blogINDIE 2006



37 Altman - Retrô de um pioneiro da alma indie

Isto mesmo! 37 longas do diretor norte-americano Robert Altman estarão no CCBB a partir de hoje, 27 de maio a 15 de junho no Rio de Janeiro; em São Paulo, de 4 a 22 de junho; e Brasília de 10 a 29 de junho. Altman que morreu em 2006, aos 81 anos, manteve um espírito independente mesmo produzindo para TV e estando em Hollywood.

"Altman começou como roteirista e diretor de séries para a TV. No cinema, ficou conhecido por sua abordagem iconoclasta e inovadora de gêneros clássicos (western, policial, musical, filme de guerra); o talento para a direção naturalista dos atores; traços muito particulares de estilo, como as falas simultâneas dos personagens e os famosos planos-seqüências, como o do início de “O Jogador”; e a preferência por filmes-corais, nos quais tece um painel de inúmeros personagens, misturando seus dramas de forma hábil e sutil" (imagino que este texto aí entre aspas seja do curador da mostra, já que veio no release... Esta expressão filmes-corais não conhecia, muito engraçada, aliás. Acho que ele quer dizer sobre a multiplicidade e simultaneidade de personagens em narrativa ou montagem paralela...). "As Muitas Vidas de Robert Altman” tem curadoria de Angelo Defanti.

Serão 33 filmes (dos 37) em película 35mm, fato cada dia mais raro de se ver. Ainda mais quando se trata de cinema norte-americano (totalmente sem apoio para intercâmbio com os países da América Latina) e ainda mais numa retrospectiva. Im-per-dí-vel.

Confira a lista completa e sinopses dos filmes ( acho que não tem um hotsite da mostra, mas os horários você pode conferir no site do CCBB):

Os Delinqüentes
(The Delinquents, EUA, 1957, 72 min)
Com: Tom Laughlin, Peter Miller, Richard Bakalyan
Robert Altman estreou como diretor de longa-metragem ficção com este drama que conta a história de Scotty White (Tom Laughlin), jovem de 19 anos de idade obrigado a romper o namoro com a bela Janice Wilson (Rosemary Howard), de apenas 16 anos, porque os pais da garota não aprovavam o relacionamento entre eles. Frustrado com a separação, Scotty acaba se envolvendo com uma turma de delinqüentes.

The James Dean Story
(The James Dean Story, EUA, 1957, 81 min)
Direção: Robert Altman, George W. George
Com: Martin Gabel, James Dean, Lew Bracker
Documentário feito apenas dois anos depois da morte de James Dean. A partir de filmagens, fotografias, narrações e depoimentos de pessoas que estiveram ao lado
de Dean, o filme apresenta a vida e a carreira de um dos maiores ícones do cinema americano. Entre os entrevistados se destacam uma tia do ator, que o criou desde os nove anos de idade - quando a mãe de James Dean morreu -, os avós paternos, um motorista de táxi em Nova York que sempre era chamado pelo astro, e o proprietário do restaurante predileto do ídolo em Los Angeles. O pai de James, que estava vivo quando o filme foi realizado, não quis fazer nenhum depoimento.

No Assombroso Mundo da Lua
(Countdown, EUA, 1968, 101 min)
Direção: Robert Altman, William Conrad
Com: James Caan, Joanna Moore, Robert Duvall
Equipe do foguete Apollo 3 está em pleno treinamento quando os planos dos russos de pousar na Lua são descobertos. Os americanos então abreviam a missão. E recrutam no lugar de Chiz, que havia sido treinado, o astronauta Lee. Ele tem três semanas para ir ao espaço e permancer na Lua por um ano, até que a Apollo esteja pronta. Ocorre que os russos lançam seu foguete dois dias antes do programado.

Uma Mulher Diferente
(That Cold Day in the Park, EUA, Canadá, 1969, 106 min)
Com: Sandy Dennis, Michael Burns, Susanne Benton
Casta balzaquiana conhece jovem de 19 anos num parque e decide levá-lo para casa, determinada a perder a virgindade. O rapaz se faz de mudo e a acompanha sem saber que ela pretende guardá-lo para sempre.

MASH
(EUA, 1970, 116 min)
Com: Donald Sutherland, Elliott Gould, Robert Duvall
Aclamado como uma das melhores comédias de todos os tempos, ''MASH'' conta a história de alguns cirurgiões do exército que desenvolvem um estilo de vida totalmente lunático para poder encarar os horrores diários da guerra em um Hospital Cirúrgico Móvel do Exército (Móbile Army Surgical Hospital - de onde vem a sigla M*A*S*H) durante a Guerra da Coréia. Apesar de altamente qualificados e extremamente dedicados, esse bando de malucos também são especialistas em transformar a burocracia do exército em um completo caos. Indicado ao Oscar em cinco categorias, incluindo o de melhor filme.

Voar é com os Pássaros
(Brewster McCloud, EUA, 1970, 105 min)
Com: Bud Cort, Sally Kellerman, Shelley Duvall
Brewster é um garoto sério, intelectual e sonhador. Seu maior desejo é poder voar. E faz questão de dizer a todos que o fará, ainda que muitos dêem de ombros para os planos do rapaz. Brewster constrói enormes asas. E quando se prepara para saltar e inaugurar seu vôo, é surpreendido pela polícia. Ele fará de tudo para não ser pego.

Jogos & Trapaças - Quando Os Homens São Homens
(McCabe & Mrs. Miller, EUA, 1971, 120 min)
Com: Warren Beatty, Julie Christie, Shelley Duvall, Keith Carradine
Compositor: Leonard Cohen
Com a ajuda de uma cafetina, jogador fracassado inaugura prostíbulo em cidade onde foi descoberta mina de ouro. Os negócios vão bem e, até por isso, a companhia que controla a mina quer que ele venda o bordel, por bem ou por mal.

Imagens
(Images, Inglaterra/Irlanda/EUA, 1972, 101 min)
Elenco: Susannah York, Rene Auberjonois, Marcel Bozzuffi
Mulher à beira do histerismo confunde as identidades dos seus antigos amantes, criando uma realidade fantasiosa. Seus temores a levam a um único desejo: destruir o mundo interior que ela construiu. Adaptação do livro ''In Search of Unicorns'', de Susannah York.

O Perigoso Adeus
(The Long Goodbye, EUA, 1973, 112 min)
Roteiro: Raymond Chandler, Leigh Brackett
Elenco: Elliott Gould, Nina Van Pallandt, Sterling Hayden
O esperto detetive particular Philip Marlowe dá carona a um amigo de Los Angeles até a fronteira de Tijuana. Ao voltar para casa, encontra seu apartamento cheio de policiais, sendo preso como cúmplice do assassinato da esposa de seu amigo. Quando é liberado após a polícia descobrir que o colega de Marlowe cometeu suicídio, o detetive é contratado por uma bela mulher que pretende encontrar o marido alcoólatra desaparecido. Ao mesmo tempo, Marlowe descobre que o amigo morto no México tinha em seu poder US$ 350 mil que pertencia à máfia.

Renegados até a Última Rajada
(Thieves Like Us, EUA, 1974, 123 min)
Elenco: Keith Carradine, Shelley Duvall, Louise Fletcher
Três assassinos condenados - Bowie (Carradine), Chicamaw (Schuck) e T-Dub (Remsen) - escapam de uma prisão na rural Mississippi em 1937. A gangue logo passa a fazer aquilo que melhor sabe: roubar bancos. A situação complica quando Bowie, o mais jovem, se apaixona pela jovem fazendeira Keechie (Duvall).

Jogando com a Sorte
(California Split, EUA, 1974, 108 min)
Elenco: George Segal, Elliott Gould, Ann Prentiss
Dois jogadores e apostadores compulsivos (George Seagal e Elliot Gould) se encontram e partem para uma viagem a Tijuana, onde pretendem participar de um campeonato de pôquer que pode mudar suas vidas. Entre uma partida e outra, os dois se envolvem em muita confusão e bebedeiras.

Nashville
(EUA, 1975, 159 min)
Elenco: Ned Beatty, Karen Black, Keith Carradine, Geraldine Chaplin, Shelley Duvall, Scott Glenn, Jeff Goldblum
A história de vários personagens ligados ao mundo da música se cruza na cidade de Nashville, capital do Tennessee. Barbara Jean é considerada a rainha do local, mas está à beira de um colapso; Linnea e Delbert Reese mantém um casamento instável e possuem filho deficiente; Opal é um jornalista britânico a trabalho na cidade. Clássico dirigido por Altman, indicado em cinco categorias do Oscar e ganhador da estatueta de melhor canção - ''I'm Easy'', de Keith Carradine.


Buffalo Bill
(Buffalo Bill and the Indians, or Sitting Bull's History Lesson, EUA, 1976, 123 min)
Com: Paul Newman, Harvey Keitel, Geraldine Chaplin
Buffalo Bill (Paul Newman) planeja ter o seu próprio show de Velho Oeste, e o chefe Touro Sentado concorda em aparecer nele. No entanto, Touro Sentado tem sua própria agenda secreta, envolvendo o presidente e o General Custer. Lançado também com o título ''Oeste Selvagem''.

Três Mulheres
(3 Women, EUA, 1977, 124 min)
Com: Shelley Duvall, Sissy Spacek, Janice Rule
A tímida e solitária Pinky começa um novo trabalho e logo sente-se emocionalmente ligada à colega Millie. Um acidente envolvendo as duas faz com que, inexplicavelmente, elas troquem de personalidade. Mas é uma mudança breve, que só volta ao normal quando entra na história uma outra mulher, uma artista que há algum tempo já rondava a vida de Pink e Millie.

Cerimônia de Casamento
(A Wedding, EUA, 1978, 125 min)
Com: Geraldine Chaplin, Mia Farrow, Vittorio Gassman, Lillian Gish
Rapaz de família tradicional está prestes a unir-se em matrimônio com a filha de novo rico. Desde os preparativos para a festa, as inevitáveis confusões são prenunciadas, mas nada pode abalar a cerimônia, nem mortes, nem estranhas ligações, nem crises de depressão e incompatibilidades sociais.

Quinteto
(Quintet, EUA, 1979, 118 min)
Com: Paul Newman, Vittorio Gassman, Fernando Rey, Bibi Andersson
Drama que mistura ficção científica e suspense na história em que a Terra vive uma nova era glacial. Nesse ambiente, um estranho jogo envolve cinco participantes que se digladiam até à morte. Apenas um sobreviverá, mas terá de enfrentar um inimigo ainda mais poderoso.

Um Casal Perfeito
(A Perfect Couple, EUA, 1979, 111 min)
Com: Paul Dooley, Marta Heflin, Titos Vandis
Los Angeles. Alex Theodopoulos (Paul Dooley) e Sheila Shea (Marta Heflin) se conhecem através de um serviço de encontros por computador. Apesar de sentirem atração um pelo outro, se deparam com o problema dele se sentir pressionado por um pai dominador, Panos (Titos Vandis), e ela ter um tipo de vida irregular, pois divide seu apartamento com os integrantes de 'Mantedo-os Fora das Ruas', uma banda da qual participa. Assim sempre acontece algo que perturba o "clima" deles.

Popeye
(EUA, 1980, 114 min)
Elenco: Robin Williams, Shelley Duvall, Ray Walston
Um Popeye de carne e osso procura encontrar Gugu, o bebê pestinha comedor de hamburger que vive desaparecendo. Com direito a Olívia Palito e Brutus. Adaptação para as telas do famoso personagem criado nas tiras de jornais por E.C. Segar, contando as aventuras do marinheiro Popeye, cuja incrível força vem do espinafre. Filme que marca a estréia de Robin Williams no cinema.

Política do Corpo e Saúde
(Health, EUA, 1980, 105 min)
Com: Glenda Jackson, James Garner, Lauren Bacall, Alfre Woodard
Altman fez aqui uma sátira política que inicialmente seria lançada durante a campanha presidencial americana em 1980. Os executivos da Fox acharam que seria uma enorme provocação, e o filme foi engavetado por dois anos. ''Health'', que também significa saúde mas no filme descobrimos ser anacronimo de ''Happiness, Energy And Longevity Through Health'' (felicidade, energia e longevidade através da saúde), se passa numa convenção de alimentação e saúde na Flórida. É no envento que se trava a campanha pela presidência da organização, justamente chamada H.E.A.L.T.H.

James Dean, O Mito Sobrevive
(Come Back to the Five and Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean, EUA, 1982, 109 min)
Com: Sandy Dennis, Cher, Karen Black, Kathy Bates
No vigésimo aniversário da morte de James Dean, veteranas fãs do ator se reúnem no bar de sua cidade natal para cultuar a memória do ídolo e relembrar os tempos de juventude. Baseado em peça de Ed Graczyk.

O Exército Inútil
(Streamers, EUA, 1983, 118 min)
Com: Matthew Modine, Michael Wright, Mitchell Lichtenstein
Enquanto espera a ordem para seguir para o Vietnã, grupo de soldados americanos vive momentos de tensão e angústia nos alojamentos. Adaptado por David Rabe de sua própria peça. Os seis atores do elenco dividiram o prêmio de melhor interpretação masculina no Festival de Veneza.

Secret Honor
(EUA, 1984, 90 min)
Com: Philip Baker Hall
De forma audaciosa e arriscada, Altman levou para as telas esse monólogo dramático apresentado na Broadway (com texto de Donald Freed e Arnold M. Stone). Philip Baker Hall interpreta o ex-presidente Richard Nixon, solitário numa sala com pouca luz, quadros na parede e uma garrafa de uísque na mesa. Um Nixon abatido relembra sua infância e juventude, até chegar à presidência dos Estados Unidos. E descreve as ''verdadeiras'' razões que o colocaram no centro do escândalo de Watergate, cujo desfecho foi seu afastamento do cargo.

Louco de Amor
(Fool for Love, EUA, 1985, 106 min)
Roteiro: Sam Shepard
Com: Sam Shepard, Kim Basinger, Harry Dean Stanton
May está à espera do namorado num motel de beira de estrada, pronta para fugir com ele e começar nova vida. De repente ela é tomada por lembranças que a fazem se questionar sobre tudo aquilo e coloca em risco sua decisão. May sente que está sendo puxada para a vida que está deixando para trás. Quando o namorado aparece, a situação fica bastante complicada

O.C. and Stiggs
(EUA, 1987, 109 min)
Com: Daniel H. Jenkins, Neill Barry, Cynthia Nixon
O.C. e Stiggs são dois amigos adolescentes. Mas não aquele tipo comum de adolescente, constantemente infeliz. Eles não apenas desprezam a vizinhança suburbana, mas têm planos terríveis contra eles. Em especial a família Schwab, para quem armam um plano de vingança só porque essa família representa tudo o que os garotos odeiam: a classe média.

Além da Terapia / Loucos, Apaixonados e Incuráveis
(Beyond Therapy, EUA, 1987, 93 min)
Com: Jeff Goldblum, Glenda Jackson, Geneviève Page
Prudence coloca um anúncio no jornal e Bruce responde. Ao se encontrarem, ela logo nota que ele é pirado. Descobre depois que sua psiquiatra namora o psiquiatra dele e as histórias começam a se cruzar, numa sucessão de situações cômicas. Baseado na peça de Christopher Durang. O flme também foi lançado com o título ''Loucos, Apaixonados e Incuráveis''.

Van Gogh - Vida e Obra de um Gênio
(Vincent & Theo, Holanda, Inglaterra, França, 1990, 138 min)
Com: Tim Roth, Paul Rhys, Adrian Brine
Exibido em alguns países da Europa em formato de minissérie (o filme tem originalmente quatro horas), trata-se da cinebiografia do pintor Vincent van Gogh e seu relacionamento com o irmão Theo. Obra não convencional na filmografia de Altman, mas que mantém o apuro estético do diretor.

O Jogador
(The Player, EUA, 1992, 124 min)
Com: Tim Robbins, Greta Scacchi, Whoopi Goldberg, Peter Gallagher, Vincent D'Onofrio, Sydney Pollack
Vice-presidente de um estúdio de Hollywood subestima as qualidades de um roteirista desconhecido e passa a receber cartas ameaçadoras

Short Cuts - Cenas da Vida
(Short Cuts, EUA, 1993, 187 min)
Roteirista(s): Raymond Carver, Robert Altman, Frank Barhydt
Com: Andie MacDowell, Jack Lemmon, Julianne Moore, Matthew Modine, Anne Archer, Jennifer Jason Leigh, Chris Penn, Lili Taylor, Robert Downey Jr., Madeleine Stowe
Um painel da Los Angeles atual a partir do atropelamento de uma criança, filha de apresentador de TV, por uma garçonete. Casais que não se entendem, pais e filhos que não se comunicam e amantes que não conseguem se integrar fazem parte da narrativa costurada a partir de oito contos de Raymond Carver. Vencedor do Leão de Ouro em Veneza

Prêt-à-Porter
(EUA, 1994, 133 min)
Com: Marcello Mastroianni, Sophia Loren, Jean-Pierre Cassel, Kim Basinger, Chiara Mastroianni, Stephen Rea, Anouk Aimée, Rupert Everett, Rossy de Palma, Forest Whitaker
Série de vinhetas satirizam a concorrida semana dos lançamentos da alta costura em Paris, enquanto um repórter se divide entre a cobertura do evento e o assassinato de um executivo do ramo.

Kansas City
(França/EUA, 1996, 116 min)
Com: Jennifer Jason Leigh, Miranda Richardson, Harry Belafonte, Dermot Mulroney, Steve Buscemi
Numa cidade dominada pela máfia e pelo caos, uma mulher tenta salvar seu amante das garras do crime. Robert Altman reconstitui fielmente o clima de tensão de uma cidade controlada por políticos corruptos, dominada por gângsteres, embalada pelo jazz de seus night clubs e ainda criou um clima de suspense.

Jazz '34
(EUA, 1996, 72 min)
Com: Harry Belafonte (narrador), Ron Carter, Joshua Redman
Robert Altman visitou sua Terra natal, Kansas City, onde reuniu 34 dos maiores músicos de jazz contemporâneos. A jam session durou uma semana, e Altman transformou as apresentações nesse documentário musical.

A Armação
(The Gingerbread Man, EUA, 1998, 114 min)
Com: Kenneth Branagh, Robert Downey Jr., Daryl Hannah, Tom Berenger, Famke Janssen, Robert Duvall
Rick (Kennetg Branagh) é um advogado que se encontra com a bela e misteriosa Mallory Doss (Embeth Davidtz). Após uma carona, eles iniciam um tórrido romance e Rick descobre que ela vem sofrendo ameaças de Dixon (Robert Duvall), seu desequilibrado pai. Rick coloca sua firma para trabalhar, prende Dixon e intima Pete (Tom Berenger), o ex-marido, para testemunhar no tribunal. Ele é enviado para um asilo, de onde acaba fugindo para colocar a vida de todos em grande perigo.

A Fortuna de Cookie
(Cookie's Fortune, EUA, 1999, 118 min)
Com: Glenn Close, Julianne Moore, Liv Tyler, Chris O'Donnell
Cookie é uma senhora idosa e rica que aparentemente se suicida. Camille, sua sobrinha invejosa e ambiciosa, quer a herança da tia, e para isso faz com que pareça que o criado negro da casa a tenha assassinado, tudo com o conluio da manipulável irmã Cora. A chegada à cidade da bela e rebelde filha de Cora, Emma, só aumenta a confusão.

Doutor T e As Mulheres
(Dr T and the Women, EUA, Alemanha, 2000, 122 min)
Com: Richard Gere, Helen Hunt, Farrah Fawcett, Laura Dern, Kate Hudson, Liv Tyler
Dr. Sullivan Travis (Richard Gere) é um ginecologista de prestígio rodeado de muitas mulheres que ainda vão levá-lo à loucura. No consultório, tem de enfrentar um ritmo alucinante de pacientes que fazem fila na sala de espera e, em casa, a esposa (Farrah Fawcett) apresenta sintomas de uma doença rara, a cunhada (laura Dern) se mudou com as filhas para lá e uma de suas filhas (Kate Hudson) está prestes a se casar. A solução é esfriar a cabeça no campo de golfe, mas acaba se apaixonando pela independente e determinada professora (Helen Hunt).

Assassinato em Gosford Park
(Gosford Park, Inglaterra/EUA/Alemanha/Itália, 2001, 137 min)
Com: Maggie Smith, Kristin Scott Thomas, Ryan Phillippe, Stephen Fry, Clive Owen, Emily Watson
Passada na Inglaterra dos anos de 1930, trata-se da história de um assassinato durante um jantar em que os donos da festa são rodeados por inúmeros serviçais e convidados.

De Corpo e Alma
(The Company, Alemanha/EUA, 2003, 112 min)
Roteiro: Neve Campbell, Barbara Turner
Com: Neve Campbell, Malcolm McDowell, James Franco
Drama centrado num grupo de dançarinos de balé, no qual uma jovem objetiva se tornar a estrela principal. Projeto pessoal da atriz e dançarina por formação Neve Campbell.

A Última Noite
(A Prairie Home Companion, EUA, 2006, 105 min)
Com: Woody Harrelson, Tommy Lee Jones, Kevin Kline, Lindsay Lohan, Virginia Madsen, John C. Reilly, Meryl Streep, Lily Tomlin
Os bastidores do famoso ''A Prairie Home Companion'', um dos mais tradicionais shows de rádio na América em sua última transmissão. O programa, apresentado pelos cowboys cantores Dusty e Lefty, fazia sucesso com a participação de várias celebridades da música.

