blogINDIE 2006


O Fim De Uma Era

Impossível para qualquer publicação - profissional ou não - de cinema ignorar o falecimento de Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni. Ambos os diretores têm como cinematografia um animal selvagemente, inevitavelmente pessimista: em Bergman, o pessimismo era normalmente fruto de um confronto humano direto (pense em "Persona", "Fanny & Alexander"), em Antonioni pela ausência quase completa de interação humana ("L'Avventura", "O Eclipse"). Ambos os diretores marcam a era de ouro do Cinema de Arte em todo o mundo. E agora, se foram.

Existem sites e mais sites hoje ensaiando sobre a importância de ambos os diretores hoje, então qualquer tentativa de expressá-la de minha parte seria apenas chover num (bem) molhado. Mas preciso confessar que não estou de luto cinematográfico. A contribuição desses dois gênios para o mundo é indispensável, valiosa, única, mas sua saída de cena coloca à prova todo um cinema contemporâneo de arte de qualidade duvidosa, mas que insistia em se apoiar na mera existência - ainda que improdutiva (não é o caso de Antonioni e Bergman, eu sei, somente digo de modo geral) - daqueles que foram um dia grandes autores. A morte de Antonioni e Bergman abala nas fundações todo um cinema preguiçosamente erguido por autores menores em cima de sua genialidade e que se mantinha sustentado teórico, estético e narrativamente em suas costas cansadas, sem inovação, sem contestação; apenas repetição, emulação.

Há um abismo de diferença entre deixar-se influenciar (caso da modernização de "Zabriskie Point"de Antonioni por Bruno Dumont no cada-dia-que-passa-fica-melhor "Twentynine Palms") e a referida emulação, cansada, especialmente em casos como o do Brasil, que se molda por parâmetros internacionais com tanto desespero (antes era a busca por uma estética equivalente a européia, agora é a busca desenfreada por uma qualidade técnica de nível de primeiro mundo) que basta aos criadores realizarem verdadeiras "covers" acústicas dos filmes mais celebrados pela crítica internacional no momento (exemplos não me faltam, como não faltariam problemas se eu fosse acusando um a um os filmes que gostaria de mencionar).

O cinema lastima o falecimento de Antonioni e Bergman, mas sabe que os dias futuros serão estimulantes. Não mais apoiar-se no já estabelecido, na estética de aclamação certa, em contar que Antonioni e Bergman farão obras-primas que só servirão de matéria-prima para a manutenção de cinemas nacionais inseguros por profissionais da arte que fazem do tempo morto seu sutento. Cada gênio que nos abandona, nos deixa a responsabilidade de criar, de originalidade, de inovar, de filmar independentemente. A despedida de Antonioni e Bergman é sua última grande obra.
  Bernardo Krivochein    segunda-feira, julho 30, 2007    2 comentários
 
 


Live Images ainda podem emocionar?



As performances de "live images" ou imagens manipuladas por artistas em tempo real são experiências que surgiram de maneira mais contundente nos anos 60 e tomaram grande força no momento pós-analógico do vídeo digital.

Muita coisa já aconteceu e hoje vivemos um momento crucial para a arte do vídeo que parece estar se dissolvendo, sem lugar, em face às novas tecnologias... o vídeo já nem se chama mais vídeo! Mas o que interessa é que a experiência estética audiovisual pode ter continuidade mesmo num âmbito de menos impacto.

O evento ON_Off Experiências em Live image, idealizado por Roberto Cruz coordenador do Núcleo de Cinema e Vídeo do Itaú Cultural, traz, nestes dias na cidade de São Paulo, 3 espetáculos que além de invocar todas estas questões, ainda podem emocionar.

Ontem a apresentação do artista Éder Santos causou impacto, numa sala lotada. A obra "O Lugar Aonde os Carros Não Vão" ( a foto acima foi tirada durante o espetáculo, créditos:Cia. de Foto e Itaú Cultural) ... segundo o release:

"No palco, a mescla de vídeo, teatro e música cria um território híbrido para a videoperformance "O Lugar Aonde os Carros Não Vão", na qual o espaço se transforma em imagem com uma série de projeções simultâneas, criadas e mixadas ao vivo pelo artista mineiro.

Esse projeto foi feito especialmente para o ON_OFF e tem como base o conto "O Ex-Mágico da Taberna Minhota" (1947), de Murilo Rubião (1916-1991), no qual um mágico perde o controle de sua magia e não consegue nem mesmo se matar. Ele acaba virando funcionário público", adianta o videoartista. "É um trabalho sobre mundos desconhecidos. Por isso o título "O Lugar Aonde os Carros Não Vão", que faz uma brincadeira com a música No Cars Go, do Arcade
Fire. Em cena estão as atrizes Mônica Ribeiro e Maria Luísa Mendonça e os músicos Paulo Santos e Josefina Cerqueira que executam a trilha sonora do espetáculo.

No dia 28, a programação do ON_OFF abre espaço para o encontro entre a música e o cinema com "Repentismo Visual/Cinejoqueys", do coletivo paulista Visualfarm. Com uma estética audiovisual iniciada há oito anos nas pistas de dança underground, atualmente o grupo busca uma linguagem para o cinema ao vivo, fazendo a figura do DJ dividir espaço com a do CJ (cinejóquei, artista que trabalha tanto nas pistas de dança como nas salas de projeção, mixando
cinema, música, clipes e tracks audiovisuais).

O Müvi encerra a terceira edição do ON_OFF, no dia 29, com a videoperformance também inédita "Commento". A dupla formada pelo artista plástico Ricardo Carioba e o músico Fabio Villas Boas constrói uma imagem a partir de 35 planos da cidade de São Paulo - captados por eles -, a qual se divide e se multiplica acompanhando alterações gráficas. No palco, a trilha sonora cria efeitos e sentidos polifônicos, altera o ritmo dos planos e elabora um tempo deslocad do movimento realista do cenário urbano. A apresentação observa a estagnação e trabalha a idéia de uma falsa velocidade no tempo, proporcionando uma experiência audiovisual de distorção da cidade."


