblogs da produção)
  Bernardo Krivochein    terça-feira, novembro 21, 2006    0 comentários
 
 



"Midnight Meat Train": Ryuhei Kitamura dirigirá adaptação do conto de Clive Barker

Ryuhei Kitamura estava quase se transformando numa nova versão de John Woo: vários anúncios de projetos, pouca coisa concluída. O diretor japonês ganhou corações mundo afora com "Versus", "Azumi" e partiu o público bem no meio com a última investida de Godzilla nas telonas ("Godzilla: Final Wars" que foi exibido no Indie 2005 - só fui ver muito tempo depois e devo dizer que amei) tem ainda alguns filmes na valise a serem lançados ("LoveDeath"), mas está confirmadíssimo na direção de "Midnight Meat Train" (ou Trem de Carne da Meia-Noite, como foi traduzido por aqui), conto de Clive Barker ("Hellraiser") publicado nos "Livros de Sangue: Vol. 1" (Ed. Civilização Brasileira). A produção fica a cargo da Lakeshore Entertainment e marca a estréia de Kitamura nos EUA. O poster - legal pra cacete, não? - acima foi o método para influenciar investidores internacionais no último American Film Market.

O que é o que Kitamura vem procurando há muito tempo. Crítico ácido do cinema japonês, com o qual não concorda e não se identifica, Kitamura largou o colégio levantando a voz para a professora: "dane-se tudo isso! Eu vou ser diretor de cinema!", apenas para imediatamente se inscrever numa escola de cinema na Austrália. Retornou ao Japão e se transformou no diretor conhecido de hoje em dia. Na primeira temporada da série do réporter Johnathan Ross para a BBC sobre o cinema asiático, "Asian Invasion", podemos encontrar um Kitamura soltando os cachorros em cima de seus contemporâneos.

Ainda não li o conto de Barker (na realidade, li muito pouco Barker na vida), mas pretendo mudar isso. Fato é que não considero o primeiro "Hellraiser" nenhuma obra-prima e que envelheceu super mal. A melhor adaptação de uma história de Barker para mim continua sendo o super injustiçado "O Mistério de Candyman", de Bernard Ross - que puta filme. Aliás, que puta trilha sonora, já que estamos no assunto. "Midnight..." conta as peripécias de um fotógrafo investigando o "Açougueiro do Metrô". Me relembra o "Plataforma do Medo" que só eu gosto (tudo bem, gosto da seção intermediária do filme). O encontro do estilo híper kinético de Kitamura com as perversões de Barker vai dar caldo? A saber em 2008... só em 2008?!?
  Bernardo Krivochein    terça-feira, novembro 21, 2006    0 comentários
 
 



Miike! Tarantino! DJANGO!


O jornalista Don Brown publicou nessa segunda-feira no Japan Cinema News: começaram as filmagens do mais novo projeto de Takashi Miike. Após "Big Bang Love: Juvenile A", os dois volumes do yakuza gang flick "Waru" e ainda com a adaptação cinematográfica do jogo da Sega para PS2 "Yakuza" (para o qual ele fez os curtas disponíveis no site oficial do jogo) para fazer, Miike já deu o seu primeiro "ação!" em Sukiyaki Uesta: Django. Tradução: Faroeste Sukiyaki: Django. É um remake daquele clássico italiano de 1966, dirigido por Sergio Corbucci? Pode apostar.


Mais ainda: o filme será falado todo em inglês. A trama se passa nos anos 1100, narrando as batalhas entre os clãs Minamoto e Taira. O elenco, que inclui Hideaki Ito (The Princess Blade), Koichi Sato (When The Last Sword Is Drwan, Aegis), Yoshino Kimura (Ashura, a Deusa de não sei o quê), Kaori Momoi (Izo, Memórias de uma Gueixa), Yusuke Iseya (CASSHERN!!!!) e Masanobu Ando (Battle Royale e o inusitado Synesthesia), passou por um intensivo de dois meses para aprender a falar inglês.

Ainda mais ainda: Quentin Tarantino confirmou presença num pequeno papel. Ele atravessará as lentes de Miike no papel de Ringo. Puta que pariu. Agora, se Miike pudesse fazer Ringo comer o pão que o diabo amassou nas mãos de uma japonesa que o enfiasse agulhas pelos vasos lacrimais... Tá, chega de tanto sonho.Ficou feliz? Eu fiquei.
  Bernardo Krivochein    segunda-feira, novembro 20, 2006    0 comentários
 
 


8 Films To Die For: Mostra de Filmes de Terror Surpreende nas Bilheterias Americanas

Quando saíram os resultados das bilheterias americanas nesse fim de semana (17 a 19/11), o mais surpreendente não foi o vigor com que "Cassino Royale" estreou (será que eu sou o único que acha o Daniel Craig feio feito o capeta?) ou como ainda existe espaço para mais um filme de bichinhos animados em CGI (será que eu sou o único que acha que filmes infantis deviam ser proibidos para adultos desacompanhados de crianças?). Na realidade, vou fazer um corte e cola da BoxOfficeMojo.com para que você analise os fatos por si só:

1 Happy Feet $42,320,000

2 Casino Royale $40,600,000

3 Borat $14,350,000

4 Santa Clause 3 $8,218,000

5 Flushed Away $6,812,000

6 Stranger Than Fiction $6,600,000

7 Babel $2,902,000

8 Saw III $2,800,000

9 The Departed $2,605,000

10 8 Films to Die For em> $2,482,000

Agora, que raio de título é esse no décimo lugar? "8 Films To Die For" é um projeto da produtora After Dark. Durante esse único fim de semana, em partes selecionadas dos EUA, 8 filmes considerados "muito assustadores e chocantes para serem exibidos na América" foram agrupados e exibidos. Na realidade, são todos filmes de terror independentes e/ou internacionais que, sozinhos ,não teriam chance de encontrar facilmente um circuito exibidor ou um público mais amplo. Pelos números, a estratégia deu bastante certo e o evento já está confirmado para uma nova edição em 2007.

Tão curiosa quanto a iniciativa, claro, são os filmes escolhidos. Longe de serem apenas um bando de ofertas baratas feitas para vídeo, os títulos em "8 Films..." foram escolhidos a dedo, sob a perspectiva de cultistas do cinema de terror e fantástico. Abaixo, estudaremos brevemente a programação do projeto.

DARK RIDE:Não me interessei não. Quer dizer, quantas versões mais de "Carnival of Souls" deve um homem fazer e assistir para ser chamado de homem? Nesse longa de Craig Singer, um assassino serial foge do manicômio e retorna para o lugar onde executou suas vítimas: um trem fantasma num parque qualquer aí. (voz enfadonha e monocórdica) Aí, um grupo de universitários viajando pelos EUA descobre esse parque abandonado e vão desaparecendo um a um - a noite mais terrível de suas vidas... Caralho, o roteiro deve ter se escrito sozinho.

THE ABANDONED: Se Deus for pai, vou poder dizer que este será exibido no Indie 2007. Porra, dirigido por Nacho Cerda ("Aftermath") e roteirizado por Richard Stanley ("HAAAARRRDWAARRREE"!!!), "The Abandoned" me tem agüando. Marie viaja até um casebre abandonado na Rússia para descobrir mais sobre sua mãe. Uma vez na habitação, o passado começa a se corporalizar e um sinistro segredo de família vem à tona. Já está passando? Eu fiz uma pergunta: já está passando?!?

