blogINDIE 2006



Museu dos corações partidos

Roland Barthes escreveu em seu livro "Fragmentos de um discurso amoroso": Dois poderosos mitos fizeram-nos acreditar que o amor podia, devia sublimar-se em criação estética: o mito socrático (amar serve para criar uma multidão de belos e magníficos discursos) e o mito romântico (produzirei uma obra imortal escrevendo a minha paixão).
Que o amor, ou mais ainda a sua perda, serve para criar discursos verbais ou visuais já sabíamos. Mas de maneira inédita, o amor origina um museu. The Museum of Broken Relantionships ou em bom português ( traduzido da matéria da Der Spiegel,leia aqui tradução da Folha Online) como o Museu dos Relacionamentos Fracassados.

Em cartaz num prédio velho na Berlim Oriental, este museu poderia ser muito bem confundido com um mercado de pulgas onde o passado se apresenta em pedaços, em cacarecos, (objetos esquecidos, deixados, dados ao outro, por ele bem lembrado). Ready made dos infernos pessoais, cada objeto conta a história de um relacionamento de seu ex-dono. Os organizadores do museu itinerante que começou de maneira curiosa na Croácia pedem que as pessoas de cada lugar doem seus objetos e suas narrativas a respeito.

"Zvnonimir Dobrovic (quem está organizando a exposição em Berlim) explica que a idéia nasceu quando dois artistas de Zagreb, Olinka Vistica e Drazen Grubisic, romperam e quiseram fazer algo criativo com os vestígios de seu relacionamento. "Eles reuniram todos seus objetos e depois pediram os dos amigos", explica. "A imprensa interessou-se e as pessoas começaram a doar itens."Logo, os artistas tinham um trailer cheio de objetos, e o Museu de Relacionamentos Fracassados nasceu."

Que graça será que tem ver um antigo vestido de noiva, uma cafeteira, um machado ou algemas de pelúcia rosa? Talvez aquilo que não está visível nos objetos da Praça Benedito Calixto em São Paulo, ou no mercado de pulgas de nenhuma cidade, sejam as pequenas narrativas que acompanham cada objeto. Se este está no lugar de uma dor, de uma lembrança que não quer se apagar, vá lá e o transforme em algo simbólico? Como as seguintes anotações, a partir de uma prótese que está no Museu:

PRÓTESE - Zagreb, 1992: Em um hospital de Zagreb conheci uma assistente social bela, jovem e ambiciosa do Ministério da Defesa. Quando ela me ajudou a conseguir certos materiais que eu precisava para minha prótese, pois era inválido de guerra, o amor nasceu. O membro protético durou mais do que nosso amor. Era feito de material melhor!

Há um site do Museu, para quem quiser, nesta era pós-objetos, decifrar:http://www.brokenships.com/
  Francesca Azzi    sexta-feira, outubro 26, 2007    0 comentários
 
 


Além da Cúpula do Trovão

Uns com tanto, outros com tão pouco. É como se Leon Cakoff resentisse a presença e atenção da crítica cinematográfica nacional em sua Mostra Internacional de Cinema de SP em seu artigo, "Não cabe à crítica querer educar o cinema" (até entendo a mágoa de ter um convidado meio ignorado pela imprensa - e um pelo qual Cakoff nutre evidente afeto - mas será que alguém é OBRIGADO a gostar de Claude Lelouch e a concordar com a grandeza que Cakoff o atribui?). Eu estava dando mortais de costas de alegria quando descobri que haviam bons sites fazendo cobertura do Indie 2007, não pela publicidade, mas porque discutiam e se interessavam pelos filmes que acreditamos tanto ao ponto de programá-los - na realidade, eu queria até mais publicações (pensando em arriscar escala nacional, global, etc.) Mas se eu acredito em "The Other Half" de Ying Liang e programo na minha mostra, é meu dever deixar que as pessoas pensem dele o que quiserem (ainda que eu tenha ousado em recomendá-lo - tinha medo de que um filme tão cultuado na vanguarda independente mundial pudesse ser engolido na enxurrada do catálogo).

É. Chegamos àquela famigerada época do ano em que os indivíduos engalfinham-se no debate crítica: presta ou não presta. Dê uma passada agora no blog da Folha Ilustrada no Cinema e veja o arranca-rabo no post evocativamente intitulado: "A crítica de cinema está em crise?"

A democratização da e-publicação cinematográfica não pode ser em nenhum momento confundida com democratização da crítica cinematográfica. A primeira é empreendimento, a segunda é mentalidade. Com o acesso praticamente desimpedido a inúmeras cinematografias inéditas, é mais correto dizer que a crítica, mais do que nunca, elitizou-se. E isso não é precisamente uma coisa ruim. Irrita, irrita muito, mas não é ruim. Se o tom de alguns textos podem ser interpretados como arrogantes (um retorno a uma típica verborragia rebuscada que pretende convencer pelo soterramento em palavras - nisso, eu até entendo o reclame de Cakoff, especialmente no que se refere às "desconsideraçõe excludentes", as quais já utilizei para acabar com os conceitos bolorentos de "cinéfilos" e "críticos"), no conteúdo podemos perceber um número de referências muito mais rico como a teoria cinematográfica brasileira extremamente carente jamais pôde usufruir. Resposta: a crítica de cinema não está em crise, como bem já diagnostica Leonardo Cruz (o repórter autor do post em questão). Ela, inclusive, está mais saudável do que nunca - e o debate cinematográfico na mídia (eletrônica, pelo menos) nunca foi tão estimulante, atualizado, inteligente e (palavra em efeito aqui) acessível quanto agora. O crítico fala em Naomi Kawase, Stephen Dwoskin ou Hugo Vieira da Silva, o espectador em dois cliques já não está mais boiando no debate. Isso é menos democratização, porque não se trata de um "nivelar por baixo" - o público, mais do que nunca, é convidado a pesquisar mais, conhecer mais; trata-se de uma especialização voluntária. O que está em crise são duas coisas:

1) a ilusão de grandeza de alguns críticos da velha-guarda que se vêem dispensados de sua função como guardiões do bom gosto, como muito bem aponta Cássio Starling Carlos na réplica "Cabe a crítica dividir o amor ao cinema".

2) a relação do público com a crítica, no qual o primeiro acostumou-se a ser ditado sobre o que gostar/não gostar pela segunda e acostumou-se a implicar com a arrogância da mesma. Aí, Starling Carlos engana-se quando, debatendo o texto de Cakoff, declara que:

"Tal tipo de acusação reproduz o estereótipo que separa os filmes entre 'os que a crítica aprova, e o público detesta' e 'os que o público adora, e os críticos odeiam'. Tal separação, quando radicalizada, leva a supor que, de um lado, os críticos só escrevem para eles e que, de outro, o público não se interessa pela opinião da crítica."

Bem, o estereótipo existe e está em pleno vigor. Para isso, basta ler a seção de comentários do post no blog mencionado. O público exige que a crítica cumpra seu serviço público de indicar filmes bons (onde "bom" é sinônimo de agradar ao grande público), coisa que ela não faz (às vezes porque os filmes de grande público são vulgares mesmo, outras vezes porque o crítico só está sendo implicante e precisa destacar sua autoridade intelectual da massa; os dois casos são clássicos) pois, impressa num jornal, essa é sua função, mas, por definição, não é sua essência. Da mesma maneira que é fácil para o crítico-imperador dar polegares para cima ou para baixo para os filmes sem que sua autoridade seja debatida, é muito mais cômodo para o público reduzir a crítica a essa função básica, aquiescendo quando ela corresponde ao seu gosto pessoal e rejeitando-a no caso contrário, do que interpretar a crítica como oportunidade de debate. Se muito se reclama da arbitrariedade das cotações utilizadas nas críticas de jornal (como um dos comentários acusa), a culpa é tanto de críticos arrogantes quanto do público que as buscam pela conveniência que apresentam. Agluns querem ditar o bom gosto, outros estão receptivos a essa ditadura.

Insisto na Filmologia, que prevê um relacionamento muito mais saudável não apenas com o filme-objeto de interesse, mas também com a "minha" recepção das resenhas de terceiros. Um método que devolve o debate aos filmes e não à sua adjetivação vazia, que rende essas tolices. Como o engalfinhamento se dá entre "crítica" e "cinéfilos", facções criminosas já desditas aqui várias vezes, posicionemo-nos dehors dessa porra, vendo os filmes, analisando-os, aproveitando-os, refletindo-os, debatendo-os. Mas que eu vou escrever sobre "The Other Half", agora que o Indie acabou, claro que vou.


ADENDO: Abordando o lançamento de "Dias de Paraíso" pela Criterion Collection, Elbert Ventura na Reverse Shot, faz esse curioso, incômodo, pertinente comentário:


"Por mais que eu ame assistir 'Dias de Paraíso', eu abomino ter que escrever sobre ele. A experiência de ver a obra-prima de Terrence Malick invariavelmente me deixa pasmo e surpreendido, e baba-ovismo não é crítica."


Eu meio que tinha falado na crítica de "As Testemunhas" como a palavra "crítica" é carregada de uma negatividade que a impede de avaliar positivamente um filme. A crítica não é capaz de evidenciar o potencial de um filme só, mas é capaz, quando honesta, de evidenciar o potencial do cinema como um todo. Por que não arriscar em ensaiar o ardor que se sente por um filme?
  Bernardo Krivochein    quinta-feira, outubro 25, 2007    3 comentários
 
 



Algumas razões ainda para ver as Maletas de Tulse Luper

Num post anterior comentei aqui o quanto este projeto de Peter Greenaway "The Tulse Luper Suitcases" que está na programação do VideoBrasil era pouco inédito. Desde 2002/2003, Greenaway vem exibindo os produtos deste mega projeto que se constitui de 3 filmes longas, um website (que já concorreu e ganhou o Fluxus em 2003), CD-ROMs (isto ainda existe?), mais de 90 DVDs, e ainda Live Images e exposição dos objetos, e das maletas. O Bernardo escreveu uma crítica de um dos filmes em 2003, no site da Zeta Filmes e que eu relendo hoje, encontrei as mesmas sensações na exposição das Maletas.

As maletas são lindas, antigas, bem montadas e cheias de referências. Esta coleção de objetos antigos, misturados a projeções e um clima retrô, século 19, faz você se sentir imerso na própria cenografia de Greenaway. Cada maleta inspira uma associação psicanalítica, todos os vícios, virtudes e fetiches do homem inglês estão ali: de brinquedos a filmes pornôs, da mala de mel aos figos verdes, as rosas murchas a lingeries do passado. Objetos (100 objetos que explicariam o mundo) que contam muito mais do que uma história, apelam para sensações olfativas e para associações nada banais.