Ligue-se no ON_OFF e veja se ainda há fôlego para tais fantasias audiovisuais!
  Francesca Azzi    sexta-feira, julho 27, 2007    4 comentários
 
 


Informativo Zeta Filmes - BlogINDIE - INDIE 2007 Dark Matinée

O que vocês precisam entender é que Bernardo Krivochein é um fodido com sabe-se lá quantos empregos, que ainda treina e cumpre com exigências acadêmicas. Os momentos de hiato que o site volta e meia enfrenta são a contragosto, muitas vezes por obstaculos tecnológicos impostos por vírus, DLLs que se ausentam, HDs transbordantes e softwares obsoletos. Estou prestes a iniciar um texto sobre o último filme de Jia Zhang-ke do meu trabalho porque CPU caseiro, esse parece que só vai voltar à ativa no fim de semana - com sorte.

O seguinte post é apenas uma medida cautelar caso o site ou o blog fiquem sem atualizações por alguns dias. O que eu garanto para vocês é que essa ausência será de benefício para o próprio site, já que precisarei de um tempo extra para ver e escrever sobre alguns filmes. Meu desejo é de escrever artigos maiores, blocos especiais. Não vou fazer mistério, não há motivo. São estes os projetos que pretendo passar a desenvolver; não estou fazendo promessa que conseguirei, mas exponho os meus objetivos, de qualquer maneira:

ESPECIAL FANTASIA 2007: Sim, depois de 2 anos sem fazê-lo e tendo em vista a contínua falta de promoção do Cinema Fantástico no Brasil, este será o artigo com maior probabilidade de sair (já que gastei uma baba nos DVDs importados, que estão chegando um por um... sabia que nos EUA, DVDs podem ser descontados no Imposto de Renda dos críticos de cinema?). Acho que já posso começar pelos filmes já disponíveis no Brasil e os que eu já vi, e evoluir a medida que os outros cheguem nas locadoras ou ao pé da minha porta. E será a primeira vez que eu abordarei curtas-metragens, graças ao lançamento do DVD da sessão "Small Gauge Trauma" e da disponibilidade de alguns no YouTube.

CINE-RINGUE: Já ensaiei essa coluna ao falar de "À Procura da Felicidade" e "Empregado do Mês", na qual o filme de Dane Cook ganhou do filme de Will Smith por nocaute. É capaz que saia mais uma edição nessa ou na próxima semana. Gostaria de poder prometer uma por mês, mas realmente vai depender de que eu encontre filmes na mesma categoria de peso para brigar. Isso é uma desculpa, inclusive, para me motivar a escrever um artigo que venho namorando há meses.

ESTATUTOS PARA UMA NOVA MEIA-NOITE: Acho que será dessa que vocês gostarão mais (caso eu venha a realizá-la de fato) - com o renascimento da cultura de cineclubes e do saudosismo pelos cinemas grindhouse/poeiras, vou me aventurar a pensar o "Midnight Movie" contemporâneo, sugerindo através de analises, novos títulos obscuros (ou nem tanto) para essa categoria. O catálogo de "Midnight Movies" é um que precisa de séria renovação (minha humilde opinião) e o que não faltam são filmes dignos de platéias aventureiras, ansiosas para serem confrontadas. Eles são filmes de terror, de ação e, acreditem, híbridos de melodramas a la Douglas Sirk e sleazefests feitos em 2006 (!).

Mais ainda: continuar falando de um ou outro lançamento da semana, mas só quando interessar também. Tem milhões de sites que fazem isso, acho que precisamos diferenciar o nosso espaço, que se homogeneizou em dado momento com as outras páginas de cinema. Culpa minha. Também eu ando gostando de ler aqui no blog o que as pessoas tem a dizer, dá vontade de inventar um cineclube virtual através de posts reservados para as referidas colunas onde os leitores possam discutir (EDUCADAMENTE!) ou trocar non sequiturs. Eu tenho que fazer primeiro a minha parte, no entanto. Quero me esforçar.

INDIE 2007 - DARK MATINÉE: Não, não é a hora de escancarar a programação ainda. O que eu posso adiantar para vocês é que estamos levando a idéia de 2006 a um extremo ainda maior. Já que o Festival do Rio e a Mostra SP já trazem os títulos mais esperados - e caros - além da existência do Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre (entrando em sua 3a. edição), a Dark Matinée radicalizará. A segmentação será extrema. Não traremos apenas Cinema Fantástico: traremos Cinema Fantástico Independente. Que não tem distribuidora (ou mais ou menos), nem DVD (por sabe-se lá quanto tempo, mas não ainda), nem Torrent (idem). Filmes incríveis, mas inalcançáveis - queremos ser a janela. Inéditos até a medula. É um dia particularmente feliz para informar-lhes isso pois soube hoje mesmo da inscrição voluntária de um filme que tinha me interessado, mas na hora de programá-lo, não consegui encaixá-lo no Grande Esquema. Não será necessário fazer o sacrifício - e estou particularmente feliz com os títulos que estamos conseguindo até agora. Claro, isso eu já disse no post do Fantasia 2007, também estamos em sintonia com o debate sobre o status quo do Cinema Fantástico e da ampliação de gêneros abordados, então pela primeira vez, teremos dentro da Dark Matinée um documentário - sim, um documentário que encontra o Fantástico dentro do nosso Real. Mas aí já estou falando demais.

Agora, se eu conseguisse começar a escrever aquele texto agora...
  Bernardo Krivochein    quarta-feira, julho 25, 2007    10 comentários
 
 


Ao Alcance de Todos

Interior do Cinema Metro Boavista, no Passeio (Centro do RJ), onde os filmes me engoliam. Sua edificação permanece de pé, mas o cinema encontra-se fechado. Clique na foto, observe a proporção tela-poltrona e imagine a projeção panorâmica Dimension 150 que desnorteava. Foto de acervo pessoal.

A gente acaba citando uma ou outra referência bibliográfica de cinema aqui, mas espero sinceramente que isso não intimide ninguém a pensar cinema, a opinar sobre cinema, que não faça ninguém se sentir inadequado. Espero mais é que as pessoas, independente da formação acadêmica, se aventurem com esses livros. Mas hoje, comentando no post sobre o filme de Michael Bay - no qual acabei recorrendo a um livro bastante chavão de cursos de cinema no mundo inteiro - e relembrando os comentários dos visitantes no post sobre a crítica cinematográfica impressa - mais particularmente uma frase bastante infeliz de um crítico popular da Internet, algo nas linhas de "somente críticos de cinema podem escrever críticas de cinema, cinéfilos não."

Na verdade, em termos de concordância, ele está correto. Críticos escrevem críticas e cinéfilos escrevem... cinefilia? O que caralhos d'água é um cinéfilo, a princípio de conversa?