WICKED LITTLE THINGS: Dirigido por J.S. Cardone ("Vampiros do Deserto"... taí um filme bem ruim, mas que tem um pouco de senso de estilo. O começo, com a garota do Lost limpando o sangue de seu corpo debaixo da ducha? Estilo.) Uma família visita a casa nas montanhas que herdaram do patriarca falecido. A casa fica perto de uma velha mina abandonada, onde várias crianças foram enterradas vivas. Eles têm um ótimo feriado, se divertem horrores e reforçam seus laços. Agora, eles estão usando o mesmo artwork que adotaram para empurrar o filme de zumbi do Tobe Hopper na AFM de 2005?

SNOOP DOGG'S HOOD OF HORROR:Antologia de horror hip-hop (o CD doR. Kelly?) em três episódios com direito a mudernezas a rodo, seqüências em anime, bastante nádegas e fumaça de erva na boca do Snoop Dogg. Slasherpool (quem?) chamou-o de o melhor filme de terror urbano já visto. Obviamente eles não assistiram "Leprechaun Back 2 Tha Hood", não só o melhor filme de terror urbano, mas o melhor filme ponto final. A única coisa "fo shizzle, my nizzle" em "Hood of Horror" é que o filme deve literlamente ser "the shit".

"8 Films To Die For" ainda tem um sneak-preview em sua programação: o terror "The Tripper", estréia na direção pelo semi-retardado David Arquette. Um grupo de vítimas em potencial se mete na floresta pra fumar e lamber cartela durante um fim de smeana. São devidamente eliminados por um fanático por Ronald Reagan. Para mim não, obrigado. Estou satisfeito.Os filmes puderam ser assistidos em seqüência ou individualmente. Iniciativa bacana que remete às sessões-duplas nos cinemas de antigamente (e que melhor gênero para tal do que o terror?) só resta imaginar quando veremos algo semelhante, senão melhor, por aqui. É, nunca mesmo.

Site oficial
"After Dark's 8 Films To Die For"
  Bernardo Krivochein    segunda-feira, novembro 20, 2006    5 comentários
 
 


Ferramentas perigosas

Cheguei ao trabalho hoje às 9 como o de costume, destranquei as 4 tetra-chaves, desarmei o alarme, subi as escadas, abri as janelas e liguei o computador. Inesperadamente uma janela do Messenger pulou na frente de tudo dizendo: “Ouvindo CSS, hein?”

A mensagem era do colega de blog Daniel Poeira que, pelo que facilmente concluí, andou vigiando minhas audições através do Last.fm.

Conversa vai, conversa vem, a começamos a imaginar como seria legal se existisse um last.fm de filmes. Seria possível saber todas as tosqueiras que as pessoas assistem em casa, mas que ninguém fica sabendo. Podemos imaginar a conversa entre dois críticos de cinema mais ou menos assim:

A: _ Assistindo “O diabo veste Prada” né?
B: _ Ahn? Imagina... era a minha sobrinha que veio passar o fim de semana aqui em casa.
A: _ Mas você já tem ele em casa? Nem saiu na locadora.
B: _ É... eu baixei pra minha sobrinha, a conexão aqui em casa é muito rápida né, porque afinal, preciso baixar uns 5 filmes por dia.
A: _ Sei...
(pausa)

A: _ Eu vi o trailer outro dia. Cada roupa feia!
B: _ Você que não entende nada de roupa. Não tem como falar que o vestido Galliano que a Andy usa na festa da Runaway é feio.
A: _ Ah... eu sabia!
B: _ Não, não! Foi minha sobrinha que escreveu isso! Juro.

Pensando bem, melhor deixar o Last.fm de filmes pra lá.
  Bel Furtado    segunda-feira, novembro 20, 2006    0 comentários
 
 


Matar a mãe ou ser morto por ela?

Logo na entrada da exposição "Primeira Pessoa" (São Paulo, Itáu Cultural) nos deparamos com as 2500 fotografias que Emil Forman fez, e outras colecionou, organizou, decifrou, sobre sua mãe. Diante daquele gigantesco álbum de retratos exposto na parede numa ordem repetidamente obsessiva, diante daquele mulher, mãe do artista vista e revista em todas as idades e em todas as situações de sua família e de sua vida, fiquei pálida.

Todo o tempo do meu olhar, eu pensava como Forman suportou este exercício de organizar sua obsessão. Como suportou ver e rever e recuperar a imagem dela, aquela que foi o seu primeiro olhar especular no mundo (como dizia Lacan), o primeiro olhar onde me vejo como um outro? Onde Forman realmente colocou sua especularização? Seu reflexo nos olhos da sua mãe, a nós (in) visíveis, no entanto, estaria lá, arrancado com suas lentes fotográficas e quando não suas, as do pai, do avó, quiçá.

Por instantes pensei: será que ela nunca se recusou a se deixar fotografar? Qual tipo de exibição se dispunha? A de mulher do Sr. Forman, a de mãe dedicada e junto aos filhos sempre tão cheia de compostura, a de filha sempre elegante, a de mulher incrivelmente moderna e rica que esquia, cavalga, viaja, num "mise en scène" da felicidade, do sorriso bem comportado, do cabelo bem penteado pelo artifício social? Mas de um item não listado mas reconhecido ao longe... o de uma certa fantasia exibicionista, "aquilo que sou, aos olhos de quem vê".

Emil Forman levanta muitas suspeitas ao revelar ( literalmente assim) o seu amor. E levando a fundo a sua obsessão ( imagino que não deva ter sentado no divã jamais, caso contrário não teríamos talvez a coisa toda em si) constrói uma obra quase "pornográfica", numa hiper-exposição de sua intimidade, enquanto filho que projeta a necessidade do jogo de ceder/não ceder a loucura.

Fiquei sabendo mais sobre ele. Emil Forman nasceu no Rio de Janeiro, em 6 de janeiro de 1954 e faleceu na Pensilvânia, Estados Unidos, em 1° de outubro de 1983. Suicidou-se. "Autor de obra singular dentro da produção brasileira na década de 1970, foi um crítico mordaz, às vezes cruel e iconoclasta do gênero humano, de sua própria classe social e da hipocrisia das instituições, mantendo, entretanto, uma certa delicadeza pelo desamparo do homem frente a todas as suas contradições."

A exposição "Primeira Pessoa" tem obras impactantes e uma montagem muito sofisticada, vale a pena uma visita.
(Francesca Azzi)
  INDIE    domingo, novembro 19, 2006    0 comentários
 
 


Dos Engraçados

Um ponto em comum dos “filmes mais engraçados de todos os tempos” é que além dos roteiros serem magníficos, eram personificados por atores merecedores deste (sempre escritos ou co-escritos por eles mesmos). Os grandes nomes das comédias do século 20 tem rosto: Keaton, Chaplin, Groucho, Chico, Harpo, Sellers, Cleese, Eric Idle, Graham Chapman, Woody Allen, entre poucos outros. Todos com uma capacidade absurda de improvisar e combinando perfeitamente gestos (contidos ou exagerados) com o texto.

Por isso, a minha felicidade é chegar no cinema do barango Botafogo Praia Shopping e ver um poster de Borat: Cultural Learnings of America For Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan - O longa metragem do melhor personagem de Sacha Baron Cohen.

A primeira vez que tive contato com Borat eu estava trabalhando e ouvindo uma mistura de entrevistas completamente nonsense e gargalhadas guturais quando resolvi conferir do que se tratava. Duas semanas depois de receber a notícia que ia se mudar para o Cazaquistão, meu pai ganhara de presente um DVD com a primeira temporada completa do ALI G – e lá estava meu tão sério pai, passando mal de tanto rir com a figurinha “oh tão soviética” chamada Borat.