O que, no entanto, complica um pouco esta interpretação é o excesso. Greenaway ( como aponta a crítica do Bernardo) tem uma ânsia de querer falar de tudo, contar uma história completa da humanidade, que quase beira a ansiedade fálica, do homem fantasiosamente "completo" que exibe nenhuma repressão. Nesta ânsia pela completude, expõe uma certa infantilidade, como o menino que se esbalda no melado, sonha com mulheres de liga e acha que o cinema é pouco para tanta diversão. Greenaway assim age como um meninão que ainda não recebeu a devida repressão paterna. O que acontece é que o excesso das malas acabam por interferir num significado melhor ( no sentido de mais precisamente ambíguo) para tudo aquilo. Roberto, que estava comigo, comentou que se fosse apenas 1 mala daquelas, deslocadas dali, teria outro peso... Um mala apenas e não 30? Uma parte pelo todo, teríamos uma metáfora mais pungente.

A exposição fica em cartaz até dia 25 de outubro, (esta quinta-feira!), no SESC da Av. Paulista e caso você esteja em São Paulo, de qualquer maneira, vale muito a pena uma visita.
  Francesca Azzi    terça-feira, outubro 23, 2007    0 comentários
 
 


Re-Curadoria: Festival do Rio 2007

1.
INLAND EMPIRE, David Lynch
Syndromes And A Century, Apichatpong Weerasethakul
Woman On The Beach, Hong Sang-soo

2.
Sicko, Michael Moore
Manufacturing Dissent, Debbie Melnyk/Rick Caine
Interview, Steve Buscemi

3.
Les Témoins, Andre Techiné
Paranoid Park, Gus Van Sant
Ciudad en Celo, Hernán Gaffet
Le Scaphandre et le Papillon, Julian Schnabel

4.
Le Scaphandre et le Papillon, Julian Schnabel
L'Âge des Tenèbres, Denys Arcand
Cashback, Sean Ellis
The Science of Sleep, Michel Gondry

5.
La Vieille Maîtresse, Catherine Breillat
Ne Touchez Pas La Hâche, Jacques Rivette
Lady Chatterley, Pascale Ferran

6.
Mogari no Mori, Naomi Kawase
Paranoid Park, Gus Van Sant
Syndromes and a Century, Apichatpong Weerasethakul
Stellet licht, Carlos Reygadas
I Don't Want To Sleep Alone, Tsai Ming-liang

Legenda:

1. Narrativa Pósmoderna/Bifurcação-Sobreposição-Autoreflexão

2. Irreconcialibilidade entre Mídia, Público e Objeto de Reportagem

3. Inspirações para escrita/Escritas inspiradas (?)

4. Imaginação: bote salva-vidas/inimiga da humanidade

5. Filme de Época é Palha e Cocô de Cavalo... até que os cineastas mais arriscados fazem os seus

6. Cinema e espectador: redefinindo a relação
  Bernardo Krivochein    domingo, outubro 21, 2007    0 comentários
 
 



Banimento e Onipresença

Um dos filmes mais instigantes do ano só pode ser visto graças à Internet

Fala-se muito - e despreza-se muito - da distribuição cinematográfica digital mais como vilã do que ferramenta conveniente, uma vez que ela atropelaria o processo de cura da espera, banalizaria o filme com seu acesso garantido, assassinaria a aura de antecipação e o artesanato característico do formato de película. Sente-se falta da censura, do guarda de fronteira ditando o que podemos ou não assistir, da angústia de para sempre perder um filme. Esse risco não foi extinto, embora realmente tenha diminuído. Podemos compreender sim toda a aura que envolve a exibição de um filme aguardado nos cinemas, mas sofremos muito mais com a desigualdade cultural que impede que os filmes possam ser vistos por todos os interessados distribuídos pelo território nacional. Tenta-se transformar os filmes em itens de colecionador, onde os elogios dispensados a uma obra de difícil acesso carregam um tanto de desejo de humilhar aqueles que não puderam assisti-la, uma brincadeira infantil de "Eu vi! Você não viu!" Muitos ataques à experiência de se assistir a um filme baixado (no caso daqueles que não aportaram por aqui nem em festivais ou em DVDs - os casos são incontáveis, e não se espera que as distribuidoras brasileiras possam dar conta de todos os títulos, especialmente quando se tratam de casos com pouca possibilidade de lucro) são frutos do medo de que o espectador perceba que toda a argumentação teórica sustente-se muito pouco na experiência empírica.

Mas é fato que o acesso praticamente livre a cinematografias do mundo inteiro só veio a piorar o sentimento de sobrecarga, de enxurrada cinematográfica. Existem muitos cinemas, muitos filmes de interesse nesses cinemas e pouco tempo para esmiuçá-los, refleti-los. Precisamos ficar a par de cinematografias antes inacessíveis, dadas até como inexistentes e outras nascentes, emergentes. Percebemos as lacunas da teoria cinematográfica nacional, que escreveu livros e mais livros sem jamais ter acesso à obras fundamentais, a inadequação dos nossos melhores. Se multiplicam-se publicações sobre cinema exatamente na mesma internet que assoberba-nos de filmes, é justamente porque se fazem necessários guias para indicar-nos os títulos de maior interesse nesse catálogo infinito (e cada leitor deve encontrar uma publicação com a qual mais se identifique, daí a necessidade de existirem cada vez mais e melhores revistas eletrônicas - surpreende inclusive a qualidade de publicações onde não existem um movimento de cinema de arte expressivo).

"Though I Am Gone" é um potente documentário dirigido pelo cineasta independente Hu Jie. Nele, o documentarista acompanha a impressionante forma como Wang Jingyao registrou o falecimento de sua esposa Bian Zhongyun, professora do ensino médio em uma escola de elite que foi vítima de espancamento por alunas de sua própria classe, fanáticas da Guarda Vermelha, durante o "Agosto Sangrento" de 1966 (apenas uma das 3 milhões de vítimas da Revolução Cultural na China). As alunas eram filhas de funcionários de alto escalão do Partido Comunista, alguns deles ainda no poder. Como se liderasse uma investigação forense, "Though I Am Gone" mostra como o viúvo e filha de Bian Zhongyun mantiveram o cadáver após seu falecimento, banhando-o e limpando-o. Wang Jingyao comprara uma câmera fotográfica após a morte e com ela, ao registrar as evidências que cercam seu assassinato, acidentalmente constrói um dos documentos mais historicamente importantes dessa era.

Que o filme se faz disponível apenas pelo You Tube, perdido no meio da orgia de pequenos vídeo-piadas e outras inutilidades, vem, no entanto, a calhar. A mera escalação de "Though I Am Gone" na programação do Festival Visual Multicultural que seria realizado na pequena província de Yunnan incomodou tanto o governo que o levou não apenas a banir o filme, como também a cancelar o evento na íntegra. Hu Jie não se fez de rogado e, partindo em 10 pedaços, disponibilizou o documentário de pouco mais de uma hora na Internet. O caso ganhou a mídia internacional e causou sensação especialmente na Europa.

O que nos leva a refletir esses novos meios que acreditamos comuns, sem valor. Sim, a última coisa que viria na cabeça de alguém que busca qualidade de imagem e som, além do fator concentração durante a sessão, é o You Tube (eu mesmo vi o filme na íntegra depois de várias e largas pausas, sem a imersão que normalmente procuro ao assistir a um filme - ainda me impactou, no entanto), mas nessa era em que se dá o digital como livre e fácil acesso, devemos lembrar que até mesmo o You Tube é banido por completo na Tailândia - além de fatores econômicos e sociais óbvios em vários outros países que atendem ao discurso-clichê. Talvez não funcione muito como sala de exibição, é verdade, mas a Internet torna-se palco de algo muito maior e urgente em casos como o de "Though I Am Gone" - um drible no autoritarismo, na censura e nas políticas de mercado exibidor. Sem contar que é somente graças a ela é que podemos ter conhecimento de um filme, honestamente, bom pra caralho. Os filmólogos agradecem.

Though I Am Gone no You Tube
Reportagem em inglês no Der Spiegel
  Bernardo Krivochein    domingo, outubro 21, 2007    3 comentários
 
 



Prefiro Manhattan na tevê do que filas no Arteplex

São Paulo é uma cidade cansativa. Tudo é longe, é caro e demorado, e cheio de gente pra todos os lados. A palavra de ordem nesta cidade é: paciência. Há 3 anos aqui, eu ainda não me acostumei completamente, e às vezes, confesso, corro pra casa exausta, fugindo do mundo. Mas o que incomoda em São Paulo mais ainda, é o esforço de convivência e a luta diária por seu lugar: para sentar no bar, para ser atendido numa loja, para conseguir uma poltrona de cinema, para pagar o estacionamento. Sua vez quase sempre chega, graças a eficiência dos milhões de trabalhadores 24 horas desta cidade, mas você precisa esperar sempre. O pior não é tanto esperar é conviver com tanta gente, all the time. Parece que estamos sempre na eminência de uma... festa? Onde? Ninguém sabe. É só o movimento... a festa não acontece.

A Mostra de São Paulo, com seus 400 e tal filmes, fica assim lotada no fim de semana e nas sessões noturnas, por isso adoro as sessões da tarde, durante a semana, vazias... Ontem ao assistir Manhattan (Woody Allen) (de novo!) ... deitada com as pernas pro alto, fiquei assim tão feliz em pensar que não estava disputando cotovelos com ninguém do meu lado numa sala escura e que não teria que ficar na fila do elevador, do estacionamento para pagar, para sair e que teria perdido todas as outras filas: a da bilheteria, da entrada da sala. Aqui ficar na fila não é um ato de coragem mais é um hábito.

Eu sei que talvez estivesse perdendo algo, dentre os 400 e tal filmes mas devo confessar que não gosto de assistir a filmes com a sala lotada e o pior, com pessoas comendo pipoca (Acho um saco! tudo bem se for no Cinemark? Ah! Sei lá...Pode até ser).

Em Manhattan, Woody Allen está o tempo todo passeando pela cidade:museus, cafés, Central Park, ruas ... Era 1979, e acho que não tinha ainda tantas filas, que maravilhoso! Depois de Manhattan, passou Happy Times do Zhang Yimou, e depois Cecil Bem Demente e pensei, estou numa Retrô, foi compensador.
  Francesca Azzi    domingo, outubro 21, 2007    2 comentários
 
 



Seja Curador por um dia!!

Esta brincadeira é boa. O Netherlands Media Art Institute (Instituto de Arte Mídia da Holanda) convida a todos para ser curador por um dia no link: http://www.curatorforoneday.nl/.No período de 20 de outubro a 3 de fevereiro, você pode acessar o website e escolher no máximo 6 vídeos que serão exibidos na galeria do Instituto como parte da exposição Video Vortex.
Você escolhe os vídeos que fazem parte do acervo/catálogo online do Instituto ( no link acima) e terá uma gama de 2000 trabalhos. A única condição exigida é que se faça uma declaração para o motivo da sua seleção ( esta parte sim definiria um conceito de curadoria, já que só escolher vídeos aleatoriamente, pelos que mais gostou, não seria em si suficiente para ser entendido como "curadoria", não é?). Assim sua justificativa curatorial + os vídeos serão exibidos durante 1 dia para o público holandês e convidados. Se tiver tempo, eu vou tentar.
  Francesca Azzi    domingo, outubro 21, 2007    0 comentários
 
 


Todo mundo só vai querer saber de Jia




Há muitas atrações na 31a Mostra. E o Clube da Mostra ( no quinto andar do Shopping Frei Caneca, em diversos dias e horários) vai abrigar vários debates sobre a crítica cinematográfica, mulheres diretoras, cinema latino, cinema documentário, genocídio armênio (?), co-produções e outras tantos temas e pessoas menos ou mais interessantes. Mas de tudo isto a única coisa realmente imperdível, a meu ver, é o encontro com Jia. Ele é o cineasta mais jovem que mais repercurte suas idéias no momento, guarde seu nome Jia Zhang-Ke. Dia 31/10 às 21h.