AVISO: Vou começar aparentemente ofendendo muitos dos leitores, então já vou pedindo de antemão que se segurem firme, firmem as mandíbulas de raiva, porque no final do raciocínio, vocês terão seu esforço recompensado. Ou assim espero.

O cinéfilo é a classe mais baixa, vulgar e mesquinha dessa cadeia de observadores de cinema. Sim, o cinema os encanta, mas o pior tipo de cinema: o acessível, o facilmente rotulado, o mais publicamente aclamado. Eles vomitam suas obviedades em conversas, blogs, flogs, frogs, grogues, e fazem exigências sobre como um filme deve ser, quais parâmetros ele deve obedecer - um filme deve ser sempre agradável, instigante, com conteúdo, tecnicamente infalível, bem atuado... Exigências com maiores níveis de abstração e subjetividade, impossível. Fica pior: o cinéfilo - aquele auto-conclamado cinéfilo no Vaticano de sua própria mente - cristalizou o cinema numa função básica e prática dentro de sua vida diária. O cinema é um instrumento tal qual um talher ou um pano de chão, um serviço público. É o cinema-empregado, aquele que está sempre a serviço do patrão. Cine-morto. Ele deve respeitar a hegemonia do cliente e servi-lo com entretenimento, pura e simplesmente, caso contrário, não lhe presta, não se encaixa na lacuna a qual o cinéfilo o resignou. O máximo de aprofundamento em cinema que o sujeito se permite é a leitura de umas listinhas de melhores e piores filmes, artigos geralmente abomináveis de um encapsulamento rápido e rasteiro, que não lhe tome muito tempo e que lhe garanta uma respeitabilidade instantânea em rodas de conversa. O indivíduo exalta socialmente que a boa música é Tchaikovsky só porque isso conferiria respeitabilidade ao seu gosto fã de Jota Quest. O cinema torna-se artigo de especulação geek, boboca, superficial, recorrendo a diálogos via smileys, o ápice da falta de articulação.

Desculpe, a palavra "diálogo" é inadequada. Sugerir a um cinéfilo uma reavaliação positiva de um filme que ele já taxou automaticamente como ruim (e que ele nem viu) é como sugerir a Hitler refletir se o Holocausto talvez não seja um pouquinho de exagero de sua parte. O cinéfilo - especialmente o brasileiro - é um autoritário, um fascistóide, que se apóia em adjetivações pré-estabelecidas que automatizem sua "opinião" cinematográfica. Ele resiste a qualquer recontextualização desses paradigmas porque aí sim ele teria que parar e refletir - mas honestamente, ele não tem tempo, interesse e paciência para dispensar ao cinema-funcional maior compromisso. Duas horas depois, tantas estrelinhas ou um número quebrado e parte para outra. Sem traços. Sem reflexões. Sem relevância.

Mas não é todo mundo que é formado em cinema. Isso significaria que esse espectador marginal - interessado, mas sem um canudo ou algum título acadêmico aristocrático para lhe embasar - deveria se recolher a sua insignificância?

Tudo menos isso! O problema dessa popularização de termos técnicos e teorias cinematográficas é a sua vulgarização, sua manipulação pelos incautos ou simplesmente maliciosos. Porque os cinéfilos se limitam a repetir apenas o chavão e os críticos de cinema pretendem defender o seu ganha-pão com a eterna justificação da sua atividade profissional, estabeleceu-se a desértica e burra distinção dos apreciadores de cinema nesses dois termos: crítico e cinéfilo. Nem uma coisa, nem outra! Eduardo Valente na Contracampo já defendeu a adoção da posição de "cinólatra", aqueles que permitem se embriagar com o cinema - mesmo que, de acordo com o prefixo, o termo signifique mais "viciado em beber cachorro". Mas essa é a filosofia a ser adotada. O crítico de cinema ainda é aquela merda que todo mundo ojeriza, mas ainda é estranhamente atraído por. O cinéfilo é só o fãzóide. Resgato para vocês um trecho de "Cinema: Língua ou Linguagem" de Christian Metz que, embora óbvio, ficou escondido dos adoradores de cinema por tempo demais:

"Houve até agora quatro maneiras de se abordar o cinema: [crítica cinematográfica, história do cinema, teoria do cinema]... Em quarto lugar encontramos a filmologia, estudo científico dirigido do exterior por especialistas em psicologia, psiquiatria, estética, sociologia, pedagogia, biologia. Seu estatuto, bem como seu sistema de trabalho, colocam-nos fora da instituição: é o fato cinematográfico mais que o cinema, é o fato fílmico mais que o filme que são aqui encarados. A filmologia e a teoria do cinema se completam de certo modo."

O trecho mais do que admite, ele prevê a aplicabilidade de ciências e conhecimentos outros para se "ler" um filme. Logo, a declaração do referido crítico não passa de um sofisma: ela é lógica, mas é ignorante, porque nela está implícita "fala de cinema apenas quem sabe de cinema (que estudou, tem formação, etc." e para o cinema interessa muito mais as possíveis leituras tendo outras áreas como base do que a expressa autofagia. Lembro de uma cena do divertido "Ou Tudo Ou Nada" (The Full Monty) em que o grupo de personagens principais assiste a "Flashdance" para estudar uma coreografia de strip-tease, mas o operário não consegue se concentrar senão na solda completamente inadequada que a personagem, uma ferreira, está fazendo. Ele está aplicando o seu conhecimento ao filme erevelando-lhe uma verdade.

Adiciono mais esse trecho do post de abertura da e-publicação Mirror/Stage, no qual o autor Andy Horbal faz uma declaração de princípios:

"Esta é uma nova época, e elas convocam um novo tipo de crítica. Acredito que estamos entrando na era do 'crítico-cupim'. Não é mais necessário - ou sequer possível - para críticos de cinema serem 'experts em filme', serem os Reis da Montanha, os Árbitros do Bom Gosto. Ao invés disso, os críticos do amanhã se devotarão a alguma pequena parte do Cinema e a mordiscarão até se darem por satisfeitos, e então seguirão para mais uma outra."