Assim como os “semi-deuses” citados no começo do post, Borat improvisa, dança e canta, mas mais importante, brinca com algo que parece ter que ser lembrado a nós em todos os momentos de nossas vidas: a vida é a melhor piada do mundo, e quem a leva a sério acaba virando protagonista.
  Pedro Meyer    sábado, novembro 18, 2006    1 comentários
 
 


A Trilogia Secreta



Outro dia eu estava assistindo a "Os 12 Macacos", do Terry Gilliam, um ótimo filme que eu não via há muito tempo. Eu não lembrava, por exemplo, que tinha uma cena onde o Bruce Willis se esconde em um cinema para tratar de um ferimento (aliás tem algum filme do Bruce Willis onde não tenha uma cena onde ele trata de um ferimento?). O filme que está passando no cinema é "Vertigo", de Alfred Hitchcock. Aparece uma cena relativamente comprida, com falas e tudo mais. Bruce Willis diz: "Eu me lembro desse filme, eu vi quando era criança". Estranho aparecer um outro filme dentro do filme, por tanto tempo, e o personagem principal ainda falar nele...

Enquanto isso, no universo paralelo, eu estou baixando da internet todos os filmes do cineasta francês Chris Marker que eu encontro pela frente. Inclusive um tal de "La Jetée", curta cultuado de ficção-científica com uma estória muito peculiar: em um futuro distante, a Humanidade envia de volta ao passado um homem que deve tentar impedir a guerra nuclear que dizimou o planeta. Um homem que tem lembranças de infância que podem lhe ajudar...

Mas espera aí, por acaso não é essa a estória de "Os 12 Macacos"? É sim. Aliás no iMDB tá escrito que é um remake, e o Chris Marker - documentarista experimental que não costuma aparecer na mesma camada de realidade que o Bruce Willis - é citado como um dos roteiristas por ter escrito a história original.

Bom... se "Os 12 Macacos" é um remake de "La Jetée"... o que é que o "Vertigo" está fazendo lá?

É muito simples, meus amigos: "La Jetée" foi inspirado por "Vertigo". Não necessariamente pelo filme inteiro, mas por uma cena muito específica - aquela mesma que o Terry Gilliam colocou o Bruce Willis para assistir no cinema.

E eu fico me perguntando: como é que as pessoas estudavam cinema antes de existir o iMDB? Que horror.

Mais um mistério desvendado, posso voltar para minha tumba. Boa noite.
  Daniel Werneck    sexta-feira, novembro 17, 2006    2 comentários
 
 


A casa, o falafel, o lar

Debruçada sobre meu livro de receitas árabes, resolvi definitivamente descobrir o segredo do falafel. Para quem não sabe o falafel é um bolinho feito de grão de bico, temperado com especiarias (coentro, canela, pimenta, cominho, salsinha etc) e depois frito se come dentro de um pão árabe ( pita bread) com tomates, pepinos picados, iogurte ou coalhada. O falafel é mesmo o símbolo do mundo árabe e todos querem chamar a descoberta para si. Os israelenses acham que o falafel é seu snackfood preferido, os palestinos, os libaneses, os sírios todos consideram o falafel um prato nacional, só que segundo Salah Jamal, autor do meu livro de receitas árabes, a origem do falafel veio do Iêmen. Os iemenitas imigraram, assim como todo o mundo árabe, em função do petróleo do Golfo e montavam pontos de falafel pra todo lado. Quando retornavam todos levavam esta sabedoria para seus países.

Na verdade, vou descobrir se a receita de Jamal é boa, e depois que eu e minha adorada cozinheira baiana acertarmos a mão ( ela diz que é o acarajé dos arábes), eu passo a receita pra vocês. Mas é que lendo sobre o falafel e toda esta questão territorial sobre seus preceitos ( fico lembrando de meu amigo judeu Samy que sempre enchia a boca pra falar do falafel, e que eu sempre encontro comendo comida árabe e que é casado com Isabella, uma descendente de libanês), lembrei-me do filme do Amos Gitai " Notícias do Lar / Notícias de Casa" (News From Home / News From House).

Apesar da minha porção libanesa correr no sangue assim meio sem sentido ( afinal não convivi diretamente com nada do país dos meus avós, a não ser com meu pai), admiro Amos Gitai pela sua capacidade crítica de se deslocar de sua existência judaico-israelense para dialogar com palestinos e com as contradições que envolve a Terra Prometida e seus arredores.

Seu filme trata da questão da casa. Uma espécie de micropolítica. Esta casa é palestina e foi abandonada durante a guerra de 48 e retomada pelo estado de Israel, depois vendida... para uma família de judens-turcos. (Por um instante... fico imaginando como seria a casa no Líbano de meus avós, nos anos da primeira guerra mundial, abandonada em retirada por eles, para imigrar para um país longínquo e perdendo assim toda referência de lar.)

Agora imagine você aí na sua casa, seu pai e sua mãe, seus sobrinhos correndo no quintal, os vizinhos, a rua, e toda a sua família mais ou menos próxima. Imagine agora que uma guerra tome sua casa e você tenha que sair, que ali vire outro país, com outro nome e outro governo e que você perca sua casa para o Estado ( aquela casa que você demorou a vida do seu pai para pagar, para construir) e depois sua casa seja vendida a outra família ( que irá construir outra história ali e que não tem nenhuma culpa da guerra em si). Imagine que você e sua família por causa disto tenha se espalhado pelo mundo, ou que você viva alí no muro ao lado mas não possa nunca mais pisar na sua casa.

Assim é "Notícias do Lar / Notícias de Casa" (News From Home / News From House) de Amos Gitai. Forçosamente "abandonada pelos proprietários palestinos na guerra de 1948, desapropriada pelo governo israelense, alugada por imigrantes judeus argelinos em 1956 e comprada por um professor universitário que tomou para si a transformação das três casas históricas em 1980: a casa a oeste de Jerusalém funciona novamente como um microcosmo, como há 25 anos."

Amos fez 3 filmes a partir desta casa, e no último "Notícias do Lar / Notícias de Casa" mostra como a partir do conflito palestino/israelense ocorreu uma diáspora e toda a família que se formava na casa e em seus arredores se dissipou pelo mundo afora. Cada um para um lado.

O território palestino da casa que agora é Israel traz em si esta história tão complexa e quase velada que Amos Gitai tem coragem de abrir a público. Seu filme, mais um relato do que um documentário, mais um ensaio do que um filme é em primeira pessoa. A lição de Gitai ecoa, sua sabedoria é fazer falar tantas vozes, caladas pela história de um conflito sem fim.

O conflito se dissolve, e se faz tão sem sentido como esta vontade incontrolável a todos de comer falafel, nesta verdade de que a experiência dos siginificados de casa/lar/país/lugar é a mesma para palestinos ou israelenses.

(Francesca Azzi)
  INDIE    quarta-feira, novembro 15, 2006    3 comentários
 
 


Muitos conceitos para o filme no Fluxus



O Fluxus 2006 (Festival Internacional de Cinema na Internet) encerrou as inscrições na última sexta-feira. Foram inscritos mais de 470 trabalhos audiovisuais de curta duração de diversos países. Agora começa o processo de seleção e o novo site com os filmes da competição tem previsão para entrar no ar no dia 19 de dezembro.