Com apenas 37 anos este chinês com certo ar adolescente, meio tímido, vai abafar em São Paulo. Todos só vão querer vê-lo e saber de seu novo filme (tanto sucesso fez seus filmes nas edições passadas (O Mundo, Plataforma, Dong) que o último "Still Life" foi comprado e distribuído no Brasil pela Califórnia Filmes com o nome "Em Busca da Vida"(acesse a crítica que escrevi no site da Zeta Filmes.)

Jia está com uma Retrospectiva quase completa de sua obra na 31a Mostra e tão jovem assim já levou o Leão de Ouro em Veneza e deve estar no mínimo mimado, e com razão! Seu novo filme é "Useless" que traduzido como "Inútil" é um documentário sobre a crescente indústria da moda na China e as mudanças sociais que ela reflete. "Analisando o trabalho da jovem estilista chinesa Ma Ke, o diretor usa as roupas e como são produzidas para descrever o impacto que o tumultuado desenvolvimento econômico chinês está tendo sobre a população do país."



Segundo Silvia Aloisi da Reuters, na cobertura de Veneza 07, "Useless é dividido em três partes e leva o espectador desde as fábricas deprimentes de roupas em Guangzhou, no sul da China, até os glamurosos desfiles de moda em Paris. Em Guangzhou, parte de uma área que se tornou uma das maiores regiões manufatureiras do mundo, fileiras de operários trabalham dia e noite em máquinas de costura.

Alguns dos vestidos que produzem são os criados por Ma Ke, mas a estilista também está procurando afastar-se da produção industrial e das roupas anônimas para produzir vestidos mais únicos, feitos a mão. Jia a acompanhou a Paris, onde no início do ano a estilista apresentou a nova linha Useless (inútil) que dá nome ao filme -- peças que Ma Ke cobre de sujeira para lhes conferir uma aparência natural e autêntica. De volta à China, o diretor mostra a expansão do consumo de massas, com jovens mulheres lotando lojas de estilistas ocidentais para comprar o máximo em termos de símbolos de status: uma bolsa da Louis Vuitton ou Prada.

A terceira parte do documentário leva o diretor a sua província natal, Shanxi, onde os pequenos alfaiates estão fechando suas barracas e indo trabalhar nas minas, expulsos do mercado pela mão-de-obra barata empregada nas fábricas de roupas.

"Antes do filme, eu não sabia nada sobre moda, mas através da moda pude compreender muitas coisas sobre meu país e sua sociedade", disse Jia à Reuters. Ele disse ainda que quer que o filme mostre as contradições de seu país e a crescente disparidade entre ricos e pobres movida pelo boom econômico.

Isto está diferenciando muito Jia das outras gerações de cineastas chineses: sua coragem ao enfrentar as verdades socio-econômicas e políticas de seu país. Ele espera que seu filme chegue a pelo menos dez cidades chinesas. Pelo visto não conta com um aval oficial o que o torna ainda mais original.

Bem, espero que consiga ingresso para uma sessão de "Useless". Na ingresso.com não consigo comprar para a sessão de sábado, dia 20. Não sei porque não estão vendendo esta sessão e não há nenhuma explicação até agora. Mas disputar com os paulistanos os ingresso na hora da sessão, pra isto eu não tenho energia não. Paulistanos são imbatíveis nas filas e os mineiros, impacientes! Acabam deixando pra outra ocasião.
  Francesca Azzi    quinta-feira, outubro 18, 2007    0 comentários
 
 



Assista aos filmes japoneses da Mostra SP

A Fundação Japão, que faz a difusão da cultura japonesa no Brasil, nos mandou este recado: assista aos filmes japoneses na Mostra de SP. E achei uma ótima idéia já que o Japão produz muito por ano ( acho que mais de 300 filmes) e quase nada chega comercialmente por aqui.

Aliás o cineasta japonês Hirokazu Kore-Eda de Maborosi, Depois da Vida e Ninguém pode Saber faz parte do Júri Oficial. (Um parênteses para o júri que será formado também, pelo cineasta português Pedro Costa, pelo francês Jean-Paul Civeyrac, pela brasileira Lúcia Murat, e o tunisiano Férid Boughédir). Eles escolherão os melhor filme a partir dos mais votados pelo público na primeira semana da Mostra.

Bem, mas vamos aos japoneses:

O AMOR PULSA MAIS RÁPIDO QUE SANGUE, Hideki Kitagawa
Primeiro filme do diretor, história sombria com sexo, pactos e sangue. Foto acima.

Mihiro mata seu tio, que a estuprou ao se aproveitar de sua condição desesperadora. Abandonando a casa pela primeira vez na vida, ela conhece Hideki, que luta contra seu caos psicológico. Ele a encontra torturando-se por causa do trauma e então se sacrifica numa “performance de pintura com sangue” para assim compartilhar da mesma dor e sofrimento. Eles se isolam no ateliê e se ocupam fazendo sexo. Ao perceberem que o sangue determina a emoção e o desejo de ambos, finalmente cortam seus corpos e sugam um o sangue do outro. E acreditam que espiritualmente se tornarão um só depois de se conectarem tão profundamente.

CÉU DE DEZEMBRO, Hiroshi Toda
Todos precisam de sorte vez ou outra. Um homem que perdeu o rumo em sua vida procura por sorte com a ajuda de um jovem punk e de um velho adivinho.
Toda faz filmes desde os 15 anos. Entre suas produções mais recentes estão Six-Jizo (2001), Snow in Spring (2003), September Steps (2005), Spring in the Park (2006) e Memória de Setembro ( 2006) que também será exibido na Mostra.

CONTOS DE TERRAMAR, Goro Miyazaki
A animação é protagonizada por Ged, que um dia foi o maior feiticeiro de Terramar. Quando ainda era jovem, sedento por poder e conhecimento, ele mexeu com segredos seculares e liberou uma terrível sombra por todo o mundo. Agora coisas estranhas acontecem em Terramar.

Miyazaki nasceu em 1967, em Tóquio, no Japão. É filho de Hayao Miyazaki, mestre da animação japonesa e responsável pelos sucessos A Viagem de Chihiro e O Castelo Animado (2004).

ETERNAMENTE SEU, Atsushi Ogata
Curta: Quando um espertalhão desonesto tenta tirar vantagem de uma velha senhora sem memória, surpresas o aguardam.

GLÓRIA AO CINEASTA!, Takeshi Kitano
O famoso diretor Takeshi Kitano tenta realizar o filme definitivo para os amantes de cinema de todo o mundo, mas descobre que isso não é tão fácil quanto parece. Ele já está perturbado pelo fato de ter declarado que pararia de dirigir filmes violentos apesar dos sucessos prévios com produções sobre a máfia japonesa, a Yakuza. Determinado a repetir a boa bilheteria, Kitano pensa em todos os gêneros possíveis para seu novo projeto.

HANA, Hirokazu Kore-Eda
O ano é o de 1702. Um jovem samurai, Aoki Sozaemon deixa sua casa no campo, e agora vive em Edo (hoje Tóquio). Procura por Kanazawa Jubei, o homem que matou seu pai. Ele nunca esqueceu a pergunta que deveria fazer para identificar o inimigo e dar procedimento à sua vingança.

HULA GIRLS, Lee Sang-il
Corre o ano de 1965 no Japão e o país começou a substituir o carvão pelo petróleo. As tradicionais cidades mineradoras começam seu longo e lento declínio. Mas numa pequena cidade ao norte, seus líderes e os diretores da companhia mineradora local tiveram a idéia de desenvolver o primeiro vilarejo havaiano do Japão. E o que seria um vilarejo havaiano sem uma companhia de dançarinas de hula-hula? Primeiro filme de Lee Sang-il.

MEMÓRIA DE SETEMBRO, Hiroshi Toda
Fazendo trilha com um amigo na montanha, Aya faz uma parada num velho estúdio de máscaras para teatro nô, pega de surpresa por forte chuva. No ateliê, ela vê o mestre esculpir uma máscara de madeira de um oni (ogro cruel), que misteriosamente abala sua alma. Aya vive sozinha numa cidade, onde não encontra um lugar em que se sinta bem. Um dia, ela volta a subir à montanha, dessa vez por sua conta, e conhece num santuário um velho homem com a esposa em cadeira de rodas. O velho guardião da floresta a convida a ir a sua casa deserta, o outro estúdio de máscaras. Seguido de Aya, ele se adentra cada vez mais na montanha. Essa área, no entanto, é conhecida como o lugar para onde muitas pessoas vão e de onde nunca mais retornam.

SUKIYAKI WESTERN DJANGO, Takashi Miike
Centenas de anos depois da Batalha de Dannoura (1185), em um remoto vilarejo japonês na montanha, a tensão re reinstala. A gangue de branco Genji, ligada ao clã Minamoto e liderada por Yoshitsune, e a gangue de vermelho Heike, do clã Taira chefiado por Kiyomori, entram em confronto brutal por causa de rumores de que por ali havia ouro. Quando um forasteiro sem nome, marcado por um passado negro e dono de notáveis habilidades com armas, chega à cidade, agora um vila fantasma, as gangues rivais especulam qual lado ele escolherá. Lutas de poder, traição, luxúria e amor cobrem a terra com sangue, e a histórica rivalidade dos clãs parte para uma selvageria típica dos “macaroni western”, como são conhecidos os “spaghetti western” no Japão. Extravagante e num tom cômico negro e surreal, o filme bebe na fonte dos faroestes italianos B e conta com uma aparição especial do diretor Quentin Tarantino, fanático pelo gênero.

VENTOS DO ZERO, Toshi Shoya
Baseado na verdadeira história de uma mãe que mudou uma lei de trânsito no Japão, em 2001, após colher mais de 375 mil assinaturas para petição. Quando estava para começar seu primeiro semestre na universidade, seu filho foi atropelado por um carro. O motorista bêbado foi condenado a apenas cinco anos de prisão, apesar de ter deixado dois garotos mortos e de ter sido o terceiro acidente grave que ele provocou. Ainda assim, essa era a pena máxima na legislação japonesa. O único motivo que ainda permite à heroína seguir com sua vida é sua intensa imaginação como artista e como mãe.