Serviço:
CCBB – Rio de Janeiro
De 27/5 a 15/6
Rua Primeiro de Março, 66 – Centro
Ingressos: R$ 6 e R$ 3 (meia-entrada)

CCBB – São Paulo
De 4 a 22/6
Rua Álvares Penteado, 112 – Centro
Ingressos: R$ 4 e R$ 2 (meia-entrada)

CCBB – Brasília
De 10 a 29/6
SCES Trecho 2 Conjunto 22
Ingressos: R$ 4 e R$ 2 (meia-entrada)
  Francesca Azzi    Terça-feira, Maio 27, 2008    1 comentários
 
 
ZUMBIDOS DE CANNES 2008 - OS PREMIADOS

COMPETIÇÃO OFICIAL

Palma de Ouro: ENTRE LES MURS, de Laurent Cantet
Grand Prix: GOMORRA, de Matteo Garrone
Prix de la Mise en Scene (melhor diretor): Nuri Bilge Ceylan, por "Three Monkeys"
Prix du Scenario (melhor roteiro): LE SILENCE DE LORNA, de Jean Pierre & Luc Dardenne Camera d'Or (melhor primeiro filme): HUNGER de Steve McQueen. (Menção honrosa: ILS MOURRONT TOUS SAUF MOI, de Valeria Gai Guermanika)
Prix du Jury: IL DIVO, de Paolo Sorrentino
Prix d'interpretation feminine (melhor atriz): Sandra Corveloni por "Linha de Passe"
Prix d'interpretation masculine (melhor ator): Benicio del Toro por "Che".
Prix de 61st Festival de Cannes: Catherine Deneuve por "Un Conte de Noël" e Clint Eastwood por "The Exchange"
Palme d'Or (curta-metragem): MEGATRON, de Marian Crisan. (menção honrosa: JERRYCAN, de Julius Avery)

MOSTRA UN CERTAIN REGARD

Grand Prix de la Fondation GAN: TULPAN, de Sergey Dvortsevoy
Hope Prize: JOHNNY MAD DOG, deJean-Stéphane Sauvaire
Knock-Out Award: TYSON, de James Toback
Prêmio do Júri: TOKYO SONATA, de Kiyoshi Kurosawa
Prix Coup de Coeur: CLOUD 9, de Andreas Dresen

SEMANA DA CRÍTICA

Grand Prix: SNOW, de Aida Begic
Prix SACD: MOSCOW, BELGIUM, de Christophe Van Rompaey
Prix ACID/CCAS: MOSCOW, BELGIUM, de Christophe Van Rompaey
OFAJ (Very) Young Critics’ Award: BLOOD APPEARS - Pablo Fendrick
Canal+ Grand Prix de Melhor Curta: NEXT FLOOR, de Denis Villeneuve
Prêmio Kodak Discovery para Melhor Curta-Metragem: SKHIZEIN, de Jérémy Clapin

PRÊMIO DO JÚRI ECUMÊNICO
ADORATION, de Atom Egoyan

FIPRESCI
DELTA, de Kornél Mundruczó; e HUNGER, de Steve McQueen
Revelação do Ano: LAKE TAHOE, de Fernando Eimbcke
Prêmio François Chalais: Marco Tullio Giordano, por "Sanguepazzo"
  Bernardo Krivochein    Domingo, Maio 25, 2008    4 comentários
 
 
Uma sessão de "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" em algum cinema do Rio de Janeiro

Os únicos assentos restantes estão marcados em verde na tela do computador, todos nas primeiras fileiras. "Jesus...", eu exclamo. A bilheteira ri. Escolho C-13. Tenho a certeza de que por escolher uma poltrona praticamente dentro da tela, eu roubei o lugar de algum crítico da Contracampo.

ANÚNCIOS GERAIS:

Em "A República" de Platão, Sócrates prega que, para que as crianças se tornem boas cidadãs - especialmente as destinadas a se tornar guerreiras - elas deveriam ser privadas de narrativas como a "Odisséia" de Homero, cuja história de deuses cruéis e do sofrimento nada poderiam trazer de benéfico para sua educação. Ao invés disso, elas deveriam ser educadas apenas com histórias sobre grandes feitos, positivas, edificantes, para assim construírem caráter, auto-confiança e senso de dever e sociedade.

Fico eu imaginando o que Platão e Sócrates achariam então da notícia-real-transformada-em-espetáculo-cinematográfico projetada na tela: o boletim eletrônico do Último Segundo anuncia a lei paulistana que não indicia mais usuários de droga por tráfico. A manchete vem acompanhada de uma foto genial: três linhas de cocaína esticadas para uso imediato, adequadíssima para uma sessão de um cinema repleta de crianças. Às 16h. da tarde. Claro, liberdade de imprensa, sempre. Mas será que a imprensa precisa ser sempre esse órgão degenerante da sociedade, provocando os limites e depois se jogando no chão, fazendo-se de vítima ao ser publicamente atacada por seus abusos? Quando é que nós permitimos o "Tudo tem sua hora e lugar apropriado" ser confundido com censura?

Se as histórias edificantes ajudavam a criar heróis, membros dignos da sociedade, o que uma história como "cheirar agora está na moral com o guarda" cria? Será que, numa história, a realidade paralizante e claustrofóbica é preferível a uma fantasia benéfica, educativa e encorajadora, com efeitos positivos na sociedade a longo prazo? Bem vindo ao pesadelo do "real", termo este que lentamente se torna ultrapassado, inexato.

COMERCIAIS:

>> De uma revigorante fúria kinética esta nova campanha "Rala Que Rola" da Nike, que só não é uma obra-prima porque Guy Ritchie está claramente chupando o clipe "Smack My Bitch Up" de Jonas Akerlund (mais do que na idéia, mas também no tom intenso e ríspido). Quando assisto a este comercial, eu, que nunca pude ligar menos para futebol, tenho vontade de escancarar a porta de casa, correr para a rua, fazer flexões até vomitar e causar pânico social chutando bolas a esmo nos transeuntes distraídos. Repleto de astros da chuteira em pequenas pontas (Wayne Rooney, Cristiano Ronaldo, o elenco europeu), este épico relâmpago sobre a ascenção, queda e rendenção de um jogador de futebol é uma peça audiovisual de energia bruta, capaz de comover com uma potência que alguns longas sequer ousam em sonhar, que manda uma rajada de eletricidade e testosterona pelo corpo.

>> O inverso total pode ser dito de outro comercial cujo gancho bizarro é ter Dan Stulbach fazendo malabarismos de street dance, algo inconcebível para uma figura como Dan Stulbach. Talvez com isso, o publicitário queira nos dizer que com tal produto - que o comercial falta grosseiramente em fazer marcante (pela carga incomensurável de horripilância da peça, trilhada a uma versão Ti-Hi de um dance tenebroso dos anos 90 de Scatman John), eu sinceramente não sei o que estavam anunciando - o consumidor seja capaz de realizar coisas tão inimagináveis quanto o tal street dance de Dan Stulbach. Mas como não se trata do próprio Stulbach fazendo os movimentos, e sim um dublê muito mal integrado por efeitos digitais para lá de mal feitos, a mensagem se subverte por inteiro: o consumidor não será capaz de dançar street dance ou qualquer outra coisa impossível. Seus sonhos não se tornarão possíveis para você, mas para outro como você, e por sua causa.

>> Já que estamos no assunto comerciais, falemos do anúncio da Perdigão, onde várias figuras da sociedade se deleitam com a mortadela da marca ao som do tema de Nino Rota para "O Poderoso Chefão". Das duas, uma possibilidade e uma certeza. A possibilidade como sugerida pelo anúncio: Perdigão é uma marca de frio de/para mafiosos. A certeza: "O Poderoso Chefão" se assume sendo um filme família dos mais SuperCine, passado num cenário de máfia italiana tão artificial e asséptico, higienizado de sua derradeira crueldade e violência para os espectadores que precisam preservar a fantasia de sua própria maturidade intelectual (mas que não suportam ter os sentidos violentados pela realidade do universo que exigem testemunhar enquanto "arte"), que não surpreenderia caso se tornasse uma montanha-russa temática na Disney (prova derradeira: hoje o filme "de máfia" é um comercial da Perdigão). Francis Ford Coppola odiou fazer "O Poderoso Chefão", pelas pressões dos produtores, especialmente Robert Evans, que vai ao ponto de chamá-lo de "imbecil" em "O Show Não Pode Parar", contando a verdadeira história da conturbada produção. Ou seja, o filme é regido pelo signo do erro, sem pai, sem discurso, sem visão. Filmes com história semelhante acabam sendo eventualmente esquizofrênicos, várias vozes fortes disputando para ser a derradeira. "O Poderoso Chefão" é um filme mudo, sem voz própria: não há a voz de Coppola (ele admite), não há a voz de Evans (ele admite), não há a voz de Puzo (que não se pronuncia realmente). Talvez seja exatamente por causa dessa total falta de personalidade narrativa que a maioria das pessoas ame "O Poderoso Chefão" como uma grande obra: por não ter um dono, as pessoas se sintam livres para se apropriarem dele.

TRAILERS

>> "As Crônicas de Nárnia: No épico desta temporada, o Príncipe Caspian combate seu inimigo mortal: o Selsiun Azul." Engraçado como príncipe de filme tem sempre cara de modelo/ator/manequim (por que será?). Nesta época em que exigimos o realismo mais precioso de nossos filmes mais fantásticos, por que a platéia ainda não está amadurecida para conceber um príncipe com a cara do Príncipe Charles? Eu não vi o primeiro porque, sinceramente, "O Leão, A Bruxa e o Guarda-Roupa" soa como título de filme de suruba e eu me recuso a assistir pornô com cachorro, cavalo, anão ou móveis indefesos.

>> O que há de errado com esse pessoal da Pixar? Caralho, 15 segundos do trailer de "Wall-E" e eu já estava pronto para chorar horrores. "A Terra foi abandonada." Que horrível! "Mas um robô foi deixado para trás, com a responsabilidade de limpar o planeta." Cacete, que triste. "E o robô desenvolveu personalidade e se sente sozinho": o coração aperta, os olhos umedecem. "E então ele, que nunca teve um amigo, recebe a visita inesperada do espaço." Ah, quer dizer que ele finalmente encontrou alguém? Que emoção, vou chorar, puta que o pariu! "Mas quando eles levam sua companhia embora, o robozinho vai atrás da única amiga que jamais conheceu." E as imagens de sacrifício intergaláctico do robô indo atrás desta "única amiga que ele jamais conheceu" me fazem quase querer cortar os pulsos de emoção/depressão. O trailer acaba e quase que me levanto e vou embora, na impressão de já ter visto o que vim ao cinema assistir.

Os filmes da Pixar são mais deprimentes do mundo, de fazer Ingmar Bergman xingá-los de inveja de dentro do caldeirão lá no inferno onde ele cozinha por ter espalhado a angústia pela humanidade com seus filmes. Eles são sempre assim (especialmente ao se tratar dos de Brad Bird, que vem deprimindo geral desde o grande clássico do chororô animado "O Gigante de Ferro" - eu vomitei de tanto chorar com este filme): um final totalmente pra baixo, arrasador, maquiado de feliz através de seu prolongamento, seja com uma transformação no tom, seja pela inclusão de uma pequena piadinha de encerramento. Vejamos o caso dos filmes mais recentes: "Os Incríveis" e "Ratatouille" (que ninguém me tira da cabeça: aquilo é um filme de horror dos mais tenebrosos; eu quase passei mal assistindo-o, tamanha a ânsia provocada pela idéia de ratos de esgoto humanizados e cozinhando, a prática onde mais se preza a higiene do indivíduo). No primeiro, uma tenebrosa mensagem de acomodação: se você tiver algum talento especial, não o revele a ninguém, disfarce-se dentro da sociedade e evite o sofrimento de ser diferente dos demais (o que é uma mensagem anti-homossexual, anti-negros, anti-semita, etc. - o que explica a enorme popularidade do filme). É absolutamente deprimente como os pais transmitem essa mensagem aos filhos (o menino se prostra de ganhar uma corrida, a menina gótica aquiesce para as pressões do colégio e vira uma patricinha - afinal, góticos não podem ser felizes jamais, até porque a depressão é a condição gótica para a felicidade). E em "Ratatouille", ecoando o tema de "Os Incríveis", a verdade traz desgraça a todos ao redor e arruina as carreiras do cozinheiro, do crítico, etc. Mesmo que se possa argumentar que o final derradeiro deste filme seja feliz, perto dos acontecimentos que o antecedem e sua prontificação em apresentar seus efeitos sem mostrar a forma como se desenvolvem, este final-final mais me parece com a última projeção de alegria de uma alucinado que tudo perdeu, idealizando a felicidade futura que nunca virá. A alegria do final derradeiro é simplesmente ideal demais para ser "real". Avançasse "Ratatouille" um pouco mais na sua duração, voltaríamos deste delírio para a realidade deprimente de Rémy, destituído, sem amigos, de volta ao mundo que sempre rejeitou, apenas um rato.

Então, eu não tenho dúvidas. "Wall-E" vai me detonar. Vou chorar horrores. Chorei horrores com "Um Robô em Curto-Circuito", tanto no primeiro quanto no segundo. Aposto que ele não vai recuperar a única amiga que teve na vida. O filme pode até inventar um final piadinha, no qual Wall-E ganha um outro amigo, mas eu já vejo ele tendo que se despedir de sua amiga para sempre. E eu vou chorar. Vou chorar até vomitar. Isto quer dizer, a menos que eu faça algo a respeito... [engatilha a espingarda]

>> O FILME

Já passou o logo da LucasFilm, já passou o logo da Paramount, já se anunciou o título do novo filme de Indiana Jones. E as luzes da sala ainda não se apagaram. Essa mania da gerência de manter a sala acesa até o derradeiro minuto empata a foda da necessária aclimatização do espectador na atmosfera de um espetáculo cinematográfico. Tudo para dar a impressão ao espectador faminto ou com vontade de dar uma barrigada esperta que "ainda dá tempo de ir lá fora". Mas não dá tempo de ir lá fora. Não dá tempo de ir lá fora nunca mais.

[crítica do filme sendo cuidadosamente tecida]
  Bernardo Krivochein    Sexta-feira, Maio 23, 2008    3 comentários
 
 
ZUMBIDOS DE CANNES 2008 - PARTE 4

Still de "La Mujer Sin Cabeza" de Lucrecia Martel



LA MUJER SIN CABEZA, de Lucrecia Martel

“Segundo a nota na Variety, o próximo filme de Lucrecia Martel será um projeto de ficção científica, com alienígenas invasores da Terra, cheio de efeitos especiais. Não, não é piada, como alguns poderiam ter pensado, e pelo contrário: a partir do conhecimento deste fato (e se ele se concretizar, já que muitos projetos anunciados acabam não se realizando), talvez seja bem interessante repensar em breve este ‘La mujer sin cabeza’ na obra de Lucrecia. Afinal, recém-saído como estou de uma outra (pequena) maratona, a do RioFan (Festival de Cinema Fantástico do Rio de Janeiro), eu poderia dizer sem medo que La mujer sin cabeza poderia facilmente ser encaixado numa mostra do tipo, desde que o programador possua a cabeça aberta (sem trocadilhos) [...] Se não chega a ser uma obra-prima, por ter uma segunda metade sem tanta energia em movimento como a primeira (ainda que com seqüências impressionantes, vide a carona que a personagem dá a uma menina, e onde o simples enquadramento usado cria uma desconfortabilíssima sensação de que um acidente acontecerá a qualquer momento), ‘La mujer sin cabeza’ não deixa nunca de ser um filme fantástico – em todos os sentidos.” Eduardo Valente, Revista Cinética

“[O] filme de Martel é [...] finalmente frustrante. O ponto de partida é interessante, e nos primeiros cinco minutos, achei que veria um filme excelente. As idéias relacionadas ao estado de espírito da personagem (algo na pia da cozinha, elementos pretos na parte final, a ponte) ameaçam trazer inteligência, mas são tão apavoradas com a possibilidade de serem de fácil acesso para qualquer espectador comum, que terminam registrando como tentativas e não realizações bem sucedidas. Ao final, fica um triste "só isso?", em scope. Pena.” Kléber Mendonça Filho, Cinemascópio

"A diretora argentina Lucrecia Martel não é nada senão sutil. Ela é também uma mestre de técnica aural e visual, que estão em total e esplêndida exposição em ´La Mujer Sin Cabeza’, seu terceiro filme. O problema é que, assim como em ‘O Pântano’ e ‘ A Menina Santa’, suas narrativas podem ser um tanto esparsas, causando no espectador um esforço para tentar compreender mesmo os relacionamentos mais básicos entre os personagens ou suas motivações. É difícil investir emocionalmente quando se tem pouca idéia de quem é quem.” Peter Brunette, The Hollywood Reporter.

"É um ‘Blow-Up’ menor porém eficaz sobre uma mulher argentina da classe alta (Maria Onetto) cuja vida se perturba após ter possivelmente atropelado um jovem numa estrada do interior. Onetto está especial como a burguesa que deriva entre estados de clareza aguçada, e pode-se sentir a fúria queimando sob a superfície congelada do filme. Talvez Martel devesse ter deixado um pouco mais desta raiva emergir à tela. Pode ser falta de conexão cultural da minha parte, uma vez que os argentinos sentados ao meu lado durante a exibição abertamente o vaiaram. Mas filmes são um esporte sangrento por aqui; esta é parte da diversão sádica.” Ty Burr, The Boston Globe.

“Durante o filme, Martel posiciona a personagem em closes sem profundidade de campo e em widescreen; portanto, as pessoas em sua periferia – geralmente serventes, trabalhadores e por aí vai – ficam difusos, enevoados. É uma forma oblíqua de reflexão sobre relações contemporâneas de classe, mas é apta, e de fato este é um dos poucos filmes desta competição altamente-socialmente-consciente que refletem as relações de classe de tal forma.” Glenn Kenny


"Lucrecia Martel exige demais do espectador em seu terceiro filme, um conto amargo de parálise social e moral centrado num atropleamento-e-fuga no interior rural argentino e seus efeitos sobre a mulher ao volante. A princípio, o aguardado novo filme da diretora argentina parece construir a mesma mescla arriscada de drama familiarm simbolismo visual, crítica social e atmosfera ameaçadora que distinguiam seus filmes anteriores, ‘O Pântano’ e ‘A Menina Santa’. Mas em ‘La Mujer Sin Cabeza’ , Martel deixa que o miasma obstrua o drama e endureça a história. O resultado é um ‘filme sem trama’ que, em sua exibição em Cannes, motivou saídas e vaias, ainda que muitos insistam que o avançado e simbólico sudoku narrativo vale a pena ser decifrado.” Lee Marshall, Screen Daily.

"Poucos cineastas usam o foco de forma tão eficaz e incisiva do que Martel. Inspirado pelos sonhos e pesadelos da diretora, ‘La Mujer Sin Cabeza’ é um filme climático, misterioso e carregado com portentos eminentes e críticas sutis à burguesia.” Anthony Kaufman, indieWIRE.


LIVERPOOL, de Lisandro Alonso

“Ontem, fui ver o novo filme do Lisandro Alonso na Quinzaine, ‘Liverpool’, e achei muito ruim, com a sensação de que todo o mimo autoral que a crítica vem jogando em cima dele (e do cinema argentino em geral) pode ter subido à cabeça como vinho ruim. A "desdramatização" que Walter menciona no vídeo no cinema de Alonso parece atingir congelamento absoluto na história de um marinheiro que arranja um tempo para visitar a pequena localidade onde nasceu. É o cinema dos longos planos, mas, de fato me pareceram estéreis e de uma monotonia realmente atordoante, enlouquecedora.” Kléber Mendonça Filho, Cinemascópio

“[N]o geral o novo filme de Lisandro Alonso (cujo Los Muertos me tocou bastante) me pareceu um exercício em uma imanência que a tela não completava – suas imagens não me pareceram fortes, marcantes, surpreendentes, engajadoras em suma. E aí é um passo para que o uso dos planos longos, dos movimentos sutis e do silêncio quase onipresente nos sintam mais como tiques de grife de autor do que um movimento natural e necessário do diretor neste filme, cujo momento final à la Rosebud me pareceu especialmente infeliz.” Eduardo Valente, Revista Cinética

"Após anos em alto-mar, um marinheiro de meia-idade retorna ao lar no interior de Tierra del Fuego e descobre que seu passado retornou para atormentá-lo no supremamente realizado ‘Liverpool’ de Lisandro Alonso. O filme continua a fascinação do diretor argentino com homens solitários na labuta (‘La Libertad’) ou numa missão (‘Los Muertos’), ao mesmo tempo encapsulando uma grande saga familiar. Muito será dito, na Croisette e além, sobre como Alonso parece flertar com um estilo mais tradicional de cinema. Isto seria algo um tanto enganador.” Robert Koehler, Variety.

"Esta será uma frustração garantida para a maioria dos espectadores, mas o pequeno exército de devotos do diretor verão este quarto filme como um refinamento sutil de seu estilo assertivo. Como em outros filmes de Alonso, ‘Liverpool’ prende a atenção desde que você esteja disposto a entrar na espécie de estado de transe que ele requer. Mas o filme também mantém o espectador a distância, desencorajando envolvimento emocional e oferecendo nada além das informações mais básicas. ‘Liverpool’ é o road movie em seu estado mais esparso e realista." Johnathan Romney, Screen Daily

“A brilhante e sorrateira simplicidade de Alonso se insinua lenta porém definitivamente, e seu impacto continua a se embrenhar mesmo após cenas do mais brutal desinteresse e de infelicidade das mais profundamente reprimidas rotineiramente se procedem. Este é um sinal de que ‘Liverpool’ não é nem um pouco banal como parece.” Daniel Kasman, The Auteur’s Notebook

"Claro, o filme é precisamente fotografado com suas imagens frias do sudeste rural argentino, e mistificantes na forma como ele retém sua história, mas finalmente ‘Liverpool’ é um porre de se sobreviver e mais rico em retrospecto.” Anthony Kaufman, indieWIRE.

VERSAILLES, de Pierre Schoeller.

"A criança abandonada é um dispositivo dramático certeiro e é para crédito do roteirista-diretor Pierre Schoeller que ele o utiliza em ‘Versailles’ para explorar sentimentos reais ao invés de mero sentimentalismo. Charlie Chaplin fez melodramas a partir de material semelhante, mas Schoeller meramente quer observar um personagem forçado a se adaptar a um amor inesperado.” Kirk Honeycutt, The Hollywood Reporter.

“’Versailles’ é um retrato reflexivo e cumulativamente afetuoso de três párias sociais – incluindo-se aí uma criança pequena – em conjecturas críticas em suas vidas. Esta história de uma mãe solteira que abruptamente abandona seu filho aos cuidados de outro desabrigado que ela mal conhece é não-julgador como é descompromissado. Demonstrando de forma inteligente que numa terra de fartura, muitos têm praticamente nada, o filme está carregado da sutil ironia das vidas a nível de subsistência num subúrbio parisiense cujo próprio nome é sinônimo de opulência e riqueza.” Lisa Nesselson, Screen Daily.