Tal trecho vai de encontro ao artigo "Band of Outsiders: Listen Up" da e-publicação Alarm! (www.alarm-alarm.com) no qual Peter Suderman corajosamente confessa que jamais tinha assistido a "Bande à Part" de Godard:

"Talvez isso me custe um pouco de crédito enquanto geek de cinema, mas eu escrevi [um trecho que exalta o poder do texto de Pauline Kael em persuadir o espectador a assistir um film] em parte porque, até algumas horas atrás, eu jamais tinha assistido 'Bande à part'. Uma das questões que surgirão nas próximas décadas de crítica cinematográfica é que a próxima geração de críticos simplesmente não será tão familiarizada com a História do Cinema do que as gerações antecessoras.[...] Também somos confrontados com pedaços muito maiores de História de Cinema para digerir do que nossos antecessores - especialmente se queremos nos manter a par com as ofertas cinematográficas atuais. O que isso significa é que haverão pessoas como eu que escrevem profissionalmente sobre cinema, mas que jamais assistiram cânones cinematográficos como 'Bande à part'."

O crítico e o cinéfilo estão numa sinuca, pois nada podem descobrir, desvendar ou reavaliar. Para eles, só resta aceitar listas e aceitar a suposta grandiosidade dos clássicos consagrados sem realmente sentir sua potência, fazendo sessões cada vez mais corridas e superficiais, sem aprofundamento. Esses dois gêneros acreditam arrogantemente que são capazes consumir e assimilar toda uma História de Cinema - mas tal História não é realmente a do Cinema Mundial, extremamente ampla e cheia de nuances; essa tal História do Cinema é apenas aquela determinada pelos poderes em vigência.

Entra o Filmólogo. Mais do que o crítico e cinéfilo, ele tem o talento de desvendar verdades e mentiras fílmicas com sua perspectiva e conhecimento diferenciados. Ele faz mais do que assistir Cinema, ele se interessa por Cinema, aceita-o, toma seu tempo para não apenas assisti-lo com propriedade, mas para pensá-lo, não tem pressa em manter-se atualizado, não se precipita em assistir clássicos apenas para ganhar uma medalha. Assistir cinema para o filmólogo não é uma corrida. Interessa-lhe colecionar os filmes pela temática, pela estética e tal interesse não conhece hierarquia capitalista, ele invade territórios com sua curiosidade e desvenda cinemas outros. E com seu conhecimento extra-cinematográfico, ele o destrincha através de uma perspectiva toda nova, enquanto críticos e cinéfilos se devoram até a morte na disputa ridícula sobre a superioridade de um sobre o outro. O Filmólogo passou esse tempo se encantando com cinema.

Então eu gostaria de lhes devolver o termo "Filmólogo". Façam jus a ele. Aproveitem o cinema - qualquer cinema - nesse fim de semana.
  Bernardo Krivochein    quinta-feira, julho 19, 2007    5 comentários
 
 


Recap Fest 20/7 (Para te perturbar por todo o fim de semana)

>> PRÊMIO "ONDE ESTÁ O SEU DEUS AGORA?!" DA SEMANA: A San Diego Comic Con é a grande conferência geek do mundo: lá, fãs de comic books, brinquedos e filmes pós-modernos industriais se reúnem para uma babação descontrolada, um desperdício de dinheiro fodido com "colecionáveis", muita conversa de nerd, troca de cards e participam de palestras publicitárias estrategicamente armadas pelos estúdios de cinema na forma de Q&A com os atores dos filmes da estação e prévias de 0.4 segundos das produções mais antecipadas...

... e a Fox pulou fora.

Não demorou e a Internet entrou em polvorosa. Aparentemente, foi coletada uma declaração da parte dos realizadores da Comic Con que o estúdio não teria uma prévia - ou seja, uma coletânea de cenas exclusivas - com qualidade decente para apresentar durante o evento e retiraram sua participação em San Diego (que data desde o primeiro "Star Wars"). Mas teve volta. E foi bonito.

Pasmem, foi a Fox é que teve sua participação negada pela organização da Comic Con. O motivo: aparentemente o conteúdo das imagens da prévia da Fox do ano passado eram R-Rated demais para os mesmos fanboys que exigem constantemente mais sobriedade de seus heróis fantasiados. O problema foi justamente com a promoreel de "Borat", que mostrava a luta entre o personagem de Sacha Baron Cohen e seu produtor dentro de um quarto de hotel. A organização da Comic Con ficou alerta com a nudez masculina das imagens e passou a policiar com mais pressão as imagens da Fox (assim como a violência gráfica e homens semi-nus de "300", que aparentemente vazaram pelo "controle de qualidade"). Momentos depois da notícia que a Fox não faria parte da Comic Con, vários funcionários do estúdio, fulos da vida de terem os motivos subvertidos, tomaram as dores da companhia e revelaram os verdadeiros motivos. Hoje, o diretor de publicidade do evento David Glanzer teve sua declaração publicada no site CHUD. Embora surpreso com a retirada da Fox da programação, ele admite o controle do conteúdo das imagens para as pobres e frageis mentes nerds. A eles, que adorariam culpar os grandes estúdios pela corrosão da transposição de seus personagens favoritos para a tela grande, vendo essa situação onde é justamente o público - ou seja, eles mesmos - que banalizam as adaptações, nós dizemos: "ONDE ESTÁ O SEU DEUS AGORA?!"

>> CLOVERFIELD É UM FILME DECEPCIONANTE - por W.O. O título do filme de monstro (chamado o "Parasita", tal qual... "O Hospedeiro"?) vai mudar de "Cloverfield" para outro, mas pode chamá-lo de "Snakes on a Plane Part Deux". Pilhando os geeks com a sugestão de sites do filme escondidos pela web e mantendo os detalhes da trama em segredo, o criador do maior pastel de vento dos últimos anos, "Lost", J.J. Abrams aposta na propaganda viral para aumentar o hype em cima de seu filme. Mas tal qual "Serpentes A Bordo", a especulação está prestes a sair de controle e, assim como o mistério de "Lost", tende a perder - e até irritar - os seus seguidores. "Cloverfield" já é decepcionante porque esse tipo de propaganda infla as expectativas a um nível completamente irreal, impossível de ser atingido. Se deixar, o sujeito comum idealizará a comapnheira ideal para si e se frustará porque nunca a encontrará na vida - sem contar que o sujeito idealizador nunca percebe a sua própria inadequação que o faz desmerecedor de toda aquela perfeição que ele projetou em outra, nada mais do que um reflexo arrogante da opinião que tem de si mesmo. Assim é o geek, que se prende aos detalhes mais minunciosos da "mitologia" de suas sagas em quadrinhos, em filmes, etc.: ele está projetando na obra toda aquela mesma perfeição que ele considera como sendo-lhe própria - na realidade, uma fuga do mundo que não reconhece o quão belo e fundamental ele imagina que seja.