O Fluxus é o único festival exclusivamente on-line no Brasil. Começou em 2000, quando ainda não existia banda larga, nem YouTube, nem Google video, e mesmo hoje cumpre um papel diferente destes mega-buscadores e servidores que é o de colocar junto mídias distintas ( todos os formatos possíveis digitalizados) mas trabalhos com aspectos essencialmente experimentais e estéticos.

Este o ano, apesar de todo o boom dos aparelhos celulares com câmeras de vídeo com boa qualidade e das operadoras estarem interessadas em explorar e estimular um nicho de consumidores que podem produzir microfilmes com seus próprios celulares, o Fluxus não conseguiu patrocinador. Falta de estratégia? Pode ser que sim. Mas dar continüidade a este projeto se transformou em nossas mentes mais do que um desafio, um prazer enorme. Sim, é possível fazer projetos porque temos prazer e acreditar neles, mesmo que não possa, às vezes, viabilizá-los financeiramente.

A verdade é que o Fluxus 2006, apesar de ter criado uma categoria para filmes produzidos para celular (Cinemobile, com o tema Intimidade) e já desde 2005 exibir filmes feitos com celulares ( no programa Futur_0, que vc pode assistir no site de 2005), não tem como objetivo explorar apenas esta categoria de produção audiovisual.

O Fluxus é um festival on-line que acredita no espaço web como um lugar de exibição e troca e, conseqüentemente como lugar de estímulo a criação de novas ferramentas para o filme experimental. Sendo assim, a câmera dos celulares é apenas mais uma ferramenta de produção de imagens ( não é uma linguagem em si) e tanto quanto uma câmera digital ou super 8 pode gerar sim, a possibilidade de um filme, de um projeto e de uma pesquisa. Tanto quanto um software, como o Flash da Macromedia, pode criar um filme de animação.

Muitas perguntas que nos fazíamos lá em 2000, quando começou o filme na web, estão sendo feitas hoje por quem quer produzir para celulares, ou nos inúmeros pequenos eventos sobre o tema. Mas realmente interessa a capacidade de se criar um mundo audiovisual, as ferramentas estão aí e você pode usar uma ínfima imagem captada no seu celular para inserir esta imagem no seu curta de 35mm, ou converter suas imagens em super 8 em imagens digitais, colorizadas ou animadas por um software de última geração. Ou criar um projeto todo de imagens captadas apenas no celular que serão exibidas na web. Esta é a verdade: as mídias se entrecruzam, e esta mistura de mídias, suportes, mensagens e possibilidade tecnológicas e criativas é que interessa ao Fluxus.

O importante para um festival como o Fluxus é estimular o uso, a participação, a inserção de tecnologias ainda pouco exploradas na participação da web e principalmente na apresentação e promoção de novos modelos de filme.

Isto é o mais importante para o Fluxus: dizer a todos que o cinema é possível em muitos formatos e que talvez estar sintonizado com o cinema seja acreditar nas constantes mutações tecnológicas e não deixar de interagir com as novas tecnologias. Acreditando que o filme é tudo aquilo que se constrói a partir de uma idéia em imagens e som. E as experiências estão aí, pra todo mundo ver, on-line, on demand, livre e gratuitamente como deve ser a Internet.

Acompanhe o Fluxus, a partir de dezembro, votando no melhor filme, enviando filmes e comentários pra seus amigos. Depois o Fluxus segue sua itinerância em festivais pelo mundo e no Brasil.

** Foto da animação abstrata _grau do alemão Robert Seidel que ganhou o melhor filme na categoria escolha da audiência no Fluxus 2005.

(Francesca Azzi)
  INDIE    terça-feira, novembro 14, 2006    1 comentários
 
 



Como curar a ressaca com a Cher


Se você está pensando que eu saí ontem a noite, fui numa festa de quinta categoria, me esbaldei (que palavra mais antiga!) escutando "Do you believe in life after love", que hoje estou usando pantufas de jaca, vou tomar água o dia inteiro e vou me vingar alfinetando a boneca Vudu da Cher (qualquer boneca de pano serve)... enganou-se completamente. Na verdade eu apenas vou descrever uma receita da Cher perfeita para aquelas manhãs com cheiro de patifaria no ar, amnésia total, uma sobra de álcool na corrente sanguínea e uma levíssima hipoglicemia.

A receita vem daquele filme “Feitiço da Lua” onde a Cher troca Danny Aiello por Nicolas Cage. Não sei se foi bom negócio, coitada, mas também pra quem já foi casada com Bono, que tem nome de primo de palhaço escocês, tudo é muito válido... sério... estou sendo sincero... juro! Bom, mas vamos a receita. Pegue um pão italiano (complicou né? Ninguém tem pão italiano impunemente em casa, tudo bem, compre antes de sair pra piromba). Corte uma fatia grossa de pão italiano (2 cm de espessura), retire um pouco do miolo do meio do pão. coloque manteiga na frigideira (tenho mesmo que ver o nível do meu colesterol), coloque o pão para fritar, quebre um ovo (esta é a parte mais difícil da receita), coloque o ovo no meio do pão furado, tempere com sal e pimenta do reino (importantíssimo, lembra da pimenta no Bloody Mary? Pois é!). Frite o pão dos dois lados. O ovo pode ficar duro ou mole, mas o acompanhamento tem que ser uma caneca de café forte quentíssimo.

O nome da receita é Moonstruck, porque sinceramente eu acho que combina mais do que Pão ao Feitiço da Lua pra tomar com um café de Elfas... Ah, não se esqueça: a frigideira tem que ser de Tefal, afinal se a dor de cabeça não passar, vai piorar tentando tirar craca de ovo de panela velha.

  Eduardo Cerqueira    segunda-feira, novembro 13, 2006    3 comentários
 
 




"Linda Linda Linda" de Yobuhiro Namashita e "Glue" de Aléxis dos Santos no XIV Festival Mix Brasil

referência: Kaiju Shakedown

Se você sobreviver ao deboche de alguns títulos do catálogo, tais quais "Secando o Bofe", "Eu sou Boy" e "Basfond à la Turca", a programação do XIV Mix Brasil traz algumas gratas surpresas.

O festival intinerante (9/11 a 19/11 em SP, 21/11 a 3/12 no Rio e 30/11 a 10/12 em Brasília) nessa edição pescou um peixão: "Linda Linda Linda" de Yobuhiro Namashita, uma febre no último New York Asian Film Festival, no Hawaii Int'l Film Festival, em Melbourne, em Seatlle, enfim, no mundo inteiro. A fita, que também participou do Festival do Filme Gay e Lésbico (pode ser os dois ao mesmo tempo?!?) de Londres, segue as desventuras de um grupo de estudantes japonesas que formam uma banda de rock para participar de um festival. Sem vocalista, elas recrutam uma outra estudante. Tudo estaria perfeito, caso ela não fosse coreana (Bae Du-na, a mesma atriz de "The Host") e não soubesse uma palavra em japonês.

Este é o filme de maior sucesso de Yobuhiro Namashita, diretor cujos trabalhos de menor orçamento chamaram a atenção da crítica por onde passaram. No último Indie 2006, ele teve seu filme anterior, "Cream Lemon" exibido na mostra Japão Cult. Não acredite em mim quando digo que "Linda Linda Linda" é bom. Acredite, por exemplo, no New York Times (o filme está sendo exibido nos EUA em circuito limitado antes do lançamento em DVD pela VIZ Video):

"Se um filme sobre estudantes japonesas guitarristas não estiver na sua lista de tarefas para esse fim de semana, você poderá estar perdendo um dos maiores prazeres inesperados do ano."