"A melhor coisa de ‘Versailles’ é o que o conecta, do topo, ao que está se tornando uma obsessão para o jovem cinema francês. Você se lembra de uma época em que as pessoas diziam que todos os filmes franceses de estréia eram literalmente histórias de amor que se passavam em Paris, entre as paredes de um pequeno quarto de empregada? Aquela época veio e já está distante; os novos estúdios se encontram em Versailles, Boulogne, todos os ricos subúrbios a oeste de Paris. Quartos de empregada? Longe disso; agora nós iremos para a floresta, para as bordas das cidades, reconectarmos com o húmus de nossas origens. Discussões e brigas entre jovens adultos? Acorde! Nós, a juventude dos anos 2000, somos velhos antes de nossa época, atravancados pela maternidade ou paternidade. O roteiro para os anos futuros é fácil de se prever: é sobre infanticídio, abandono de crianças. A história contada em ‘Versailles’ será também contada por um bom número de filmes no outono 2008.” Emmanuel Burdeau, Cahiers du Cinema.

SURVEILLANCE, de Jennifer Lynch.

“Lynch filha estreou com uma esquisitice pouco memorável nos anos 90, Encaixotando Helena, mas agora aos 40 anos de idade parece ter amadurecido o suficiente para realizar um Filme B com razoável capacidade de estabelecer ansiedade. Difícil ignorar os tiques muito pessoais do seu pai, que tanto revelam um certo pedigree, como funcionam para atrair atenção para o filme em si como produto. David está presente em pequenos detalhes envolvendo o consumo de café e cigarros, agentes engravatados do FBI, amantes assassinos nas estradas americanas, imagens em vídeo que revelam detalhes escondidos e na presença de Bill Pullman (Lost Highway).” Kleber Mendonça Filho, Cinemascópio

"Quinze anos após a confusão assassina-de-carreiras que foi ‘Encaixotando Helena’, Jennifer Lynch ousa erguer sua cabeça para fora da toca mais uma vez . O excêntrico thriller ‘Surveillance’ não mostra nenhum impacto duradouro na sua auto-confiança ao misturar um coquetel lúrido de humor negérrimo e banho de sangue com um arrepiante reviravolta vinda do nada.” Allan Hunter, Screen Daily.

"Pense num ‘Rashomon’ encontra ‘O Massacre da Serra Elétrica’ em ‘Twin Peaks’ e dê bastante espaço para algumas interpretações improvisadas canastronas, e possivelmente você se encontrará na mesma sintonia distorcida desta parábola semi-cômica de anarquia social.” Richard Corliss, Time.

"Um thriller cheio de viradas com um comportamento desavergonhadamente malvado e um gosto quase teatral pelo excesso, o filme estrela Bill Pullman e Julia Ormond como dois agentes do FBI investigando um massacre nas planícies do Nebraska, onde devewm trabalhar ao lado dos policiais locais idiotizados e um grupo de testemunhas nem um pouco confiáveis.” Dennis Lim, The Los Angeles Times

"Com um alto quociente de escatologia e várias cenas de humilhação pervertida, o filme terá seus fãs mesmo se a reviravolta eventual não seja realmente surpreendente – e talvez não o seja de forma proposital.” Ray Bennett, The Holywood Reporter.

FRONTEIRS DE L'AUBE, de Philippe Garrel.

“Curioso ver reação de críticos estrangeiros diante do que de alguma forma deve ser visto como protótipo do “filme francês” por esses mesmos jornalistas. Num preto e branco lindíssimo como em Amantes Constantes fotografado por William Lubtchansky, o personagem de Louis Garrel, fotógrafo, atravessa o filme vivendo e discutindo uma relação amorosa com uma jovem estrela de cinema. Bem menor que Amantes Constantes (e com metade da duração), La frontière de l’aube está também longe da força e da estranheza de outros filmes de Garrel como A Cicatriz Interior ou Le Révélateur, mas tem sua beleza além da fotografia e dos corpos em questão. Conexão sutil e pouco importante, porém interessante, com Les chansons d’amour, de Cristophe Honoré.” Leonardo Sette, Filmes Polvo

“De fato, há uma virada nesta segunda parte que não vale a pena revelar aqui, mas que basta dizer que, por sua radicalidade (principalmente no aspecto visual, em que o filme de Garrel nos remete aos de Cocteau ou mesmo Meliés), fez com que a sessão de imprensa fosse tomada pelos apupos e risadas típicas de um público (mesmo ou principalmente o “especializado”) que considera que o cinema é o terreno apenas para determinadas “expressões artísticas”, sem qualquer generosidade para se relacionar com o que se propõe diferente, único. Mas, para quem ultrapasse esta barreira, logo fica claro que é exatamente esta virada o momento que interessa a Garrel em toda esta história, o momento que nos coloca em problema tudo aquilo que vínhamos assistindo até então.” Eduardo Valente, Revista Cinética

“Não foi muito feliz a sessão da prata da casa La Frontiere de L'Aube (A Fronteira da Alvorada), filme francês em competição de Phillippe Garrel (de Os Amantes Constantes) que passou para uma imprensa talvez já cansada do festival, e com o cinismo ligado em alta. As palmas pedindo para que a trama fosse concluída logo, gargalhadas em desdobramentos místicos e, finalmente, uma vaia digna de nota (com os aplausos de apoio indo contra) assinala o filme como sendo talvez o protótipo de um cinema largamente rejeitado por espectadores pragmáticos. La Frontiere de L'Aube seria, aliás, o "filme francês" por excelência, uma mística que marca um preconceito muito típico do espectador médio.” Kleber Mendonça Filho, Cinemascópio

“ ‘Frontiers de L’Aube’ é a história de um amor que fica tão fou que o mundo natural se tornal assunto para o sobrenatural. Definitivamente o filme mais acessível de Garrel que já vi, ainda assim é um desafio estranho, delirante, inrotulável. Existem planos na segunda metade deste filme que são mais assustadores do que qualquer coisa que eu tenha visto num filme de horror em anos recentes... e simultaneamente, incrivelmente emocionante na sua evocação de um amor que não morre. Ou, pelo menos, recusa a respeitar os limites tradicionais de vida e morte." Karina Longworth, SpoutBlog

" ‘Frontiers de L’Aube’ - o 28° longa do diretor tradicionalista Philippe Garrel – foi recebido com aplausos tumultuosos e assobios após sua exibição na mostra competitiva. Laureado em várias ocasioões no Festival de Veneza, o cineasta de 60 anos está em competição oficial em Cannes pela primeira vez, com um trabalho característico de sua oeuvre que poderia ser descrito como atemporal e anacrônico, ou até mesmo sugestivo e efêmero, dependendo de seu ponto de vista.” Fabien Lemercier, Cineuropa.

"Esforço honesto e inerentemente divisivo, deslumbrantemente fotografado em preto-e-branco, é uma das obras recentes mais fracas na carreira de quatro décadas de Philippe Garrel marcada por filmes de arte bravamente inconoclastas. O filho de Garrel, Louis, continua a encarnar sua geração, projetando uma atraente mistura de inquietude de cabelos desgrenhados com dúvida e angústia. Mas sua presença nesta história de amor episódica com tons sobrenaturais é insuficiente para superar a aura enternecedora mas estranhamente retrógrada.” Lisa Nesselson, Screen Daily.


"Tendo sido recentemente canonizado por alguns críticos e platéias por sua história de slackers passada em Maio de 68 ‘Amantes Constantes’ , o diretor Philippe Garrel pode ter que encarar excomungação por uma boa parte de seus seguidores casuais por ‘Frontiers de L’Aube’. Uma fatia risível de palavreado pretensioso, esta trama sobre um triângulo amoroso com um ângulo sobrenatural reforça a velha crença misógina e sádica de que as mulheres mais belas e desejadas são doidivanas auto-flagelantes.” Leslie Felperin, Variety.

ADORATION, de Atom Egoyan

"’Adoration’ de Atom Egoyan é uma bagunça fascinante. Mistura-se todo o tipo de questionamentos pós-11 de setembro – sobre a ética do terrorismo, a enganosa aparência externa, as formas como a tecnologia podem ao mesmo tempo permitir o diálogo e ocultar a verdade – num miasma um tanto Egoyanesco de cronologia elegantemente fraturada e idéias provocantes, este ambicioso filme reflexivo finalmente sufoca suas boas intenções em revelações didáticas, seu pleitear sincero e a incessante música de violino.” Justin Chang, Variety.

"Após o fracasso na tentativa de fazer cinema convencional e comercialmente viável com ‘Where The Truth Lies’ , o auteur candense Egoyan retorna ao seu estilo-assinatura com ‘Adoration’. A câmera desliza a um ritmo tranqüilo quase perfeito. Ele mistura uma trilha-sonora rica (composições excelentes e melancólicas de Mychael Danna) com excelentes bridges sonoras e diálogos perspicazes e pontuais. E mais uma vez ele se move graciosamente por tramas das mais variadas. Infelizmente, as histórias aqui são fracas, desncessariamente complicadas e crípticas; algumas seções são difíceis de acompanhar, até mesmo irritantes em sua ciência de si mesmas.” Howard Feinstein, Screen Daily.

"O notável novo filme de Atom Egoyan, ‘Adoration’, é uma meditação assombrosa sobre a natureza da sabedoria recebida e como ela pode perverter indivíduos, prejudicar famílias e até mesmo ameaçar a sociedade.Filmado em película utilizada de forma encantadora, mas vividamente empregando imagens da internet e de telefones celulares, é um exame do poder que idéias falsas podem ter na imaginação e na crença das pessoas quando são repetidas várias e várias vezes.” Ray Bennett, The Hollywood Reporter.

AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, de Miguel Gomes

“Cannes não poderia ser um lugar pior para redizer uma evidência da época: não existe mais hierarquia no cinema. O documentário e a ficção se dão as mãos. Os filmes caseiros são as superproduções do dia. ‘Aquele Querido Mês de Agosto’ é o vídeo de férias e comédia musical hollywwodiana. O novo Raya Martin (Quinzaine) dura quatro horas e quarenta, rivalisando assim o ‘Che’ de Soderbergh. Ferrara se tornou um cineasta tão marginal e solitário do que Costa, que ama comparar a si mesmo com Tarantino. Este é o momento oportuno de declarar: os jogos estão abertos.” Emmanuel Burdeau, Cahiers du Cinema

“Se Lucrecia Martel nos leva a novos caminhos na carreira dela, o novo filme do português Miguel Gomes é o primeiro em Cannes cujo efeito eu realmente possa caracterizar como uma surpresa completa [...] Por enquanto basta dizer que poucos filmes mostram uma alegria tão grande frente ao ato de filmar o mundo, ao mesmo tempo que usa de uma ironia inteligentíssima que nunca torna essa alegria algo “bobo alegre”, pelo contrário, ela parece se pensar e repensar inúmeras vezes. A falsidade de uma verdade e a verdade de uma falsidade – é disso que se faz o cinema de Miguel Gomes. Tomara que algum festival o leve ao Brasil.” Eduardo Valente, Revista Cinética

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  Bernardo Krivochein    Sexta-feira, Maio 23, 2008    0 comentários
 
 
ZUMBIDOS DE CANNES 2008 - PARTE 3

Still de "Che" de Steven Soderbergh


CHE, de Steven Soderbergh

"Seja um filme ou dois, “Che” claramente não está terminado. O filme foi exibido aqui sem créditos de abertura ou de encerramento, apenas alguns intertítulos digitais rústicos (“NOVA YORK 1964”) que tinham o aspecto de ter sido colocados no filme apenas uma hora antes da exibição. Como com em qualquer filme neste Ano das Emoções Confusas em Cannes, as reações ao filme eram as mais diversas possíveis; ninguém no grupo de críticos com quem jantei estava completamente seguro sobre o que ele ou ela achou.

A versão de Cannnes de “Che”, provavelmente um filme que ninguém nunca mais verá, é uma confusão grande, dispersa e ambiciosa. É menos uma bagunçada grande ópera dop que uma máquina belamente construída cujas peças não funcionam lá muito bem juntas. Não me entediei, nas suas mais de quatro horas. Independente se acaba se tornando um grande filme (ou filmes), isto está a milhas e milhas de distância daquilo que imaginava ser Soderbergh capaz de criar a aprtir deste material.” Andrew O’Hehir, Salon

"Haverá debates sobre as políticas do filme; dicutir-se-á se os filmes têm ou não algum núcleo emocional. Discutir-se-á se Benicio Del Toro merece uma indicação ao prêmio de Melhor Ator por sua interpretação de Guevara, ou se o retrato de Che por Steven Soderbergh é muito monótono para nos envolver; Posso facilmente imaginar debates sobre o som e a imagem do filme capturados em digital de alta-definição com todo o artesanato e cuidado que Soderbergh normalmente emprega ao filmar em película. Não posso prever como todas essas perguntas e possibilidades se desenrolarão, mas o que posso dizer – e direi – que raro prazer é ter um filme (ou filmes) nesta nossa era obcecada por números de bilheteria, filmes-evento, iscas de Oscar, que vale a pena se debater em tantos níveis.” - James Rocchi, Cinematical.

"Nos 20 anos desde que ganhou a Palma de Ouro por “sexo, mentiras e videotape”, Steven Soderbergh já caminhou por diferentes caminhos desde a experimentação demente de “Schizopolis” e a homenagem estéril aos anos 40 em “The Good German” até diversas ofertas de Danny Ocean e seus alegres companheiros para aumentar sua credibilidade comercial. É difícil imaginar outro diretor americano de sua geração com a coragem e a habilidade de realizar um retrato de cinco horas em dois filmes sobre o ícone revolucionário Ernesto Che Guevara. Sua abordagem comedida rejeita gestos grandiosos de apelo fácil aos espectadores ou qualquer tentativa de adotar o arrebatamento de um épico de David Lean. Ao invés disso, ele criou uma maratona envolvente e reflexiva na qual o foco está firmemente sobre as personalidades e os argumentos políticos que forjaram os ideais revolucionários dos anos 50 e 60 [...] Este é basicamente um filme de idéias.” Allan Hunter, Screen Daily.

"Se o diretor saiu de seu lugar comum para evitar as típicas convenções biográficas hollywoodianas, ele também se absteve de sugerir a mínima razão pela qual o carismático médico, combatente, diplomata, jornalista e teórico intelectual se tornou e permanece tamanha figura lendária; sobretudo, Che parece menor pela forma como é aqui retratado. “Che” é uma aposta demasiado grande para se fazer passar como um experimento cinematográfico, pois precisa respeitar expectativas altas, tanto comercialmente quanto artisticamente. A duração exigente também força comparações com trabalhos tão raros quanto “Lawrence da Arábia”, “Reds” e outros épicos biográfico-históricos. “Che” não parece épico – apenas longo.” Todd McCarthy, Variety.

"O Festival de Cannes agora ganhou um candidato a altura para a Palma de Ouro [...] “Che” é um cinema viril e musculoso, com uma performance carismática de Benicio Del Toro no papel principal. Talvez este seja visto futuramente como a irregular obra-prima do diretor: comovente, mas estruturalmente fraturada – a segunda metade é bem mais clara e firme do que a primeira – e às vezes reticente de forma frustrante, incapaz de tentar qualquer insight do mundo interior de Che. Somente vemos o homem público, o comandante lendário, desafiador até o último momento.” Peter Bradshaw, The Guardian

“Este é o filme mais vanguardista de Soderbergh, e apesar de haver séria necessidade de ser remontado – a primeira metade, em particular, joga uma quantidade enorme de informações não-cronológicas no colo do espectador - a versão de Cannes merece ser preservada; cortar o filme diminuiria a obsessão de Soderbergh pelo material. É uma crítica justa que o filme omite, entre outras coisas, as injustiças vbrutais cometidas por Che no governo de Castro, mesmo se elas não fazem parte do período abordado pelo filme. A fonte do interesse de Soderbergh parece estar exclusivamente nas porcas e parafusos da revolução guerrilheira – educação dos civis, recrutamento de soldados, procura de comida, cozimento de um porco e por aí vai. Se o foco tão impiedoso em aparente minúcia pode ser às vezes alienante, é também o que faz do filme tamanho alvo de atenção.” Ben Kenigsberg, Time Out Chicago

“A duração não é o problema deste trabalho honorável e amaldiçoado; é que tantas cenas sejam repetições de outras anteriores. Mas o maior fardo recai sobre sua estrela, que como um dos produtores nutriu o projeto por quase uma década. E Del Toro – cujo método de atuação normalmente parte do exagerado e levanta vôo dali mesmo, feito um pára-pente saltando do alto de um arranha-céu – está comportado, apresentando poucas revelações emocionais, aparentemente sedado aqui. Exceto por um excitante confronto na ONU entre Guevara e os embaixadores de outros países da América Latina, Che é definido menos por suas habilidades rigorosas de combate do que por sua asma." Richard Corliss, Time

JOHNNY MAD DOG, de Jean-Stéphane Sauvaire

“O Cinema está constantemente inventando novas maneiras de nos dizer que a guerra é um inferno, mas poucos filmes recentes exploraram os extremos deste inferno tão vividamente ou intrepidamente do que o drama africano de Jean-Stéphane Sauvaire, ‘Johnny Mad Dog’. Performances avassaladoras de desconhecidos, muitos deles soldados mirins reais, mais um estilo conforntacional de direção fazem deste filme uma das estréias mais impressionantes do cinema ficcional francês... Há uma espécie de horror do tipo ‘O Senhor das Moscas’ na sugestão que estas ainda são crianças brincando da maneira mais mortal possível, seus gritos de batalha sugerindo um festival de pesadelo.” Johnathan Romney, Screen Daily.

"O drama brutal franco-belga-liberiano “Johnny Mad Dog”, uma ficção alarmante sobre soldados mirins liberianos realizado com meninos e meninas que de fato lutaram na recente guerra do país, me deixou balançado – furioso, confuso, imerso em pensamentos. Integrante de uma das gangues auto-denominadas ‘negociadores da morte’, Mad Dog devassa os subúrvios de seu país, espalhando terror e morte a tiros de metralhadora – a homens, mulheres e outras crianças – em nome da revolução. A revolução de quem? O filme não diz... Sem contexto, informação ou explicação, o filme o mergulha em terror – e para quais fins?” Manohla Dargis, The New York Times.

“Seqüestro em sua forma mais vil ao que crianças armadas na Libéria comandam outras crianças a juntarem-se a sua tropa. Ficção baseada num fato inacreditável, ‘Johnny Mad Dog’ narra as atrocidades de uma guerra civil ainda em processo naquela nação do oeste africano. Apesar de ser difícil de assistir, trata-se de documento importante que deve alarmar as sensibilidades no circuito de festivais." Duane Byrge, The Hollywood Reporter.

DELTA, de Kornel Mundruczo

“Delta é mais uma dessas tragédias pessoal-familiares filmadas por estes diretores-demiurgos que parecem querer oprimir o espectador com a beleza de suas escolhas frente a miséria dos seus personagens (algo que, ao menos, Alonso passa longe de fazer). Mesma cartilha (planos longos, enquadramentos “inesperados”, quase silêncio, mundo estranho em frente a câmera), levando ao mesmo resultado adiado, mas desde sempre antecipado (final sem qualquer esperança). Um exercício em futilidade de autor – ou talvez seja só a minha opinião.” Eduardo Valente, Revista Cinética

"'Um típico filme de arte de festival.' Esta foi a opinião de um amigo meu após a cabine de imprensa de terça-feira de ‘Delta’, filme em competição do diretor húngaro Kornel Mundruczo. O filme de festival – lento, difícil, formalmente austéro – pode ser um antídoto bem-vindo aos filmes acessíveis e acelerados que triunfam na esfera do cinema comercial. Mas vale lembrar – e ‘Delta’ é sequer um filme neste festival a me relembrar disto – que filmes de arte, eles também, são suscetíveis a fórmula e clichês.” A.O. Scott, The New York Times.

“Cinco anos antes de iniciar o projeto e 18 meses antes de começar a filmá-lo, com um trágico acidente no meio que quase afundou toda a produção (a morte do ator principal Lajos Bertok, a quem o filme é dedicado), Komel Mundruczo está novamente de pé com seu trabalho mais maduro e redondo até agora. Os temas aos quais ele era associado no passado estão agora integrados num mundo perfeitamente coerente e parece que ele encontrou sua voz particular e um estilo no qual ele está mais confortável, fatos atestados pelo prêmio de Melhor Filme e o prêmio Gene Moskovitz oferecido pela imprensa estrangeira, recebidos por ele na Hungarian Film Week.” Dan Fainaru, Screen Daily.

"Deslumbrante de uma perspectiva estética, o filme é bem-sucedido em cativar os espectadores apesar de sua trama e diálogos minimalistas. Esta conquista impressionante é graças ao carisma dos dois atores principais (orsi Toth e o estreante Lajko Felix, um famoso violionista e compositor da excelente trilha de ‘Delta’) e um aguçado senso de direção. Uma ode a beleza da natureza selvagem filmado no Delta do Danúbio na Romênia, o filme – co-escrito pelo diretor e por Yvette Biro – é livremente adaptado de ‘Hamlet’ de Shakespeare e ‘Electra’ de Eurípedes. Retornando à seu vilarejo natal após uma longa ausência, um homem sem nome contrói uma casa no meio do nada, auxiliado por sua meia-irmã a quem acaba de conhecer e ignorada por sua mãe e padrasto. O resultado final é tão fascinante e estonteante quanto é descompromissado, especialmente devido ao seu final brutal, tão chocante quanto a lâmina que desce.” Fabien Lemercier, Cineuropa.

LOS BASTARDOS, de Amat Escalante


"Assim como em sua estréia, ‘Sangre’, ‘Los Bastardos’ é mais um filme de protesto do mexicano Amat Escalante, que acusa o mundo industrializado, em especial os EUA, por seu tratamento aos imigrantes ilegais e às tragédias que eventualmente provoca. Os argumentos de Escalante são válidos e o clímax aterrorizante do filme chocará a platéia de sua complacência, mas o estilo do filme – com seu primeiro plano estático até seu final desenhado – o localiza firmemente dentro do nicho de cinema de arte.” Dan Fainaru, Screen Daily.