>> AINDA DEBATE SFX=ARTE? Trate de checar o site da Film Comment - discutivelmente porém merecidamente considerada a Cahiers du Cinema americana (a edição de Maio/Junho trazia um artigo escrito por Weerasethakul, entrevista com Sang-soo, coisa pra cacete) - e veja que filme ilustra a cobiçada capa: "Sunshine: Alerta Solar" de Danny Boyle, já exibido e ignorado por aqui. Estreando nos EUA neste fim de semana, a ficção-científica inglesa é O filme em questão das melhores publicações cinematográficas daquele país - no entanto, longe de ser uma unanimidade (como, inclusive, todo filme de respeito). Estou colocando o link aqui
e aproveito para lembrar que sou pró-Sunshine, minhas considerações no site principal similares aquelas publicadas hoje por Michaelk Koresky na indieWIRE: Reiniciar o Sol é uma proposta de ficção-científica naturalmente grandiosa e metafórica em seu conceito e promissora em termos de narrativa, ainda assim Boyle e Garland sabiamente lançam várias bolas curvas em direção à platéia." Aliás, os críticos, negativo ou positivamente, repuxam as mesmas referências que fiz no texto: "2001", "Enigma do Horizonte" e "Jason X". Não estou tão bêbado assim.

>> TRAILERS FROM HELL - Quem não já se rendeu ao prazer de se assistir trailers vintage, ou relembra aquela antecipação gostosa de se assistir trailers antes do filme começar (isso nos anos 80 e 90, antes da era dos 1078 comerciais não ligados a cinema que antecedem os filmes hoje em dia e vulgarizam a experiência, sinceramente). Até em "Grindhouse" um dos aspectos que mais chamaram a atenção foram os trailers falsos incluídos ao filme (Eli Roth até ameaçou um longa feito somente deles). O site Trailers From Hell não apenas abriga trailers antigos de produções B, mas vai além: os trailers são selecionados e comentados por diretores atuais! O grande Joe Dante fala de vários trailers, Edgar Wright aparece para falar de Mario Bava, etc. O site acabou de ser lançado, portanto o acervo ainda é pequeno, mas se a idéia apetecer, apareça, prestigie e deixe claro para eles que você quer ver mais.

>> ARTIGO DO FIM DE SEMANA 1: Nataniel R. do Film Experience Blog faz um genial post visual sobre os "10 motivos (selecionados semi-aleatoriamente) porque a fotografia de 'Susie e os Baker Boys' (um dos melhores filmes de sua década) deveria ter dado a Michael Balhaus o Oscar." E tente resistir a tentação de querer (re)ver o filme nesses dias. Eu estarei o alugando amanhã mesmo.

>> ARTIGO DO FIM DE SEMANA 2: Um brilhante estudo de "Chamas da Vingança" de Tony Scott e o uso da tipografia como veículo narrativo, algo que só teria sido feito anteriormente por Godard (e Scott aparentemente tenta aplicar num filme de ação comercial, o que já é genial só na intenção). Mais do que legendas - subtítulos: são legendas - sobretítulos. Na minha humilde opinião, isso não redime a epilepsia da montagem tipicamente Scottiana, mas esse rico artigo visual da "Speak Up" chamado "Subtítulos En Acción" surge ricamente exemplificado.

>> E A MODA DO FANTASIA FILM FESTIVAL É... Cantar ao som de "My Hair Hair", música-tema do soturno "EXTE: Hair Extensions" super elogiado novo terror de Sion Sono que tem lotado os cinemas do festival canadense. "Exte" é uma paródia em cima do ícone mais óbvio do terror japonês - o cabelão preto - mas que aparentemente funciona em ser irônico e assutador ao mesmo tempo. O videoclipe está nesse link.

>> CENA INSTANTANEAMENTE CLÁSSICA PARA MELHORAR SEU HUMOR CINEMATOGRÁFICO: A cena de abertura de "Aqua Hunger Teen Force Colon Movie Film For Theatres" que se inicia como um típico anúncio do gênero "Let's Go To The Lobby" (anúncio exibido principalmente em dreive-ins que motivava a platéia para consumir os produtos da bombonière) e que se desenvolve no mais brilhante bravado pró-cinema já realizado. Se todos os filmes do Cinemark pudessem ser precedidos por esse anúncio, a solidariedade humana se estenderia a níveis tais que o aquecimento global se suicidaria. Link aqui.
  Bernardo Krivochein    quinta-feira, julho 19, 2007    0 comentários
 
 


Sobre "Transformers"

Espero que você vá assistir "Transformers" (não precisa ser imediatamente - evite os cinemas lotados e aproveite a oportunidade rara de se assistir a um filme de Jia Zhang-ke nos cinemas brasileiros, já que "Em Busca da Vida", conhecido como o campeão do Leão de Ouro em Veneza "Still Life", tem previsão de estréia para essa sexta-feira; além do mais, com o caso do vôo da TAM, a estréia de "Transformers" se tornou um tanto inadequada, já que aviões caem a torto e a direito no filme, prédios são invadidos por veículos, destruição a la Bay, etc.), depois leia o que tentei elaborar em cima dele e que não pareça tão absurdo. Já fiz algumas correções a posteriori em cima do texto, mas fiquei com vontade de elaborar uma nota em cima de algo que nele escrevi, mas que se incluído ao texto, o estenderia ainda mais e desnecessariamente. Quando eu pedir a opinião dos leitores (que espero que ainda existam) em cima da questão, não é para pedir atenção, mas eu realmente gostaria de incitar um debate. O trecho que retiro do meu próprio texto é um tanto ríspido e pode causar fúria nos mais puristas, daí minha necessidade de me clarificar:

"É em diretores como Tim Story, Brett Ratner e Michael Bay, que sabem que estão lidando acima de tudo com produtos caros (filme-cinema e filme-além-cinema) e admitem isso ao público através da linguagem fílmica impessoal que adotam, que o público encontrará o verdadeiro cinema."