Ou acredite na Time Out New York:

"A ode saudosista de Nobuhiro Yamashita às colegiais, garage rock e o odor do espírito adolescente (NT: precisa de NT?) tem o efeito de uma onda de endorfina mesmo quando emprega uma atitude nonchalant e um ritmo deliberado... imagine engolir toda a obra de Jarmusch junto com seis latas de Jolt... Narcóticos Pop simplesmente não são mais puros do que isso."

Outro título digno de atenção é o agraciado com o Fundo Hubert Bals e estreado no Festival de Rotterdam no começo de 2006, "Glue (Historia Adolescente en Medio de la Nada)" do argentino radicado no UK Aléxis dos Santos. Estou ansioso desde o começo do ano para assisti-lo, mas imaginava que não teria a oportunidade.

Numa cidade no meio do deserto da Patagônia, três adolescentes com os hormônios enfurecidos experimentam a iniciação sexual, drogas e afins em grupo. E Violent Femmes na trilha, também. Filmado em DV, "Glue" tinha apenas 17 páginas de roteiro quando foi filmado. Dos Santos realizou um workshop experimental com os jovens atores - ao que parece, estão muito bem no filme - e a partir disso, tentou capturar o espírito dos conflitos de quando se está crescendo. "Glue" é também destaque segundo os programadores do próprio Mix Brasil.
  Bernardo Krivochein    sexta-feira, novembro 10, 2006    5 comentários
 
 


As meninas-mulheres-bonecas da artista japonesa Takako Ikehata




Takako Ikehata é uma garota japonesa que depois de participar de uma banda de música eletrônica (Mr. Negative) em Nova York, gravar vários singles, e participar de uma turnê pela Europa, voltou ao Japão e começou a pintar.

Em suas telas, mulheres, multi-coloridas, bonequinhas?, japonesas, ocidentais, um mundo extritamente vibrante, menos otaku? Será? Um pouco maníaco sim, mas com certeza menos submisso. Observando as pinturas de Takako, pensei sobre a condição da mulher japonesa, ainda culturalmente submetida a uma posição inferior ao homem. A mulher japonesa tem que andar um passo atrás dos homens (literalmente) mesmo que os dois compartilhem a mesma posição profissional.

Como será a cabeça de uma jovem japonesa que sai de seu país e depois retorna? Ela será uma estrangeira, inadequada ao homem japonês, as regras de uma sociedade muito tradicionalista? No filme de Masahiro Kobayashi, "Humilhação", é assim - uma garota japonesa, que retorna do Iraque onde foi prestar serviços humanitários e virou refém, é rechaçada por toda a sociedade ao retornar a sua cidade, sofrendo um calvário, porque os japoneses a consideram uma traidora.

O mundo de Takako é tão contemporâneo que não parece caber tal conflito. Como podemos entender melhor este mundo da jovem mulher nipônica sem um olhar cheio de preconceito? Não sei. Continuo olhando as mulheres de Takako Ikehata e acreditando que sou eu e meu mundo que é prá lá de medíocre. Veja mais com seus próprios olhos clicando aqui





(Francesca Azzi)
  INDIE    quinta-feira, novembro 09, 2006    4 comentários
 
 



Há um trecho no começo de "Sans Soleil" onde a narradora diz, parafraseando o interlocutor misterioso do diretor: "já viajei pelo mundo inteiro, agora somente a banalidade me atrai". É uma confissão de quem já viu de tudo, e passou daquela fase de descobertas que toda criança tem, que se reflete na adolescência na forma de uma inexplicável vontade de conhecer o mundo, viajar, ir pro Maranhão, pro kibutz em Isarel, fazer intercâmbio no Canadá, mestrado na Espanha, etc. O narrador misterioso do filme de Marker fez isso tudo, voltou para casa, e agora só acha graça nas coisas simples da vida.

Quem vê filme demais tende a se sentir assim. Depois que você já viu de tudo, foi em todas as edições do Indie, assistiu a filmes de países que você nem lembrava que existiam, presenciou as mortes mais horríveis, as paixões mais enfurecidas, as piadas mais engraçadas - depois disso tudo chega uma hora que você fica meio inerte, insensível, sem graça da vida. As revistas de cinema ficam chatas, os filmes novos perdem a força, você começa a lembrar que existem outras coisas no mundo além de cinema, como literatura, música, observação de pássaros, coleção de selos, bonsai, histórias em quadrinhos e dança de salão. Milhares de horas de filmes se tornam uma bagagem muito pesada para você carregar sozinho, e você começa a largar algumas coisas para trás.

Se você tiver sorte, pode acontecer o mesmo que se passou com nosso amigo que viajou o mundo inteiro. Depois de ver todos os filmes do mundo, você começa a apreciar os filmes simples com outro olhar. Você consegue retomar - com muita luta!! - o seu olhar inocente de mero espectador, mas sem se esquecer da sua experiência como cinéfilo profissional. Você consegue rir dos filmes antigos dos Trapalhões, ficar com medo do Zé do Caixão, e chorar vendo "Ladrões de Bicicleta" pela milionésima vez - muito embora você não tenha chorado das outras 999.999 vezes. Você assiste Cidadão Kane e, ao invés de reparar no teto do cenário ou nos matte paintings, você se pega pensando... "pobre homem, no fundo ele só queria mesmo era brincar de trenó."

Enquanto seus amigos do boteco ainda estão discutindo a genialidade de Lars Von Trier e a nova linguagem do cinema digital, você fica olhando para a rua com um olhar distante, pensando nas coxas da Giullietta Masina ou nos filminhos de mistério do Mario Bava. Seus amigos se despedem, vão logo para casa porque precisam acordar cedo para trabalhar na repartição. Dizem que vão passar na sua casa para pegar emprestado aquele livro do Deleuze sobre linguagem cinematográfica pós-estruturalista. Você sorri e dá as costas, vai embora sozinho, andando pela rua, com medo de lobisomem.
  Daniel Werneck    quarta-feira, novembro 08, 2006    2 comentários
 
 


Olhe e reflita (sem censura) sobre os desenhos do artista Gil Vicente








Auto-retratos da série "Inimigos". Conheça mais sobre Gil Vicente no seu site. O artista pernambucano vai estar na big exposição "Primeira Pessoa" que acontece a partir do dia 10/11 no Itaú Cultural em São Paulo.

Saiba mais.



(Francesca Azzi)
  INDIE    terça-feira, novembro 07, 2006    2 comentários
 
 


Prateleira - Edição de 6/11

Com o lançamento de "Os Infiltrados", pode contar que vão tirar a poeira do DVD de "Conflitos Internos" (Infernal Affairs) na sua locadora. Mas existem muitas outras opções de filmes asiáticos que foram parar diretamente nas prateleiras de locadoras brasileiras. Se por um lado é triste não ver os títulos nem terem uma chance de criar um nicho nas salas de cinema, por outro é reconfortante que tais filmes estejam disponíveis por aqui e em tamanha quantidade e freqüência - que, noutro caso, o espectador brasileiro sem banda larga jamais teria a chance de conhecê-los. Claro, temos filmes como o fabuloso "Shutter", "Assombração" e "Almas Reencarnadas" (prometo um texto mais específico sobre pelo menos esse último, quer você queira ou não) que foram agraciados com a chance de preencher as telonas, mas me concentrarei nos lançados diretamente em DVD e que passaram mais desapercebidos ("A Tale of Two Sisters" reencontrou uma merecida fama em DVD por aqui, então não o abordarei). Tem coisa boa pra caralho.