Para saber mais sobre os filmes, diretores, o dia e a sala confira no site da 31a Mostra Internacional de Cinema de SP
  Francesca Azzi    quarta-feira, outubro 17, 2007    0 comentários
 
 



RIOFAN: Rio de Janeiro ganha um Festival de Cinema Fantástico (finalmente!)

O Rio de Janeiro não é um lugar exatamente desprivilegiado ao que se refere o acesso a filmes do Cinema Fantástico (o Festival do Rio normalmente consegue trazer vários títulos, além das locadoras mais antenadas de importados), mas o RIOFAN surge para preencher uma lacuna na cultura cinematográfica não meramente carioca, mas nacional: um grande evento dedicado exclusivamente ao Cinema Fantástico, nos moldes do Fantasia em Montreal, Sitges, Bruxelas e o texano Fantastic Fest.

Inclusão tardia do Brasil (que já conta com um evento dedicado ao gênero, o Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre) dentro de um dos circuitos cinematográficos mais frutíferos e irrepreensíveis do mundo, o RIOFAN tem patrocínio da Caixa Cultural e tem previsão para acontecer nas duas semanas entre 29 de abril e 11 de maio (um período bastante oportuno para um evento cinematográfico, devo acrescentar). Apesar de não existirem ainda títulos confirmados além da homenagem à José Mojica Marins, os contatos na página do festival no My Space indicam algumas influências e possibilidades (o Fangoria's Weekend of Horrors está lá, assim como o último George Romero, "Diary of the Dead" e o já mencionado Festival de Bruxelas). Parabéns aos organizadores pela iniciativa. Tomara que eles inspirem-se a se unir com outros eventos do gênero da América Latina para pleitearem reconhecimento do continente no circuito George Méliès de Festivais de Cinema Fantástico.

  Bernardo Krivochein    quarta-feira, outubro 17, 2007    0 comentários
 
 



Mostra de SP: Babenco está lúcido?

Começaram as listas dos jornalistas (veja no Blog da Ilustrada uma delas, na Veja on Line outra), sugerindo filmes para a Mostra de SP que tem início amanhã, dia 18. A abertura para convidados será com o filme "O Passado" de Hector Babenco.

Além de produzir o cartaz da Mostra com uma foto sua vestido de homem-placa, Babenco declarou hoje em entrevista na Folha ( leia a íntegra aqui ou na Folha impressa) sobre seu filme:

"É meu melhor filme. Fico muito tocado cada vez que o vejo. Fico tão tocado quanto ficava quando via um filme do Kieslowski, quando vi "O Bebê de Rosemary" [Roman Polanski, 1968]; certo tipo de filme que trabalha numa ambigüidade de gênero que você não sabe exatamente o que é, mas sabe que está vendo algo novo", afirma Babenco, explicando o orgulho da própria obra."

Na minha opinião, pelo novo cartaz da Mostra, já dá pra perceber que o cineasta não anda muito bem. Primeiro se estampa numa situação quase constrangedora como homem-placa, depois dá uma declaração desta no jornal, cheia de auto-elogios, fazendo propaganda de si mesmo.

No cartaz, sua foto quer representar um tipo de "performance" pessoal ( diz ele que se inspirou em Jacques Tati...) mas que beira o mal gosto ( já que indiscutivelmente cai na mesma discussão que ele aborda na entrevista do "eu não vou me vender"). Mas a foto do cartaz ao invés de polemizar a questão do cineasta brasileiro (aliás nem brasileiro o Babenco é) - homem-placa que passa o chapéu ou anuncia a si mesmo para produzir seus próprios filmes (ou como ele diz insistentemente "Não vou me improvisar, tentando fazer como o Fernando Meirelles ou o José Padilha. A esta altura do campeonato, não vou me prostituir");deu foi uma tristeza profunda, uma dó de ver o rosto triste deste cineasta. Suas declarações na Folha de hoje só comprovam esta imagem de um homem sem virtudes?

Babenco fala de si mesmo e de seu próprio filme como se fosse "a" obra de arte, "ficar tocado" quando assiste ao próprio filme é uma afirmação mesmo relevante? Até onde vai a sua humildade... ou será apenas uma daquelas doenças senis conhecidas como demência?

Acho que vou sugerir aqui a lista NÃO PERCA SEU TEMPO com filas, ingressos caros e salas cheias de cinéfilos chatos e cineastas pouco ou nada modestos. Talvez o Babenco já seja o número 1 desta.
  Francesca Azzi    quarta-feira, outubro 17, 2007    1 comentários
 
 



E assim foi, mais um Indie

Não sei bem pra quem escrevo neste blog, tenho sempre um certo cuidado em não ser muito pessoal em minha fala, apenas (sei que se fosse um blog meu, seria bem diferente, eu falaria de coisas prosaicas, talvez eu escrevesse receitas de bolos ou copiasse os poemas e textos, falasse de videoarte ou confessasse que antes de tudo isto eu era muito mais ligada a literatura do que ao cinema etc e tal). Mas aqui a proposta é ser um blog que possui um vínculo com o cinema, não o cinema em geral, mas aquele que denomina-se Indie... mas muito além dele, todos os cinemas que nos instigam pessoalmente ou coletivamente. Este blog está vinculado também ao Indie, a mostra e nasceu da necessidade que tivéssemos um outro ponto de comunicação com as pessoas que freqüentam o site, lêem o Bernardo e que claro, são assíduas do Indie. O mais interessante que depois de 1 ano os interlocutores aqui do blog são de várias partes do país, os habitués do Indie nem sempre deixam recados por aqui ( com exceção da última discussão abaixo, e o espaço está aberto para isto também).

Bem, mas hoje é dia de balanço e penso que se o Indie não foi tudo aquilo que sonhamos ( eu, Dani, Edu e Bernardo), foi uma parte deste sonho. E foi um sonho bom, sem pesadelos... Mesmo que tenha sido menor, mais enxuto, sem as crianças do Kino ou sem algumas salas, acho que desta vez conseguimos algo muito mais importante que foi uma maior credibilidade do público naquilo que propusemos.

Achei muito interessante que a mostra do Hong Sang-Soo tenha ficado lotada e que as pessoas seguiram o conselho de tentar ver mais de um filme deste coreano cult e enigmático; e que também filmes como Ladrão de Memórias ( pena que o Gil Kofman não entende português porque ele não pára de me perguntar como foi, o que o público achou etc); Quarto 314, Estrada 225, Carro a Sangue ( acho que o que mais gerou boca a boca), A Balada de AJ Weberman e claro o American Hardcore e o Punks not Dead, além do Whole Train, todos super cheios e super comentados pelo público. Nem preciso dizer que os filmes que estão com distribuição garantida também foram muito procurados, como o Inland Empire, Savage Grace, e Delirious. E o Indie Retrô também foi incrívelmente procurado. Mas de tudo ficou uma sensação boa de que precisamos não só propor novos diretores e novos filmes mas fazer chegar ao público mais informação que vai além da mídia oficial( que também este ano fez uma cobertura bem legal mas que não tem espaço para tantas informações).

Ou seja, uma sensação de que estamos traçando uma linha, que precisamos ter pontos para interligá-la e que parece que este traço está esboçando um sentido. Isto que importa: fazer um certo sentido.


Segue o balanço oficial:

INDIE 2007 encerra sua sétima edição com 12.656 mil espectadores.
Foram sete dias em que o público de Belo Horizonte recebeu 129 filmes, de 23 países.


A sétima edição do INDIE - MOSTRA DE CINEMA MUNDIAL terminou na última quinta-feira, dia 11 de outubro. Durante sete dias, o INDIE recebeu um público de 12.656 mil espectadores. Foram exibidos 129 filmes, de 23 países, em 139 sessões de cinema. O INDIE promoveu a estréia no país de 34 filmes internacionais. Todos as sessões tiveram entrada franca e foram realizadas em cinco salas dos Usina Unibanco de Cinema e Cine Humberto Mauro.

O INDIE 2007 – Mostra de Cinema Mundial teve patrocínio da Usiminas, Oi, apoio da Contax e Oi Futuro, e foi realizado através dos benefícios das Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais e Lei Municipal de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte.

Aberto oficialmente no dia 04 de outubro com o filme Mutum, da carioca Sandra Kogut, o INDIE 2007 trouxe algumas novidades que foram bem aceitas pelo público. Na programação da Mostra Mundial houve procura dos espectadores tanto pelos filmes de novos realizadores como o americano Gil Kofman com Ladrão de Memórias, o alemão Florian Gaag de Wholetrain, o americano Todd Rohal com O Aperto de Mão da Guatemala, quanto pelas pré-estréias de filmes de diretores consagrados como David Lynch com Império dos Sonhos. Na retrospectiva, trouxe a obra de um importante diretor sul-coreano Hong Sang-Soo, que nunca antes teve todos seus filmes exibidos no país.

O já tradicional programa Música do Underground, presente em todas as edições do INDIE, exibiu dois documentários recém lançados nos Estados Unidos e que tiveram grande procura pelo público: American Hardcore de Paul Rachman e Punk´s Not Dead, de Susan Dynner. Além de fazer o lançamento do documentário Rock´n Tokyo da brasileira Pamela Valente.

O INDIE 2007 trouxe também a maior participação brasileira de todas as suas edições, exibiu 15 filmes, entre documentários e ficções, como Diário de Sintra de Paula Gaitán, A Casa de Alice, de Chico Teixeira. Alguns diretores brasileiros participaram também da série Diálogos Independentes que reuniu os diretores Sandra Kogut (Mutum), Camilo Cavalcante (Eu Vou de Volta), Paula Gaitán (Diário de Sintra), Cao Guimarães (Andarilho), Armando Mendz (Descaminhos) e Clarisse Alvarenga (Ô, de Casa!) para discutir sobre a criação e a relação entre documentário e ficção. Nesta edição, o Indie distribuiu também a primeira edição do INDIE.ZINE, um fanzine com dicas, entrevistas, depoimentos sobre os filmes exibidos na mostra.

O Indie - Mostra de Cinema Mundial é uma realização da produtora cultural Zeta Filmes e a oitava edição irá ocorrer em outubro de 2008.

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INDIE 2007 - Mostra de Cinema Mundial
www.indiefestival.com.br
  Francesca Azzi    segunda-feira, outubro 15, 2007    4 comentários
 
 


O Indie em imagens

Este ano fizemos os Diálogos Independentes no Instituto Oi Futuro. O formato foi muito legal, os diretores falando dos filmes, foi um experiência subjetiva para privilegiados... Vejam as fotos também de alguns convidados, diretores e o público que está no Indie.