O "Cinema" ao qual me refiro no texto é o cinema pós-moderno contemporâneo industrial. Se eu falo que Bay, Ratner e Story são os verdadeiros gênios desse ramo de cinema, é sem a menor ironia. Está mais do que na hora das pessoas compreenderem que, na mesma medida em que multiplexes e cinemas de arte selecionam o que exibirão, o Cinema não é uma matéria única que respeita uma série de regras cristalizadas de qualidade (no sentido estético-narrativo, de nutrição intelectual, e não qualidade técnica). Há uma separação que o público e o pensamento crítico cinematográfico faz sem hesitar, entre o filme comercial e o filme de "qualidade", mas os parâmetros de avaliação entre os dois mantém-se os mesmos, como os métodos das produções (tanto no sentido da realização como no do impulso ao seu financiamento) de ambos os "gêneros" de filmes respeitassem a mesma filosofia.

Não que a obra de Bay, Ratner e Story até agora não justificasse o desprezo (pseudo) intelectual do qual eles são vítimas. Mas esse desprezo se tornou um lugar-comum, um clichê, um coringa conversacional para aquele cinéfilo pretensioso mostrar que seu gosto é refinado e respeitável, mesmo embora a única cinematografia que consuma sejam os filmes hollywoodianos populares e os grandes e cansados clássicos consagrados - esses últimos muito mais citados do que vistos de fato. Nessa separação feita entre um, digamos, Francis Ford Coppola e um Adam McKay, ele tenta estabelecer a tese de que, dentro do cinema comercial de adaptações de quadrinhos e "O Orangotango Radical", possa existir "arte" - tese que só serve para que ele se justifique a continuar consumindo o cinema americano - que é o único que lhe interessa consumir, pois essa parada de filme chinês que não vem com o aval do graaaaaande Tarantino (Putz, meu! Ele é fôuda, meu! Muito fôuda!) e não tenha chinês voando ou esbofeteando chinês, é muito chato - pois é o cinema mais fácil de compreender, é o que ele está mais acostumado, é o que tem o estilo de vida com o qual ele mais espelha suas ambições para sua prórpia vida (porque o bom na vida é ir numa festa de Halloween lá no Tênis Clube e encher o cu de Sidra Cereser: Iu-És-Ei! Iu-És-Ei!), é o que tem aquele ator loiro com o qual eu - de cabelo crespinho, crespinho - sou parecido e, convenhamos, é o que é mais tecnicamente impecável, tem mais ação, mais explosões, mais espetáculo, mais dinheiro. Só faltando o aval intelectual, inventam-se os Scorseses, os Coppolas, os Eastwoods, integrados ao grande sistema hollywoodiano e assim o embasando.

E não me entendam errado, os diretores citados fizeram (e talvez ainda façam) cinema de verdadeiramente artístico (arte no sentido "aristocrática e seletiva nos efeitos sobre o público" - Tarkovski). Mas para padrões do cinema pós-moderno industrial, para o padrão hollywoodiano portanto, eles são anomalias. Como os grandes diretores contemporâneos internacionais (e aí a gente cita uma cambada de nomes possíveis: Tsai Ming Liang, Hou Hsiao Hsien ou até Johnny To se quisermos manter a vibração China/Taiwan, poderíamos estender para Aoyama, Miike, Weerasethakul, Sang-soo, Ji-woon, Joon-ho - esses dois prontos inclusives para serem assimilados - Sissako, Costa, Denis, muitos mais ainda), se colocados frente ao grande demônio devorador norte-americano são estranhos. Não se pode dizer que, para os padrões determinados pela indústria hollywoodiana, os filmes dos indivíduos citados no parênteses sejam bons. As exigências prioritárias do filme hollywoodiano são completamente mercadológicas. Cito um trecho da crítica de "O Hospedeiro" feita por Kleber Mendonça Filho em seu site Cinemascópio:

"Longe dos multiplexes ocupados com os terceiros capítulos já bem cansados de Homem Aranha, Piratas do Caribe e Shrek que, com tanta garantia de exposição não se dão nem ao luxo de prestar, esse filme sensacional talvez mereça ser descoberto por espectadores com um gosto pelo fantástico."

E contraponho com as considerações de Andrei Tarkovski no texto "O autor em busca de um público" (publicado no livro "Esculpir o Tempo", Ed. Martins Fontes):

"Portanto, como produto, um filme faz sucesso ou fracassa, e, por mais paradoxal que pareça, o seu valor estético é determinado pelas leis de oferta e procura - por leis de mercado."

Mais adiante no mesmo texto, Tarkovski parte para defender a unicidade da visão do artista que não se permite ser rendido pelas exigências de mercado e do público para que sua obra seja mais acessível, mais palatável - reclamação número um do cinéfilo que estamos abordando ao desgostar de um filme: a obscuridade de sua lógica. Esse gênero de filosofia - que Tarkovski generaliza para toda e qualquer obra cinematográfica - pertence ao pensamento intelectual cinematográfico que exige do formato uma expressão artística mais potente. E qualquer cinema que desafie o espectador, é rejeitado pelo grupo de espectadores. Logo, o filme geralmente tido como realmente artístico nunca é o filme hollywoodiano, de grande apelo e fácil compreensão.

Assim sendo, os grandes artistas cinematográficos pós-modernos contemporâneos industriais são sim Bay, Story, Ratner que não dirigem filmes hollywoodianos; eles administram filmes hollywoodianos. Dentro da indústria a qual se prestam, eles correspondem aos padrões de qualidade, ou aos padrões que aquele círculo compreende como arte. Todos os filmes que dirigem são definitivamente bons até o momento que realmente começam frente aos olhos do espectador - pois foram eficientes o bastante para conduzir as massas até a bilheteria.

Sim, é um pensamento nefasto e capitalista. Mas espere um pouco: quem está fazendo filmes populares, mas sem a qualidade necessária para vender McLanches Felizes, bonecos, ou sequer DVDS? Alguém comprou o boneco comemorativo de Bruce Willis em "Armageddon" ou do Nicolas Cage em "A Rocha"? Não, porque ou os filmes não eram bons ou não eram memoráveis. Os filmes de Bay encerram em si mesmos um padrão de consumo. A qualidade artística cinematográfica atribuída a "O Senhor dos Anéis", "O Poderoso Chefão" ou até "Homem-Aranha" só serve para justamente perpetuá-lo (bonecos, box sets de DVDs, videogames muito ruins...). Aqui, nós temos a grande subversão que faz os filmes de Bay alcançarem a graça dentro do pensamento intelectual cinematográfico (de verdadeiros filmólogos, não de cinéfilo de shopping) - a linguagem publicitária que nada vende: apenas esteticiza a imagem cinematográfica hollywoodiana que, sem um produto em foco, acusa o seu deserto. Não é algo para se apreciar per se, mas que se evidencia, interessante para olhares mais aprofundados, interessados e, claro, menos preconceituosos.