MORRA... OU DIGA SIM (Say Yes/Sae-yi yaesu, Coréia do Sul, 2001 - Europa DVD) Fiquei muito feliz ao ver esse título lançado - com cinco anos de atraso, é verdade, mas... "Say Yes" é uma versão coreana de "A Morte Pede Carona" - e o remake americano do filme de Robert Harmon (mais importante, roteirizado por Eric Red) substitui a dinâmica macho/psicopata por casal/psicopata, como é o caso aqui: um casal decide tirar uns dias de férias para celebrar a publicação do manuscrito do macho da relação. No caminho, eles dão carona a um homem que tem cara de problema - como se percebe na jaqueta do DVD. Se terror psicológico é sua diversão, o casal em questão está mais disposto a trocar de lugar com você.

O filme é tenso, tenso, tenso e surpreende pela grandiloqüência, a princípio americanizada, como era a ordem em Chungmuro naquela época. Uns setpieces enormes, envolvendo caminhões e violência gratuita contra cabanas. Mas se prepare para o verdadeiro e espetacular banho de sangue que o aguarda no final - é um dos maiores que eu já vi.

ARAHAN (Arahan jangpung daejakjeong, Coréia do Sul, 2004 - Europa Filmes) Um dos mestres da arte marcial mírtica do jangpung reclama logo no início do filme: "hoje em dia, eu só levito para trocar a lâmpada!" Isso marca o tom do humor do filme de Ryoo Seung-wan (dirigiu o atual "The City of Violence"), em que Sang-hwan (Ryu Seung-beon, novo talento do cinema coreano, é a contraparte de Min-sik Choi no tocante "Crying Fist"), um policial desastrado, flagra uma moçoila voando magicamente sobre os prédios após um roubo. Ele acaba sendo recrutado por um dos mestres a aprender (desastradamente) a arte marcial e finalmente combater um demônio em busca de uma espada sagrada.

Os efeitos especiais são meio cafonas, mas o filme é leve, divertido, espirituoso. No mínimo, vale para se familiarizar com o elenco estelar.

AZUMI/ AZUMI 2 (Japão, 2004/2005 - Europa Filmes) Há uma crítica extensa sobre o primeiro "Azumi" no site, mas nunca é demais falar da Aya Ueto. Dirigido por Ryuhei Kitamura, "Azumi" é uma vibrante, embora bem modesta, distorção no gênero dos filmes de samurai. Honestamente, o filme diminuiu para mim com o tempo - e é longo demais para revisitar com mais freqüência. Ainda não assisti a continuação, que dizem ser mais fraca, mas logo terei essa oportunidade

DEATH TRANCE - O SAMURAI DO APOCALIPSE (Death Trance, Japão/EUA, 2005 - Paris Filmes) Produzido pela distribuidora americana Media Blasters, "Death Trance" sabe muito bem o que almeja: um rip-off de "Versus" de Ryuhei Kitamura. Funciona. O filme é elétrico, alucinado, retardado, deliciosamente vápido e as brigas são inspiradas para cacete (o filme é dirigido pelo coreógrafo das lutas de "Versus"). As batalhas no Japão Feudal são invadidas de súbito por motocicletas, metralhadoras, o caralho a quatro enquanto o Zé do Caixão Samurai arrasta o dito cujo floresta adentro. Barato, modesto, mas que faz o máximo dos recursos que dispõe. Como Tak Sakaguchi não é um astro de grandeza maior ainda, foge qualquer explicação. Não liga não; pra mim, Sakaguchi, você é.

SHINOBI (Shinobi - Heart Under Blade, 2005 - Paris Filmes) Já entrei numa discussão acalorada via Internet por causa desse filme, um dos maiores sucessos no Japão ano passado, mas que não me impressionou nem um pouco. Adaptação de mangá, é basicamente uma versão de "Romeu & Julieta" misturada com "X-Men" e elementos de "Os sete samurais" que na verdade quer ser uma variação nipônica desses wuxia pian revisitados por Zhang Yimou e Chen Kaige (putz, tenho que alertá-los sobre "A Promessa"...). Com um detalhe grave: os efeitos especiais são tristes. Não é um filme ruim, é bem capaz das pessoas gostarem mais do que eu e talvez eu tenha sido muito exigente, mas firmo minha posição - a história não funcionou para mim, toda a questão "olha como é bela a gota da chuva espatifando-se no lago e o pano da manga voando com o golpe da espadada", que já é delicada para os chineses, fica ainda mais "bibelô de 5 reais" com os japoneses. E as lutas são chinfrim. Vale pela gente bonita: Jô Odagiri e Yuki Nakama (tee hee... Na-Kama). Agora: o que que custava fazer uma adaptação de "Shinobi", o jogo do Mega Drive? Ia ser do caralho.

ASHURA - A RAINHA DOS DEMÔNIOS
(Ashura-jô no hitomi, Japão, 2005 - Paris Filmes) Talvez insuportável para o espectador alheio, mas irresistível para fãs de nippon eiga, "Ashura" é uma peça que tenta, na versão cinematográfica, absorver a atmosfera do teatro kabuki. Os Vigilantes dos Demônios são um grupo de elite composto por espadachins com habilidades sobrenaturais - sua missão é impedir a proliferação de demônios (que assumem a forma humana) pela Terra. Porém, o renascimento da rainha Ashura pode terminar com o equilíbrio entre humanos e demônios.

Superambiciosa produção que se atrapalha pelas escalas gigantescas que a história exige, mas cenários, costumes, atores, toda a concepção estética são intrigantes. O clímax se passa num castelo que descende das nuvens de ponta cabeça, enquanto a Terra queima em chamas - é de fazer imaginar que, pelo menos lá no Japão, alguém anda usando o Flame, Flint e Inferno para algo que preste. O troço é de tirar o fôlego e ao mesmo tempo deprimente: Yojiro Takita deveria ser o diretor de "Castlevania" e não aquele pela do Paul W.S. Anderson. O uso da versão do Sting para "My Funny Valentine" consegue ser igualmente bizarra e adequada.

Aliás, você sabe o que é a Festa do Ashura? Boa pesquisa no Google Imagens para você e bons sonhos.

ESCRAVAS DA VAIDADE
(Dumplings, Hong Kong, 2005 - Imagem Filmes) Não fosse os longos períodos que Fruit Chan passa desaparecido, ele estaria no patamar de Takashi Miike chinês. Bem-humorado, cínico, violento e poético, os filmes de Chan, quando surgem, nunca passam desapercebidos. Tanto que, no mesmo ringue que Miike e Chan-wook Park ao dirigir um episódio do ominbus "Three... Extremes", seu "Dumplings" rouba os holofotes. "Escravas da Vaidade" é a versão longa-metragem de "Dumplings" e com final alterado (e mais fraco). Mas o filme ainda tem força ao socar o espectador com a história da atriz decadente que apela para um wantan mágico por temer perder o marido para uma mulher mais jovem. O negócio funciona e a Revlon estava até interessada em ampliar suas operações para o mercado de cosmética alimentícia, mas aí surge o tal do ingrediente secreto. Fruit Chan dirigiu o fabuloso "Hollywood, Hong Kong" e "Public Toilet" - se não viu, está perdendo parte importante de sua existência.