(fotos Alexandre Mota - nas fotos: Sandra Kogut, Camilo Cavalcante, Paula Gaitán, Cao Guimarães, Clarisse Alvarenga, Armando Mendz, Pamela Valente, Marcelo Bressanin, Jason Barroso Santa Rosa, Rodolfo Magalhães, e público no "Punk´s Not Dead")
  Francesca Azzi    quarta-feira, outubro 10, 2007    1 comentários
 
 


Público X Privado

Não me cansei de elogiar o público do Indie, tanto aqui no blog quanto nas entrevistas que dei para as rádios e para os programas de tevê que estiveram por lá. E isto é notável! Vejo com orgulho as fotos do público pelas lentes do Alexandre Mota ( nosso fotógrafo maravilhoso, as fotos abaixo são dele) e concluo que cumprimos mais do que nosso papel de formar público para um cinema cultural, estético, independente, hoje o público espera por isto e já se impõe com respeito e dignidade. Sei que a palavra dignidade é meio antigona e antiquada mas não encontrei outra aqui neste blog.

Mas sempre tem meia dúzia que não falam pelo todo e acabam estragando o nosso dia. Aconteceu ontem na porta da sessão do American Hardcore, seis pessoas que não conseguiram entrar porque a sala estava com lugares esgotados começaram a bradar que o festival é feito com dinheito das leis de incentivo, a querer anotar nome dos porteiros de tudo mais. Queremos esclarecer a todos que o fato da mostra ser realizada com leis de incentivo não nos obriga a fazer a ENTRADA FRANCA, isto é uma opção única e exclusiva da ZETA FILMES. O fato do festival ser feito com leis de incentivo não nos obriga a DAR o catálogo ao invés de cobrar 1 real por ele para evitar o desperdício. Temos na nossa trajetória cumprido muito mais do que nos exige a CONTRAPARTIDA das LEIS. As pessoas que disseram isto estão mal acostumadas, mimadas, e não podem exigir este tipo de coisa porque se esgotou a lotação ou porque mesmo com ingresso não entraram na sala e perderam a vez. Alto lá! Existe uma ordem das coisas, uma proposta e uma lei que rege tanto o nosso festival quanto qualquer conduta social. Aqueles que se comportaram assim só tenho a dizer: vocês não sabem se comportar num contexto social imagino nas suas próprias casas. A entrada franca talvez tenha deixado muito mal acostumado o público de Belo Horizonte que vê filmes gratuitamente que em São Paulo e Rio custam de 13 a 14 reais por ingresso. O público reagindo assim só nos impele a querer cobrar um ingresso "que pela lei temos todo o direito de o fazê-lo".

Mas prefiro pensar ainda que grande parte do público que nós adoramos está lá podendo ver mais de 5, 6, ou até 10 filmes, formando sua própria opinião sobre o cinema independente. Prefiro acreditar. e Acreditando nisto... se resolvermos continuar com a ENTRADA FRANCA será uma opção da ZETA FILMES e não de mais ninguém porque deixo claro que por nenhuma lei somos OBRIGADOS a fazê-lo. Esta é uma opção que oferecemos a todos... pelo menos até que o desejo seja este.
  Francesca Azzi    quarta-feira, outubro 10, 2007    20 comentários
 
 


INDIE 2007 - Proposta de Percepção

"O Dia Em Que O Porco Caiu no Poço" não é nem o meu filme preferido de Hong Sang-soo ("O Poder da Província de Kangwon" facilmente leva esse mérito - é onde Sang-soo chega mais próximo de fazer sua versão de um suspense de serial killer, uma trama que transfere seu mistério justamente para aquilo que move, ou imobiliza, seus personagens ao invés das maquinações de plot; ninguém está falando sobre ele, o filme não passou ainda, não foi visto, foi ignorado ou o quê?), mas sob a luz da negatividade geral do qual ele tem sido alvo (ingenuidade minha achar que todos - do público! - apreciarão Sang-soo, um diretor que definitivamente não é para principiantes, haja visto suas referências), eu fiquei, digamos, "aperreado" com uma coisa: ninguém, mas ninguém mesmo, em nenhuma crítica suscitada da exibição no INDIE se deu o trabalho de refletir a grande pergunta: por que diabos o filme se chama "O Dia Em Que O Porco Caiu No Poço".

Nâo há porco. Não há poço. Cacete, mal sequer há dia, visto que a maior parte da ação passa-se à noite. Logicamente, era mais adequado o filme se chamar "Quatro Filhos da Puta Infelizes Cruzam o Caminho Miserável de Cada Um". E ficamos na dúvida se há ou não uma queda. Meu convite é convidar os críticos a retornar ao filme refletindo o seu título. Não é que meramente isso os fará reavaliar o filme, transformando uma resenha negativa em positiva, mas a grande magia do filme, acredito, esconde-se nesse título e sua associação com o filme que batiza - quando eu mesmo descobri, o filme acabou ganhando muito na minha memória.

É uma sensação boa poder debater isso no blog durante essa edição do INDIE. Ano passado, houveram poucas oportunidades - para não dizer nenhuma - de descobrir como os filmes, os quais suamos sangue para trazer para um pequeno festival em BH (mas que, dentro de seu nicho, tem mais visibilidade internacional do que alguns dos grandes eventos cinematográficos brasileiros, orgulho-me em dizer, ainda que só pra ver se alguém valoriza), estavam sendo refletidos, recebidos, assimilados. A diferença que um ano fez é que surgiu uma vontade nova de se escrever sobre os filmes envolvidos nos sites, blogs e mídia impressa mineira. Agora eu posso saber como "O Dia Em Que O Porco Caiu No Poço" é recebido por geral. Anos anteriores? Bof!

Acho que esse convite para que os filmes sejam refletidos e debatidos deveria estender-se. Minha proposta - não para esse ano, pois seria algo impossível de se concretizar a dois dias do fim do festival - é que um filme do INDIE seja escolhido para ser exibido (por critérios de interesse) numa sessão Cineclube, após a qual os membros da mídia impressa e eletrônica, além da curadoria do festival, viessem a debatê-lo, visando esclarecer o público, motivar a participação, a escrita, a reflexão. Acredito que possa ser melhor do que os eventos do gênero que acontecem em outros festivais, porque se eu me aventuro a rebater as críticas do primeiro longa de Sang-soo (inédito no país até então), é por constatar que a "nova" escrita cinematográfica da região não é afetada por um ranço de arrogância. Ou um debate virtual promovido entre os sites. Alguma coisa assim.

Então, fica a idéia para o ano que vem. Mas que a mera noção de estar sendo informado da recepção do filme é encorajadora, ah, lá isso é. Motiva. Como surpreender público e filmólogos em geral em 2008? Com a última trilogia de Lisandro Alonso? Os épicos de Lav Díaz? Uma retorspectiva de Apichatpong Weerasethakul, contrapondo com o prodígio filipino Raya Martin? (e aí estão algumas dicas para vocês aventurarem sua cineflilia). O futuro é excitante porque o presente é feliz.
  Bernardo Krivochein    terça-feira, outubro 09, 2007    9 comentários
 
 


O Indie está indo muito bem, obrigada!






Com a correria da produção da mostra, eu não tive tempo de passar aqui para comentar tudo que aconteceu estes dias. Realmente é quase impossível ser a organizadora do festival e ao mesmo tempo blogar todas as coisas que estão acontecendo por lá. Mas temos vários blogs que estão fazendo cobertura e posso indicar todos eles.

CINEMA EM CENA

PÍLULA POP

FILMES POLVO

Problemas sempre acontecem, claro, filmes que não entram na janela certa, sala que não cabe todo mundo que quer entrar, reclamação sobre o preço de 1 real do catálogo de bolso que está sendo vendido ( aliás que está quase esgotado). Não temos problemas com reclamações, nem elogios, nem sugestões mas em geral estamos muito contentes pelo simples fato de que a mostra Novos filmes/Novos diretores está ficando lotada e acho que desta vez a nossa idéia de apresentar um cinema que não foi visto nem no Rio, nem em SP, está finalmente ganhando o crédito do público de BHZ.

Eu estou achando o público maravilhoso, porque já sabe como funciona o INDIE, já entra em procura pelo que quer, estou achando o público mais seguro, mais certo do que quer ver. O Fanzine também foi bem recebido para que todos tenham uma idéia de quem são estes novos diretores apresentados por nós e aqui no blog o Bernardo tem postado informações e comentários diversos sobre os filmes.

Se tiver mais alguém fazendo cobertura em BH mande o link que coloco acima. Qualquer novidade, volto aqui. Até lá! Vejam as fotos do público: maravilhoso!
  Francesca Azzi    segunda-feira, outubro 08, 2007    11 comentários
 
 


INDIE 2007 - Quarto 314 (Room 314) de Michael Knowles



Um Quarto de Hotel com Vista para o Relacionamento de 5 Casais


por Jeannette Catsoulis


"Room 314" escancara a porta de um hotel anônimo onde, em tempos diferentes, cinco casais navegam em momentos críticos de seus relacionamentos. Mas seja lidando com amor não requisitado, depressão suicida ou o que parece com um "programa" rápido que sai dos trilhos, ninguém tem a permissão de fazer o checkout sem uma dose de auto-conhecimento. Certamente não é algo que se consegue no Holiday Inn.

Escrito e dirigido por Michael Knowles (que também assina a direção de fotografia), "Room 314" é um sonho para atores. Filmado em episódios contidos em si mesmos e inteiramente sem música (exceção para os créditos), o filme tem um look verité e uma atmosfera voyeurística que complementam a intimidade do material.

Como poderíamos esperar de um filme sobre um quarto de hotel, álcool e sexo têm presença proeminente, apesar de principalmente como fachada para assuntos mais profundos. Isto é lidado de forma mais afiada no segmento no qual um par de colegas de trabalho (Robyn Myhr e o versátil Knowles) flertam com o adultério enquanto tentam afastar o sentimento de auto-repúdio - apesar de pessoalmente duvidar que muitos dos aspirantes a adúlteros encarem um ao outro com tamanho grau de honestidade emocional.

Tal como muitos filmes de seu tipo, "Room 314" exige um bocado de seus intérpretes, nem todos capazes de resistir a um escrutínio mais intenso. Felizmente, a ação é fechada de modo triunfal com quatro dos melhores: Matthew Del Negro e Joelle Carter como um casal que se envolve durante uma bebedeira numa despedida de solteiro, e Michael Mosley e Jennifer Marlowe como "amigos com benefícios" e um passado não resolvido. Neste quarto de hotel, passados não resolvidos são tão comuns quanto o café da manhã continental.

(publicado no The New York Times, 31 jan. 2007)

Trailer de "Quarto 314":

  Bernardo Krivochein    sexta-feira, outubro 05, 2007    2 comentários
 
 


INDIE 2007 - O Aperto de Mão da Guatemala (The Guatemalan Handshake) de Todd Rohal

por Nick Dawson

Todd Rohal é possivelmente o diretor Mumblecore sobre o qual você menos ouviu falar, talvez porque seus filmes não se encaixem com o estilo improvisado e verborrágico do grupo ou foquem em relacionamentos de jovens de vinte-e-poucos anos. Nativo de Columbus, Ohio, ele estudou cinema na Ohio University, onde seu primeiro curta-metragem "Single Spaced" (1997) foi indicado para um Student Academy Award. Ele realizou dois curtas subseqüentes na universidade, "Slug 660" (1998) e "Knuckleface Jones" (1999), e resistiu ao chamado de Hollywood depois de se graduar, escolhendo seguir por um caminho mais inusitado. Ele realizou seu quarto curta, "Hilbilly Robot" em 2001, e tem trabalhado desde então em design de DVDs, como diretor de fotografia e editor para a TV e filmes independentes, e também como ator, mais recentemente no filme do colega mumblecore Joe Swanberg, "Hannah Takes The Stairs" (2007).