Claro que a questão é paradoxal: aqui estou eu acusando os cinéfilos ocasionais que defendem os méritos artísticos de Hollywood através da exaltação teórica do diretor que mais a sintetiza. Não cabe a mim dizer se Michael Bay é arte - tanto que eu não o fiz. Quase, mas não fiz. O que devemos estudar é a forma como Bay e seus comparsas, tendo acesso a tantos milhões de dólares e se associando a projetos de grande interesse do grande público, são rejeitados justamente por grande porcentagem do público que o freqüenta fielmente. A necessidade que as pessoas precisam ser levadas a sério (coisa da carência fodida de brasileiro, que precisa ser aceito pelo maior número de pessoas possíveis - uma geração que "gosta de tudo", mas na verdade sem gosto definido, com medo de ser segregada por alguém atraente) as conduz para um estado de esquizofrenia: assistem a Michael Bay sem poder admitir que o apreciam, com medo do policiamento intelectual que assombra e julga. Será apenas quando admitirmos que não há possibilidade de arte em Hollywood, é que poderemos enxergar em quê a arte de Hollywood se consiste.
  Bernardo Krivochein    quarta-feira, julho 18, 2007    8 comentários
 
 



Sessão Pedrada Interativa #1

Escrever merda é muito engraçado - o que eu faço automaticamente quando eu estou cagando para um filme "x" ou toda a carga de referências que ele traz consigo. Diverte-me quando o pretenso intelectual educado nas melhores escolas de pensamento se ofende com a forma vulgar e idiota que eu dispenso seu adorado "Les Anges Exterminateurs" (aquela continuação não admitida de "Emanuelle" - e ela não estava no espaço, de qualquer jeito?) ou com os nerds, que se acham escolhidos pelo dedo divino da Marvel, putos da vida porque eu chamo Dr. Destino de variante vulgar de Darth Vader mesmo embora seja óbvio para todos que a gênese do primeiro antecede em mais de uma década o segundo (mas eu só respeito a hierarquia cinematográfica, senão eu escreveria sobre quadrinhos para a SET ou a Omelete - e alguém ainda acha que foi Tim Story que dirigiu realmente aquela porra?) - ambos os públicos diferenciados, especiais, vociferando da mesma forma cheia de expletivos e palavreados que fariam sua mãe enrubescer. Eu me revelo sempre o idiota que nunca neguei ser, eles se revelam os idiotas que tentam fingir desesperadamente que não são. São todos iguais a mim.

Esse experimento então vai nos libertar todos. O espaço está aberto para que eu seja atingido dentro do meu próprio ambiente (do qual eu não sou dono e não comando). Já tivemos argumentações polidas e comportadas anteriormente no campo de comentários, mas dentro da "Sessão Pedrada" eu quero sangue, ofensas, eu quero que você solte aquele nó que eu te deixei na garganta quando eu falei AQUELA merda DAQUELE filme. A opção de anonimato é válida e justa. Promovo então transformar o campo de Comentários deste post na nossa pequena Cúpula do Trovão e provoco a primeira briga:

Que filme que eu te encorajei a assistir e você achou uma completa e perfeita merda? (com justificativa e profanações, por favor)

Este post tem prazo de validade (ou seja, com participação minha) até 19 de julho.
  Bernardo Krivochein    segunda-feira, julho 16, 2007    5 comentários
 
 


A Minha Experiência Inesquecível de Cinema-Poeira

Para ser completamente sincero, sempre tive problemas com a idéia de "Grindhouse" sendo exibido em multiplexes do gênero Cinemark, UCI, etc. O projeto de Tarantino/Rodriguez é - ou era, já que fracassou (nota: "Death Proof", elogiadíssimo em Cannes, estreou em circuito comercial na França e, assim como o "combo" nos EUA, fracassou retumbantemente nas bilheterias) - uma homenagem aos filmes exploitation de toda sorte; filmes que não passam nem perto dos shoppings convenientemente localizados e guardados da violência urbana externa, filmes que seriam - e são - dispensados sem hesitação tanto por essas mesmas cadeias que o acolheriam quanto pelo publicozinho classe-média-alta bem nutrido metido a cult, batendo ponto na praça de alimentação. O projeto "Grindhouse" foi um fracasso principalmente porque os irmãos Weinstein barraram sua exibição em autênticos cinemas "grindhouses", como foi o caso em Washington à época do lançamento. Fez o filme parecer um simulacro meio vazio movido por uma nostalgia geek, mas direcionado a uma geração que sequer pôs meio pé num desses abandonados e ameaçadores cinemas de rua.

Era supreendente, em algumas viagens que eu fazia quando criança, notar que até as cidades de interior mais humildes tinham cinemas em seus centros - e cinemas que exibiam filmes que não chegavam às metrópoles: filmes de kung-fu da Condor Filmes ou, mais recentemente, filmes de ação estrelados por Gary Daniels, Don "The Dragon" Wilson e Daniel Bernhardt, aparentemente grandes astros naquelas regiões, a fachada dos cinemas decoradas com enormes cartazes pintados à mão. Eu só reencontraria esses filmes muitos meses depois, desovados sem o menor alarde nas prateleiras das videolocadoras. As pessoas os ignoravam, tomando-os como apenas actionexpoloitations genéricos, mas eu agora sabia de sua fama secreta. Cinéfilo brasileiro acaba sendo muito doutrinado pela cultura pop norte-americana e acaba lendo muito sobre esses sucessos underground de filmes de drive-in, grindhouses, sexploitations, etc. lastimando que essa cultura não existiu por aqui. A idéia de que tínhamos algo do gênero no Brasil - essas novas espécies de grindhouse que faziam sucesso fora das capitais - e ter testemunhado isso me diverte. Quem sabe com a Internet se democratizando, aumentem os testemunhos sobre esses "blockbusters de um bairro só".

Pude ter a experiência de freqüentar vários cinemas-poeira na minha infância e pré-adolescência (porém, na maioria das vezes para assistir a reprises de filmes de circuito, americanos, normais, com meu pai, o senhor Márcio Krivochein, nas quartas-feiras de meia-entrada), esses cinemas existiam praticamente por todos os bairros do Rio de Janeiro, mas a mais insólita de todas aconteceu num domingo sem nada para fazer. Estava eu, passando mais um feriado na casa da minha avó no agora já famoso e eternamente quente Cachambi, quando minha mãe resolveu aparecer para fazer um agrado e me levar, junto com minha prima mais velha e meu irmão mais novo, para assistir a um filme. Ir ao cinema, nessa época, já era um costume para mim e eu já tinha aniquilado todos os grandes filmes em circuito. Pesquisando o jornal em busca não somente de um filme como de um cinema naquela área, concordamos assistir a um filme cuja sinopse muito me instigara na coluna de "Reprises":

"Warlock - O Demônio" no Bruni Méier. Sessão das 17h.