MEMÓRIAS DE UM ASSASSINO
(Memories of Murder/Salinui chueok, Coréia do Sul, 2003 - Europa Filmes) Simplesmente um dos melhores filmes já feitos na nossa época. Ele é assim de bom. Joon-Ho Bong, depois desse e "The Host", é o meu marido e eu, sua putinha, empregadinha francesa, faço o que ele mandar, esse puto.



SETE ESPADAS (Chat gim, Hong Kong, 2005 - Imagem Filmes) Esse ameaçou que ia passar no cinema, demorou e acabou sendo despejado nas locadoras. Assisti a "Sete Espadas" ano passado no Festival do Rio e, que surpresa!, gostei muito mais do que o resto da platéia. A saga imensa de Tsui Hark precisou ter editada (tinha mais de quatro horas, pelo que me lembre), daí a edição meio tresloucada e os saltos na história (que, para quem conhece Hark e assistiu o genial "O Tempo e a Maré", não deve ser surpresa alguma) - a versão para a TV, no entanto, fez grande sucesso no país de origem.

É preciso um bocado de sais minerais, tempo disponível e pouca expectativa para realmente apreciar essa versão não-assumida de "Os sete samurais". Aventura das antigas, com efeitos de CPU já datado, um wuxia-pian com lutas esparsas, mas sem poesia da flor-de-lis caindo em câmera lenta. Talvez seu dinamismo nas cenas de ação o deixe meio seco para a longa trama que apresenta. Sei lá o que eu tô falando, achei o filme bem legal - legal normal - e a luta final com Donnie Yen num puxadinho é ótima.







  Bernardo Krivochein    segunda-feira, novembro 06, 2006    0 comentários
 
 


Eu fiquei pensando sobre o que falar aqui no blog hoje, e estava fraca de idéias. Resolvi lançar mão de uma ferramenta que uso muito para me inspirar no trabalho diário. Estou falando de um addon do Firefox chamado Stumble Upon. Se você usa o navegador, é só baixar e instalar em um minutinho. Depois você escolhe uma entre as inúmeras categorias, clica em Stumble e pronto, um site bacana aparece de presente para você.

Resolvi procurar pela categoria independent film. Alguns sites interessantes apareceram mas o que mais me chamou atenção foi o Steal This Film. Além de ser bonito ele toca no assunto do momento que é a troca de arquivos online. Eu presencio discussões quase diárias sobre qual será do futuro da indústria cultural e vejo muita gente tentando segurar o que já é inevitável.

Mas ao mesmo tempo fico feliz quando encontro gente como o pessoal do Steal This Film que está tentando discutir a melhor forma de se adequar a esse novos e indefinidos padrões. No site eles disponibilizam um documentário que estão produzindo sobre este assunto, mas por enquanto só a parte 1 está pronta. Ainda estou fazendo o download, então não posso dizer se ele é bom, mas me pareceu bastante recomendável, ainda mais depois de ler o resumo deixado em uma wiki oficial.

A primeira parte tem o foco no site Pirate Bay que é um banco de torrents de arquivos de música, vídeo e software. A segunda parte ainda está sendo feita e pretende conversar com personagens importantes e atuantes como Adam Curtis e Seymour Hersh.

Não deixe de roubar esse filme.

stealThis
  Bel Furtado    segunda-feira, novembro 06, 2006    1 comentários
 
 


Vale: Vozes e Visões



Pessoal. Aproveito o blog para compartilhar uma experiência singular. Por 5 dias estive com mais 3 videoartistas e um músico (André Amparo, Marília Rocha e Patrícia Moran + o Nelsinho do Grivo) visitando os 5 principais artistas do barro e madeira do vale do jequitinhonha. Captamos o universo ao redor destes artistas através de imagens em vídeo, super 8 e fotos. O resultado foi uma ambientação audiovisual que criamos para dialogar com a obra desses 5 artistas e que está exposta na grande galeria do Palácio das Artes de BHZ. 30 minutos de imagem em movimento projetados numa tela translúcida de 7 metros onde mostramos um pouco do ritmo e do universo de cada artista. Vale a pena conferir a dimensão da obra deles, que surge de um lugar remoto e distante da urbanidade e ao mesmo tempo se confere única e universal.

Pra quem estiver em BHZ até o dia 21 de novembro dá uma passada no Palácio das Artes.
Tá rolando tb um monte de oficinas com alguns mestres da região.
Dá uma olhada no site da SEC. http://www.cultura.mg.gov.br/
  Claudio Santos    domingo, novembro 05, 2006    3 comentários
 
 



HOLOCAUSTO CANIBAL: Exibição, Deodato e Remake

fonte: Fangoria


Uma das obras de terror de maior culto, o filme "Holocausto Canibal" (Cannibal Holocaust, Ruggero Deodato, Itália 1980) tem passado por um momento de nova popularidade após a febre "A Bruxa de Blair". Aqui mesmo no Brasil, durante o II Festival de Cinema Fanstástico de Porto Alegre (que ocorreu outubro passado) a fita foi um dos destaques da programação (que contou ainda com "A Grande Guerra Yokai" de Takashi Miike e "Hardware" de Richard Stanley - que eu não consigo assistir sem me morder de vontade de ir correndo fazer um filme sci-fi no meu apartamento). Claro, você terá que procurá-la sob a inversão angloamericana do título: "Canibal Holocausto". É curioso notar como esse filme - assim como tantos outros gore/exploitation do gênero - faz tanto sucesso no Sul, influenciando vários curtas-metragens e exercícios audiovisuais nessa região. Mais até do que em SP, onde os seguidores são muitos e vorazes.

A primeira notícia é que o diretor Ruggero Deodato fará uma ponta em "Hostel 2" de Eli Roth, transformando as participações de diretores extreme numa espécie de tradição da série (no primeiro filme havia a muito simpática, quase incompreensível e totalmente dispensável presença de Takashi Miike). Fico imaginando até que continuação "Hostel" irá se manter até Uwe Boll fazer uma aparição.

A segunda - e essa pegou todo mundo pelas canelas - é que "Holocausto Canibal" foi refilmado. Colocando de modo mais educado, ele serviu de "inspiração não-ambígüa" para o filme "WELCOME TO THE JUNGLE", produzido por Gale Anne-Hurd (produtora de James Cameron), roteirizado e dirigido por Jonathan Hensleigh (de O Justiceiro, roteirista de Duro de Matar: A Vingança e marido de Anne-Hurd, entre outras funções). A notícia vem a cargo de Ryan Rotten para a revista Fangoria. "Welcome To The Jungle" que já está pronto (!) foi feito na surdina e foi exibido recentemente para possíveis distribuidores no American Film Market - AFM. Rotten assistiu ao filme (dizendo-se ao final "nada impressionado") e detalha como somos introduzidos à história real do desaparecimento de Michael Rockefeller antes de acompanharmos as fitas de vídeo reais encontradas na Nova Guiné. A fita é o último registro de um grupo de jovens arrogantes que se aventurou a procurar Rockefeller 40 anos após seu desaparecimento. Hensleigh não poupa nenhuma referência ao original, desde o "estas são as fitas reais" até os jovens personagens absolutamente detestáveis e a quintessencial imagem da donna impalada. Mas nada de roedores e tartarugas violentamente mortos e estripados apenas para efeito barato de choque. Ah, e o filme termina com a música homônima do Guns 'n' Roses - só para ter o prazer de cortar a piada sem graça que você estava criando agora mesmo.