Em 2006, Rohal foi eleito uma das 25 Novas Faces do Cinema Independente pela Filmmaker por causa da energia de seu longa de estréia, "The Guatemalan Handshake", o qual recebeu o prêmio de Melhor Filme no Festival de Slamdance no início do ano. O filme é surreal e individualista, uma das visões mais originais e incategorizáveis no cinema americano recente: uma queda de energia dá a partida para uma série de estranhos eventos numa pequena cidade da Pennsylvania envolvendo personagens batizados como Turkeylegs [Coxas de Peru]. Mr. Turnupspeed [ Sr. Aumenteavelocidade] e Ethel Firecracker [Ethel Fogos de Artifício], escoteiros ladrões de carros, cães explosivos e um derby de demolição. Entusiasmado e ainda assim tocante, "The Guatemalan Handshake" é lindamente fotografado e traz ecos dos trabalhos de David Gordon Green e David Lynch - apesar de Rohal descrevê-lo como uma tentativa de "integrar 'Kentucky Fried Movie' no meio de 'Dias de Paraíso'".

(publicado na Filmmaker Magazine, junho 2007)

Teaser de "The Guatemalan Handshake":

  Bernardo Krivochein    sexta-feira, outubro 05, 2007    2 comentários
 
 


INDIE 2007 - Mulher Na Praia (Haebyonui yoing) de Hong Sang-soo


Namorados e Namoradas


por Kevin B. Lee


O protagonista do novo filme de Hong Sang-soo "Mulher na Praia" é um diretor enfrentando uma encruzilhada em sua carreira. Poderia o mesmo ser dito de Hong? Já são 10 anos desde o seu début "O Dia que o Porco Caiu no Poço" (1996); seis longa-metragens depois, ele é presença assídua no circuito de festivais internacionais (o ultra-exclusivo New York Film Festival tem programado os lançamentos mais recentes de Hong a cada um dos últimos três anos). Desde "Virgem Desnudada por Seus Pretendentes" (2000) e "Turning Gate" (2002) hipnotizaram freqüentadores de festival com seu exame altamente estudado mas ainda assim descontraído das relações sexuais, uma pequena porém intensamente apreciadora base de fãs nutriram grandes expectativas para o dia em que Hong - que às vezes é chamado de a resposta coreana a Eric Rohmer - se tornasse um nome localmente estabelecido.

Isso ainda não aconteceu: Apenas um filme de Hong, "A Mulher é o Futuro do Homem" (2004), conseguiu distribuição na América do Norte. Não surpreende que um diretor asiático que não oferta filmes de ação seja dado tanto desprezo internacionalmente, pouco importando que ele estudou nos EUA e cita Rohmer, Buñuel, Renoir e Bresson entre suas influências. Mas mesmo na Coréia do Sul, os filmes de Hong não sucedem em sair do pequeno circuito de arte, apesar de rotineiramente escalar estrelas populares do cinema e TV para papéis de destaque. Talvez o formalismo rigoroso de seus filmes e sua perspectiva sóbria do amor e relacionamentos como uma função do ego e do desejo egoísta deixem a platéia desconfortável. Claro, esse desconforto é precisamente o que Hong está procurando. Apesar de suas cenas serem tão meticulosamente compostas quanto qualquer outra que possa ser encontrada hoje, seu cinema é tão incomodado quanto seus protagonistas masculinos: considerando e reconsiderando o significado de um evento, uma declaração inapropriada, um gesto acidental, e nunca plenamente satisfeito com o que descobre. O resultado tem sido uma das filmografias mais consistentemente descompromissadas em memória recente.

O que, portanto, significa que a frase comum encontrada em resenhas de "Mulher na Praia" seja "o filme mais acessível de Hong Sang-soo até agora"? A trama do filme é o mais próximo que Hong chega de ser puro gênero (no caso, uma comédia romântica de erros) e é, sem sombra de dúvida, seu filme mais engraçado. Na maneira caracteristicamente bifurcada de Hong, ele justapõe dois triângulos amorosos, ambos envolvendo o conflituoso diretor de cinema Kim Joon-rae (Kim Seung-woo) e o objeto quente-frio de seu afeto, a compositora Kim Moon-sook (Ko Hyun-joung). Na primeira metade, Joon-rae obtém sucesso ao seduzir Moon-sook para além de seu prórpio diretor de produção, Won Chang-wook (Kim Tae-woo), numa sucessão hilária de pequenas batalhas hierárquicas entre o trio. Pós-coital, Joon-rae descobre-se desiludido com Moon-sok e abandona o resort na praia apenas para retornar dias depois à procura dela. Em seu lugar, encontra Choi Sun-hee (Song Su-mi), cuja semelhança com Moon-sook é surpreendente, e acaba envolvendo-se com ela no mesmo quarto de hotel. Quando Moon-sook chega bêbada e começa a esmurrar a porta, a situação parece ter amadurecido ao ponto de tornar-se uma farsa.. Como é de costume, no entanto, Hong minimiza a ação, estendendo-se nos momentos insuportavelmente desconfortáveis quando as pessoas encontram-se em sinucas amorosas ao mesmo tempo que conduz o espectador a uma consideração mais reflexiva desses envolvimentos dignos de tablóides.

Apesar da direção lúcida de Hong estabelecer "Mulher na Praia" bem acima das comédias românticas convencionais, alguns aficionados por por Hong, assim como seus detratores, não se permitiram fascinar por esta obra decididamente mais acessível à platéia, percebendo o filme como preguiçoso, digressivo e não tão rigorosamente construído como seus filmes anteriores. Para alguns fãs puristas de Hong, o uso de zooms ao estilo dos anos 70 para focar indivíduos em determinadas cenas é uma variante frágil de seu raro dom por usar a encenação para redefinir relacionamento dentro de um só plano. Num das cenas, que facilmente enquadra-se entre as mais memoráveis dos filmes de Hong, o diretor Kim usa um diagrama geométrico para explicar por que ele não pode continuar seu relacionamento com Moon-sook. A cena rotineiramente arranca gargalhadas das platéias, mas alguns dos fãs de longa data sentem que ela didatiza muito das propriedades analíticas do trabalho de Hong (ele "está entrando em território de Woody Allen", como um crítico online expôs).

"Mulher na Praia" pode representar um movimento em direção a uma narrativa mais comercial, mas é prematuro dizer que o diretor se vendeu. O filme resume o questionamento do longa anterior de Hong, "Conto de Cinema", ao examinar o papel do cinema na facilitação do reelacionamento do homem com outros e consigo mesmo. O diretor Kim utiliza seu status para deslumbrar ambos objetos de seu afeto; ele até conduz uma entrevista com Sun-hee sob a premissa que ela o lembra de um personagem que está compondo. Com seu comportamento brusco e manipulações constantes, Kim trata sua vida como um set cinematográfico ou uma obra de arte que ele esculpe interminavelmente para assemelhar-se com sua própria visão insaciável.

A cena do diagrama mencionada acima explicita a preocupação com a persistência e os limites da percepção que Hong explora desde o início de sua carreira; o que é novo e animador em "Mulher na Praia" é o grau de espaço que Hong permite para o conjunto de percepções e de fracassos pessoais de mais de um personagem. Isso é particularmente verdade com Moon-sook, que a princípio aparece como mero objeto de desejo; Kim casualmente dispensa suas opiniões mesmo quando está tentando seduzi-la. Há debates correntes em cima do grau de objetificação da mulher nos filmes de Hong, seja como pára-raios do desejo masculino, seja como contrapartes sofredoras e algo idealizadas da idiotice masculina. No entanto, aqui Moon-sook desenvolve-se num ser tridimensional, com inseguranças e desejos o bastante para rivalizar o catálogo de homens mal-comportados de Hong. Ao final, ela literalmente vai embora com o filme numa brilhante mudança de identificação da platéia. Enquanto Kim parece fadado a repetir seus rituais de indecisão artística e sexual, Moon-sook é tomada por um sentimento de liberação e redescoberta de si mesma que, ainda que expressa com o silêncio característico de Hong, é digna de um filme de Roberto Rossellini-Ingrid Bergman. Comparando-se os dois protagonistas, espera-se que Hong esteja levando a sério o título de um de seus filmes: que, quem sabe, a mulher seja de fato o futuro do homem.

(publicado na Cinema Scope no. 29, Inverno 2007)

Trailer coreano de "Mulher na Praia":

  Bernardo Krivochein    quinta-feira, outubro 04, 2007    0 comentários
 
 


INDIE 2007 - A Outra Metade (The Other Half) de Ying Liang


Seleção Oficial do Festival de Rotterdam 2007

Seleção Oficial da série New Directors/New Films - Film Socitey of Lincoln Center

Vencedor do Kodak Vision Award - Tokyo FILMeX Festival 2007

por Richard Brody


O segundo filme do jovem diretor chinês, realizado em 2006, começa como uma obra de modernismo cool e seco, mas logo sofre uma guinada em direção a um grito corajoso e assustador de fúria política. Xiaofen, uma jovem secretária legalda emergente cidade Zigong, escuta seus clientes amargurados e desesperados recontarem suas histórias de infelicidades pessoais e comerciais, mas ela tem seus próprios problemas: seu namorado é um bêbado folgado, além de ser um viciado em jogo cujas dívidas crônicas e raiva ciumenta fazem de sua vida um verdadeiro inferno. Misturando realidade e ficção, Ying firma a ação num contexto cultural deprimente: os onipresentes autofalantes oficiais anunciando em alto volume anúncios policiais e a televisiva propaganda patriótica ininterrupta escondem a corrupção moral e econômica que penetram no sistema e infectam a vida privada. Filmando com um estilo de entrevista propositalmente inexpressivo e paisagens urbanas sarcásticas, Ying retrata de maneira convincente um estado de volatibilidade reprimida o qual, quando explode, o faz com uma audácia irrepreensível, direta, enraivecida e de longo alcance que tem poucos paralelos no cinema moderno.

(publicado na The New Yorker, abril 2006)

por Neil Young

"The Other Half" [é] o segundo longa-metragem de um jovem que rapidamente se estabeleceu como um dos mais promissores de uma safra particularmente talentosa de diretores chineses. Ying Liang primeiramente fez seu talento pródigo notável quando seu début "Taking Father Home" teve sua première no prestigiado Tokyo FILMeX Festival no final de 2005. Ele recebeu o Prêmio Especial do Júri - e, 12 meses depois, Ying repetiu o feito com este filme seguinte.