"Um filme de arte niilista marcado por planos estáticos tão na moda, diálogos minimalistas banais, ritmo glacial e ultra-violência, ‘Los Bastardos’ atrairá o apoio dos suspeitos de sempre dentro da comunidade crítica. Desd os corajosos créditos de abertura, a simplicidade de seus conceitos, o refinamento despido de seu enquadramento widescreen e sua mixagem sonora rica, está claro que Escalante possui um talento forte. O que faz dele é outra história.” Todd McCarthy, Variety.

“À medida em que Escalante sutilmente desenha as frustrações diárias destes homens empobrecidos e deseducados, longe de suas famílias, junto com o trabalho extenuante e mal remunerado que realizam e as provocações étnicas que toleram, uma esperança lentamente surge no espectador de que este venha a ser um filme bastante especial. No entanto, Escalante perversamente escolhe afundar esta esperança ao repentinamente mudar a direção do filme com uma reviravolta bastante mal-feita.” Peter Brunette, The Hollywood Reporter.

"’Los Bastardos’ é adoravelmente pedante. Intencionalmente discordante e desconfortável, até mesmo a cena inicial parece um teste de ousadia – literalmente por sete minutos, nós assistimos dois homens (que virão a ser os astros do filme) passando de pequenos pontos no horizonte a metros de distância, caminhando em nossa direção sobre uma longa passagem acimentada em quase silêncio absoluto. No começo, mal o vemos. É uma maneira tremendamente entediante de se iniciar um filme. A maioria dos filmes tentam envolver a platéia logo nos primeiros minutos, mas ‘Los Bastardos’ ousa o bastante para mandar a seguinte mensagem: ‘nós faremos da nossa maneira – então aguente.” Charlie Prince, Cinema Strikes Back.
(via GreenCine)
  Bernardo Krivochein    Quinta-feira, Maio 22, 2008    0 comentários
 
 


Seu nome é ©Murakami. He is Big! E vende Louis Vuitton dentro do Museu



O japonês Takashi Murakami, 46 anos, comumente chamado de Andy Warhol japonês, levou suas esculturas gigantes para o Museu do Brooklyn em Nova York e tem causado furor com sua arrogante e luxuosa loja da Louis Vuitton montada dentro da sua exposição.



Murakami ficou conhecido nos anos 90 com sua teoria chamada Superflat, um manifesto pós-moderno que colocava em níveis iguais arte, design e a cultura pop, misturando assim padrões da "high" arte, influenciado pelo mangá e pelos animés. Satirizava de leve o vazio da cultura de consumo japonesa. Mas como bom artista japonês que é, Murakami pensava na produção coletiva (não porque se inspirava em Warhol mas por refletir a sua cultura no qual o individualismo é um elemento estranho) e criou um centro de criação chamado KaiKai Kiki - querendo dizer bizarro e elegante.

O Kaikai Kiki atual emprega 100 artistas, animadores, escritores e artesãos com escritório no Japão e dois estúdios nos subúrbios de Tóquio, e um em Long Island no Queens. Ou seja, um big e bem sucedido business no mundo "pós pop" da arte. Alguém já trabalhou lá?(rs)

11 caminhões transportaram da costa leste dos EUA, onde abriu sua exposição ©Murakami, para o Brooklyn, com 90 obras, espalhadas em 18.500 metros quadrados: pinturas, esculturas gigantescas e super coloridas, papel de parede, e um filme de animação de 20 minutos. Seus personagens mais famosos também estão lá Mr. DoB e Mr. Pointy, criaturas de cartoon. Veja as fotos da montagem aqui e fotos da exposiçãoaqui


Mas a vedete da expo é sem dúvida a Loja LV. Com bolsas costumizadas de 1.100 a 2.000 dólares, pochetes para celular por 200 dólares. Algumas peças são exclusivas e foram criadas por ele para a exposição e custam uma média de 6.000 dólares e tem edição limitada.

Murakami está assim questionando as fronteiras entre comércio e arte, e dando continuidade ao seu pensamento Superflat fatura alto, porque apesar da arte ser um bom negócio para muitos nunca o foi de maneira tão explícita e arrojada. Para ele todas as peças são extensão da sua arte. Nem Warhol talvez teria esta coragem.

Falando em Arte e Japão...

Imperdível a exposição Quando Vidas se Tornam Forma: Diálogo com o Futuro BRasil-Japão no MAM- SP. A curadoria de Yuko Hasegawa relaciona no mesmo espaço artistas japoneses e brasileiros de uma maneira muito esperta e única. A exposição é viva, alegre e faz relações que você jamais imaginaria, transportando o Brasil e o Japão para lugares bem próximos, num outro território que se chama criação artística. Dispensável apenas a parte em que a MODA entra na exposição através dos trabalhos de Jum Nakao, Isabela Capeto e Issey Miyake. Ao contrário da loja de Murakami, é apenas uma constatação de que o designer é uma espécie de artista, criador, Ok, mas com aquilo que está lá faltou convencimento, impacto.

A melhor constatação é mesmo que artistas tão díspares como Lygia Clark, Leonilson, Mira Schendel, Oiticica, Cildo Meirelles podem sim ter correspondentes, talvez menos ruidosos ou menos intensamente modernos, no Japão.
  Francesca Azzi    Quinta-feira, Maio 15, 2008    2 comentários
 
 
ZUMBIDOS DE CANNES - PARTE 2

Still de "Four Nights With Anna" de Jerzy Skolimowski

LEONERA, de Pablo Trapero - Competição Oficial

"Eu sei que, de um tempo para cá, alguns colegas e amigos críticos no Brasil estão trabalhando duro para desativar essa noção até certo ponto benevolente para com o cinema argentino, Trapero, inclusive, tornou-se incrivelmente "uncool" depois do seu, de qualquer forma, muito agradável e verdadeiro Família Rodante. Mesmo assim, eu não consigo olhar para um Leonera com desprezo, especialmente se compará-lo à nossa média nacional que, para mim, permanece (na ficção/longa, claro), com as obrigatórias raras exceções, das mais lamentáveis." - Kléber Mendonça Filho, Cinemascópio

Este movimento de juntar em cima de Pablo Trapero e descer o malho, traduza-se, é coisa da Contracampo e já vem de longa data (eles têm esse costume de sempre escolher um para Judas da temporada). Não que eu me importe muito com o mais recente apadrinhado do Walter Salles: eu, ainda na minha versão mais ingênua e menos desenvolvida do que a de hoje, já havia me importado muito pouco com "La Bonaerense", enquanto a "Família Rodante" me pareceu algo que o Jayme Monjardim dirgiria em sue momento de maior entusiasmo ufanista. Mas até aí, dispensar o cinema argentino como um todo é uma imbecilidade sem tamanho, até porque basta um Lisandro Alonso para expiar quaisquer pecados de toda uma cinematografia, ao que, concordando com Mendonça, o cinema brasileiro, por melhores que sejam os nomes, ainda carece de criar um autor de peso nesta retomada (o que não deveria ser um desafio tão grande, porque, muito bizarramente, os projetos com maior facilidade de serem aprovados para os auxílios de produção são os de autor, sem ter o apelo comercial como uma das preocupações principais).

O filme em questão é "Leonera" de Trapero, que já na largada conquistou não apenas Mendonça, como a maioria dos críticos:

"Rodado em tela larga e a câmera na mão típica de filmes intimistas, Leonera tem os cacoetes de uma produção latina realista, preciso na sua vontade de mostrar o amadurecimento de uma garota que ainda tenta entender o que fez, e porque está ali, com o filho que, até os quatro anos de idade, cresce na prisão. Sem ser particularmente excelente, tocante ou diferenciado, Trapero (El Bonaerense) fez, de qualquer forma, uma crônica segura não só nas atuações, mas também na ambientação que nos diz algumas coisas sobre o processo de justiça e detenção num país latino." - Kléber Mendonça Filho, Cinemascópio

"'Leonera' não se entrega somente a uma “captação do mundo”: ele o constrói, com considerável parte do seu trabalho se dando no roteiro/montagem e no desenvolvimento dos personagens. E é desta maneira que Trapero nos conduz por quatro anos de vida da personagem de uma forma sutil em que quase não percebemos o quanto de informação nos vai sendo dado, construindo uma tensão crescente que é dominada pelo filme tão bem quanto sua disposição a olhar o mundo à sua frente. Um belíssimo filme, o melhor de Trapero até agora." - Eduardo Valente, Revista Cinética

"'Leonera' é belamente filmado e interpretado, constantemente surpreendente e completamente focado na luta de Julia de conseguir sobreviver de um momento, ou de um dia, até o outro ao invés de se apoiar num arco narrativo fomulaico. Trata-se de uma história tremendamente envolvente sobre uma mulher que é traumatizada, irada, bela e indomável, que ama seu filho e que se mantém um mistério até o fim, para nós e para ela mesma." - Andrew O'Hehir, Salon.com

"O filme aborda vários anos de sua vida, narrando seu aprendizado das políticas particulares da prisão, o forte elo que desenvolve com seu filho, suas relaçòes fragéis com sua mãe rica (Elli Medeiros) e mais. A performance de Martina Gusman é o que a maioria dos críticos chamaria de uma "usina de força" (a não ser que alguém esteja querendo me sacanear, ela estava realmente grávida durante o períodos das filmagens em que seu personagem também estava) e a direção de Pablo Trapero é o que se chamaria de 'notavelmente segura'." - Glenn Kenny (ex-Premiere)

WALTZ WITH BASHIR, de Ari Folman - Competição Oficial

A primeira polêmica de Cannes não foi tão grande assim, porque já vinha há muito tempo anunciada: o documentário "Waltz With Bashir" utiliza rotoscopia - a técnica de animação utilizada mais notoriamente por Richard Linklater em "A Scanner Darkly" e "Waking Life" - para recontar a partir de uma perspectiva pessoal a incursão israelense ao Líbano em 1982, culminando com o massacre dos campos de refugiados de Sabra e Shatila. Extremamanete aguardado, o filme causou reações espetaculares na mídia escrita, como poderemos constatar abaixo:

"Aposta ganha. Se a ficção apreende o estado de espírito no qual um soldado se encontra (sobre um assunto semelhante, pensemos no recente e impressionante "Beaufort"), a animação se revela um desvio judicioso, ao passo que simultaneamente instala uma distância e aproxima o espectador muito mais das sensações. Não distante de um tratamento psicanalítico, "Waltz With Bashir" (deixaremo-no descobrir a explicação do título, uma das mais belas seqüências do filme) se apresenta também como uma viagem pela memória de um Ari através de todos os seus estados: fantasmas, pesadelos, alucinações, lembranças alegres ou enlouquecidas... A guerra, nos diz o filme, não deixa cicatrizes na carne, mas também na mente. Da mesma maneira que a força de 'Persépolis' residia (entre outras) no seu lado 'auto-retrato de uma jovem insolente', 'Waltz with Bashir' apaixona e comove por sua dimensão eminentemente pessoal (Ari lembra-se dos combates, mas também do dia em que levou um pé na bunda de sua namorada, dos discos do OMD ou do PIL que escutava...). Evidentemente, nós estamos curiosos para saber o que Marjane Satrapi pensará de tudo isto, ela que está confinada ao júri este ano..."- JD, Allocine


"O filme no qual nós pensamos mais durante a sessão de 'Waltz with Bashir' - escreva a Renzi, ele confirmará - é 'Redacted' de Brian DePalma. E isto bem antes que uma última seqüência 'autenticamente documental' venha assinar essa proximidade preto no branco. Pois os dois filmes compartilham uma mesma retórica: a partir do momento em que as imagens são (re)passadas no mundo, correndo sob a pele como pelos recantos do cérebro, tudo pode pretender ao documentário. O remake de um vídeo postado na Internet como um desenho animado. Uma declaração como a reinvenção 100% fabricada desta mesma declaração. Somente importa a verdade das vozes: aquela dos soldados brutos de De Palma, como aquela dos adolescentes desgastados de Folman (o hebreu, língua rude, jamais foi assim tão bela)" - Emmanuel Burdeau, Cahiers du Cinema

"Vou me arriscar e dier que não me surpreenderia de ver 'Waltz with Bashir' aparecer na programação de Telluride em setembro, e ainda menos de vê-lo indicado ao Oscar em janeiro. Folman fez um filme lindo, perturbador e profundamente comovente que documenta os horrores dos quais ele e seus amigos foram testemunhas, enquanto oferece esperança de que ele e outros possam se curar, um dia, das devastações da guerra. Enquanto é exagero esperar que este ou outro filme possam ter um impacto no mundo real, filmes como 'Waltz with Bashir' nos oferecem a oportunidade de aprender sobre, e a partir da própria, história. Se aqueles que não conhecem a história estão condenados a repeti-la, talvez aqueles que aprendam possam eventualmente construir um mundo no qual tais atrocidades não existam mais." - Kim Voynar, Cinematical

(Com Sean Penn encabeçando o júri e mais esta resenha, adivinha qual filme acabou de ganhar a Palma de Ouro?)

"As fraquezas esporádicas da animação são facilmente superadas por seu espírito aventureiro cinematográfico, com a câmera fazendo travellings selvagens e zooms impossíveis através de seu mundo desenhado. Mais do que os eventos monstruoso que são testemunhados e encerram o filme em detalhes até reais demais, os momentos de leveza e de beleza eletrizante e deslocada ressoam de forma assombrosa a forma como as coisas são perma-fundidas em sua memória, claras e vívidas como o presente corrente. É uma descrição espantosamente boa da memória sensorial, ao mesmo tempo um filme adorável e inquietante no todo, um que toma as direções que você menos esperaria neste campo superpopulado de documentários sobre atrocidades." - Alison Willmore, IFC

"Estilisticamente, o filme tem a intensidade leve e desnorteante de 'Waking Life' de Richard Linklater, enquanto circula ao redor de seu horror central da mesma forma questionadora e mercúria adotada por Kurt Vonnegut em 'Matadouro Cinco'. 'Walts with Bashir' é um filme extraordinário, chocante, provocador. Nós saímos da sessão num transe."- Xan Brooks, The Guardian

"É exatamente por lidar com essa construção de um mundo que lida tanto com realidade quanto com projeção e sonho que Waltz with Bashir se justifica plenamente na sua forma animada, que parece tratar a realidade como um índice mais do que como um dado de fato. O que ele investiga mostrar, então, é menos o que se deu no chamado massacre das colônias de Sabra a Shatila, mas de que forma quem lá esteve, do lado israelense, retém este fato consigo. Neste sentido, por mais estranho que possa parecer às vezes a maneira de filmar os entrevistados através da animação semi-rotoscópica, o efeito a longo prazo tem um tanto de mistura entre fato e construção que servem muito bem ao filme." - Eduardo Valente, Revista Cinética.

"É um trabalho muito, muito forte - enquanto apoiar-se nas animações em Flash dão aos visuais um aspecto desnecessariamente barato, o trabalho de narração (na maioria dos casos, narrados pelos verdadeiros colegas de exército de Folman) lentamente aproxoima a platéia ao evento até que os momentos impressionantes do final quase entram em erupção na tela. 'Waltz with Bashir' é um filme anti-guerra, mas também é sobre o que realmente se passa entre amigos e sobre a culpa que pode vir de permitir uma atrocidade ao invés de cometê-la." Ty Burr, Boston.com

HUNGER de Steven McQueen - Un Certain Regard

"Este é um sensacional filme de estréia, destemido e íntegro, mais corajoso do que qualquer filme a sair do Reino Unido em muito tempo. O filme toma um pedaço da história britânica recente que periga ser esquecida por aqueles com menos de 30 anos e a faz se tornar visceralmente, desesperadamente viva. Ele obriga o espectador a mergulhar de cabeça no mundo das revoltas penitenciárias nos H-Blocks ocorridas no começo da década de 1980 e do prisioneiro republicano Bobby Sands (interpretado cokm formidável força por Michael Fassbender), que morreu após 66 dias de uma greve de fome." - Sudhev Sandu, The Telegraph

"'Hunger' de Steve McQueen, que foca na morte de Bobby Sands após 66 dias sem comida, motivou tanto aplausos quanto debandadas ao estrear hoje, abrindo a prestigiada seção Un Certain Regard do festival. Apesar do filme ser equilibrado, seguindo a vida de tantos prisioneiros e guardas de forma não julgadora, sem dúvidas ele suscitará memórias amargas de um dos momentos mais sombrios da história recente da Inglaterra e da Irlanda do Norte. " - Charlotte Higggins, The Guardian

"Uma aula de história com ressonâncias obviamente contemporâneas na assim denominada guerra anti-terror... McQueen converge a infernal situação com a compostura de um examinador forense... Se Loach é o nome óbvio que surge à mente, McQueen também tem um elemento de Terence Davies na intensidade perene que traz para utilizar em algumas de suas composições mais comunicativas." - Allan Hunter, Screen Daily

"Um début poderoso e pertinente, mas não inteiramente perfeito para o artista-plástico-tornado-cineasta Steve McQueen, que demonstra um toque de pintor com as composições e com verdadeiro flair cinematográfico, mas que tropeça nos simbolismos baratos na última parte do filme." - Leslie Felperin, Variety

FOUR NIGHTS WITH ANNA, de Jerzy Skolimowski - Quinzena dos Realizadores

Este é um dos grandes eventos não celebrados na Croisette: o primeiro filme do polonês Jerzy Skolimowski em 17 anos, abrindo a Quinzena dos Realizadores. Skolimowski praticamente inaugurou os planos-seqüência lânguidos que hoje são cultuados ao serem emulados por Bela Tarr e Gus Van Sant com o seminal "Walkower" (um dos grandes filmes já feitos). Você o conhece provavelmente sem nem sabê-lo, já que Skolmowski interpretou o tio de Naomi Watts que leva um sumiço do mafioso Mortensen em "Eastern Promises" de David Cronenberg.

"O filme marca o retorno do mestre polonês após uma ausência de 17 anos e um retorno à sua terra natal após 60 anos. O diretor certamente não perdeu seu gosto pelo bizarro. Pois León conversa com o túmulo de sua mãe e Anna, a mulher que ama, não sabe nada sobre suas visitas noturnas que este enigmático homem faz à casa dela. [...] Habilidosamente intermeando um mistério sinistro, o cineasta delinea o desenvolvimento desta obsessão voyeurística, que envolve espionagem, a preparação de soníferos para ser deixado em paz e incursões ao quarto de Anna. Skolimowski explica: "Minha intenção era explorar os aspectos racionais deste comportamento aparentemente irracional e psicótico." - Fabien Lemercier, Cineuropa

"Conduzido com absoluta segurança desde o início, mas ainda permeado com momentos de humor negro que vagamente relembram seus trabalhos mais juvenis e rebeldes, o filme possui quase a mesma sensação metafísica e o controle de uma história do Decálogo de Krzysztof Kieslowski e se torna ainda mais impressionante por ter vindo de um diretor que acaabou de fazer 70 anos e ficou ausente da profissão por quase duas décadas." - Derek Elley, Variety

"O pequeno filme é acidamente engraçado, bastante triste e belamente controlado - o conto voyeurístico de um auxiliar de hospital que droga o chá noturno de sua enfermeira favorita apenas para que ele a possa observar enquanto dorme. Assustador, sim, mas o filme provoca o pathos e até mesmo a nobreza deste homem desprezível." - Ty Burr, Boston.com

Já é favorito? Por aqui, sim.
  Bernardo Krivochein    Quinta-feira, Maio 15, 2008    0 comentários
 
 
ZUMBIDOS DE CANNES 2008


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (Blindness): Filme de Abertura

Em quem acreditar? Primeiro, a reportagem de Rodrigo Fonseca para O Globo:


A citação entusiasmada da imprensa estrangeira, em típica moda deste particular crítico-jornalista, surge na reportagem novamente sem sua fonte de origem. É provavelmente a mesma imprensa estrangeira que, segundo o mesmo Fonseca, havia declarado que a atuação de Bruce Willis em "Nação Fast Food" era a melhor de toda a sua carreira, mesmo que na imprensa estrangeira, sob a pesquisa mais escrota, o leitor não encontrará o menor vestígio de um elogio sequer parecido. Engraçado é que todas as vezes que ele quer glorificar algo, ele puxa a carta da "a imprensa estrangeira é que falou" para tentar adquirir mais respeitabilidade. Fonseca prossegue:

"Gelida à primeira vista, a recepção da imprensa a “Ensaio sobre a cegueira” começa a esquentar pouco a pouco na Croisette. O filme, exibido na manhã, como atração de abertura para o 61º Festival de Cannes, e, de longe, o trabalho mais lúcido e coeso esteticamente da carreira do diretor de “Cidade de Deus”. A partir do romance homônimo de José Saramago, centrado em uma misteriosa epidemia que cega suas vítimas, Meirelles construiu uma especie de thriller moral sobre a falência dos valores éticos no processo civilizatorio.“Eletrizante” seria um adjetivo equivocado para qualificar as sequências em que um grupo de pessoas sem visão tenta agarrar Julianne Moore para tirar dela sacolas de comida. “Assombroso” seria um termo mais adequado a um filme que foge do sensacionalismo."

"No papel de Homem da Venda Preta, incumbido de narrar o longa, Danny Glover [...]tem uma atuação impecável sob a direção de Meirelles."