Deodato foi preso à época do lançamento do filme pelas autoridades italianas, que acreditavam se tratar de um verdadeiro snuff movie. De certo modo, não estão erradas - afinal temos sacrifício animal real e despropositado frente às câmeras, mas o filme, por mais repreensíveis que sejam suas raízes (e eu sou completamente avesso a elas), é eficaz, independente da pilantrice do diretor; esse é um momento de inspiração, ainda mais louvável se percebemos que o diretor pensa dentro do mesmo trio fama-dinheiro-sucesso que faz dos seus personagens tão detestáveis. Pois "Holocausto Canibal", muito além de sua mensagem primeira sobre a bestialidade humana não ser determinada ou eliminada por aquilo que se convencionou chamar "civilidade", funciona como esse exercício bizarro: os atores encarnam esses indivíduos odiáveis enquanto matam a fauna e a flora latino-americana e você reza, reza, reza, para que esses canalhas recebam o que merecem das mãos dos ianomâmis. O que acontece, claro, e você tem essa satisfação horrorizada. Depois você percebe o truque: que você acreditou justa e se deu por satisfeito com uma execução ficcional para uma trilha de mortes reais, apenas porque a ficção condiz com suas crenças ao contrário da velha e amarga realidade. Pão e circo, bee-yatch. O espectador se trai.

"Welcome To The Jungle" não tem data de estréia, nem distribuidor, nem página no IMDb, nem uma crítica positiva até o momento.

UPDATE: Ruggero Deodato declarou que pretende realizar a continuação de "Cannibal Holocaust". Aparentemente ele passou a idéia por Eli Roth que, obviamente, adorou. Deodato pretende escrever e dirigir "Cannibal Holocaust 2" inspirado no sucesso que filmes como "Hostel" tem feito nos EUA.




  Bernardo Krivochein    sexta-feira, novembro 03, 2006    0 comentários
 
 



Há Vagas

Eu montei um museu de cinema dentro da minha cabeça, fica em algum lugar do lobo frontal no hemisfério direito numa aldeia povoada por neurônios fúteis, já aposentados viciados em overdoses de serotonina. O museu fica na rua principal desta aldeia ao lado da deli de comidas favoritas, como aquelas que misturam chocolate quente com sorvete gelado e alguma substância crocante (será que sem querer querendo dei uma receita de profiteroles?). Do outro lado fica a minha loja de automóveis multi-marcas, com os meus modelos preferidos. É no museu que eu guardo as minhas obras-primas do cinema. O meu museu de cinema é dividido em salas, como qualquer outro museu do mundo. Afinal de contas isto ajuda a manutenção, a organização e também arrumar assunto pra escrever neste blog.

O salão nobre, a maior sala de todas, está dedicado aos trabalhos dos mestres, é claro. É lá que estão as obras de Fellini, Truffaut, Hitchcock, Bergman e muitos e muitos outros. Alguns dos mestres têm mais de um trabalho exposto. Esta sala não me dá muito trabalho, porque eu coloquei nela os filmes que eu realmente amo, os que considero como obras-primas absolutas e algumas outras unanimidades que eu até deveria gostar mais.

Ao lado do salão nobre, à esquerda, perto do toilete fica a sala que eu chamo de arqueológica. Lá eu coloquei os filmes dos primórdios do cinema com obras de Eisenstein, Murnau, Griffith e companhia. Não é a uma sala atraente e muito visitada, mas os filmes foram vistos na sessão das seis nos idos dos anos 70 em algum cineclube de universidade, sempre seguidos por um debate. A sala tem um cheiro de chinelo de couro molhado e precisa urgente de uma reforma. São obras fundamentais para a história do cinema que um dia merecem ser revistas mas como isto aqui é um museu... isto pode esperar mais um pouco.

O museu tem outras salas: uma dedicada à ficção e até uma para os musicais. A de ficção está esperando que a computação gráfica resolva alguns excessos pra ter o seu acervo aumentado. A dos musicais melhorou muito com os novos equipamentos que chegaram mas não deixa de ser uma sala nostálgica. Foi-se o tempo em que sentado no sofá, de tarde, a gente agüentava aquela cantoria sem fim, alegorias de escola de sampa (sim as alegorias, fantasias e adereços são a cara de Nenê da Vila Matilde...) e uma constelação de estrelas canastras. Fiz também uma especial, só para o cinema noir, que adoro. Mas tenho entrado pouco lá... dá uma vontade louca de acender um cigarro, e para um ex-fumante perto dos 50 anos (inevitável o trocadilho) isto é de morrer (lembra da facada na manteiga da semana passada?).

Agora, tem uma sala que só eu tenho a chave, porque é lá que eu coloco aquelas porcarias que a gente adora, mas que não confessa nem sendo torturado em Guantánamo. Mas como escapar do desejo desvendar o segredo de uma limonada cor de rosa tomada pela Baronesa Elsa Schraeder (Eleanor Parker) em Noviça Rebelde? Durante muito tempo pensava que o limão na Suíça deveria ser vermelho por dentro como um grapefruit. Depois alguém, acho que minha mãe, me convenceu que a empregada da casa Frau Schmidt vivida pela atriz Norma Varden (sempre em papeis secundários, coitada... já foi tia da Feiticeira na série da TV) misturava um pouco de groselha porque o limão na Suíça, como outras coisas, é completamente insosso. A última teoria mais aceita por mim atualmente é que uma baronesa precisa indubitavelmente de um mundo em cor-de-rosa, então o jeito era colocar um pouco de beterraba no liquidificador, junto com o limão (limonada suíça, right?) bater e coar... Ah o açúcar? De beterraba também!

Tem também a sala Brasil, e todo-santo-dia eu penso se eu devo tirar o Rocha de lá e levar para o salão nobre... Fico pensando nos custos, royalties e direitos autorais desta empreitada e concluo que é melhor deixar tudo como dantes.

A sala que me dá mais trabalho é a do cinema contemporâneo porque seu acervo está em constante ampliação. Mas de uns tempos pra cá, notei que não tenho levado filmes que eu gosto, no mesmo ritmo que eu fazia antes... Estou sentindo falta de ótimos filmes. Uma explicação lógica para isso seria: estou ficando velho (velho sim, acabado não, Sueli!!!) e fico neste clima retrô, saudosista, achando que não se fazem mais filmes como antigamente e acabo passando mais tempo lustrando as obras do salão nobre do que tentando levar novos títulos para a sala dos contemporâneos.

Uma amiga esotérica tem outra explicação. Ela disse que isso é culpa da virada do milênio... Ela falou que na história da humanidade, toda mudança de milênio, causou um num-sei-o-quê, uma bagunça cósmica, sei lá, e que nunca se produziu nada que se prestasse nos anos que antecederam e sucederam a virada de um milênio para o outro. Como diria o Roberto Mauro: teoria de difícil comprovação. Como não sou expert em arte antiga, não sei exatamente o que foi produzido quando a ampulheta virou do ano 999 para o ano 1000.

Outra explicação seria: estamos vivendo uma simples entressafra de obras-primas? Ou o cinema está sofrendo os terríveis efeitos globalizantes e vive um processo de mercantilização (dêrrrrrrrrrr... sempre viveu?) , se preocupando mais com o box-office e menos com os seres masculinos e femininos pensantes? Mas isso quer dizer que onde existe mercado não existe arte?
Sem uma explicação mais razoável, continuo na busca de obras-primas do cinema para colocar no meu museu...
  Eduardo Cerqueira    sexta-feira, novembro 03, 2006    3 comentários
 
 
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