Aprontamo-nos e seguimos para o Méier no Ford Verona novo de mamãe. A altura do Méier onde então os cinemas se encontravam (o Paratodos e o Bruni Méier) tem o corredor da linha do trem (isolada por cercas altas e atravessada por passarelas para pedestres) dividindo as mãos da avenida feito uma faixa intermediária, repleto de postes e cabos de eletricidade expostos e emaranhados. Eu me lembro de poder ver sempre as fachadas do cinema lá do outro lado - que até então eu nunca atravessara. A fachada art déco do Paratodos já na minha infância era decadente, imunda, mas o cinema era freqüentado sem preconceitos - inclusive recebendo lançamentos cinematográficos esperados ("Minha Noiva É Uma Extraterrestre" com Kim Basinger e Dan Aykroyd? ENORME sucesso no Paratodos). Já o Bruni Méier tinha uma fachada de metal alta, enferrujada, retorcida e faltando pedaços, cobrindo a arquitetura original, os letreiros imantados anunciavam os filmes e as sessões sem alarde e com fontes plásticas vermelhas antigas. O cinema tinha cara de ter sido há muito tempo abandonado pelo público e o ponto, apesar de não muito distante do Paratodos, estava se tornando bem ruim. Estacionarteria sido um pesadelo se o comércio não estivesse fechado. Para mim, o Bruni Méier teria de servir como olimpo - pelo menos por um domingo.

Pegamos nossos ingressos na fenda da parede que a gerência chamava de bilheteria - eu realmente não me lembro se havia de fato uma pessoa lá dentro - e adentramos a antesala deserta e um pouco ameaçadora, decorada com cartazes de filmes até conhecidos, mas carregando dobras de outras exposições. A antesala tinha o chão - e acho que também as paredes - de ladrilho plástico cinza com efeito marmorizado. Não sei porque me lembro disso. Deve ser porque, no final das contas, a sala cumpria seu dever de causar uma impressão metálica, através desse piso e das esquadrias de alumínio fazendo as vezes de rodapé. Esperando nossa sessão, entrávamos e saíamos da sala de exibição para ver se o filme tinha terminado e - nos achando espertos - pegar "dicas" do que aconteceria na história. As primeiras imagens de "Warlock" na minha vida foram a de sua seqüência final no cemitério - que fazia do filme promissor para mim - e da personagem de Lori Singer enterrando "algo" num deserto - que me deixara intrigado em descobrir o por quê. Agora, eu REALMENTE queria ver o filme.

Menos de dez pessoas. Acho que dois casais - bem separados - e nós. Meu irmão e eu, as únicas crianças no recinto. Minha prima e minha mãe, as mulheres indefesas, um pouco tensas. O filme começou e tinha aquelas legendas de fonte ainda meio quadrada anunciando a primeira encarnação o título brasileiro do filme: "Warlock - O Demônio Também Tem Filhos". Julian Sands era ameaçador e do caralho. Eu engasguei quando ele decepou o dedo do companheiro de quarto da protagonista e lhe sugou os olhos. Era a primeira vez que eu tinha visto aquilo. Se eu erro a mão no sal até hoje é por causa dele. Richard E. Grant nunca esteve tão mais foda - eu fiquei obcecado pelo herói Redferne. O filme tinha pose de superprodução (aquela seqüência inicial para mim era coisa de milhões de dólares, assim como a seqüência na fazenda) e eu não entendia porque qualquer cinema que o exibisse ficaria vazio.

"Um rato!", gritou um casal da frente. Aliás, eles nem devem ter gritado tão alto assim. O som do filme parecia estar sendo projetado de dentro de uma caverna.

Todas as mulheres gritaram. Minha prima mandou que sentássemos com os pés nas poltronas de courino já rasgado, abraçando os nossos joelhos. E assim assistimos "Warlock" até o final: com medo de sermos mordidos por ratos, todos com medo de serem atacados por alguém, todos no cinema desacreditando o filme. Quando o esperado final chegou - o confronto no cemitério que pode ter ou não seu solo consagrado - as tumbas de papelão do cenário caíam com os sopros do ventilador e o tecido imitando grama se enrugava com os passos. Minha prima, meu irmão e eu comentávamos ao pé do ouvido se o outro tinha visto aquilo. Cinema-poeira é um ambiente perigoso pelo somatório da localização, estrutura, ambiente e filme programado. "Warlock" acabou, as luzes se acenderam e estávamos fisicamente íntegros. A sensação de satisfação era alguns graus mais intensa: não era apenas a de se ter assistido a um bom filme, mas a de ter sobrevivido ao Bruni Méier. Comentamos com os nossos amigos de volta ao Cachambi o quanto o filme era até bom, mas meio vagabundo. E que no meio do filme, um rato adentrou o cinema.

"Warlock" é um dos meus filmes preferidos: o assisti em VHS várias vezes e pude constatar sua eficiência, sua criatividade e, acima de tudo, sua tenacidade em continuar com idéias maiores e mais ousadas mesmo que seu orçamento insista no contrário. Mas é claro que, se eu o reassisti várias vezes, foi com a lembrança de, talvez, a sessão de cinema mais divertida e errada da minha vida. Não estou idealizando a situação: o cinema era pequeno, desconfortável, horroroso, mas por uma hora e meia, tudo isso foi colocado a serviço de uma experiência única, incomparável e prazerosa. Pude descobrir um filme e pude descobrir um cinema. E ambos se potencializavam. Todo filme se beneficia da ambiência em que ele é exibido e, por mais conveniente que sejam os novos métodos e formatos de se assistir a um filme, é triste ter perdido isso. Mas não culpe os DVDs e os downloads: culpe o fechamento dos cinemas de rua, as barreiras alfandegárias que impedem mais filmes de chegarem em territórios brasileiros, e culpe o elitismo fascista dos multiplexes.
  Bernardo Krivochein    quarta-feira, julho 04, 2007    8 comentários
 
 
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