Então por que não recorrer a tal imprensa estrangeira e verificar as derradeiras reações? Decerto, encontramos reações entusiasmadas, mas o consenso geral é bem menos deslumbrado como Fonseca sugere.
"Duas ou três pessoas aplaudiram ao final da cabine de imprensa. A recepção na conferência de imprensa foi silenciosa. O filme, temo, será geralmente [tratado com indiferença] quando estrear e as platéias quase que certamente passarão longe. Eu respeitei 'Ensaio Sobre a Cegueira' -- eu certamente concordei com o que ele quis dizer -- mas não me excitou nem um pouco. Filmes de abertura em grandes festivais são normalmente decepcionantes neste ou naquele nível -- sem graça, ruinzinhos, mais ou menos. Sinto-me mal por estar disendo isto tendo idolatrado 'Cidade de Deus' e muito admirado 'O Jardineiro Fiel'. Mas a verdade é que 'Ensaio Sobre a Cegueira' é somente um pouco mais do que uma decepção." - Jeffrey Wells, Hollywood Elsewhere

(nota: ainda que se faça bastante informativo o texto de Jeffrey Wells, notemos que sua escrita patrocina esta filosofia furada da crítica cinematográfica que se acha capaz de prever o sucesso e o fracasso do filme em fundamentos puramente subjetivos, rendendo à prática crítica esta impressão pública de ser historicamente uma má apostadora, algo que todos deveríamos nos afastar o mais rápido possível, enquanto escritores e leitores)

"A abertura de gala deste ano não nos faz sentir melhor sobre nosso lugar no mundo. 'Ensaio Sobre a Cegueira' pode muito bem ser o filme de abertura mais soturno da história do festival, uma parábola arrepiante sobre o apocalipse, dirigida pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles e tão impressionante ao seu modo como foi o seu sucesso 'Cidade de Deus'.

[...] É um trabalho devastador - um retrato frio de uma pane social que sobretudo mostra como a catástrofe pode inspirar o melhor nas pessoas assim como o pior. Eu dispensaria a narração sábia e suspirada de Danny Glover em cima de cada momento silencioso qualquer, mas de qualquer forma, o filme acerta na mosca." - Xan Brooks, The Guardian

"Adaptando o romance do vencedor do prêmio Nobel, José Saramago, 'Ensaio Sobre a Cegueira' parece uma mistura curiosa de aspirações literárias elitistas com ficção de gênero popularesca; enquanto a Doença Branca se espalha de pessoa para pessoa numa cadeia de conexões e tudo começa a desmoronar, seria fácil dispensar 'Ensaio' como um 'Madrugada dos Mortos' para ouvintes da CBN ou 'Epidemia' para estudantes secundaristas. Meirelles já havia tomado uma abordagem dupla similar antes -- 'O Jardineiro Fiel' é uma excelente crítica das deficiências do capitalismo moderno que também funciona como um suspense forte e cativante -- e mesmo se 'Ensaio' não funciona tão bem quanto aquele filme, é também um caso óbvio de um filme, e um cineasta, fracassando para atingir a marca exatamente por terem estabelecido suas ambições altas demais para eles mesmos." - James Rocchi, Cinematical

"Uma adaptação intermitentemente assustadora mas diluída do romance dilacerante de José Saramago. Apesar de uma performance caracteristicamente forte de Julianne Moore como a figura solitária que mantém sua visão intacta, sendo testemunha triste porém heróica dos eventos ao seu redor, o drama estiloso de Fernando Meirelles raramente alcança a força visceral, a dimensão trágica e a ressonância humana da prosa de Saramago. Apesar do elenco de destaque, críticas moderadas poderão atrair menos olhos que os desejados para esta co-produção internacional." - Justin Chang, Variety

"O ambicioso diretor brasileiro usa todos os truques visuais de seu amplo vocabulário nos desafios inerentes de se criar uma experiência visual a partir da cegueira. O resultado ilumina a aterrorizante situação da personagem central de Julianne Moore, a única pessoa de uma cidade sem nome, capaz de ver os terrores que recaem sobre a própria raça humana cega que os criou. E numa performance que certamente chamará a atenção dos prêmios, a atriz se mostra mais uma vez à altura da tarefa. No entanto, outras caracterizações parecem reduzidas ao que a história é comprimida. Meirelles parece estar lutando para conseguir encontrar o tom certo, e 'Ensaio Sobre a Cegueira' fatalmente perde tensão antes que degenere para a bizarra sentimentalidade do ato final." - Fionnuala Halligan, Screen Daily
  Bernardo Krivochein    Quarta-feira, Maio 14, 2008    1 comentários
 
 




Tracer
(Robert Rauschenberg, 1925-2008:12/05)
1963
óleo e silkscreen sobre tela
The Nelson-Atkins Museum of Art, Kansas City, Missouri
  Francesca Azzi    Terça-feira, Maio 13, 2008    0 comentários
 
 



Plus Tard Tu Compreendras ("Mais Tarde Você Entenderá")

Não sei bem, como disse o Bernardo, para quem escrevemos neste blog. Eu e Bernardo, os únicos sobreviventes depois de uma meia dúzia de escritores em debandada. De qualquer maneira, sinto assim como Bernardo, que estamos falando para as paredes, e isto claro não faz muita diferença, porque continuamos a falar ou melhor a escrever, bem melhor. Mas se fosse refletir bem sobre o blog, eu e Bernardo estamos sempre sintonizados com coisas bem diferentes, o que é bom por um lado mas talvez não agrege leitores por outro, porque quem vem aqui neste sítio (como dizem os chatos) está procurando pelo quê? Se for pelo Cinema Fantástico acabou de ter uma cobertura maravilhosa do RioFan. E eu sei que o Bernardo poderia falar mais e mais e que adoro a curadoria dele para o Indie, suas críticas ( algumas são longas demais!!!) e como disse sua abordagem de cinema fantástico é bem outra, diferente desta deste evento. Eu não pagaria nem um centavo por qualquer filme do Rio FAN, no Fan at all (aliás que ingresso com preço absurdo, cá entre nós, justifica?!!). I am sorry, não me interessa. Só daí já podemos alcançar nossas diferenças e talvez isto seja legal, estarmos no mesmo lado num blog de diferenças. O fato é que o Bernardo consegue estar em todos os lados, e graças a Deus este RioFan não é seu lado oficial. Vamos lá, me perdoe Be.

Mas questiono mais a minha participação aqui. Ando bem desanimada, sem assunto, até mesmo pensando em abandonar o blog. Mas resolvi que não (por enquanto) , vou tentar postar de maneira mais espontânea, sem organizar demais uma info ou tentar ser mais livre para dizer o que penso ( acho que esta fala aí, já foi um pouco esta tentativa..). Acho que se o blog existe, e foi idéia minha, é porque o Indie existe, mas as vezes gostaria imensamente de falar de culinária ou da nova pirâmede alimentar, ou dos novos vírus associados ao câncer ou quem sabe sobre cabelos anelados, ou o novo delineador da Mac que comprei ou da merda que é loja de jóias em shopping... Já pedi ao Max uma novo lay out para o blog, quem sabe com páginas de menino e menina, seria o máximo... mas ele até agora nada.

Bem, mas já que este é um post ( outro dia comentei com o Cássio Starling da Folha que quem reclama do lado forçosamente "pessoal" dos blogs porque acha chato esta coisa meio "diário" está sendo injusto porque os blogs nasceram para isto, expressão em estilo confessional de diários de adolescentes ou adultos, na verdade foram os jornalistas que invadiram os blogs... e ainda criticam pedindo uma certa objetividade!! Nada mais injusto com os blogs e milhares de blogueiros ordinários!)

Mas voltando ao que será este post...a frase título é
do novo filme do Amos Gitai é o título de um livro de Jerome Clement e não me saí da cabeça. Uma frase que algum dia você já ouviu dos seus pais e que eu tenho certeza que você irá falar para seu filho: Um dia, mais tarde, você compreenderá.

Amos deu uma entrevista para o El Pais que foi traduzida no Uol (leia AQUI a entrevista na íntegra). Com o aniversário de 60 anos de Israel, ouvimos por aí um monte de depoimentos sobre o que representa no imaginário de judeus brasileiros a constituição do Estado e tudo mais mas achei incrível o que Gitai conta sobre a sua mãe, ao responder uma pergunta sobre se resta alguma esperança:

Gitai - Ao refletir sobre isso, penso em minha mãe, que nasceu em Israel quando ainda era simplesmente palestina. Tinha raízes dos judeus da Rússia. Casou-se com meu futuro pai nos anos 1930 e passaram a lua-de-mel no Líbano. Quando eu era pequeno, as fronteiras já estavam fechadas e cruzá-las me parecia algo extremamente perigoso. Mas em cima da mesa na qual almoçávamos minha mãe sempre punha umas estranhas passagens de trem com o trajeto Haifa-Beirute, os da sua lua-de-mel. Parecia-me muito preocupante que algum dia tivesse havido essa possibilidade de viajar em paz. Com esse gesto, minha mãe queria nos dizer que se aquele trem havia existido no passado poderia voltar a existir. Em Israel não devemos perder a esperança.

Este seu novo filme, que estreou em fevereiro em Berlim, trata também da Guerra, mas da Segunda Guerra, do Holocausto. Jeanne Moreau faz Rivka, uma mulher que tem horror de falar do passado e que pressionada por seu filho a relatar o que passou quer evitar uma vivência da memória da perda dos pais, uma espécie de pacto do silêncio que ainda encobre a violência da guerra.

O que mais me impressiona em Gitai é sua capacidade de enxergar os dois lados desta história ao dizer: "Cada um de nós utiliza suas feridas para obter vantagens políticas, sem entender que somos todos perdedores."

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  Francesca Azzi    Segunda-feira, Maio 12, 2008    7 comentários
 
 
RIOFAN: Os Premiados

Prêmio do Júri de Melhor Filme (Mostra Competitiva): Estrada Para o Inferno (Zibhakhana, Paquistão, 2007) de Omar Khan

Prêmio do Júri de Melhor Filme (Mostra Visões): Otto; or Up With Dead People (Alemanha, 2007) de Bruce LaBruce

Prêmio do Público de Melhor Filme: Mirage Man (Chile, 2007) de Ernesto Dias Espinoza

Melhor Curta Internacional: Criticado (Criticized) de Richard Gale

Melhor Curta Nacional: Gravidade Zero, de Gustavo Brandau

Menções Especiais do Júri do RioFan:

Marko Zaror, por sua atuação em "Mirage Man"

A Vida Me Mata (La Vida Me Mata, Chile 2007) pela edição e fotografia

(via Twitch)
  Bernardo Krivochein    Segunda-feira, Maio 12, 2008    7 comentários
 
 
RIOFAN: Sessões Extra

Dois dos melhores e mais celebrados filmes da programação do RioFan receberão reprise extraordinária neste sábado: "Mirage Man" e "Cronocrímenes". Vale lembrar que as cópias destes dois filmes são em película 35mm, então vale a pena correr para a Caixa Cultural. As sessões são às 17h30 e 19h30.
  Bernardo Krivochein    Sexta-feira, Maio 09, 2008    0 comentários
 
 
RIOFAN: Avaliação em processo

A cerimônia de premiação das Mostras Competitiva e Visões ocorre nesta quinta-feira, junto com a homenagem a José Mojica Marins, mas ainda há Rio Fan para este fim de semana (nos cinemas da Caixa Cultural e na Cinemateca do MAM, onde, entre vários filmes clássicos do gênero, uma bizarra exibição de "Nekromantic" em pleno terreno do Museu de Arte Moderna... fico pensando: e se aparece algum velho cinéfilo incauto?), com slots reservados para sessões especiais (os filmes ainda não anunciados). Ao primeiro anúncio, postaremos aqui quais são. Mas aproximando-se o evento ao seu fim, arriscaremos um balanço desta primeira edição. Claro que aconteceram os percalços técnicos comuns a qualquer festival, portanto não nos concentraremos neles.

Apenas após o segundo ou terceiro dia é que os lindos e maciços catálogos do Rio Fan chegaram às mãos do público (e de graça), revelando aí a derradeira falha da organização: a fé na publicidade. Mesmo antecipando o evento e sabendo que ocorreria por volta de maio, foi com surpresa que recebi notícias de seu início (dois ou três dias antes da sessão de abertura). Não se trabalhou uma antecipação deste que promete ser um dos grandes eventos do calendário cinematográfico nacional - se conseguir sobreviver a uma segunda (e mais bem esquematizada) edição: do nada, a página e a programação estavam no ar (e pareciam está-lo por vários dias). Pior, o que era uma grande oportunidade - o feriadão permitiria que o público estivesse livre para freqüentá-lo - acabou sendo desperdiçada por falta de comunicação e desinformação, responsabilidade de ambos organizadores e platéia. Esses catálogos não deveriam ter parado na minha mão, na mão dos meus amigos ou de qualquer um daqueles que realmente freqüentaram o festival. Esses catálogos deveriam ter sido esgotados há muito tempo, nas mãos do público geral do Espaço e Estação.

Não subestime a ignorância do público carioca: ele realmente não sabe de nada do que está acontecendo nunca, mas está doido para que lhe façam a cabeça. Ser convencido de algo é sinônimo de "ser querido por alguém" para cariocas. Ele gosta de ser mimado e vai continuar pedindo informações apenas para se regozijar na atenção que você está lhe dispensando. Um público amplo para o cinema fantástico precisa ainda ser formado, mas houve muito pouco esforço para quebrar a idéia de trash fatalmente associada a este cinema. É preciso ensinar aos cariocas a beleza de se assistir um filme fantástico - é o desafio que enfrento todos os anos no INDIE. É claro que eu quero exibir filmes que causem comoção na platéia, mas o objetivo é sempre salientar a exploração muito peculiar dos limites da arte através do cinema fantástico. E o cinema fantástico é de todos o mais belo dos gêneros porque, sempre tão amplo e inovador, prova que não existem limites derradeiros para o cinema.

Fico imaginando onde foi parar a platéia que lotou a sessão de "Diário dos Mortos" durante o desenrolar do Rio Fan. Fez frio. Choveu. Não deu praia. Não tinha rigorosamente nada acontecendo na cidade até quarta-feira passada, que era o show do Whitesnake, muito provavelmente destinado ao mesmo público freqüentador do Rio Fan (mas será que era o mesmo público freqüentador de "Meu Nome é Dindi" ou "Conceição"?). Houve sessões em que tive certeza ser o único presente que não fazia parte ou do júri ou da produção. Ou seja, o único pagante (e por mais patrono do cinema independente que eu queira ser, 12 reais a inteira para uma produção indie projetada em DVD é salgado pra caralho, mesmo com opção de passaporte). A sessão mais cheia na minha experiência foi a de "Cronocrímenes" e mesmo assim, se a sala estava cheia pela metade, foi muito (em defesa meia-bomba da organização, o Estação Botafogo 1 é uma sala grande). Algo como "Jack Brooks: Monster Slayer", que tinha grande potencial para se tornar a sessão palhaçada do ano (ainda que a idéia seja um pouco perjorativa até para este próprio filme), encarou uma sala morna. As pessoas talvez tivessem o dispensado num ato premonitório, uma vez que a exibição acabou (mutio felizmente) substituída por "Mirage Man".

E não subestime essa programação. Certo, não houve um título asiático sequer (salvo por "Ugetsu"), justamente a cinematografia que melhor integrou o fantástico a sua veia comercial, mas a seleção antenada pescou o que há de melhor acontecendo dentro do foco "terror B" no qual eles declaradamente se concentraram. Gostoso mesmo foi saber que o filme em destaque no Twitch hoje seria exibido em algumas horas aqui mesmo no Rio de Janeiro. Foi o caso de "Cronocrímenes" e "Pop Skull", provocando uma boa sensação de estar finalmente "up-to-date". Pôde-se ainda ouvir algumas idéias sendo trocadas, idéias de filmes que se desejam fazer, que se desejam ver, mas elas eram tão esparsas quanto a freqüência. As ambições do Rio Fan eram grandes, mas maiores do que seu público. Talvez a concentração da programação desta primeira edição em um único lugar, um centro nervoso para que as idéias florescessem e se transmitissem de forma otimizada.

E aí eu penso: será que eu não tenho culpa no cartório? Antes, eu não me cansava de falar de cinema fantástico, mas não venho escrevendo sobre ele faz algum tempo(ainda que tente me manter atualizado). E sobre o Rio Fan só dispensei uma nota quando descobri que finalmente alguém estava investindo na idéia. O Rio Fan, tanto quanto uma estratégia mais esperta de abordagem do público e mídia, precisa trabalhar a idéia de cinema fantástico no imaginário do cinéfilo carioca. Porque estava tudo certo, desde a vinheta até a programação. Como sempre, no caso do Rio de Janeiro, faltou informação, hype vápido (as coisas no Rio só funcionam assim, é dar ou descer) e discussão. Faltou tirar a idéia de trash cimentada na exibição grátis de "Diário dos Mortos" e estabelecer a idéia de que cinema fantástico é algo que vale o dinheiro do ingresso mais do que qualquer outro filme em cartaz. Agora que deixa de ser novidade e se torna tradição, quem sabe o cinema fantástico segundo o Rio Fan receba automaticamente mais respeito (preferiríamos mais carinho). Os organizadores do Rio Fan, sempre simpáticos nas apresentações dos filmes, têm um ano inteiro para plantar esta idéia no imaginário do público.

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Achava que a esta altura, alguém teria passado por aqui para me dizer alguma coisa sobre "Nos Domínios do Mal", que antecipava terrivelmente assistir. Tive que ir eu mesmo atrás de um amigo para pescar alguma opinião. Um: o filme, de fato, existe. Dois: a opinião final foi: "é bem feito, mas eu não gostei - é 'Os Trapalhões' demais para o meu gosto." Para você ver a subjetividade, a opinião não transformou em nada meu desejo em assisti-lo. De que Trapalhões ele estava falando, da formação integral, de quando eles brigaram com o Didi ("Atrapalhando a S.U.A.T.E.") ou de quando o Zaccarias morreu? Os Trapalhões de "OsTrapalhões na Guerra dos Planetas" ou de "Os Fantasmas Trapalhões" (ou aquele com a cena mais assustador do cinema mundial: a do Gugu beijando a Angélica)? Porque, veja você, tem uma enorme diferença tanto tonal quanto coreográfica.

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Desagrada um, agrada o outro, ao que tardiamente descubro um site muito legal de críticas cinematográficas concentradas em cine fantástico - Quiet Earth - e uma crítica bastante curiosa de "The Vanguard" que, obviamente, agora me arrependo de não ter visto (apesar da qualidade meio troncha dos stills disponíveis no site). Alguém valida tal crítica?


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Um dos membros do júri da Mostra Competitiva do Rio Fan, além do presidente do Conselho Jedi do RJ (waaal...), é a programadora de conteúdo da recém-fundada MovieMobz, distribuidora cinematográfica de proposta puramente digital que a Francesca já havia colocado na roda para debate há algum tempo. Além de aguardar para ver a empreitada em pleno funcionamento, uma das coisas que mais se especula é: qual o conteúdo a ser distribuído pela MovieMobz?


Dá até medo pela MovieMobz porque os primeiros títulos comprados pela companhia, são, hmm, incríveis. Mas não incríveis do tipo "caralho-é-o-filme-novo-inédito-dos Dardenne-e-dos-Irmãos-Coen-em parceria-multi-fraternal, ganhadora de Cannes, Frannes, Grannes e mais tantos Annes". São incríveis porque estabelecem a MovieMobz não como uma distribuidora de proposta técnica inovadora, mas com um conteúdo de filmes independentes. E não esses independentes que não passam de superproduções no armário, essas Paramount Vantage, Weinstein Company, Focus Features da vida, indie chique, indie socialmente aceitável, indie que dá para levar a mãe para assistir. Os filmes da primeira leva da Moviemobz são furiosamente independentes. Filmezinhos malditos já de berço.


Primeiro: "Hannah Takes The Stairs" - o filme-celebração do movimento-que-não-ousa-dizer-seu-nome por Joe Swanberg, que se tornou item de louvor e imediato repúdio por parte da mídia anti-hype vazio. O filme periga chegar aqui sem o vapor contextual que o fazia material de interesse, podendo causar alguma resistência do público, desacostumado com sua abordagem inusitada, fluida e perambulante demais para ele. Mais do que tudo, o filme é um louvor à colaboração criativa, às amizades que permitem a artistas independentes materializarem sua visão. É singelo e extremamente foda por isso mesmo.


Segundo: "Severed Ways - The Norse Discovery of America" - como uma capa de um disco do Moonfog que ganhou vida, este début cinematográfico de Tony Stone é um filme que eu venho já há dois anos tentando programar para o INDIE sem sucesso. Uma espécie de "Apocalypto" independente, o filme acompanha, em dialeto original, as aventuras de dois vikings perdidos na América colonial, enfrentando missões católicas e fazendo headbanging ao som de metal ao longo do caminho. Filmado no terreno do pai do diretor, Stone se enfiou sozinho no meio do mato e lá montou o filme ao curso de dois meses. Fez polêmica no último LA Film Festival pela cena onde um dos personagens defeca explicitamente na câmera.


Desta leva existem ainda o intrigante "Choking Man" e "Arranged", sobre os quais escreveremos assim que nos inteirarmos de mais notícias.

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  Bernardo Krivochein    Quinta-feira, Maio 08, 2008    2 comentários
 
 
RIOFAN: POP SKULL


Adam Wingard criou um filme de misterioso assombro, que, inseguro de si mesmo, hesita em criar alguns sustos às custas dos fantasmas mais desimportantes entre os vários em cena, quando o verdadeiro terror é o mais palpável. Colocando todos os recursos de efeitos de edição a serviço da dor-de-cotovelo, "Pop Skull" se parece inicialmente com alguma projeção barata em videowall de qualquer festa gótica (e foi divertido notar como o projetor digital não conseguiu dar conta de alguns dos efeitos estroboscópicos mais intensos, como se o filme estivesse fisicamente burlando algumas normas do cinema), mas é no seu mais errádico que consegue ser mais narrativamente dinâmico e fresco. Diferente do que tem muito se discutido sobre o filme, "Pop Skull" não é um filme selvagemente experimental, ao que o gancho de roteiro que embasa a inserção dessas intervenções criativas de montagem - o vício do personagem em remédios não-prescritos - logo desaparece do mapa. Ao preferir assentar-se para abordar o drama de um jovem sensível lambendo as feridas após o término do namoro da pior maneira possível, Wingard paga um pouco o preço de ter carregado o filme com tamanha carga de estímulo sensorial logo no início.