O júri elogiou a "excepcional restrição da forma e compsição, a sutileza da narrativa e o frescor com o qual o diretor expressa seu ponto de vista sobre sociedade e comunicação. Estamos ansiosos para ver seus trabalhos futuros." O membro do júri Chris Fujiwara, escrevendo para a Greencine Magazine, assim resumiu o filme: "'The Other Half' intercala cenas num escritório de direito - onde uma sucessão de reclamantes em casos de disputa doméstica confessam suas infelicidades diretamente para a câmera - com a história do relacionamento fracassado de uma jovem com um homem sem rumo na vida. Um filme oblíquo e até traiçoeiro (apesar da forma direta de suas filmagens nas cenas do escritório), 'The Other Half' impressiona por sua restrição e compaixão com a qual o diretor pesquisa seu enorme elenco de personagens e pela quantidade de detalhes sociológicos que acumula sobre suas dificuldades."

"The Other Half" continua o compromisso de Ying com a província de Sichuan - a qual, de acordo com o catálogo do Tokyo International Film Festival, "agora se tornou um local requisitado para ser cenário das produções mais comentadas da China - incluindo [o vencedor do Leão de Ouro em Veneza] 'Em Busca da Vida' de Jia Zhang-ke. Mas bem antes dos outros cineastas correrem para capturarem o espevitado sotaque Sichuan, Ying Liang e Peng Shan, uma dupla de cineastas inovadores baseados na região, já estavam há muito explorando as mudanças agudas e a intensidade dos dramas humanos que se desdobravam nessa província histórica."

(para o catálogo de Bradford International Film Festival - The National Media Museum, Inglaterra)

Assista a um trecho de "The Other Half": clique aqui
  Bernardo Krivochein    quinta-feira, outubro 04, 2007    0 comentários
 
 


INDIE 2007 - Smiley Face, de Gregg Araki


por Stéphane Delorme

Seria bom, quiçá vital, comer junto com a heroína de "Smiley Face" de Gregg Araki uma cesta inteira de bolos com haxixe. Uma boa brincadeira para acompanhar um filme inconseqüente realizado de "main gauche" por um cineasta totalmente livre após o belo e sério "Mistérios da Carne". A viagem, um "Medo e Delírio em Las Vegas" feminino, é carregada pela excepcional atriz, deve-se pesar estas palavras, Anna Faris (ex-"Todo Mundo em Pânico"), que perambula seus olhos encarquilhados, seu ar beatnik e seu andar cambaleante. O burlesque feminino existe enfim em Hollywood. O grande sorriso smiley de Faris ofereceu o antídoto ao Sunshine da Pequena Miss [no Festival de Sundance 2007].

(publicado na Cahiers du Cinema no. 621, março 2007)

Trailer de "Smiley Face":

  Bernardo Krivochein    quinta-feira, outubro 04, 2007    0 comentários
 
 


INDIE 2007: Bled Number One, de Rabah Ameur-Zaïmeche



À Aventura
por Jean Michel Frodon


O que aconteceu?, perguntava o primeiro filme de Rabah Ameur Zaïmeche. O que aconteceu?, pergunta novamente o segundo, assim como seus espectadores, enquanto se pega a estrada. A rua, na realidade, artéria percorrida ao longo de um travelling antes de ser explorada, que abre o filme. Mas em direção a quê? Estamos na Argélia, sem dúvida, mas aonde? Numa pequena cidade, responderá pouco a pouco o filme, que adicionará que há uma montanha por perto e que o mar não está longe. Dificilmente saberemos de antemão, mas sim à medida que aparecem, mais do que sabem as superfícies podem informar, os diversos protagonistas de “Bled Number One”. Primeiramente é um filme no qual a inscrição no espaço é essencial, mas onde a localização se mantém em aberto. Esta abertura é apenas uma das fontes desta surpreendente aventura que é, para o espectador, assistir ao filme.

Abandonados no plano do campo geográfico, procuramos por bem ou por mal encontrar os personagens principais e secundários, identificar uma intriga e as eventuais bifurcações do discurso. Nada disso aqui. O filme, muito simples, muito acolhedor àquilo que observa, não se rende a nenhuma das expectativas convencionais. Com dificuldade encontramos Kamel e cremos reconhecê-lo (sempre interpretado pelo próprio Rabah Ameur-Zaïmeche, que já havia sido o herói de “Wesh wesh quèst-ce qui passe” há quatro anos, retorna ao povoado após ter purgado a condenação que sofrera no filme anterior) que a atenção acaba por desviar-se para outro lugar. Kamel retornará com freqüência, ele cumpre um papel importante dentro do filme, mas por enquanto, tomamos o tempo para comentar a vida na cidade, zerando os medidores de ficção para se permitir perambular, filmar os gestos, as palavras, o comportamento dos clientes do bistrô, dos jogadores de dominó...

Sem dúvida uma história ou “assunto” surgirá dessa tapeçaria da realidade. Ah! Aqui temos uma verdade das belas: um grupo de jovens fundamentalistas ataca os clientes. E (ação/reação) aqui temos um personagem romanesco que emerge, Bouzid que organiza a população contra os adolescentes violentos estabelecidos na floresta. E então, nada. A guerrilha islâmica está lá, fora de campo, e Bouzid é uma figura que ganha visibilidade durante a construção do filme, mas ele não se estrutura, não é o herói, nem tampouco o anti-herói quando descobrirmos o lado antipático do bom moço. A história, portanto, não seria outra senão a daquela jovem mulher que abandona seu marido abusivo e cuja família recusa a acolhê-la com seu filho? Não exatamente, mesmo que, a princípio marginal, Louisa alcance o centro do Bled...

Mas o que aconteceu? O que acontece é que, sem nenhum efeito de condução auterista, Rabah Ameu-Zaïmeche inventa sob nossos olhos uma maneira inédita de se fazer um filme.Existem histórias, e múltiplas. E personagens também. Assuntos? Aos montes - violência fundamentalista, solidariedade comunitária, tradicionalismo impiedoso com as mulheres, análises sobre as crianças que emigram e as que permanceram no povoado... Nem as histórias, nem os personagens, nem os assuntos conduzem o filme, que não se apóia em cima de um desenvolvimento linear - nem mesmo de vários. Pensaríamos nos filmes mais delgados de Hou Hsaio-hsien, se cada plano não estivesse carregado duma matéria e duma luz que tudo deve a esta terra da África do Norte, a flor do Mediterrâneo.

À medida que, de forma sempre simples, sempre atenciosa aos gestos, aos rostos, às conversas cotidianas, RAZ compõe suas seqüências, nos parece que elas funcionam sobretudo por causa de "toalhas xadrez", por zonas espaço-temporais, cada uma transformada coerente por um assunto, uma emoção, uma reunião justa de componentes de todas naturezas: certos sons, certas luzes, certas vibrações se amarram, compondo um estado estável mas transitório. À esta arte poética de fabricação desses blocos de espaçotempo-história, junta-se o conhecimento ou o instinto bastante seguro na maneira de reuni-los. Jamais para juntá-los completamente, jamais heterogêneos demais entre si, compatíveis mas diferentes. Como as toalhas-xadrez sonoras que ecoam diversos músicos tocando cada um sua linha melódica, mas dentro da mesma sensação da música. Como um quadro composto de diferentes cenas pintadas com cores diferentes, que descobrem juntas uma nova compatibilidade, um sentido mais vasto. Esta forma de emparelhar a fundo a natureza dupla daquilo que aparece na tela, é a realidade repreentada: os corpos dos atores e o papel dos personagens, a realidade da natureza, a escuridão da noite, da potência mitológica da floresta ou do mar, etc., e seu motivo para aparecerem no discurso. Os flashes de violência, às vezes extremos, ecoam entre si sem se equilibrarem, e menos ainda se explicarem. Sem completude do sentido, simetria alguma, bastante face-a-face onde ninguém jamais se posiciona costas-a-costas.Certo de sua certeza - a qual ele prova ao avançar sem tropeçar - este exercício de encenação anda em corda bamba, constantemente arriscando perder seu fio estreito entre realidade e ficção, abre espaços imensos, possibilidades que parecem infinitas.

Uma música, uma canção acompanha a viagem, é Rodolphe Burger, sentado na colina, que canta e toca a canção, a guitarra consigo, amplificador ao seu lado. O filme encontrou, sem fazer esforço, seu lugar na imagem desde que ele se separou de sua banda. Ao final da revolta e da opressão, Louisa (a magnífica Meriem Serbah) é levada ao mar para um exorcismo, o arcaicismo e a superstição semi-abertos para permitir que uma única mágica aconteça durante a cerimônia, inexplicável como a beleza do cinema. Antes (ou depois?) que se passe à memória armada da luta de liberação, temos o filme ou os homens que o dominam se recentrarem nas mulheres, e então esta história do interior é reencontrada na grande cidade.

Sempre quando uma encenação é diapasão regulado daquilo que ela filma e das razões porque a filma, todo objeto é carregado de hipóteses de ficção, de ecos poéticos, de sentidos tão diversos como esta ponte, passagem ou ponto limítrofe, que leva à vida ou à morte, fronteira metafísica sobre a qual o destino de Louisa irá pender. O filme ecolherá. A personagem escolherá. O mundo está lá, quer dizer, uma lógica alternativa àquela das diferentes ordens dominantes (inlcuindo a ordem cinematográfica) encontradas na própria organização do filme como no comportamento - oh, infelizmente tão realista - de seus personagens. Assim "Bled Number One" acaba naturalmente ao entrar pisando firme na casa dos loucos, das loucas especialmente, essas mulheres abrigadas em si mesmas ou que, ao contrário, reinvidicam a ultrapassagem dos limites.

E uma, que não é louca, mas está com as loucas, a magnífica médica, fala uma linguagem de razão que, dentro deste contexto, sôa como um canto quase sobrenatural. E outra, a mais bela das loucas, esta Louisa que todos queriam que ficasse quieta, de repente canta, canta de maneira esplêndida, sua voz se torna um blues sobrenatural. Neste momento, o filme compara a médica e a cantora, ambas dizem palavras de sabedoria, ambas soltam um suspiro no qual beleza e sofrimento se misturam, nascidas num mundo tal como este.

(publicado na Cahiers du Cinema no. 613, junho-julho 2006)
  Bernardo Krivochein    quarta-feira, outubro 03, 2007    0 comentários
 
 


Postagem do Festival #5: Isso não é a hora e nem o lugar apropriado


Antes de tudo, perdoem-me se a cobertura do Festival do Rio deixou os pés pegarem friagem: decubro que é definitivamente impossível conciliar emprego, maratona de filmes - por mais tranqüilo que seja a programação pessoal montada - cursos, treinos e a composição de artigos. Decidi tomar mais tempo para assistir aos filmes, pensar e escrever sobre eles - estou cansado de fazer textos demasiadamente precipitados apenas para tirá-los do caminho em privilégio a próxima análise. E até existem textos para serem publicados sobre alguns dos filmes vistos, mas a edição do site está enrolada com a realização de seu próprio festival. Então a cobertura do Festival do Rio se prolongará após o seu término e os textos continuarão a surgir até eu dar cabo de todos os filmes vistos durante o evento (que no total serão por volta de 30).