O gancho dos terrores em "Pop Skull", muito como no núcleo da história do protagonista de "Otto", está fincado numa esfera possível, de um fantasmagórico admitido. Essencialmente um drama indie, Wingard não se faz de rogado e indica o número de caminhos a seguir deste ponto de partida. É um filme confuso, disperso, mas repleto de identidade, que não se aquiesce nem para os formalismos (do bom soldado independente, fazendo um cartão de visita para os grandes estúdios) nem para os devaneios (o cinema fantástico fugitivo, repleto das mais tresloucadas abordagens do convencional), sendo portanto um elemento estranho e fascinante por natureza dentro de qualquer programação (mesmo no RioFan, marcado por uma seleção surpreendentemente rebelde frente aos parâmetros de mostras cariocas em geral, sempre de um bom gosto aborrecido: os filmes, independentes em sua grande maioria, apresentaram desafiadores exercícios de estilo). Incômodo, "Pop Skull" é um filme constantemente desagradável (os planos são extremamente fechados para uma telona como a do Estação Botafogo, mesmo se a câmera digital de Wingard notadamente não dá conta de capturar planos mais abertos e com mais profundidade de campo - trata-se, no entanto, de filme estritamente videocêntrico: os créditos finais sobre uma tela de colorbar o confirmarão), mas cuja sinceridade cortante nos mantém envolvidos.


Não chega muito bem a ser empatia: o protagonista, por mais sensível que seja, é um songamonga que poderia beneficiar-se de uns bons catiripapos. Sobretudo, "Pop Skull" é um filme carente (e bastante auto-piedoso, é verdade) gritando a plenos pulmões em busca de qualquer um com quem possa se identificar, lhe fazer companhia. Há uma atmosfera de desespero constante, de um desolamento que se presentifica em cada plano. É um filme que precisa se excluir, pegando um desvio estético, para chegar ao coração - partido - do espectador (que, por sua vez, precisa sair do apatetamento comum e também permitir se abrir); ele não saberia uma outra forma. Wingard reconhece todas as possibilidades narrativas da trama ao longo do caminho, como se dizendo: "eu sei que eu poderia fazer um ótimo filme de terror com estas ferramentas, mas há um lugar onde preciso chegar." Wingard está sofrendo, mas também está curtindo e alimentando esse sofrimento e é aqui que "Pop Skull" se revela o mais embaraçoso para o espectador, que reconhece no desabafo do protagonista ("Eu não quero mais me sentir assim!") a hipocrisia de sua(s) própria(s) fossa(s). Porque é impossível não pensar: você sabe que só está assim porque quer.


As revelações de "Pop Skull" são as nossas, que se evidenciam quando o filme deixa para trás seu aspecto "Réquiem Para Um Sonho" de apenas 50 centavos e, a desilusão sem o seu in(dif)erente complexo de grandeza, acomoda-se no estado naturalmente estimulante da melancolia em parte voluntária. Desejaríamos que o filme não reduzisse a história dos personagens a funções básicas, especialmente quando o elenco os defende terrivelmente bem (especialmente Brandon Carroll como o melhor amigo de Daniel, ameaçador e enternecedor ao mesmo tempo), substancializando o drama para além de seus efeitos de edição e de sua atmosfera de história de horror que, fica claro desde o início, não dará em nada (Wingard ainda insiste em jogar algumas bolas curvas, sugerindo a importância do papel que o sobrenatural cumprirá na história, mas tá na cara que é só balela). Esqueça os espíritos assombrados e concentre-se no espírito desbravador e triste de um longa irredutível na sua própria depressão. Não há nada a se lastimar aqui: Wingard ousa esta pequena pérola marginal a todos os gêneros os quais insinua e, mesmo no seu irregular e mais rústico, acaba distribuindo aos nossos sentidos violentados uma série de possibilidades inquietas.


"Pop Skull" EUA, 2007. 86min. Direção: Adam Wingard. Estrelando: Lane Hughes, Brandon Carroll, Maggie Henry, Hannah Hughes, Jeff Dylan Graham. Site oficial: http://www.popskullthemovie.com/

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  Bernardo Krivochein    Quinta-feira, Maio 08, 2008    0 comentários
 
 
RIOFAN: MULBERRY STREET

Still de "Mulberry Street" de Jim Mickle

Como um time de futebol, a indústria hollywoodiana, concentrada em contratar talentos estrangeiros para conduzir seus filmes de horror (os coreanos, japoneses, alemães e franceses), poderia perfeitamente investir nas categorias de base: seus cineastas independentes, prata da casa que permanece negligenciada em prol de diretores de superproduções estrangeiras (mais em sincronia com a mentalidade de grande estúdio). Talvez os executivos não os vejam como uma possibilidade, mas sim como uma ameaça: ao perceber que um cineasta local sem nenhum orçamento consegue simular à perfeição os mesmos truques e estética dos filmes de grande bilheteria, eles não os abraçam e os congratulam. Ao invés disso, preferem importar os sucessos e autores de outros países, a fim de revnovar a cartilha da "linguagem". O mais perto que o artista independente chega de criar uma superprodução em seu quintal, o movimento dos executivos é de afastamento, gastando cada vez mais dinheiro e investindo mais no "espetáculo incomprável" para preservar a hierarquia.

Jim Mickle vaga pelos sets de alguns filmes novaioquinos como um mero grip. Sua identidade secreta é a de um diretor cinematográfico de enorme promessa. "Mulberry Street" parece uma superprodução feita com dinheiro de Banco Imobiliário. Quando a maioria dos filmes de terror independente precisa se relocar para a menor cidadezinha possível a fim de conseguir materializar o ambicioso estado de apocalipse urbano proposto pelo roteiro, a "cidadezinha" de Mickle é nada menos do que Manhattan. Apenas por isso, Mickle já peitou Carpenter, Romero e Corman: ele não se acovarda em face das improbabilidades da produção. Melhor ainda: ele consegue convergir sua visão em filme. Alunos de cinema com conceitos ousados deveriam prestar atenção na forma como, muito engenhosamente, Mickle cria cinematograficamente uma Nova York em estado de caos: edição esperta e bom trabalho de som auxiliando a captação de planos muito oportunos (uma rua interditada para uma parada facilmente torna-se uma área de isolamento químico; um Central Park que naturalmente se esvazia após as 7 da noite se torna um cenário misteriosamente abandonado), somado ao mais modesto e simples trabalho em CGI (a notar: o plano breve de helicópteros sobrevoando a cidade e um outdoor photoshopado). A notar: outro independente "Right At Your Door" também é um belo exemplo de realizar grandes conceitos com o mínimo de recursos.

Um roteiro altamente sugestivo ajudará muito, ainda que o espectador não se deixe enganar pela sugestão inicial de que "Mulberry Street" se trata de ratos mutantes. Os roedores são apenas o hospedeiro de um vírus que transforma, com uma mordida, os seres humanos em mutantes-carnívoros com cara de Topo Gigio (bom trabalho de maquiagem, apenas sutilmente revelado pela direção). Trata-se, no fundo (nem tão fundo assim), de sua típica aventura de zumbis, com os heróis divididos entre preservar o prédio de apartamentos em Little Italy seguro da ameaça externa e salvar os que se encontram longe de suas casas, em meio ao desastre. Se "Mulberry Street" não consegue ser claustrofóbico como gostaria, ele consegue ser urgente: apoiado em personagens carismáticos, bem estabelecidos e sobretudo bem defendidos pelos atores, Mickle arrisca em fazer da trama uma bomba-relógio ao que os protagonistas principais, pai e filha, correm pela cidade tentando cumprir seus respectivos objetivos.

Se "Mulberry Street" possui o visual de um filme de grande estúdio, isto também é culpa dos próprios executivos que permitiram ao cinema superproduzido predar da linguagem independente, sem que a ela pouco restasse. O que o espectador encontrará em "Mulberry Street" é a sua atual abordagem das cenas de ação/terror, estabelecido no cinema comercial por "Extermínio", "Madrugada dos Mortos" e "Viagem Maldita" (ampliando-se com "A Supremacia Bourne" e por aí vai), quando a câmera treme frenética nos momentos de tensão, talvez ainda mais frenética aqui, procurando ocultar na confusão os limites da produção. É onde o filme parece mais pecar, já que estas cenas de ação são derivativas, além de esquizofrênicas demais, sem o brilho e o envolvimento criado pela apresentação dos personagens e pela criação de atmosfera, duas áreas sempre problemáticas para filmes independentes de gênero (que normalmente preferirão apressar-se em direção às cenas gráficas, lotando-se de qualquer clichê de entendimento imediato ou ainda protelando as poucas cenas de ação que o orçamento permite para alcançar a duração de longa-metragem - algo característico do cinema de drive-in e ironizado com louvor em "À Prova de Morte"). A confusão dilui consideravelmente o impacto dramático ambicionado por seu final bastante melancólico, ainda assim corajoso se pensado nos termos mais comerciais nos quais "Mulberry Street" parece se infiltrar.

Até lá, Mickle já terá nos impressionado com tanto virtuosismo e jogo de cintura, espero que ele nos perdoe por aguardar dele mais um truque na manga. Alguns momentos de grande beleza pipocam durante o primeiro ato (como o shadowboxing no alto de um telhado), além de cenas do mais intenso suspense (a chave na ignição da caminhonete) que são criadas com nada senão o olhar de um diretor nato. O final ríspido e abrupto só não corresponde com o grau de antecipação estabelecido pelo diretor ao seu próprio filme (não que haja um problema em terminar mantendo explicações em aberto, mas a infecção surge gratuitamente na história). Exemplo de cinema-brodagem que dá incrivelmente certo, vamos torcer para que Mickle, em sua próxima investida (uma adatação de "Cold In July" de Joe R. Lansdale), consiga muito mais amigos.

"Mulberry Street". EUA, 2006. 85min. Direção: Jim Mickle. Estrelando: Nick Damici, Kim Blair, Bo Corre, Ron Brice, Tim House. Distribuidora: Lions Gate/Video Filmes. Site oficial:
http://www.mulberrystreetmovie.com/

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  Bernardo Krivochein    Quarta-feira, Maio 07, 2008    0 comentários
 
 
RIOFAN: END OF THE LINE

Still de "End Of The Line" de Maurice Deveraux

Dentre todos os títulos longa-metragem na programação do RioFan, "End Of The Line" é um dos tecnicamente mais bem resolvidos: trabalho seguro de câmera, bem fotografado, uma trilha-sonora original digna de uma produção de terror bem apadrinhada por algum estúdio, efeitos especiais decentes. Poderia-se dizer que as qualidades de produção acabam desfavorecendo o filme, ao que os pontos positivos evidenciam as reais carências do filme, bem mais do que as ocultam. Através da mirabolante transformação de um orçamento independente num filme de aspecto bem mais valioso (nunca uma superprodução; pense numa continuação de filme de sucesso feito diretamente para o vídeo... essas produções contam com mais dinheiro do que se imagina), Maurice Deveraux ergue as expectativas do público, que passa a escrutinizá-lo sem preconceito, sem condescendência. Uma pena pelas suas falhas (o final bem concebido, mas mal executado; os atores caricatos; os múltiplos sustos gratuitos e sem fundamento algum), pois são eles que impedem "End Of The Line" de se destacar além do estado de passatempo eficaz no qual atualmente se encontra.

A ótima história vem alicerçada no terror bastante compreensível de estar só numa estação metroviária: um grupo de incautos tenta sobreviver nos trilhos subterrâneos à perseguição de milhares de crentes religiosos, quando o seu pastor os convoca a salvar as almas dos infiéis do apocalipse, assassinado-os neste que seria o dia do juízo final. Eles não precisavam nem mostrar a faca: apenas a idéia de se encontrar no mesmo vagão de trem enquanto eles começam a entoar o coro de música gosple já é o bastante para causar o apocalipse nas minhas calças. Se o recheio é delicioso, são as arestas que não estão lá muito bem cozidas: a história de fundo da protagonista, obviamente tentando insinuar um possível desequilíbrio psicológico (e assim levar o espectador a desconfiar da veracidade do que se vê), é abandonada rapidamente, apenas protelando o início da ação. Uma vez ultrapassado o estabelecimento da personagem, trecho com muito a nenhum valor para o filme, Devereaux empilha uma número exagerado de sustos baratos (estragando a boa construção de atmosfera) e até se estrambelha um pouco ao tentar cobrir os múltiplos eventos e personagens presentes dentro de um metrô repentinamente parado nos trilhos, ao mesmo tempo que tenta preservar o terror e as surpresas (ao ponto de precisar voltar no tempo, após já conhecermos o evento principal, para poder apresentá-los).

Mas conseguindo dar conta desta apresentação esburacada, o que se segue é um terror bastante digno que faz o máximo de sua situação e de sua locação, conseguindo angustiar e prender a atenção. No todo, Deveraux consegue fazer um filme que se leva a sério (ainda que muitos queiram debatê-lo), que não entra em território de galhofa, que não joga a toalha mesmo quando alguns elementos não estão exatamente colaborando - caso das atuações tão caricatas que chegam a distrair. O elenco, mesmo nas cenas iniciais, parece antecipar a histeria da qual seus personagens serão vítimas ao exagerar na interpretação da mais ligeira linha irônica de diálogo. Assim sendo, o centro psiquiátrico no qual a protagonista trabalha deve ser um hospital dedicado aos atores canastrões do Canadá: "End Of The Line" teve ter o elenco dos piores coadjuvantes há muito tempo vistos, fazendo de suas modestas cenas um grito desesperado por atenção; eu não consigo me esquecer o quão ruins estavam o padre católico e o enfermeiro. Stanislavski girou tanto no túmulo que se tornou uma broca cadavérica, perfurando a crosta terrestre (última localização do radar: arredores de La Paz). Salvam-se Joan McBride como a líder cultista, criando uma vilã completamente detestável e possível, e Neil Napier, espécie de astro de filmes independentes de gênero no Canadá, como um herói sem virtudes idealizadas. É apenas lógico que os dois melhores em ação acabem tendo que se enfrentar.

Ao invés de atingir o muro à toda velocidade, Deveraux freia a condução. Acabamos o filme sãos e salvos, sem um impacto digno de nota. Este compromisso com a boa forma cinematográfica surge num dos filmes que mais se beneficiariam de ousar em seu baixo orçamento. O roteiro de "End Of The Line" se desenvolve de forma bastante eficaz, mesmo sendo corretinho (não há nenhuma afronta aos sentidos ou a moral, já que o filme é uma catarse para quem não agüenta a Igreja Universal), deixando-nos ansiosos para descobrir se Deveraux evoluirá no próximo filme. Aqui ele mostra saber como valorizar ao máximo a pequena produção. Será que com mais oportunidade ele ousará ou simplesmente se conformará? A descobrir.

"End Of The Line" Canadá, 2006. 95min. Direção: Maurice Deveraux. Estrelando: Ilona Elkin, Nicolas Wright, Neil Napier, Joan McBride, Emily Shelton, Tim Rozon. Site oficial: http://www.endofthelinemovie.com/

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  Bernardo Krivochein    Terça-feira, Maio 06, 2008    0 comentários
 
 
RIOFAN: OTTO; OR UP WITH DEAD PEOPLE

Still de "Otto; Or Up With Dead People" de Bruce LaBruce

"- Qual é o privilégio do mortos?"
"- Não morrer mais."

Ao misturar o gênero de zumbis do cinema de horror e e o queer cinema, Bruce LaBruce preferirá ignorar todas as referências possíveis dessas duas cinematografias repletas de títulos essenciais e citará este diálogo de "Alphaville" de Jean-Luc Godard (inclusive dentro de um contexto similar ao original francês: durante uma entrevista do protagonista). "Otto; or Up With Dead People", nós descobriremos, pertence muito pouco ao cinema fantástico ou ao cinema gay. Ao invés disso, LaBruce nos oferece uma inesperada sátira ao cinema avant-garde, tal qual fosse uma versão indie das paródias "Epic Movie", "Scary Movie" ou "Date Movie": "Deu a Louca no Cinema Experimental Marginal". Pois o público do Rio Fan pôde experimentar hoje seu próprio dia de Ronaldo Fenômeno ao entrar num filme acreditando saber o que lhe esperava e surpreender-se quando nenhuma das referências à mão era de alguma serventia.

Ainda que eu não tenha particularmente gostado de "Otto", sinto que é meu dever defendê-lo ao acreditar entender em parte o plano de LaBruce. O Queer Cinema, por ser um cinema marginal por definição, fornecia campo ilimitado para a exploração do suporte cinematográfico, mas recentemente ele comprometeu a radicalidade de sua linguagem em busca de aceitação social, banalizando-se: perceba que este diagnóstico não é meu, mas dos críticos Ernest Hardy e Chuck Wilson à época do OutFest 2007. Hoje em dia, estes filmes são apenas versões gays dos batidos romances teen de colégio, comédias românticas de erros e dramas novelescos, sem nada a oferecer além da identificação imediata e superficial do público. É apenas revigorante para o queer cinema que um de seus autores mais renomados ainda se preste a ser mais violento aos sentidos: "Otto" muda de janela, de textura (parecendo um videoclipe alongado de algum gótico industrial alemão), de tom (mesmo compreendendo a sátira, dificilmente sabemos se é apropriado rir ou não, especialmente pois as piadas auto-conscientes vêm acompanhado de uma trilha pouco, digamos, leve) e é apoiado numa estrutura narrativa metalingüística pra lá de complexa, sem por isso deixar de ter uma linha central bem resolvida.

LaBruce não é um autor com um senso lá muito cinematográfico, no sentido clássico do termo: os planos são feios e o ritmo é completamente esquizóide. Porém, LaBruce é um autor completamente consciente, estudioso e crítico do meio audiovisual. "Otto" é um filme repleto de pirocas e de idéias. Felizmente, "Otto" tem mais idéias do que pirocas ao que LaBruce, em típica moda godardiana, faz um filme-discurso altamente pedagógico sobre suas ideologias, ao metaforizar em Otto - um recipiente de uma nova praga zumbi que ataca apenas homossexuais - como os gays são percebidos pela sociedade contemporânea e dissertando a quantas anda o atual processo de aceitação social (ao que o tratado politicamente correto em vigor pouco espelha os avanços práticos).

Porém, até o discurso ganha ares de farsa ao ser proferido por esta personagem genial, a diretora de cinema de vanguarda Medea (Katharina Klewinghaus), uma Glauber Rocha gótica que aplica a câmera-na-mão-e-uma-idéia-na-cabeça ao improvisar na direção enquanto expressa sua filosofias ao filmar o pornô-político "Up With Dead People". Aqui, LaBruce destroça selvagemente todos os clichês pretensiosos do cinema de autor, com discursos idealistas e arrogantes nos diálogos e a estética "revolucionária" (os curtas anteriores de Medea são propositalmente pavorosos, com direito a títulos quilométricos). Com Klewinghaus estabelecendo indiscutivelmente a farsa (destaque também para Susanne Sachsse como Hella Bent, a estrela de cinema mudo por opção, surgindo sempre destacada da multidão como uma projeção de película P&B), o espectador entra com mais boa vontade no bonde de LaBruce. Como um típico filme vanguardista, a ação corre solta, imprevisível, improvisada, com humor desprendido e inúmeras observações dispensadas sobre a linguagem e o suporte (no caso, suportes, ao que o vídeo digital também tenta simular o efeito de película através de filtros).

As idéias mais "comerciais" presentes em "Otto", no entanto, são tão potentes que me fazem desejar que LaBruce não tivesse escolhido para o filme o gueto voluntário com todas as experimentações e exposições gratuitas de sexo explícito. Explico: correndo paralela à realização do filme de Medea, a trama do jovem zumbi Otto que vai sorrateiramente se desenrolando sem que se dê a ela muito valor (os flashbacks de bichinha feliz são terríveis), torna-se a grande e agradável surpresa ao que nos reserva um belo momento dramático de causar nó na garganta, ao finalmente concluir o perfil do protagonista. Em termos de ressonância emocional, o filme se alonga além da conta. Uma pena, porque LaBruce encontra um final muito potente para a história de Otto e chega pertíssimo de fazer um filme genuinamente excelente.

Dá raiva, porque o objetivo assumido de LaBruce não é fazer um filme cinematograficamente eficaz, mas linguisticamente bombástico. Ele parece mais concentrado em como preservar o design criado para o personagem, zumbi gatinho, muito mais bonito na versão morto-vivo do que na versão bissussinha feliz. Refletindo sobre a eficácia comercial de "Otto" (novamente, eu sei que este nunca foi o objetivo do longa e não cabe a mim impô-lo), apenas o conceito de um protagonista zumbi gay seria mais do que suficente para se realizar um filme confrontador e subversivo, mesmo adotando a mais convencional das narrativas. As ambições de LaBruce dizem apenas à esfera experimental, obviamente restringindo o filme. Mas as capacidades cinematográficas que existem no diretor e são aqui reveladas, de modo que sinceramente me impressionaram, me fazem desejar que ele ampliasse essa ambição em direção ao meio comercial - o meio que realmente precisa ser corrompido.

"Otto, Or Up With Dead People" Alemanha/Canadá, 2008. 95min. Direção: Bruce LaBruce. Estrelando: Jey Crisfar, Katharina Klewinghaus, Susanne Sachsse, Marcel Schlutt, Guido Sommer. Distribuidora: New Real Films. Site oficial: http://www.ottothezombie.de/

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NOS DOMÍNIOS DO MAL/AUF BÖSEN BODEN: Eu ainda devo pegar mais quatro ou cinco filmes da programação do Rio Fan durante a semana, mas ainda estou esperando para ver o que eles programarão nas Sessões Especiais, estrategicamente reservadas para o próximo fim de semana. Espero sinceramente que o boca-a-boca se espalhe acerca de "Nos Domínios do Mal", mash-up de gêneros que fez sucesso no úiltimo FanTasia (mas o filme só foi exibido no final do festival, quando a excitação vai perdendo o vapor), é altamente recomendado pelo Todd Brown do Twitch. Tomara que faça sucesso por aqui a ponto de fazê-lo merecer uma exibição extra dentro do festival, haja visto que o horariozinho é ruim pra caralho (terça-feira às 15hs.). Estou abrindo o espaço para qualquer um que venha me fazer ciúmes, dizendo que viu e que achou foda.

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  Bernardo Krivochein    Segunda-feira, Maio 05, 2008    0 comentários
 
 
RIOFAN: MIRAGE MAN

Still de "Mirage Man" de Ernesto Días Espinoza

Humanizar um herói não é espetacularizar a bebedeira de Tony Stark. Humanizar um herói é precisamente não espetacularizar o barulho dos golpes e das explosões. Quando o segurança Maco Gutiérrez (Marko Zaror) está enfurnado em seu quartinho, fabricando sua nova armadura caseira (ah, claro, porque os superheróis americanos como o citado Stark e Bruce Wayne são sempre convenientemente ricos para assim justificar toda sua parafernália mirabolante), ouvimos o som da solda elétrica como o estalo verdadeiro e nada impressionante que emite na realidade - ao invés da trilha-sonora grandiosa, do corte acelerado e da sonoplastia surreal que mais parecem propagandear o quão radical pode ser a bricolagem, até na mais "humanizada" adaptação cinematográfica de um herói da Marvel. Afinal, o que faz tais heróis serem considerados "marvels" senão a quantidade estúpida de grana, já que estão todos humanizados ao nível do civil leitor?

Pense então que faz todo o sentido que os heróis norte-americanos, em sua maioria, operem em cidades inventadas pelos autores, e que o Capitão América, designado a um país perfeitinho sem real necessidade de um paladino, esteja morto. Um herói só pode existir num cenário que o exija. E ainda assim, eles só parecem criados em lugares já consideravelmente seguros.

Mirage Man não é um "Marvel". Não é um aluno tímido porém brilhante, não é um cientista genial, não é um herdeiro multimilionário. Para chegar no local do crime, pega um ônibus. O uniforme foi comprado num brechó e customizado em casa. O herói é tão indigente quanto o continente ao qual pertence (ingênuo também, ao que acaba sendo atraído várias vezes para falsas missões). O único CGI do filme, se é que o termo aqui se aplica, é a animação que simula o template da caixa de e-mails do personagem. Até porque as missões não tem nada de espetaculares. De resto, "Mirage Man", tal como seu protagonista, é um filme de força bruta, que precisa se virar para oferecer, dentro de uma situação de carência econômica e social, as action pieces exigidas pelo gênero ao qual pertence. Será apenas lógico que o filme transmita a vibração de ser não um contemporâneo cinematográfico do "Homem-Aranha", mas dos seriados sessentistas como "Batman & Robin", ainda que o cenário seja uma Santiago assumidamente atual. É o nosso atraso obrigatório por negligenciar esta tradição por tanto tempo.

O grande vilão em "Mirage Man" é o preconceito cultural. Não temos a tradição em fazer obras sobre super-heróis (o filme elabora os motivos, ao mostrar a desconfiança do público e mídia com a figura do justiceiro), mas temos o desejo há muito incubado de criá-los. Então temos este segundo mergulho no vazio da dupla Ernesto Días Espinoza e Zaror após a deliciosa caçarola cinematográfica "Kiltro". Naquele filme repleto de referências e delírios pop, cabia ao diretor Espinoza exercer a dominância da situação: "Kiltro" era um filme mais kinético, irresponsável e arriscado ao passo que em"Mirage Man", mais bem concebido, mais redondo e solene, cabe a Zaror ciceronear seu diretor por este terreno perigoso para o cinema latino (sempre temendo se americanizar). Perceba que praticamente não há ação paralela em "Mirage Man" (quando há, normalmente ela é transmitida pela televisão do personagem). Como se Espinoza fosse um dos próprios oprimidos, a câmera sempre está onde Zaror está, protegendo-o. "Mirage Man" é um filme feito sobretudo por quem ama artes-marciais. A câmera de Espinoza durante as cenas de luta (a peça principal deste longa-metragem) privilegia a excelente coreografia ao invés da montagem superestimulante. Altamente fetichizada, as lutas em "Mirage Man", que se estendem muito além do que seria permitido no cinema corrente de entretenimento, tem um efeito hipnótico bem mais do que visceral - ainda que se aplaudam algumas acrobacias espetaculares e até gratuitas da parte de Zaror. Não que haja lentidão ou incompetência aqui: os golpes são rápidos, elaborados e superprecisos, mas aos combatentes é dado a oportunidade de ter talento de combate ao nível do herói e, quando atingidos, o tempo de se recuperar e contra-atacar. Não são lutas cinematográficas completamente artificializadas, tampouco lutas "reais" de rua: são embates de caráter esportivo onde os lutadores parecem adotar estratégias, estudando o oponente.

Apesar de pleno de observações auto-conscientes que rendem as melhores piadas de um filme repleto de ótimo humor, "Mirage Man", quando poderia perfeitamente deslizar para a paródia e para a galhofa, tem o coração no lugar certo: leva o drama do personagem e a ação da história a sério mesmo no seu mais insólito (no caso, a trama com a repórter Carol V. que explora a figura de Mirage Man para subir na carreira). Da mesma forma que o humor não cai para a auto-depreciação (que sempre é, na realidade, pretensão de se acreditar melhor do que aquilo que se consegue fazer), a seriedade não cede à sisudez, ao que o filme equilibra com bastante talento sua comédia com seu desejo genuíno de estabelecer uma via possível para o cinema de entretenimento, influenciado pelo cinema exterior sim, mas ao mesmo tempo puramente latino.

É na fantástica cena ao som de "Life On Mars?" de David Bowie, na qual Carol V. tenta seduzir e desmascarar o vigilante mascarado, em que Espinoza revela suas verdadeiras armas: de tom inicialmente cômico, o diretor vira este momento ao avesso, fazendo-a inesperadamente, dramaturgicamente intensa e digna do melhor clássico do gênero de superheróis. Aqui, Espinoza nos oferece um destes truques de mágica tão maravilhosos que só o cinema é capaz, transformando nosso julgamento por completo, bem em frente aos nossos olhos. Como ele fez isso, transformar a incredulidade em total investimento emocional? Neste momento, apesar dos filtros digitais que o artificializam desnecessariamente, um cinema fantástico superior na América Latina deixa de ser algo vislumbrado para se mostrar concreto.

"Mirage Man" Chile, 2007. 90min.Direção: Ernesto Días Espinoza. Estrelando: Marko Zaror, María Elena Swett, Ariel Mateluna, Mauricio Pestulic, Iván Jara, Jack Arama. Distribuidora: BF Distribution/Magnolia Pictures. Site oficial: http://www.miragemanmovie.com/

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  Bernardo Krivochein    Domingo, Maio 04, 2008    0 comentários
 
 
RIOFAN: Heroísmo

Noite de algum terror para os organizadores do RioFan quando a projeção digital resolveu que não reconheceria o arquivo de som do longa programado para a sessão das 21hs. no Estação Botafogo, o aguardado "Jack Brooks: Caçados de Monstros". Após a exibição bem-sucedida do curta-metragem "Criticado", aplaudido com entusiasmo pelo público presente, as primeiras cenas mudas do filme deram o tom do que estava por vir. Devo admitir, parte de mim agradeceu que o destino tenha intercedido com este obstáculo.

40 minutos certamente tensos para o pessoal da organização, correndo para cima e para baixo, entre resolver o problema e dar satisfações ao público, implorando-lhe paciência (espero não estar causando nenhum embaraço com este relato ao pessoal do festival, até porque esses problemas são correntes em festivais e eles lidaram com bastante desenvoltura). Eu não poderia ter ficado mais contente ao ouvir que a exibição seria cancelada e, no seu lugar, o chileno "Mirage Man" seria exibido. Sem desrespeitar o americano, mas este era um dos filmes que eu mais estava aguardando para assistir e a idéia de ter que me locomover a um cinema domingo à noite para fazê-lo me preocupava (sou só eu que acha que domingo é um dia que vai ficando gradualmente mais deprimente ao passar das horas?). Ainda que "Jack Brooks" seria derradeiramente exibido (no lugar da sessão de "The Rage", jogada para sabe-se lá quando) logo após como cortesia para aqueles que desejassem ficar na sala. Mas era sábado e eu pretendia sair. Tendo saído, gostaria de ter ficado, ao que a noite foi um fracasso moral. Sorte que minha aparência estava ótima, mas isto é uma constante de conhecimento geral em todo o Rio de Janeiro. A situação problemática foi heroicamente contornada e o filme substituto não poderia ter sido mais propício.

Quando Mickey Rourke, após o fracasso de "Orquídea Selvagem" desafiou um dos críticos do The New York Times, o sujeito retrucou com um "é só marcar a hora e o lugar." Rourke nunca apareceu. Apenas para quebrar esta imagem. E eu quebro a cara de quem for que quiser me peitar por aquilo que vou escrever de "The Other Boleyn Girl", aquela merda de filme.

Admiradores de "Audition" poderão encontrar um novo objeto de culto em "Criticized", curta-metragem vencedor do Horror Fest em 2006 e sucesso no FanTasia 2007, exibido para completo êxtase do público e, por que não, crítica ali presentes. O filme de Richard Gale (formado em literatura) parte do ponto de partida muito batido do "game for two" ("Jogos Mortais", "Os Desconhecidos", "Oleanna", o episódio "Cut" de "Three... Extremes", "O Mito do Orgasmo Maculino", etc.) para explorar a ética da crítica cinematográfica, quando um diretor de cinema, espinafrado numa resenha de jornal, captura o jornalista e resolve não apenas expô-lo às conseqüências de seu texto escrito irresponsavelmente com o ser humano que realiza uma obra, como também aplica uma medida bastante prática às figuras de expressão utilizadas ao longo do texto. É um longa bastante inteligente ao que não apenas captura a essência do arrogante espírito da crítica cinematográfica, juíza impiedosa que recorre a um cruel jogo de agressões verbais para entreter os leitores sem se importar com o objeto de exploração, como também com as agruras de ser um realizador cinematográfico, arte perigosamente dependente da recepção e do aval. Nisso, Gale é bastante consciente dos lugares-comuns de tanto crítica quanto realizadores medíocres: tanto o texto em questão soa bastante palpável, assim como o desabafo do cineasta-psicopata. Não apenas o conteúdo sarcástico entretém o público ("as boas cenas do filme são como grãos dourados de milho incrustados naquilo que é um grande cocô"), como também a reação do leitor-cineasta com os devaneios prolixos do texto ("mas que merda isto quer dizer?").

Claro que, pelo subtexto, "Criticized" não será um j'accuse da crueldade crítica, mas um apelo ao jabá, ao que o texto negativo que ofende o cineasta é puro e espontâneo, enquanto a crítica positiva é imposta, comprada pelo mesmo num ato extremo. Bem antes do final irônico (que acaba por meter malho no ego dos realizadores), "Criticized" se revela obra da mais alta ficção, ao imaginar que um crítico de jornal seria hétero ao ponto de estabelecer família. Nada que atenue o impacto da tensão criada e pelo intenso método de tortura encenado no filme de forma espetacular, capaz de fazer até o mais resistente dos espectadores sentir a pele formigar. Ótimo filme, e não digo isto de cagaço pela represália possível pelas mãos do cineasta. Eu teria me escaldado e arrebentado a cara do filho da puta logo naquela primeira oportunidade.

Texto sobre "Mirage Man", com sessão para amanhã às 21hs. a seguir no próximo post. Mas não o perca, mesmo se você quiser comemorar a vitória do Flamengo.

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Simon Pegg para circuito de cinema fantástico: "Shaun of the Dead" e "Hot Fuzz". Simon Pegg para circuito comercial: "Maratona da Porra do Amor". Puta que me pariu. Coquetel molotov, alguém?
  Bernardo Krivochein    Domingo, Maio 04, 2008    0 comentários
 
 
RIOFAN: LOS CRONOCRÍMENES (TIME CRIMES)

Still de "Los Cronocrímenes" de Nacho Vigalondo

O cinema de Nacho Vigalondo nasce sob o signo da coreografia do timing oportuno. Em "7:35 de la mañana", o espetacular curta-metragem que fez o nome de Vigalondo popular entre os entusiastas do cinema mundial, uma mulher acabava pagando o preço por manter hábitos programados e uniformes em seu cotidiano, permitindo que um maníaco embaralhe sua rotina com um evento perversamente elaborado. Em "Cronocrímenes" um homem entra mata adentro por curiosidade (checar mais de perto a garota que se desnuda, vista através dos binóculos) e desencadeia uma série de eventos, apenas para descobrir criador e vítima de uma elaborada trama onde não são permitidos acasos, nem acidentes. Até mesmo o movimento de se levantar de sua cadeira em direção ao bosque nada tem de espontâneo.

E mesmo assim, sob o mais rígido controle, "Cronocrímenes" é um filme estranhamente selvagem, imprevisível na previsibilidade, onde as surpresas surgem de quão restrita às regras as ações se desenvolvem. Sem invenções ou subversões às regras, Vigalondo consegue impressionar e envolver. Claro, ele precisa forçar um pouco a barra (especialmente nos eventos que levam o protagonista a descobrir a identidade do misterioso homem de rosto enfaixado que o perseguia), mas é apenas o tranco inicial no que é uma viagem perigosamente segura/seguramente perigosa. Conterrâneo de Alejandre Amenábar, Vigalondo reforça a proposta bastante peculiar do cinema espanhol para o cinema fantástico: o mash-up inesperado de gêneros, os desvios da narrativa para lugares insólitos. O cinema fantástico espanhol se desenvolve a parte dos outros cinemas fantásticos mudiais, que pulverizam os gêneros. No cinema fantástico espanhol, eles se convergem e se tornam indistinguíveis.

"Cronocrímenes" é a antítese do suspense - e eu o digo como o maior dos elogios, tal qual o filme se revelasse modestamente revolucionário. De certa forma, o filme não apresenta uma verdadeira progressão: o aumento da tensão ocorre a partir dos momentos em que apenas descobrimos como as engrenagens funcionam, uma vez que a máquina está operando perfeitamente. Aguarda-se de todos esses filmes de viagem no tempo o momento mirabolante em que, muito ao estilo de Ray Bradbury e do "efeito borboleta", as coisas darão errado e projetarão efeitos incorrigíveis no futuro (o filme brincará normalmente com isso, esfregando na cara do público seu espírito de porco, que exige de seu entretenimento as tragédias e os empecilhos). Mas "Cronocrímenes", de maneira muito irônica para o tipo de ficção-científica que representa, é um filme estacionário, fincado firmemente no presente. Não é um filme de hipóteses: "e se..." É um filme de soluções: "e agora?"

De forma que os conceitos de viagem no tempo apresentados no filme não vislumbram hipóteses de como viabilizá-la: ela é possível, já existe e funciona perfeitamente. Também não disserta longamente sobre as éticas de tal atividade, conflitos teóricos e existenciais, etc. Fosse fazê-lo, certamente o filme se empalideceria frente ao (excepcional) independente "Primer", praticamente um tratado científico sobre viagens no tempo. "Cronocrímenes" preferirá sobretudo acusar sua futilidade, seja ao explorar os motivos fúteis em nome dos quais as pessoas provavelmente a empregariam, seja na sua derradeira ineficiência. A viagem no tempo, mais do que apressá-lo ou retardá-lo, seria utilizada para suspendê-lo.

"Cronocrímenes" é um filme preocupado em acertar suas pendências acidentais e propositais. Apesar de aparentemente simples (elenco híperlimitado, poucos efeitos, apoiando-se muito mais em seu conceito mirabolante), sua engenhosidade é custosa (a produção está orçada em algo de 2 milhões de euros) exatamente por ser um filme sobre exposições acima de meras sugestões. "Cronocrímenes" é um filme de idéias sendo postas em prática. Vigalondo acredita na materialização destas, acima de tudo. A idéia ruim (mal concebida e mal executada) dá a partida muito necessária nas ações; a boa idéia, inspirada pela má, conclui a comédia de erros e a amarra com uma justificativa. Há sim uma crença na revisão, mas não se atinge a rendenção através dela (o personagem ainda precisa fazer algo horrível para tentar estabelecer a "normalidade"), ou seja, os erros continuam existindo. Portanto, esta revisão não é a constipação criativa acovardada pelas possíveis recepções negativas de terceiros, levando o autor a insistentemente trabalhar sua obra sem publicá-la; a revisão, caminho para se alcançar a perfeição, é realizada através de novas obras, mais conscientes, mais rebuscadas. Aparentemente irônico com o protagonista, capitão nesta acidentada via, "Cronocrímenes" é muito generoso para com o espírito empreendedor.

Nenhum crime é perfeito e certamente haveriam revisões a fazer, mas ao contrário da maioria das produções de primeira viagem, "Cronocrímenes" está próximo do absolutamente sublime, uma vez que é feito com o desejo de existir exatamente como é, em pequena escala e babando de ambição cinematográfica (ao que cineastas de primeira viagem normalmente tem que se conformar com um conceito e orçamento aquém daquele que prefeririam materializar em filme). Deveríamos agradecer a não-perfeição do filme e a estas pequenas revisões que permitirão que Vigalondo retorne a nós com desejo de acertar de uma vez por todas, várias e várias vezes no futuro.

"Los Cronocrímenes" Espanha, 2007. 88min. Direção: Nacho Vigalondo. Estrelando: Karra Elejalde, Candela Fernández, Bárbara Goenaga, Juan Inciarte, Nacho Vigalondo. Distribuidora: Magnolia Pictures. Site oficial: http://www.loscronocrimenes.com/

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Uma criatura na minha cabeça estava tentando me convencer a assistir "1,2,3 Whiteout", ficção-científica independente da França, sobre uma mulher trabalhando como assistente de um cientista pesquisando a "escuridão positiva", sessão de 19hs. no Estação Botafogo. Ao que parece, a estética experimental integra found footage à sua narrativa reflexiva. Mas como ainda estou imprestável de ter saído ontem à noite e curto de grana, estou reservando o dinheiro e a energia apenas para as sessões que não quero realmente perder, não podendo descobrir todos os filmes que gostaria. Fica então esta mensagem de desencargo de consciência, caso o filme venha a se revelar a surpresa do festival, com um bando de textos entusiasmando-se apenas para tentar humilhar os que o perderam e jamais o verão. Segue o trailer.

  Bernardo Krivochein    Sábado, Maio 03, 2008    0 comentários
 
 
RIOFAN: Luz de contra

Still de "Il Bosco Fuori" de Gabriele Albanesi

Mais chuva, mais frio e mais filmes de cinema fantástico (termo que será suspenso para análise após o término do festival) nesta sexta-feira. Dia de "A Vanguarda", "Blood Car" e do aguardado "Zibhakhana - Estrada Para O Inferno", o primeiro filme paquistanês de zumbis que, se meus cáluclos estiverem certos, também será o primeiro filme paquistanês que essa galera vai ter visto na vida ever. Por motivos de saúde e orçamentários (até porque minha sensibilidade para galhofa anda em baixa), pulei todos para arriscar um não muito aguradado: o italiano "Il Bosco Fuori". O tempo ajudou na escolha, já que o clima estava perfeito para um bom slasher-espaguete.

Programados para a mesma sessão, "Harvest" e "Il Bosco Fuori" apresentam semelhanças que vão além das temáticas. Semelhanças de infelicidade fotográfica. Tanto o curta do britânico Rob Nevitt (fazendo sua première mundial no festival, com o diretor presente na casa) quanto o longa-metragem de Gabriele Albanesi, batalhando a nobre guerra contra o orçamento limitado (ambos são bravas iniciativas independentes), acabam tropeçando em alguns cuidados básicos de iluminação e posicionamento de câmera (perfeitamente evitáveis, como compensação de luz exterior com a interna), isto é, não raro, os diretores de fotografia sem saber ou querer calibrar as câmeras, colocavam os personagens em luz de contra a ponto de não podermos enxergar nada. Vultos pretos falando. Pontos salpidcados de luz num breu irreconhecível. Há este problema bastante peculiar ao vídeo digital: porque ele é sensível a luz e normalmente uma iluminação tipicamente cinematográfica para película se traduziria de forma chapada e artificial no digital, os diretores de fotografia normalmente me parecem cautelosos. Cinematografia de cinema digital muito raramente vai querer brincar com a luz ou com a sensibilidade dos CCDs, rendendo filmes visualmente aborrecidos; isto quando se consegue se assistir alguma coisa. E não culpe a projeção da Rain, que estava impecável: podíamos percebê-lo quando os filmes acertavam-se com sua técnica.

"Harvest" tem meio cara de curta cartão-de-visitas, aquele primeiro trabalho que só existe para cumprir a meta protocolar de mostrar serviço para viabilizar futuros projetos (ou seja, aqueles que realmente se quer fazer). Tão independente, "Harvest" parece feito a base do completo desespero por algum centavo que fosse e, mesmo sem fundos e leis de incentivo, consegue ser superior ao outro britânico visto ontem, "The Un-Gone". O conceito não é tão ambicioso e o final é mais surpreendente pela gratuidade e pelo timing troncho do que pela revelação em si, mas Nevitt consegue manter-nos intrigados o tempo inteiro, criando uma ótima atmosfera e extraindo do ator principal uma boa atuação, comedida e sem caricatura (ponto fraco do outro curta citado). Na reta final, fica aquela impressão de que tanto o público quanto o próprio Nevitt sabem que o diretor é melhor do que o curta sendo apresentado. Pode ser que com mais dinheiro, mais fé e mais gana, Nevitt se dê verdadeiramente ao que está filmando e nos ofereça um filme mais responsa daqui a algum tempo. Ele parece ser capaz.

CRÍTICA: IL BOSCO FUORI

Entram no cinema um grupo de seis pessoas de mais idade. Senhores e senhoras que se acomodam numa fila. Descobre-se que eles ou são alunos de algum curso de italiano, ou são entusiastas da cultura italiana, ou descendentes de italianos que vieram assistir ao terror "Il Bosco Fuori" pela nacionalidade e levaram jatos de sangue falso na cara. Por algum tempo, eles repetem algumas das palavras ditas pelos personagens, admirando a musicalidade da língua. De repente, a pobreza visual da produção os derrota e eles já estão se questionando mas-o-que-diabos-nós-viemos-assistir-a-isto?, em bom português mesmo.