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Fica para a próxima: a equação Palma de Ouro + Crítica positiva no jornal dominical + Sessão de domingo no Estaçaõ Ipanema transformaram a busca pelos ingressos restantes de "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" um pega para capar. Fico pensando na frustração do público do INDIE quando são obrigados a enfrentar fila para pegar os ingressos de graça, preferindo pagar se fosse para ter o conforto, e eu aqui, podendo e querendo pagar inteira, e ainda assim enfrentando fila quilométrica e sem a certeza de garantir nada. Aliás: e efetivamente não garantindo nada, já que preferi esperar o lançamento nacional pela ressucitada Lumière.

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A fila em si não é tanto o incômodo. Incômodo é acidentalmente se pegar prestando atenção naquelas famosas conversas de fila (ou de pré-início do filme), que fazem a pele formigar. Não há lugar mais inadequado do mundo para se falar de cinema do que num festival de cinema. O assunto é redundante feito flores na primavera, mas a articulação das idéias é feito uma poça de merda mole no meio dum salão de mármore. Há algo na situação "festival de cinema" que se impõe sobre o indivíduo e que o obriga a se expressar de uma forma meio arrogante, mesquinha, estúpida ao dialogar com seu próximo: há uma necessidade de querer se provar, impor o gosto, mostrar conteúdo e inteligência, fundamentar sua perspectiva sobre um filme em particular em cima de referências supostamente firmes, que fazem as pessoas emitirem frases taxativas, meio tolas, seja sobre cinema ou artes em geral.
Quando elas falam sobre um amigo em particular que ficou muito bêbado e fez uma merda fenomenal na festa de fulana na noite anterior, isso não incomoda. É o assunto cinema dentro da situação cinema na qual estão todos envolvidos que meio que envolve a audição não-autorizada de terceiros a contragosto. Eles não querem ser ouvidos por estranhos (ou querem?) e os estranhos não querem escutar tampouco. Sei lá, acabei ouvindo uma ou outra coisa constrangedora (inclusive uma conversa de celular que comentou um dos maiores sites de cinefilia atual com uma jocosidade que me fez enrubescer - ninguém mais leva ninguém a sério, mesmo quando são levados a sério?), a maioria sobre gostos cinematográficos e filmes vistos. Um "running commentary" sobre a beleza técnica de "Paranoid Park". Uma forma como um mais efeminado a-do-rou "Elefante", que era tudo. Um deboche sobre os momentos mais novelescos de "Lady Chatterley". O já mencionado "fracasso" de Tsai Ming-Liang após "O Sabor da Melancia". O modo como Carlos Reygadas aparentemente foi possuído pelo espírito do bom gosto e realizou um excelente filme - o que me fez querer desgostar de "Stellet licht" após escutar.
Irrita, porque ninguém está te perguntando nada, mas ainda assim dá vontade de subir num palanquinho, já que ninguém cala a boca, e desdizer tudo o que está sendo dito ao seu redor: uma coisa estranha ebule, um desejo de ser puramente contrário, apenas porque te incomodaram - mesmo sem querer (mas você jura que foi de propósito e que as pessoas estão meramente querendo se exibir; o que tem seu abismo de verdade, especialmente no Rio de Janeiro) - e precisa colocar os pingos nos i's. Talvez seja algo no tom adotado nas conversas, que exprime uma certa arrogância ao conferirem um parecer equivocado sobre certo filme, nos inspirando a criar um argumento mental inteiro para provar o engano de tal indivíduo. É um colapso de egos entre aquele que faz vitrine de si mesmo e de suas críticas idiotas e do outro que até tem argumento melhor, mas prefere engolir tudo e fantasiar sua superioridade em seu ridículo mundinho interior; convencidos x frustrados.
Enfim, próxima fila de cinema, falem sobre o preço do brócolis, sobre o melhor absorvente no mercado. Tudo, menos filmes. Não tem como sair nada de bom sobre o assunto cinema numa fila de festival. É uma condição atmosférica. Guardem seus pareceres para o bar após o cinema (sempre um excepcional programa), para a conversa descontraída em casa, íntima, entre amigos e reais interessados. E recomendações cinematográficas eufóricas na ante-sala do cinema também são um grande faux pas.
****
Fila da sessão de "Une Vieille Maîtresse" de Catherine Breillat no Estação Botafogo 1. E eu digo "fila". Porque é domingo e muita gente veio ver o filme de época descrito na programação sem fazer a menor idéia do que é uma Catherine Breillat na vida de uma pessoa. Quem a conhece, sabe que ela guarda absorvente íntimo no mesmo armário do saquinho de chá. A fila repleta de pessoas que erraram a sala de "Ligeiramente Grávidos". No fundo da minah mente, eu quero que a francesa seja, pelo menos hoje, a mais escabrosa possível, que me deixe de cabelos brancos, apenas para ter o prazer de ver o pessoal arrumadinho colecionando mais imagens para seus pesadelos classe média (em dado momento do filme, isso quase acontece). Mas é Breillat-light, como já era de se esperar, um filme sem impacto maior tanto para seus seguidores quanto para marinheiros de primeira viagem. Falta crueldade tanto às maquinações da trama quanto às imagens. Mas até que entretém, ainda que não era lá exatamente o que o filme procurava.
Mas permaneçamos na fila: uns pobres diabos fazendo street team para uma campanha publicitária da Petrobrás, vestidos feito lanterninhas ufanistas, abordam os espectadores na fila para participarem de uma espécie de jogo da memória: com uma espécie de ábaco glorificado em mãos, eles giram stills de filmes patrocinados pela BR os quais o espectador precisa identificar 4 que pertençam a um mesmo título. Fazendo isso, os pespectadores precisam sapatear em público (eu juro por Deus!), cantar alguma música de um desses filmes e responder qual é o nome da maior patrocinadora de filmes nacionais do Brasil.
O grande prêmio? Preparem-se, pois trata-se de um EXCELENTE prêmio! Depois de sobreviver a todo esse processo de lavagem cerebral e humilhação pública, você terá direito a um... Imã de Geladeira! Mas não é qualquer Imã de Geladeira; é um Imã de Geladeira BR, com cartazes de filmes brasileiros a sua escolha!
Depois de tudo isso, o espectador ainda responde à pesquisa da agência de marketing: o que você achou dessa estratégia?
Sejamos justos, para o público que ali se encontrava, um bando de velha abobada e adultos meio Kenny G., a parada até que funciona. Mas convenhamos que é péssima, um pouco irritante e a forma como as pessoas se dispõem a se rebaixar, deprimente. O pior é o famoso condicionamento mental a responder: "Petrobrás", mas deixe para uma carioca espirituosa defender a nossa honra, quando o pobre rapaz - aliás, entregue de corpo e alma ao jabá publicitário - hesita na campanha:
"Qual é a maior empresa do Brasil?"
"Ora, a Vale do Rio Doce!"
E de acordo com a pesquisa de quinta-feira feita pelo índice Bovespa, ela estava certa. A Vale do Rio Doce havia se tornado a empresa mais valiosa do país. Era uma daquelas coisas que eu também queria ter dito ao rapaz - caso participasse da brincadeira, o que jamais iria acontecer - mas jamais teria feito porque eu tenho consciência demais de que por trás daquele uniformezinho ridículo tinha alguém simplesmente tentando ganhar a vida. É por isso que não atirei no crânio do guarda-volumes noite passada. Mas ridicularização por ridicularização, o rapaz fez com que ela contornasse sua resposta, apenas para ter direito ao precioso e raríssimo brinde.
****
Na mesma noite do post passado, fui assistir "Planeta Terror", o filme de Robert Rodriguez para o projeto Grindhouse. Rodriguez paga um pouco o preço de ser o primeiro filme de um double-feature artificial de três títulos (o uniforme, o seu e o de Tarantino). Por ser obrigado a se apresentar "Grindhouse" antes de ser "Planet Terror", acontece uma estranha perda de força na sua simulação de filme antigo (o trailer de "Machete" diverte, no entanto). Pior: o vídeo digital utilizado por Rodriguez não se faz passar por película nem por um cacete e, ao contrário do longa de Tarantino, as falhas de película, riscos, oxidações e etc., ficam parecendo artificalidades estilísticas de um clipe do Samuel Bayer (coisa que a gente vê no cinema desde os créditos de abertura de "Seven"). Se fizesse se passar por um desses filmes feitos diretamente para o vídeo, como os de Lorenzo Lamas ou Don "The Dragon" Wilson, funcionaria muito melhor. O que não quer dizer que não seja divertido: é tudo delirantemente over (mas consciente até demais disso), o sintetizador a la John Carpenter é um ótimo toque e Josh Brolin faz um vilão genial. Ao que Tarantino compreende o grindhouse até nos seus piores defeitos, Rodriguez mantém somente aquilo que ele aprecia, abandonando as partes chatas, e aumenta sua intensidade. Um público escandaloso melhora bastante a sessão.
Mas o dia seguinte se tornou talvez o marco cinematográfico do meu ano: 3 filmes seguidos, 3 obras esperadas, 2 cinemas. "Mogari no Mori" de Naomi Kawase, seguido imediatamente das três horas de "Lady Chatterley" de Pascale Ferran, e finalmente "Paranoid Park" de Gus Van Sant. O que deve ser dito deles o será nos textos no site principal. Meu preferido tem que ser, no entanto, "Mogari no Mori" - o qual estou tendo dificuldades para escrever sobre. Espécie de melodrama sensualista, a história sobre uma tramatizada auxiliar de um asilo que acompanha um viúvo à floresta onde está o túmulo de sua esposa de tão espetacular, torna-se sobrenatural nas curvas finais por simples falta de espaço para ampliar-se nessa dimensão. Um dos grandes de 2007.
Houveram "Woman On The Beach", o mais engraçado-ainda-que-nada-leve de Sang-Soo, meu primeiro filme do diretor visto num cinema (longe pra caralho), para grandioso efeito. A tela grande desvenda Hong Sang-soo de maneira mais intensa do que a caseira a qual os brasileiros tiveram que recorrer até hoje para conhecê-lo. Tudo bem, o Festival do Rio tem a honra de ser o primeiro festival brasileiro a exibir um Sang-soo em território nacional (por uma semana de diferença, aaargh!), mas só de saber que é em BH que a quase totalidade da obra de um dos cineastas coreanos mais bem sucedidos artisticamente será exibida, e em première, nos dá orgulho. 2007 é o ano de Sang-soo no Brasil.
Com esta sessão e a de "Une Vieille Maîtresse", meu fim de semana no Festival do Rio se completou. Adentramos a semana intermediária do Festival, que acaba oficialmente quinta, mas proporciona uma semana de repescagens. Os completistas agradecem.
  Bernardo Krivochein    terça-feira, outubro 02, 2007    1 comentários
 
 
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