"Il Bosco Fuori" é um filme bom apesar de si mesmo. Melhor: é um filme mais interessante do que a tosqueira da produção de nível "Hermes e Renato" permite aparentar. Tamanha é a falta de criatividade dos planos e de cuidado com o visual do filme num todo que, tivesse alguém entrado durante uma cena em que a mocinha é seduzida pelo vilão numa mesa de jantar, teria imaginado estar assistindo a algum pornô maliciosamente colocado para rodar na cabine de projeção por um Tyler Durden da vida. Esta é a melhor forma de sintetizar visualmente "Il Bosco Fuori": é um filme de sacanagem só com suas cutscenes, sem a foda. Ou seja, todas aquelas belas atuações de Traci Lords, aquela estética cinematográfica bem cuidada, todos aqueles diálogos rebuscados de "O Telefone Vermelho". Aqui temos um dos momentos perigosos de "Il Bosco Fuori": se um filme de horror é aquele que mais se aproxima de um filme pornô, um cinema de prazer puramente fetichista (visto que diálogos, cinematografia e atuações nele não apenas não importam como atrapalham), o que isso diz sobre nós, que gostamos de cinema fantástico?

Que nós somos lá apenas para satisfazer o prazer por escatologia e degradação, a ponto de ignorar quaisquer outras prostrações do filme caso ele nos ofereça aquilo que fundamentalmente teríamos vindo buscar?

Este é o ponto em que o cinema fantástico se dilui academicamente: quando ele atropela sua ideologia e estética a fim de satisfazer as imposições equivocadas de um clichê estabelecido pelos seus próprios defensores árduos. É o fantasma do cult malandrão, cuja progressão de idéias é completamente ignorada em vista de uma ou duas cenas gráficas, que facilmente o identificam como algo digno de uma coroação underground. A escatologia - ou "gore", para ser compreendido pelos cults - de "Il Bosco Fuori" existe, mas não é nada de revoltante ou digna de nota. Temos facas, pistolas, motosserras (e nunca uma motosserra sôou tão pacífica e não-ameaçadora quanto esta) e um bócio que, claro, só está naquele pescoço para ser estourado. Isto quando conseguimos identificar alguma coisa na escuridão das imagens. A fotografia está mais interessada nos movimentos de câmera do que em se fazer bela, ou sequer compreensível: neste sentido, é divertido perceber o estudo acidental da progressão de estilos no cinema de horror ao qual "Il Bosco Fuori" quer se integrar e constantemente referencia (ainda que o diretor descaradamente deseje ser Alexandre Aja: o filme alude "Haute Tension" no tom cerimonioso e na trilha-sonora, enquanto ameace se tornar "The Hills Have Eyes" quando a personagem alcança um trailer mal habitado por deformados). Os zooms exagerados, fusões de câmera (êta filme para gostar de blur e fade to black) e alguns ângulos prestam homenagem ao clássico terror italiano dos anos 60 e 70, que o caracterizavam. O problema é que, enquanto espiritualmente corretos e simpáticos, o cinema de Bava, Fulci, Argento bancavam essa estética ao que eram bem fotografados - a direção de luz de "Il Bosco Fuori" não passaria pelos critérios de qualidade nem daquela época, quanto menos da nossa.

Dá pena, porque fotografar ambientes escuros com digital é mesmo uma foda: o mínimo de luz registra, mas não ilumina suficientemente o entorno; ilumina-se um pouco mais e uma fogueira na floresta pode ficar parecendo uma rave de tão clara. Albanesi claramente está enfrentando este dilema: o quanto eu posso iluminar sem perder a atmosfera. A escolha parece ter sido "não iluminar nada" (até para esconder as limitações de efeitos especiais). Às noturnas do bosque, ele aplica uma "noite americana" digital que ficam beirando o ininteligível, mas quando os personagens se transportam para o interior de uma casa, com luzes de abajur e de teto - luzes duras, por assim dizer - a coisa ganha todo um ar de dramatização do "Fala Que Eu Te Escuto".

É na afronta moral da narrativa - esfera que dávamos por perdida pela sinopse derivativa - que "Il Bosco Fuori" brilha com categoria: um casal é acolhido por outro após o ataque de um grupo de playboys da Barra, mas descobre-se em piores mãos do que as anteriores. Quando o filme parece que se acomodará num típico "torture porn", com o casal sendo torturado e mutilado enquanto tenta escapar das garras dos vilões, Albanesi recupera o trio de playboys (surgindo sempre dentro de um carro hilariamente chacoalhado para simular movimento) e os reintegra na história. É preciso explicar melhor: Cesare, o playboy principal que se transforma em inesperado herói, quase estupra a protagonista antes de ser interrompido pelos vilões. A forma maravilhosa como Albanesi sublinha a honra dos malditos está no momento em que a mocinha implora por auxílio ao mesmo homem que o atacara anteriormente. Entre o melhor de dois males, quase que lemos no seu olhar (e na tese ilustrada do diretor) que era melhor se deixar ser estuprada do que estar passando este dobrado. Ao mesmo tempo, o amoral Cesare descobre um limite para a própria crueldade. Neste sentido, "Il Bosco Fuori" é um filme incomodamente humano, que nos solidariza terminantemente com um dos piores indivíduos possíveis, uma resposta às protodenúncias dos "Ódiquê" da vida, que caem no lugar comum de ensinar o padre a rezar missa, demonizando a já detestada juventude rica, mimada e escrota. "Il Bosco Fuori" é sua tosca rendenção.

De maneira oportuna, "Il Bosco Fuori" acompanhará a idéia expressa no post abaixo, sobre o elenco que compõe os fãs de cinema fantástico. Os playboys são os heróis que salvam os protagonistas das garras dos nerds enfurnados em suas casas. Feios, espinhentos e psicopatas com síndrome de superioridade, eles levam a pior ao se descobrirem equivalentes ao mesmo tipo de público comercial que desprezam, humilhando o cinema fantástico com sua exigência por incapacidade técnica e escatologia assim como um rato de shopping o humilharia. Belo filme, ainda que mal feito. E eu duvido que eles tenham pago por aquela música do Whitest Boy Alive durante os créditos iniciais.

"Il Bosco Fuori" Itália, 2006. 85min. Direção: Gabriele Albanesi. Estrelando: Daniela Virgilio, Daniele Grassetti, Gennaro Diana, Santa de Santis, David Pietroni. Site oficial: http://www.ilboscofuori.com/
  Bernardo Krivochein    Sexta-feira, Maio 02, 2008    1 comentários
 
 
RIOFAN: "Cronocrimes" vs. o estigma de ser fantástico

Segundo dia de RioFan, recepcionado por uma frente fria estúpida, intensificando o bater de queixo dos cariocas, congelados e assustados. Além da largada da mostra competitiva com o ótimo "Cronocrímenes", o dia foi marcado pela exibição de "Mulberry Street" e dos curtas-metragens internacionais. O medo não é produzido apenas pela enxurrada de filmes de horror: os atrasos nas sessões e a idéia confusa do que se consiste o cinema fantástico tem causado boa porcentagem do temor.

"O que é isso, RIOFAN?", pergunta um senhor para um dos programadores presentes na porta do cinema, assumo que justamente para esclarecer a idéia aos incautos (o Estação Botafogo é um raro cinema de rua, onde normalmente o público marca de ir e escolhe qualquer filme que esteja passando, sem antecedência) que estranham o título na fachada da maior sala do complexo. "RIOFAN são filmes fantásticos... do universo fantástico", explica ele e aparentemente só isso basta, porque a conversa não continua e o senhor vai assistir "Fôlego" ou qualquer porra dessas. Um pouco antes, um grupo de programadores explicam o filme que seria exibido na próxima sessão, seguido de uma apreciação crítica: "este é um dos filmes menos fortes da seleção... tem uma facada [tesourada, na realidade] e outro acidente, mas nada de pesado, não tem nada gráfico... não, não é de terror... não é de dar pesadelo." Eu não sei se a atenuação das qualidades do filme era técnica para seduzir o espectador a comprar logo a porra de um ingresso, mas, somado com uma breve reação do público durante a sessão (pré-disposto a rir de qualquer coisa que apareça na tela; não que Vigalondo não seja engraçado, mas jamais para receber risadas de desprezo pela técnica pobre, pela tosqueira, pelo choque), este conceito de cinema fantástico, como já havia sendo discutido nos comentários de posts abaixo está começando a me irritar seriamente. Quer dizer, 99% do público presente era composto da Contracampo e seus seguidores assíduos, imaginaria-se que eles teriam a sensibilidade de distingüir um filme gloriosamente trash de outro que faz das tripas coração para materializar suas ambições.

O público compareceu consideravelmente, mas o filme de Vigalondo especialmente merece lotação espetacular e aplausos entusiasmados (carioca é muito blasé para aplaudir filme, ainda que a sessão tenha sido apresentada pelo produtor da fita, mas aparenmtemente rápido para fazer troça). A questão é bem simples: o público em geral gosta de cinema fantástico, mas ainda não sabe disso. Se pararmos para pensar, o cinema fantástico é todo aquele que se dispõe a adotar qualquer gênero (e entre "qualquer", conta-se drama bergmaniano e documentário sobre miséria na África) e virá-lo de ponta cabeça. Você pode levá-lo ao extremo (como é o caso dos filmes de ação e especialmente terror), você pode subverter suas normas (caso dos suspenses e ficções-científicas), mas é sempre o cumprimento do potencial total da proposta, testar os limites do conceito. Então, talvez a solução do cinema fantástico seja livrar-se daquele que o patrocina hoje em dia. Porque não raro o seguidor mais assíduo, aquele que esbraveja gostar de cinema fantástico, na realidade, o despreza, sente-se superior a ele, porque precisa de algo em que vingar-se de sabe-se lá que traumas ou deficiências. Logo, faz da idéia tão fundamental deste gênero mais um alvo de chacota, não por parte dele, mas por parte das mesmas pessoas que o isolam num gueto. E não estou falando em vender-se, aquiescer para os xingamentos de um bando de playboys e senhoras burras de classe-média e se transformar em mais um na multidão (até porque os nerds arregaram e foram ver "Homem de Ferro" na estréia feito um bom rato de shopping), mas em simplesmente não fazer do cinema fantástico escravo de seus desejos pervertidos, trancado num porão, subjugado, escravizado pela idéia de que ele só pode ser bom se for trash e escroto. Porque isso sim é ter atitude de playboy frente ao cinema fantástico.

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Caso curioso do curta britânico "The Un-Gone": se uma idéia se materializa, ela teoricamente deixou de ser uma idéia para se tornar algo concreto, certo? Pois "The Un-Gone" existe - e existe mal - a despeito da qualidade de sua idéia, que permanece instigante. Trata-se de uma história futurista de viagem que esbarra num dilema moral quando as coisas dão errado, mas com uma fotografia arrepiante (visualmente, a coisa é um vídeo institucional ao ponto que o público sai da sessão se achando finalmente preparado para começar seu emprego de cozinheiro no McDonalds) que serve apenas para ostentar as pobrezas da produção (acabamos descobrindo que aquele vidro frisado comum em janelas de casa de subúrbio é aparentemente elemento essencial para viagens no tempo) e com atuações lastimáveis até do mosquito que cruza frente a câmera, ainda assim a boa qualidade da idéia e o roteiro engenhoso (para aquilo que se propõe) resistem firmes enquanto o curta cai aos pedaços. Permanece-se intrigado ainda que o espectador nunca esqueça o quão troncha está sendo sua execução. E ainda rolam uns logotipos de Lottery Fund nos créditos finais, o que indica que houve alguma merreca para produzir o filme. Como tem um pouco de cara de filme de moleque, imagino que tenha a maior parte sido gasta na cerveja. Tem gente pior. Já vi artista brasileiro tirando onda de ter ludibriado produtor e leis de incentivo para investir na própria peça, descrita pelo próprio como "aquela grande idiotice".

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Nacho Vigalondo tem hora marcada: após o agendado "7:35 de la mañana", seu longa-metragem de estréia lida também com questões de tempo, que existe e é maldito em "Cronocrímenes", um filme, pasmem, não sobre viagem no tempo, mas sobre timing oportuno, sobre inevitabilidade. Estabelecida a trama principal do filme, o público talvez nem perceba, mas é forçado a assistir o mesmo motivo várias vezes e o faz como se fosse uma novidade inédita. Vigalondo genialmente cria suspense na mesmice. Editado classicamente, "Cronocrímenes" pareceria inclusive uma crítica contra a montagem, uma vez que as revelações surgem nos restos de filmes cortados prematuramente na primeira vez que o assistimos, nos dizendo: "a verdade está na íntegra do plano, estes cortes dinâmicos jamais poderão dar conta de mostrar o que precisa ser mostrado." E o filme se desenrola como se gradualmente erguendo como um zumbi dos restos de película ceifada da moviola e abandonada pelo chão. Uma resenha justa se seguirá, mas vamos antecipar que, ainda que o Twitch seja bastante suspeito (Todd Brown é um dos produtores associados), a excitação mundial em torno de Vigalondo se justifica e com honras.

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Não está confirmado em lugar nenhum do site ou do RIOFAN ou do Estação Botafogo, mas a programação afixada no mural do cinema traz uma nova inclusão: "La Terza Madre" de Dario Argento (título nacional: "O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas"). Sendo de fato confirmado, vale a espiada por quem ainda não o viu, já que se trata de filme mutante no paladar de quem o assiste. Depois de espinafrado, "La Terza Madre" ganhou crítica entusiasmada recentemente, e pela mesma Fangoria que o pisara fenomenalmente. Eu adoro o filme porque me fez perceber o motivo real para se gostar de Argento, distante da estética, da tosqueira trash, da criatividade das mortes ou até mesmo da atmosfera (ainda que continue amando todos esses elementos). A crítica do filme já está no acervo do site principal.
  Bernardo Krivochein    Quinta-feira, Maio 01, 2008    0 comentários
 
 
RIOFAN: DIÁRIO DOS MORTOS

“To shoot” é o verbo inglês empregado tanto para o ato de filmar quanto para o ato de disparar uma arma (uma vez que tanto câmera e pistola são acionadas por gatilho). Em cima desta dualidade (cinema, que é vida, é também a indústria da morte) trabalhará George Romero neste impressionante auto de vitalidade, que recupera a figura metafórica dos zumbis de um engajamento empoeirado tipicamente setentista e, transportando-os para a era da informação, os injeta com uma carga de relevância. Ao que o cinegrafista Jason Creed implora como um último desejo a sua namorada, Debra, que o “shoot”, perdida na confusão entre documentário e ficção, fato e fabricação, entretenimento e informação, “Diary Of The Dead” e “The Death Of Death” (o documentário acidental realizado por estudantes e que Romero se apropria para fazer o seu próprio filme de horror), ela não arrisca e dá ao rapaz os dois sentidos do verbo: filma-o ao mesmo tempo que o mata. Nunca o ato de filmar foi tão abertamente responsabilizado pelas mortes que registra e denuncia – uma vez que o filme precisa delas para justificar sua existência, como se o cinema vampirizasse a humanidade, de certa forma. Aqui, Creed e companhia, inseguros sobre o que o futuro lhes reserva, preferem filmar as mortes do que auxiliar as vítimas sendo devoradas a meros centímetros de distância.

A ética assumida: Debra introduz o filme que veremos a seguir, escancarando detalhes técnicos - o modelo das câmeras utilizadas, a equipe e suas funções. Ao que em qualquer outro filme típico, tais detalhes de making of serviriam para romper justamente com o vulto ilusionista do espetáculo cinematográfico, em "Diary Of The Dead", cuja proposta mais fantasiosa é a de ser um documentário (algo "real"), a assunção desalienante de sua maquinária e metodologia serve para levar a própria sugestão da ficção ainda mais adiante. Ao longo do filme inteiro veremos cenas de ação, apenas para revê-las logo em seguida "cruas", ou seja, sendo montadas no laptop de Creed até atingirem a forma como a conhecemos inicialmente, numa impressionante subversão da organização cinematográfica (exemplo de destaque: o ataque do grupo de estudantes por um grupo da resistência e seu seqüestro até o galpão). Com este efeito (de que a cena existe antes mesmo dela ser feita derradeiramente) Romero joga a perspectiva do espectador para muito além do conflito documentário-ficção, como se "Diary Of The Dead" pertencesse a esta dimensão esquizofrênica que insiste em confundir a imagem organicamente real e aquela encenada para deslumbrar: nosso mundo.

Debra confessa a utilização de uma trilha-sonora com fins de efeito: "nosso objetivo [ainda] é assustá-lo." Felizmente, tanto Romero quanto Debra estão de acordo ao priorizar o cinema de horror do que o cinema de sugestão ideológica. O retorno de Romero ao mesmo gênero que ele ajudou a estabelecer e definir, realizando sob o signo de um grande estúdio "Terra dos Mortos" em 2005, rendeu uma reflexão aterradora: e se George Romero não passar de um George Lucas do horror e, assim como este, estiver mais do que disposto a profanar sua clássica trilogia com mais uma "nova trilogia", deslumbrado pelas possibilidades digitais tão facilitadoras e pelos orçamentos mais generosos? Da mesma forma que Lucas, Romero deu a todos um sinal sombrio daquilo que viria, ao que "Terra dos Mortos", longe de ser um filme ruim, era uma obra completamente inexpressiva enquanto filme de horror, imediatamente esquecível, afetada pelo espírito de "superprodução" (e o era, em termos Romerianos) e pelas intromissões famosamente impostas pela Universal sobre o produto final. Para ostentar o logo vintage da Universal, "Terra dos Mortos" comprometera o impacto e crítica de seu autor, tornando-se no terço final uma bad trip de "Poltergeist 3" (em tempo: o japonês "Tokyo Zombie" e "Terra", realizados basicamente na mesma época, compartilham exatamente o mesmo pathos, mas a crítica social da sociedade elitista enclausurada no condfomínio/fortaleza de luxo é muito mais mordaz no filme de Tadanobu Asano do que no de John Leguizamo). Romero precisa desta liberdade que "Diary Of The Dead" novamente lhe proporciona, porque o que ele tem a vociferar sobre o mesmo complexo midiático no qual a Universal/Vivendi cumprem papel de destaque não é nada lisonjeiro (especialmente agora, tendo conhecido a besta de dentro de suas entranhas). Ainda um jovem revolucionário em seu coração, Romero em "Diary" faz uma carta de amor à iniciativa independente - cinematográfica, jornalística, que seja - única detentora da verdade e único meio de expressão em que a voz do autor pode reverberar sem obstáculos ou manipulações. O tempo é generoso e nos faz perceber "Terra dos Mortos" como um acidente necessário de percurso (como "A Vila" foi para Shyamalan, realizando o magnífico "A Dama na Água" quase que por despeito do fracasso do filme anterior) através do qual Romero pôde redescobrir uma indignação propulsora. Quando jornais impressos insistem em sua cruzada contra a informação digitalizada, contestando os mesmos blogs dos quais fazem uso seus contratados (para se manter relevantes), o filme de Romero ergue a bandeira do individual. Nada de abrir mão da voz própria e vestir a camisa do meio empregador: o jornalista que defende os interesses do jornal, o diretor que abre mão de sua visão em nome dos interesses do estúdio; daí ser um questão tão essencial para Creed continuar filmando - "ele está exatamente onde quer [atrás da câmera]", diz Debra. Não se trata de uma questão de confiabilidade, ao que Romero está evoluído demais para o argumento cansado que as fontes da mídia eletrônica independente não são confiáveis (como se os jornais e revistas fossem sacrossantos para atirarem a primeira pedra): "a maioria dos vídeos que surgiram na web era besteira", diz Debra dos relatos videográficos que pipocam no You Tube com o apocalipse zumbi. Para Romero, importa sobretudo esta possibilidade livre, desinteressada e irrepreensível de se expressar, que, por ser marginal e burlar os padrões oficiais de qualidade e conteúdo, pode perfeitamente ser o único veículo da verdade numa situação de crise.

Logo, o filme (um road movie zumbi, se é que já existiu algum) se desenrolará não como mais um capítulo ramificado de "A Noite dos Mortos-Vivos" (ainda que "Diary" venha a reprisar situações-chave deste, especialmente o final crítico), mas como uma versão bastante particular de "Os Invasores de Corpos", uma vez que tal filme sintetiza a própria tese do diretor (bastante Baudrillardiana) sobre uma sociedade anestesiada pela documentação e transmissão imediata de eventos trágicos mundiais, induzida a aceitar qualquer informação atribuída a estas imagens (por meio da narração do âncora ou da edição) como imaculada: os seres humanos morrem/dormem e acordam transformados por um vírus invisível, assertivamente respeitando um padrão de comportamento irracional. Assim sendo, Romero também reaproveita imagens de noticiários e as manipula a seu prazer, inoculando seu sentido "real" e fazendo-as servir a sua narrativa ficional. Os conflitos dos descendentes de argelinos em Paris, as revoltas raciais em Los Angeles, os massacres em Serra Leoa, as tragédias do mundo (oh, não brinquem com estas imagens, onde foi parar o respeito, etc.) agora ilustram o holocausto zumbi fabricado por Romero, num súbito, sem esforço. Estas imagens transmitidas em loop contínuo quase como querendo inspirar sobre um espectador um "mea culpa", a culpa de se estar assistindo, a culpa de ser espectador. E Romero libertará o espectador da culpa como liberta a mídia independente da falsa ética que rege a oficial. Neste sentido, "Diary Of The Dead" é o anti-"Funny Games" de Michael Haneke, ou o anti-"Tropa de Elite". Quem filma - neste caso, significa "quem acusa" - é também responsável. O diretor se solidariza com o público do cinema de horror, boneco de Judas em discussões sobre a influência do entretenimento sombrio no comportamento de psicopatas, colocando todos no mesmo nível, artista e receptor. Quando os conglomerados jamais assumiriam o erro dos seus, jogando-os sós aos leões e preservando seu prédio de escritórios, Romero incorpora a nobreza dos independentes, fazendo mais um filme moralmente repreensível e se dispondo a qualquer julgamento público, feito um mártir. Romero quer morrer na cruz do politicamente correto para nos libertar dos pecados dos falsos justos.

"Diary Of The Dead" EUA, 2007. 95min. Direção: George Romero. Estrelando: Michelle Morgan, Joshua Close, Scott Wentworth, Joe Dinicol, Shawn Roberts. Distribuidora: Imagem Filmes. Site oficial: http://www.myspace.com/diaryofthedead
  Bernardo Krivochein    Quinta-feira, Maio 01, 2008    0 comentários
 
 
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